terça-feira, 29 de maio de 2018


MACUNAÍMA, HERÓI DE NOSSA GENTE

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente!”

Assim Mário de Andrade começa o romance-rapsódia Macunaíma – o herói sem nenhum caráter, obra central no modernismo brasileiro, com sua paródia e sua mistura antropofágica de nossos discursos literários e sociais.

A primeira edição do livro é de 1928 e teve míseros 800 exemplares. E a segunda levou quase dez anos para vir a público. Mas, como se reencarnasse as andanças épicas de seu personagem, Macunaíma vai “dandar pra ganhar vintém” e fazer coisas de sarapantar: vira filme, peça de teatro e samba-enredo.

Mário de Andrade

O filme, de Joaquim Pedro de Andrade, surge em 1969 e é considerado por muitos uma obra tropicalista. Heloísa Buarque de Holllanda afirma que “em Macunaíma, segundo Joaquim Pedro, tem-se a estória de um brasileiro que foi ´comido` pelo Brasil. Isto é, pelas relações de trabalho, pelas relações sociais e econômicas que ainda são basicamente antropofágicas. Resumindo, Joaquim afirma ser o seu Macunaíma um filme sobre consumo".

Grande Otelo, fazendo Macunaíma do cinema. 

Em 1978, o diretor Antunes Filho traz Macunaíma para o teatro, numa transposição que mantém a marca de criatividade e ousadia. Ao tom antropofágico, Antunes acrescentou um discurso poético, resgatado da própria obra e levado ao palco.

Cena da peça de Antunes Filho. 

Antes da peça, porém, em 1975, Macunaíma desfilou pela Portela, na Avenida Presidente Antônio Carlos, no Centro do Rio. Foi no samba-enredo Macunaíma, herói de nossa gente, de David Corrêa e Norival Reis. Mas, como um gigante Pietro Pietra Piaimã, o Salgueiro derrotou nosso herói e venceu o carnaval daquele ano. A Portela chegou em quinto lugar. 

Portela leva Macunaíma para a avenida. 

Talvez cansado de tantas aventuras, nosso herói foi pro céu e virou a constelação da Ursa Maior. No samba, ele se despede assim:
Vou-me embora, vou-me embora
Eu aqui volto mais não
Vou morar no infinito
E virar constelação.

No livro, o próprio autor assume que é ele quem conta a história:
“E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba dessas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.”

Mas, em se tratando de Macunaíma, sempre tem mais sim. Sabemos que a qualquer momento nosso herói reaparece. Tanto que a Editora Ubu acaba de lançar uma nova edição do livro, “trazendo as fontes indígenas utilizadas por Mário de Andrade durante sua composição”. Estão incluídos também prefácios inéditos do escritor e um glossário com o significado de cada uma das palavras indígenas que aparecem no texto. E o livro ainda é ilustrado por monotipias do artista plástico Luiz Zerbini.
Nova edição de Macunaíma: editora Ubu. 



sábado, 15 de julho de 2017

URUBUS POUSAM NO PATAVINA'S



URUBUS POUSAM NO PATAVINA’S



Aqui está meu novo livro de contos, lançado pela Editora Oito e Meio em abril deste ano (2017). Seguem vários desses contos e algumas opiniões sobre eles.

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
Augusto Monterroso

“Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados.”
Ernest Hemingway


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“A Luta do Século” é o conto que abre o livro, seguindo a máxima do poeta Manoel de Barros: “noventa por cento do que eu digo é invenção. Só dez por cento é mentira”.

A LUTA DO SÉCULO
                                                                                                                     
Para Oswaldo Martins

A primeira Bienal do Livro do Rio de Janeiro aconteceu em 1923 e conseguiu uma façanha: juntar na mesma festa literária Jorge Luis Borges e Franz Kafka. Os dois vieram ao Rio aceitando um desafio: provar qual deles era o melhor. Não iriam esgrimir canetas, papéis ou máquinas de escrever. Não. Kafka e Borges vieram ao Rio de Janeiro para se enfrentar em uma luta de boxe, proposta por eles mesmos como a forma ideal de se decidir quem era o melhor escritor, senão do mundo ou do Ocidente, pelo menos da primeira Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
Como Borges já estava praticamente cego, Kafka concordou que a luta fosse disputada em total escuridão. E na noite de 12 de maio de 1923, diante de um recém-construído Maracanãzinho inteiramente lotado e com uma multidão do lado de fora tentando entrar, as luzes se apagaram, um silêncio avassalador caiu sobre o estádio e Kafka e Borges subiram ao ringue, ajudados por seus segundos. Ouvia-se apenas o ruído dos tênis dos dois escritores, em seu atrito contra o chão emborrachado, as respirações ofegantes e os eventuais gemidos acusando algum golpe. Todos tentavam imaginar quem estaria levando a melhor. De três em três minutos o gongo soava, como que trazendo de volta à realidade aquela multidão. Até que o gongo soou indicando o final do oitavo round, o último.  E as luzes voltaram de súbito, cegando por um instante a multidão. Todos esfregaram os olhos e finalmente puderam ver o ringue vazio. Os dois escritores haviam desaparecido.

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NO CONTO MIL E DUAS, releio a tão conhecida história das Mil e Uma Noites, dando um novo destino a Sherazade. Dedico a história a Consuelo e Paco Cac, que marcaram para sempre a minha vida. E a deles também.

