sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011


À MORTE DE LAURA - 1

Rota é a alta coluna e o verde louro
Que davam sombra ao lasso pensamento.
Perdeu-se aquilo que eu embalde intento
Buscar