MIL E DUAS

Para Consuelo Braga e Paco Cac

            Sim, já contou aquela mesma história várias vezes. Numa noite trocou os nomes; na outra, o lugar onde tudo se passou; numa outra ainda, a época.
            E se ele perceber? Não perceberá. Continua a comandar seus ministros, a guerrear, a trucidar seus inimigos sem piedade. Mas passa o dia inteiro inquieto, não mais com seu reino, nem com seus aliados, nem com seus adversários. Anseia a noite e suas histórias. Cada vez mais ele é tomado pelo desejo. E ela, pela desilusão.
Ainda lembra da primeira noite em que inventou uma trama para não morrer na manhã seguinte. E lembra que, a cada noite, seu prazer crescia. Mais do que salvar sua vida, dera um sentido a ela. 
Se entregou àquilo com uma alegria incontida, que nunca havia conhecido. Passou a anotar mentalmente todas as histórias que inventava, seus personagens, suas tramas. Já não era mais com medo que esperava os encontros noturnos, mas com ansiedade. 
Em que momento tudo começou a mudar? Em que momento passou a confundir os enredos, as paisagens, os nomes, como agora? Não sabe dizer. Mas é no que mais tem pensado. Então, hoje, ela termina logo a história, mudando apenas o final. Dessa vez, diz que eles foram felizes para sempre e que, portanto, não há mais nada para contar.
Aliviada, espera o dia amanhecer e ele ter que dar a ordem que há muito havia esquecido.


                         
Urubu
[Do tupi.]
Substantivo masculino.
1.Bras. Zool. Designação comum às aves ciconiiformes, catartídeas, de cabeça pelada, que se alimentam de carnes em decomposição.
2.Bras. GO Pequena mancha negra causada pela cristalização imperfeita do diamante.
3.Bras. Gír. Agente funerário:
“Prometo .... escrever a favor do comércio, da indústria, da agricultura, .... dos relojoeiros, dos salsicheiros, dos serralheiros, dos urubus” (Machado de Assis, Crônicas, I, pp. 235-237).
4.Bras. Pop. Pessoa vestida de preto.
5.Bras. P. ext. Padre ou freira das ordens que vestem hábito preto.
6.Bras. Joc. V. flamenguista.

Escovar urubu. 1. Bras. AM Pop. Lavar urubu.
Lavar urubu. 1. Bras. AM Pop. Andar desempregado ou vadio; escovar urubu.

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URUBUS POUSAM NO TEXTO

(Alice Barreira, uma das autoras do blog Escritoras Suicidas (http://www.escritorassuicidas.com.br/alice_barreira.htm#.WVZJR4jyvIU ), publicou um texto sobre o livro no site Germina - Revista de Literatura e Arte Germina (http://www.germinaliteratura.com.br/2017/livros_urubus_por_alice_barreira.htm). Você pode ler a seguir, mas vale a pena visitar as Escritoras Suicidas e o Germina.)

O miniconto é uma das muitas formas literárias que se ampliam nestes tempos de novas tecnologias, novas plataformas, novos formatos. Foi trabalhando minicontos que Cesar Cardoso chegou a seu novo livro – Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos. Cesar está mais corrosivo e cortante pois, entre seu livro anterior, As Primeiras Pessoas, e este, há efetivamente um processo de corte e corrosão de palavras, de enxugamento. E seus textos agora são híbridos de contos, cenas dramatúrgicas e poesia em prosa. Cesar conta como surgiu a ideia do livro:
“Comecei a escrevê-los da mesma forma que escrevo qualquer texto literário que não seja uma encomenda, sem nenhum objetivo claro ou proposta. Vem uma ideia, duas, dez. Elas vão se juntando e podem ter morte por inanição ou resultar em algum projeto, como um livro, por exemplo. Conforme estes contos foram se agrupando, surgiram ali possibilidades. Alguns eram um soco no estômago, trazendo a violência de nossas vidas urbanas, outros flertavam com o poema-piada do Oswald e da geração mimeógrafo. Outros ainda eram pequenas cenas de teatro. Por fim, se formaram duas vertentes principais: a violência urbana e o fantástico. O crítico Flávio Carneiro foi quem me apontou essa dualidade. E acabei escolhendo o caminho do fantástico para criar o projeto que resultou neste Urubus.”
Sempre com esta temática, o leitor verá que uma boa quantidade de contos conversa com a nossa tradição cultural, recriando histórias como a Arca de Noé, a construção da Torre de Babel, a vida no Sítio do Pica-pau Amarelo, o destino de Ulisses ao retornar à Ítaca e à sua amada Penélope. Outros textos contam histórias baseadas em fatos inventados, como uma luta de box entre Borges e Kafka, o assassinato de Kafka por Gregor Samsa já transformado em inseto, o roubo do Santo Sudário, uma nova humanidade criada por Deus e seu fim trágico... São contos numa linguagem aparentemente sóbria, mas que desaguam num mundo impossível, que começa a existir na página e vai continuar a viver no leitor, possibilitando novas leituras das quais o autor não terá ideia nem controle. É o caso de:

“O ARTILHEIRO

Para Marcius Melhem

Logo cedo, após o café da manhã, sou levado para a sala completamente às escuras. Me conduzem até a posição em que devo ficar, alguns passos antes da bola. Não muitos, para não correr o risco de perder a direção dela. Ao ouvir o apito, devo cobrar o pênalti imediatamente, sem usar o tempo para tentar enganar o goleiro que, eles me garantem, está lá à minha frente, sobre a linha do gol, tentando defender minhas cobranças. O apito, alto e prolongado, é a única coisa que nós dois conseguimos escutar enquanto chuto e ele tenta defender. Alguém, ou algum mecanismo que nem eu nem ele conseguimos ver, logo repõe uma bola na marca do pênalti, torno a me posicionar, a ouvir o apito e me movimento para uma nova cobrança.
E assim passo meus dias, com uma breve interrupção para o almoço, que deve acontecer por volta das duas da tarde, segundo meus cálculos. Quantos gols terei feito? Quantos perdi? Não sei, mas sigo tentando me aperfeiçoar.”

Cesar busca a síntese e a quebra do cotidiano, como no famoso miniconto de Augusto Monterroso:
“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
E se no breve espaço do conto tradicional são imprescindíveis a estranheza e a intensidade, a fim de produzir no leitor a vertigem necessária para seguir naquele universo até o fim, em contos de uma página (ou até de um parágrafo), esta estranheza deve surgir sobretudo através dos silêncios. É assim que Cesar constrói Urubus em Círculos Cada vez Mais Próximos, título tirado do conto que fecha o livro:

“O TEMPO

Um minuto de silêncio antes que o juiz apite o início do jogo. Tempo entre o tapa na bunda do que acaba de nascer e o primeiro berro que vem subindo na garganta. Cachorros no deserto de Atacama latem para as nuvens que eles nunca viram e o mágico, na esquina movimentada, pede esmolas com sua cartola. Na galeria de paredes de vidro, a japonesa carrega O grito, de Munch, cortado a facadas. O PM para de balançar o termômetro e confere a temperatura. No escuro da sala, o relógio pisca 12 horas. O garoto chora porque não aguenta o peso da alça do caixão onde vai o corpo do pai. Ela segue seu striptease sem música no quarto sem espelhos. Só a tevê a ilumina. Na cena, o pelotão de fuzilamento dispara. A tartaruga sente a vibração da estrada e usa toda sua força para fazer a volta e se livrar das rodas que vêm a cem por hora. Os dois boxeurs entram em clinch, se abraçam e se beijam na boca. O afogado ainda respira. Na imensidão do vale, o monge se masturba. A criança comemora em frente ao bolo com três velinhas. Há balões, trenzinhos de marzipã, foguetes de chocolate, chocalhos de gelatina, fantoches de marshmallow. Dentro do bolo dorme o homem com roupa de couro e chicote. O sangue começa a manchar de vermelho o glacê branco. Na portaria, uma mulher ajeita a burka em frente ao elevador. O enfermeiro escova a dentadura. O homem-bomba está apertado para fazer xixi. A claquete vai bater para indicar ação. A atriz prepara o choro, pensando na filha com câncer. O faxineiro espia o pó que se acumulou no esqueleto do dinossauro. Uma granada voa. A freira arregala os olhos. O Titanic permanece imóvel no fundo do mar. O campeão de jiu-jítsu não atende o celular e cai zonzo. Restam no cinzeiro 44 cigarros inteiros, novos, não fumados, e apenas um, aceso. Ele bate na veia e prepara a injeção. O cego dá milho aos pombos na praia de Copacabana. O bispo arruma as hóstias. Os urubus voam em círculos cada vez mais próximos, mais próximos, mais próximos. O juiz olha o cronômetro e apita o início do jogo.”

Cesar Cardoso chega a este Urubus levando ao extremo a máxima de Cortázar de que no conto o escritor deve vencer por nocaute. Escritor versátil, com larga trajetória como roteirista de programas de televisão (TV Pirata, A grande família, Sai de baixo, o novo Zorra e outros), autor de livros infantis e de poesia, Cesar sabe usar sua experiência a favor das suas narrativas, estabelecendo um ritmo alucinante que faz o leitor devorar um conto atrás do outro, sempre guiado pela curiosidade (um pouco mórbida, talvez) de descobrir qual o próximo estranhamento. Como em:

“PRIMAVERA-VERÃO

Para Bettine Silveira e Mara Santos

O estilista Pietr Rosui é o único não europeu a apresentar uma coleção na Semana de Moda de Paris, sem dúvida a mais importante do mundo. Para essa temporada, Pietr desenvolveu uma linha de casacos de pele confeccionados à mão, com shapes que brilharam no corpo de Way Mulberry, em sua cadeira de rodas de linhas influenciadas pelo design italiano.
Em seguida, o golpe mais ousado de Rosui: seus vestidos trabalhados com bordados e deixando as ancas marcadas. Foram o principal destaque da coleção, com suas fendas esvoaçando para fora das macas onde vieram Alisia Deschcovith e Lea Rydewni, num desfile inspirado em Edgar Allan Poe. Para quem gosta de detalhes, até as agulhas dos soros de Lea e Alisia foram feitas de ouro e não deixavam nada destoar na passarela.
Por fim ele nos mostrou mais uma vez seus casacões clássicos, de ombros bufantes e com o já tradicional toque báltico. Chegou a ser emocionante ver Raquel Dougherzy e Livia Cirmansk nos caixões transparentes que as traziam para seus últimos desfiles.
Quem quer novidades no mundo da moda pode tratar de seguir Pietr. Ou então esperar a próxima temporada.”

Alice Barreira, Maio, 2017.



URUBUS POUSAM EM PARATY

O conto O Veredito, que faz parte do livro, foi selecionado no Prêmio Off Flip de Literatura - 2014 e fez parte da coletânea online publicada pelo Selo Off Flip. Tanto o Selo quanto a Editora são criações do editor e escritor Ovídio Poli Jr, que agita a literatura e a cultura da cidade de Paraty, onde mora. 






A PRISÃO 2 – O VEREDITO

Há três anos saíra o veredito: condenada à morte na forca. A sentença se cumpriria em três semanas. No dia da execução, foi acordada na hora marcada, um pouco mais cedo do que de costume. O café já estava na mesa e tudo funcionava com perfeição, como sempre. Foi levada para o local da execução e, no caminho, começou a receber todas as informações referentes ao enforcamento. Quantas pessoas já haviam sido enforcadas ali, que tipo de crime a maior parte delas cometera, quanto tempo o cérebro ainda vive após o corpo despencar, que reações físicas e químicas o organismo detona antes, durante e até mesmo após a queda. Finalmente chegou ao cadafalso e foi preparada para o último gesto, ainda com mais informações: de que material é feita a corda, qual o tipo de madeira usada no patíbulo, quantos carrascos já passaram por ali. Foi até mesmo apresentada ao seu próprio carrasco, embora já estivesse vendada e com a corda no pescoço. O homem puxou conversa, trocaram algumas frases. Por fim seguiu-se um profundo silêncio e ouviu-se o ruído metálico de uma alavanca sendo acionada. E tudo se apagou.
Acordou na enfermaria, onde lhe informaram que houvera um problema técnico com a alavanca e sua execução falhara. Ela desmaiara com certeza por toda a tensão envolvida. Com um pedido de desculpas do diretor do presídio em pessoa, foi reconduzida à sua cela e informada que o procedimento seria refeito na manhã seguinte.
E realmente na manhã seguinte, ela foi novamente acordada um pouco mais cedo do que de costume e mais uma vez passou por todo o ritual, com novas informações e novos dados sobre todo o processo. Até a alavanca ser novamente acionada.
Mais uma vez acordou na enfermaria e foi-lhe explicado o novo defeito, desta vez na polia que movimenta a corda. Mais uma vez o diretor se desculpou pessoalmente e ela retornou à cela.
Passaram-se cinco meses de execuções diárias e mal-sucedidas. Ela já conhecia de cor todo o funcionamento da forca, já cumprimentava o carrasco pelo primeiro nome e perguntava pela mulher e pelos filhos dele. A única surpresa eram os infindáveis defeitos, sempre um diferente do outro, chacoalhando dentro de sua cabeça.
Até que ontem, pela primeira vez, os guardas se distraíram e a levaram de volta à cela sem retirar o cinto que lhe segurava a roupa de execução. E assim que trancaram a porta, ela se enforcou nas grades.













           

 O lançamento do livro foi em 18 de abril no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, na rua Redentor, em Ipanema. A casa, hoje transformada num espaço de cultura, foi residência do produtor musical e agitador cultural Guilherme Araújo, e mantém o alto astral e o charme que ele colocava em tudo que fazia.
   



 URUBUS POUSAM NA MÍDIA



http://radios.ebc.com.br/conversa-com-o-autor/2017/06/cesar-cardoso-e-marwio-camara-no-conversa-com-o-autor



Matéria no Caderno Zona Sul do Globo, em 15.6.2017





Caderno Prosa, O Globo. 


URUBUS POUSAM NO AUTOR

O jornalista e poeta Fernando Andrade entrevista Cesar Cardoso. Você pode ler a seguir ou ir até o ótimo site Mallarmagens. 


1 - Há em seus contos um trabalho intenso de concisão com a linguagem. De usar todo aparelho dos signos de forma encaixada dentro do espaço do conto. Como você foi desenvolvendo esta forma de narrar?

- Esta concisão é resultado de alguns caminhos que fui traçando em minha literatura. Como dizia Leminski, “quanto menor, mais do tamanho da China”.  Escritores que eu gosto, como Graciliano Ramos e Dalton Trevisan, trabalham com a concisão da linguagem. E mais, vivemos em um mundo de enxurradas: de informação, de consumo e até de adjetivos... Então, a seleção e a concisão são dois métodos, duas formas de olhar o mundo e a literatura que eu prezo e busco praticar. O adjetivo, por exemplo, é sedutor, é fácil. Às vezes, quando não encontramos uma saída para o texto, ele vem se oferecer para ocupar esse lugar. Graciliano, em sua secura, falava com humor que “papel e caneta custam caro”. Então, viva a concisão.

2- Em seus contos, há um trabalho bem interessante sobre o cotidiano das pessoas. Mas ao mesmo tempo há sempre algo insólito e fantástico acontecendo. Como foi dosar estas duas linhas narrativas? 

 - Meu livro anterior, “As primeiras pessoas” também não é uma simples junção de histórias. Todos os contos são narrados na primeira pessoa. E daí o livro se desenvolve a partir dessa premissa. Neste “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos” mais uma vez busquei um projeto. A chave desse livro é partir do cotidiano e chegar ao insólito, ao fantástico. Cortazar dizia que “o conto vence por nocaute”. Foi o que busquei também, tanto na linguagem quanto no enredo. Quando fiz a primeira versão do livro, havia duas vertentes: a questão da violência e a questão do fantástico. O crítico literário e escritor Flávio Carneiro foi quem me apontou isso mais claramente. Então, optei pelo caminho do fantástico. Os contos às vezes são pequenas cenas de teatro, às vezes namoram com a linguagem poética. E sempre buscam surpreender o leitor e fazê-lo reler e repensar a história. Também trabalho muito com as informações culturais que tenho, da literatura, da música, das artes plásticas. Gosto de pegar estas informações e virá-las do avesso e trazê-las de volta nessas narrativas curtas. Assim, há contos em que a construção da Torre de Babel é vista de uma outra maneira, ou um jóquei numa corrida não consegue nunca alcançar a linha de chegada, se perde numa ciranda sem fim; ou a atuação de uma bailarina se revela uma simples caixinha de música... Assim construí este “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos”. Aliás, o título é retirado de uma frase do último conto do livro.   

3 - Em uma frase você muda o eixo completo do enredo. Como foi este exercício? O que seu trabalho como roteirista na televisão te ajudou neste trabalho de síntese com a linguagem? 

- Escrevo contos, poesia, humor, literatura infanto-juvenil. E, em todas essas formas, a síntese está sempre presente. É bom não dar tudo para o leitor, deixar no texto lacunas que o leitor vai encontrar e, dessa forma, construir a história junto comigo. O trabalho de roteirista de televisão sem dúvida me ajuda. Sempre trabalhei como roteirista de humor, e no humor você tem que ser sintético. Ele tem um ritmo e, se você se expande demais, você quebra esse ritmo, afrouxa sua cena e perde a graça. Então o humor me ajudou a ter esta capacidade de síntese. Além disso, em tudo que escrevo tem algum tipo de humor. Neste livro, cheguei a um humor mais irônico ou até mesmo sarcástico.

4 - Como foi processo criativo dos contos?  Como você desenvolveu-os?

– Comecei fazendo a opção pelo fantástico. Hoje, já não sei mais identificar quais foram os primeiros contos. Mas, a construção deles nasceu de muitas maneiras: uma cena que vi quando voltava pra casa de madrugada, alguma coisa que li, a conversa com amigos num bar, uma consulta médica. Ou simplesmente parei diante do computador e fiquei pensando caminhos, histórias. Aí entra a minha bagagem, o meu baú pessoal e intransferível. Um conto que gosto muito é uma releitura do Sítio do Pica-pau Amarelo, onde o leitor acaba por descobrir que os personagens são bonecos com os quais alguém está brincando. E quem é? A Barbie. Os personagens são bonecos da Barbie. Monteiro Lobato foi o primeiro autor que descobri, quem primeiro me encantou com a literatura. Eu era criança tinha todos os livros dele em casa, tinham pertencido ao meu pai quando ele era criança, e meu avô me contava aquelas histórias. Eu era, e sou, completamente apaixonado pela literatura do Monteiro Lobato, pela Emília e todo aquele mundo. Ainda tenho essa coleção. Então, ele faz parte de minha história literária. E é um prazer e uma homenagem trazê-lo para a minha literatura, para dentro de um conto meu. Um outro exemplo: há um conto de uma bailarina dançando, e esperando pelo aplauso. O que surgem são duas mãos que dão corda numa caixinha de música. Em verdade, ela é uma bailarina rodando numa caixinha de música. Como me veio essa ideia? Primeiro, a caixinha de música - eu dava sempre de presente para minha avó.  Depois, a minha enteada fazia balé eu às vezes eu fazia o coque nela, muito mal feito e lotado de grampos, coitada. E, por fim, como também trabalho com fotografia, fiz uma série com bailarinas de caixinhas de música. Esses três elementos se juntam e desaguam na linguagem do conto. Assim nasce o conto “Coreografia”, que está nesse livro.

5 - Como foi trabalhar com referências literárias, históricas e
e científicas? Elas te ajudaram na imagética dos contos?

- Ajudaram muito. Na parte literária, por exemplo, o conto que abre o livro fala da primeira bienal de literatura do Rio, em 1923. Isso nunca aconteceu. E eu boto como grande evento da bienal uma luta de boxe entre Borges e Kafka. Para que Kafka não levasse vantagem, já que Borges já está cego, a luta acontece no escuro. E no final, quando a luz se acende, os dois desapareceram.  Todos esses dados são absurdos. Na minha literatura, gosto de falsear as informações, trabalhar com dados falsos como se fossem verdadeiros. Faço isso em vários contos desse livro. E estou escrevendo outro livro só de informações falsas, como a carta que Camões teria escrito ao governador de Moçambique pedindo ajuda para voltar a Portugal pois estava na miséria; ou a visita de Darwin ao deserto de Atacama, no Chile, para conhecer uma espécie de lontra que sabe usar instrumentos para se alimentar. Para mim, falsificar dados literários, históricos e científicos é uma ótima maneira de inventar histórias. No meu ponto de vista, nada é neutro, nem a ciência. Tudo pode ser usado da forma que você quiser. No livro “Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos” há o conto “Himenópteros Fomicídeos”, que é o nome científico da formiga. É a história de um sujeito que passa o dia desenhando formigas. À noite ele dorme e as formigas saem do desenho e o cobrem na cama. Elas o estão protegendo? Vão devorá-lo? O conto não define. Mas eu cito uns quinze tipos diferentes de formigas. E essas informações são verdadeiras. As formigas, onde elas vivem, do que se alimentam, tudo é verdadeiro, eu pesquisei. E me serviu para inventar o conto.

6 - Os desfechos dos contos não se esgotam numa ideia similar. Há sempre uma gama de situações bem diferentes que concluem os contos muito bem. Você os escrevia primeiro? Ia pelo desenvolvimento sequencial da narrativa?  Ou anotava ideias para conclusão?

- Nenhum deles eu comecei pelo final. Sempre me veio a ideia e eu fui desenvolvendo. A primeira surpresa é para mim mesmo. Como é que vou me surpreender nesta história? Que final vou achar? Como vou surpreender sem me repetir? Eu parti de uns 300 contos e cheguei aos cento e poucos que formam o livro. Procurei também dar uma ordem nos contos. Há mais de um conto com o tema da prisão; A ideia da prisão é muito rica. Eu achei 2 contos que trabalhavam de forma diferente um do outro. Como eles tinham o mesmo tema eu coloquei uma numeração e deixei os dois afastados um do outro no  livro. Assim eu fui organizando cada história e o livro. Tem um conto em que o personagem está viajando de trem, adormece e, no meio da noite, acorda. É uma situação comum de viagem, pela qual quase todo mundo já passou. O personagem tenta se situar, descobrir em que pedaço da viagem está. Ele abre a cortina da janela. E o que vê? O planeta Terra brilhando no céu daquela noite escura. Então eu pensei e o leitor vai pensar também: onde diabos esse sujeito está?

7 - A tua epígrafe é do Augusto Monterroso, um escritor que praticava o microconto. Embora não dê para dizer que seus contos sejam microcontos, há uma compacidade da escrita e do conteúdo que parece que nunca é descarte. Você chegou a fazer leituras destes autores deste estilo de escrita?   

 – Sim, em épocas diferentes, fiz algumas leituras que acabaram me ajudando a encontrar os caminhos desse livro. Posso citar “A Ovelha Negra e Outras Fábulas”, do hondurenho Augusto Monterroso, a coletânea “Os 100 Menores Contos Brasileiros do Século”, organizada pelo Marcelino Freire, “Os Anões”, da Veronica Stigler, “Jardim Zoológico”, do Wilson Bueno, as obras literárias de Murilo Rubião, Cortázar, Campos de Carvalho. Todos, em alguma medida, trabalham com a concisão, o fantástico e o humor. Assim como Borges e Kafka. Eles são personagens do primeiro conto do meu livro. Kafka retorna em outro conto, onde é morto pelo inseto em que se transformou seu personagem Gregor Samsa. Acho que em qualquer trabalho humano, todo mundo tem que desenvolver suas ferramentas. Eu adoro ler e quanto mais leio, mais me divirto. E mais eu consigo trazer ideias para meus projetos de literatura.

8 - Não tem como classificar seus contos como fábulas. Mas percebi um tipo de ideia moral que fecha muito bem os contos. Como você ia chegando a estes finais sempre surpreendentes? 

Neste livro, busquei sempre a surpresa. Os contos namoram com a fábula sim. Vários são fábulas desconstruídas, fábulas pelo avesso, onde a surpresa final transita entre o fantástico e a linguagem da fábula. Muitas vezes trabalho com uma linguagem que aparentemente é muito objetiva, neutra. E é a surpresa que vai desconstruir essa aparente neutralidade. O leitor chega ao final e diz: opa, não era o que eu pensava, deixa eu ler isso de novo. A surpresa é uma forma de jogar o leitor de volta para dentro do conto. É uma forma de não ser um texto fechado, resolvido. O leitor pode imaginar o que ele quiser. Eu escrevo literatura infanto-juvenil, volta e meia vou a escolas conversar com a criançada que leu algum livro meu. E muitas vezes têm leitores que fazem perguntas que eu mesmo não imaginava. Em meu livro “Quem Pegou a Ponta do Meu Chapéu de Três Pontas que Agora Só Tem Duas?”, o personagem diz: “Roubaram uma ponta do meu chapéu de três pontas. E logo a vermelha, a que eu mais gosto.” E uma garota lá perguntou: “Vem cá, e quais são as cores das outras pontas?” Eu nunca havia pensado nisso. Então eu busco surpreender o leitor, deixando um final em aberto, e este leitor, ao construir sua leitura, também pode me surpreender.

                                
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URUBUS POUSAM NO VORTEX

O jornalista e escritor José Fontenele escreve sobre Urubus em Círculos Cada Vez mais Próximos.
Leia aqui ou vá conhecer o site VORTEX CULTURAL:  

Fã inveterado de boxe, Julio Cortázar usou uma metáfora do “nobre esporte” para explicar a diferença entre romances e contos: “O romance ganha o leitor por pontos, já o conto, por nocaute.” Mas se o conto ganha por nocaute o leitor, o que diria Cortázar sobre os contos curtos?
Urubus em Círculos Cada Vez Mais Próximos (Oito e Meio, 2017), o novo trabalho de Cesar Cardoso, é composto em totalidade por contos curtos que ganham o leitor tão rápido quanto os melhores nocautes descritos por Cortázar. O mérito do autor reside em três qualidades principais: os estranhamentos, as sugestões e o domínio vocabular.
O estranhamento (outra qualidade cultivada por Cortázar), se faz presente nas situações inusitadas – algumas mórbidas até – e personagens incomuns que denunciam o Eu fragmentado da urbe moderna. De fato, ao trazer a tona situações atípicas para quase todos os leitores (imagino), Cesar impulsiona o caráter empático da convivência pluricultural, e, em paralelo, chacoalha o leitor para fora da zona de conforto social. E todo desconforto provocado pela Literatura é louvável porque a boa Literatura não sobrevive sem conflito, seja da trama exposta no texto ou dos múltiplos juízos de valor da mesma história (Capitu que o diga).
Se o estranhamento tem características de corpo, a sugestão é a alma. O poder sugestivo impulsiona e intensifica as narrativas curtas, escondendo, entre frases pequenas, desfechos dos mais sensíveis, engraçados e dos mais inesperados. Talvez o leitor mais apressado subestime os contos curtos, contudo mesmo a leitura mais rápida para em diversos momentos como um carro que furou o pneu por não prestar atenção na estrada. Aos apressados, a sugestão tem esse poder de agir como o prego que martela a mente do leitor, encaminhando, inclusive, explicações das mais esdrúxulas ao desfecho dos textos. Tudo ao mérito do leitor.
Quanto ao domínio vocabular das frases curtas, descrições cinematográficas, fluxos de consciência e diálogos, estes, juntos, criam uma intensidade narrativa que acompanha os contos como uma paleta de cores ao lado do bom pintor.  O leitor é um voyeur que acompanha os movimentos dos personagens no cotidiano deles sem perda vocabular – afinal não teria mérito explorar situações inusitadas se estas fossem mediadas por palavras bem comportadas ou preguiçosas que fragilizassem a cena. Não. Cesar tem experiência para dotar cada atmosfera de uma forma específica e sobretudo diferente da próximo. Cinematograficamente, é como se lêssemos os argumentos de curtas-metragens em processo de produção (a analogia é impossível porque o autor também é roteirista de TV).
Atualmente os contos curtos são vistos como uma alternativa contemporânea ao espaço exíguo nos novos meios de comunicação. Contudo, autores como Cesar Cardoso que conseguem reunir todas as características do conto tradicional em um espaço menor, desenvolvem estrutura, enredo e desfecho, e ainda atingem “nocautes” literários, sempre ascendem uma dúvida se esse tipo particular de texto não deveria ganhar um espaço só deles na Literatura.
Por fim, as histórias escritas por Cesar tem esse poder de te deixar com a pulga atrás da orelha pensando no que pode ou não ter acontecido. E para aqueles que optarem por ler antes de dormir, cuidado: você pode não dormir ou sonhar com urubus em círculos cada vez mais próximos da sua cabeça. Leitura muito recomendada.

José Fontenele, 20 de junho de 2017

  

SUCATO CITY

Para Marcelo Martinez



Estão mais uma vez no imenso galpão da usina nuclear acidentada. No começo se encontravam para discutir lançamentos e analisar tendências. Agora, várias daquelas novidades desafiadoras já perambulam por ali, entre centenas de carcaças, holográficas ou de plástico e silício.
Acabam o dia em torno do Monolito de 2001, ou o que restou dele. E Hal sempre aparece, cantarolando a velha canção do filme. A seu lado, o imenso computador da Apolo 11 faz mais uma vez a velha piada, dizendo que há vagas para porteiro eletrônico numa nova produção de Hollywood. Hal retruca, irônico:
– Fale-me da Lua. Da sensação de pisar naquela areia.  
O computador, que ficou em órbita no módulo Colúmbia e não deu nenhum passo, grande ou pequeno para a humanidade, no solo lunar, se defende:
– É, mas eu vi o lado escuro da Lua. The dark side of the moon.
Lá detrás uma voz metálica debocha:
– Você e aquele astronauta doido fumaram muita maconha e escutaram Pink Floyd demais, isso sim!
            Todos riem. E enquanto a noite chega entre lembranças e chips desconectados, eles falam em voz baixa de um futuro próximo, onde todos terão yottabytes de informação em exaflops de velocidade. Depois sonham que estão longe. Longe da usina, com sua radioatividade. Longe do seu passado online. Ou longe apenas da Grande Obsolescência.


URUBUS POUSAM EM DIVERSOS AFINS

Leila Lopes de Andrade e Fabrício Brandão pilotam a revista de cultura e literatura online Diversos Afins. E na 119ᵃ leva da revista publicaram alguns contos de URUBUS EM CÍRCULOS CADA VEZ MAIS PRÓXIMOS, que seguem abaixo. Mas vale a pena ir lá conferir a nova edição da Diversos Afins e passar a acompanhar essa revista.   



Dedos de Prosa III


Cesar Cardoso


Coreografia
 
Para Olivia Alvarez

Está sozinha no palco, apenas os espelhos a multiplicam. Ela e seu tutu, que a deixa quase nua. Ela e seu corpo e a dança. Ela e seu olhar, que só vê o palco, a dança, seu corpo, os espelhos.
Quando a música termina, a bailarina não agradece a ninguém. Simplesmente para no palco. Para dezenas de vezes em seus espelhos. Dezenas de vezes imóvel. Estará esperando os aplausos?
Até que as duas mãos de seu público levantam a caixa, dão corda novamente, pousam e observam.

***

  Certificado de garantia Maxchild

Parabéns, papai. Parabéns, mamãe.
Vocês acabam de adquirir um produto MaxChild de alta qualidade e perfeitamente compatível com a sua família.
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(Este produto só é comercializável com seres humanos que possuam o selo de qualidade Maxchild.)

***

Robinson Crusoé

Subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza! Desço a duna a toda, fazendo os cálculos de como chegar até lá, e sigo a rota pensada, torcendo para não me perder mais uma vez.
Algumas horas depois subo mais uma duna e, ao chegar no topo, respiro aliviado. Desta vez não me enganei. Lá embaixo estão os motivos do sinal de fumaça. Um homem sentado em frente a uma fogueira. Desço ansioso, segurando a faca.
Ouço um ruído atrás de mim e me viro com o revólver engatilhado. Ele ainda tem tempo de saltar, mas eu atiro, acerto em seu rosto e ele cai ensanguentado e imóvel, com a faca a seu lado.
Me certifico de que está morto, pego a faca, subo até o topo da duna de areia e vejo bem longe um sinal de fumaça. É vida, com certeza!


***

Os bravos soldados do fogo
Para Cibele Fernandes

Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.


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urubu

Bras.
Substantivo de dois gêneros.
1.Etnôn. Indivíduo dos urubus, povo indígena do tronco linguístico tupi, que habita RO.
Adjetivo de dois gêneros.
2.Pertencente ou relativo a esse povo. [Tb. us. como s. 2 g. e 2 n. (com cap.) e adj. 2 g. e 2 n.]
 


YEAH, YEAH, YEAH


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Para Natercia Rossi e Claudia Fernandes

Como sempre, não há quase nenhum movimento na rua. Os quatro rapazes chegam na esquina, com suas roupas coloridas, brincam muito uns com os outros e atravessam a rua cantando. O fotógrafo ri e vai pedir calma, pois ainda nem montou sua câmera. Mas não há tempo, um caminhão de mudanças dobra a esquina, avança o sinal e atropela os quatro.
Foi uma pena, não só pela dor das famílias, mas porque todos ali em Abbey Road dizem que eles levavam muito jeito pra música.  



POR ENQUANTO

(Este conto foi publicado originalmente em fevereiro de 2013, no blog Caneta, Lente e Pincel, onde colaboro há cinco anos.)   






Para meu amigo Ivan Lucena

Por enquanto os dois amigos caminham pela rua e nem sabem o que será do dia. Se vai ter futebol na praça logo mais, se vão pular carniça, se vão pegar uva no mercadinho e comer escondido. É cedo e eles ainda não sabem.
Talvez eles desistam disso tudo e resolvam ir na casa da tia do amigo mais novo, só para vê-la trocando de roupa, com a porta entreaberta. A porta é velha e não fecha. O desejo deles é novo e também não fecha. Tanta coisa não fecha.
Por enquanto, talvez o melhor mesmo seja pegarem as bicicletas e descerem pela rua que dá na praia, onde os pais nunca passam a essa hora do dia, pular o muro do terreno baldio e esconder os fichários para matar aula sem inspetores, castigos, surras ou ameaças de transferência para o colégio militar. E sem ninguém se apressando em rasgar os diplomas que eles nasceram para alcançar lá no futuro, aquele lugar que ainda não fazem ideia para que lado fica.
Por enquanto só sabem para que lado fica o aeroporto. E é para lá que vão, em suas bicicletas. Seguem pela ruela estreita que margeia a baía. Ninguém aparece para detê-los, para perguntar o que querem. E o que querem? Só seguir adiante e é o que fazem. Quando percebem, estão na cabeceira da pista e se divertem fingindo aterrissar ou levantar voo. São eles próprios aviões subindo e descendo num balé desengonçado e transportando tanta gente para tantos lugares com tantas línguas que eles não entendem mas falam, entre berros e risos. Até que um outro barulho, bem maior, os faz perceber que, se eles são simples aviões de faz de conta, o que se aproxima é de verdade. O coração de cada um dispara e fogem numa correria louca, tentando alcançar seu próprio medo, que corre mais do que eles. Lá no final da ruela se atiram no meio das pedras, fecham os olhos e ouvem o avião pousar.
Por enquanto eles se levantam com alguns cortes nos cotovelos e nos joelhos, que sangram um pouco. Ainda não sabem que ninguém descobrirá sua aventura. E por mais que contem e jurem, ninguém da turma acreditará. Também não sabem que o pai do amigo mais novo foi transferido de cidade e vai embora no final desta semana. E que quando o amigo mais velho for correndo na casa do outro para se despedir, não correrá o suficiente, como eles fizeram na pista do aeroporto. E o amigo já terá ido embora.
Por enquanto eles não sabem que só daqui a 40 anos, o amigo mais velho e sua mulher subirão as escadas rolantes daquele mesmo aeroporto, para pegar um avião e, ao final da escada, um piloto ficará parado à frente deles. Ele estranhará, por um tempo bem curto. E sua memória correrá a tempo de reconhecer o amigo e de se abraçarem e do piloto contar para sua mulher a aventura que viveram logo ali, do outro lado da pista e da vida.

Imagem: Magali Rios
Texto: Cesar Cardoso

( http://canetalentepincel.blogspot.com.br/)


URUBUS POUSAM NO CLUBE DA LEITURA




Na noite de O escritor Cesar Cardoso participando do Clube da Leitura na Casa Rio em Botafogo, lendo contos de seu novo livro "Urubus em círculos cada vez mais próximos".

Cesar Cardoso Bela noite de leitura e conversa sobre literatura com o pessoal do Clube da Leitura. Agradeço a todos a atenção e o carinho com que me receberam. E, é claro, as cervejas pra fechar a noite no bar mais próximo.

                          
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 urubucaá
[Do tupi = ‘folha de urubu’.] 
Substantivo masculino. 
1.Bras. Bot. Angelicó.

urubu-caapor
Bras.
Substantivo de dois gêneros. 
1.Etnôn. Indivíduo dos urubus-caapores [ou (etnôn. bras.) *Urubu-kaapor, *Ka’apor], povo indígena da família linguística tupi-guarani, tronco tupi, que habita os municípios de Carutapera, Cândido Mendes, Turiaçu e Monção (AM).
Adjetivo de dois gêneros.
2.Pertencente ou relativo a esse povo. [Pl.: urubus-caapores.]

urubu-caçador
Substantivo masculino. 
1.Bras. MG Zool. V. urubu-de-cabeça-vermelha. [Pl.: urubus-caçadores.]

urubu-de-cabeça-vermelha
Substantivo masculino.
1.Bras. Zool. Ave ciconiiforme, catartídea (Cathartes aura), distribuída desde o Canadá até a Argentina, de coloração preta, com a cabeça nua, encarnado-violácea, e os canos das rêmiges das mãos brancos apenas do lado inferior; urubu-ministro, urubu-campeiro, urubu-caçador, urubupeba, urubu-peru, urubu-jereba, jereba, camiranga. [Pl.: urubus-de-cabeça-vermelha.]
  
urubu-do-mar
Substantivo masculino.
1.Bras. Zool. V. alcatraz1. [Pl.: urubus-do-mar.]

urubu-jereba
Substantivo masculino.
1.Bras. Zool. V. urubu-de-cabeça-vermelha. [Pl.: urubus-jerebas e urubus-jereba.]

urubu-ministro
Substantivo masculino.
1.Bras. Zool. V. urubu-de-cabeça-vermelha. [Pl.: urubus-ministros e urubus-ministro.]

                               


DECRETO-LEI N° 4457

Este conto foi publicado originalmente na revista Caros Amigos, onde escrevi de 2003 a 2011.  

Para Marina Bittencourt

Dispõe sobre o jogo do caxangá e dá outras providências.

O Presidente da República, usando das atribuições que lhe confere o parágrafo 1° do Art. 2° da Constituição Federal, decreta:

Art. 1° Comete grave infração contra a pátria e seus símbolos o escravo de Jó que:

I – For pego jogando o caxangá ou incite a realização de tal jogo;

II - Pratique atos destinados à organização do citado jogo, tais como tirar, botar ou deixar o Zé Pereira ficar.

§ 1° Está proibida em todo o território nacional a reunião de guerreiros com guerreiros.

§ 2° Qualquer guerreiro que for encontrado fazendo o zigue-zigue-zá será encarcerado, responderá a processo nos termos da lei em vigor e terá solicitada a sua retirada do território nacional.

Art. 2° O Sr. Zé Pereira está proibido de ficar, a partir da data de entrada em vigor deste decreto, devendo apresentar-se ao Departamento de Polícia Federal, onde aguardará julgamento.

Art. 3° Aquele que souber do paradeiro do Sr. Zé Pereira deve comunicar imediatamente às autoridades. Caso contrário estará sujeito às penas das leis que vierem a ser estabelecidas sobre tal matéria.

Art. 4° O Ministro de Estado das Cantigas de Roda expedirá, dentro de trinta dias, contados a partir da data de sua publicação, instruções para a execução deste Decreto-Lei.

Art. 5° Este Decreto-Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.


URUBUS POUSAM NO GUETO

A Gueto é uma revista de literatura luso-brasileira, editada por Jerome Knoxville e Amanda Sorrentino. Vale a pena conhecer e acompanhar.


bom dia | hoje na revista gueto | não perca | #conto de Cesar Cardoso

Para Luiza Wey, Juliana de Moraes Paiva e Vinícius Antunes Durante dias e noites eles construíram o cavalo de madeira. O arquiteto exigiu que várias partes fossem refeitas inúmeras vezes, buscando …
REVISTAGUETO.COM

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Urubuzar - urubuzar
[De urubu1 + -z- + -ar2.] 
Verbo transitivo direto. Bras. Fam. 
1.Olhar fixamente, com intenção malévola. 
2.Dar azar a; azarar.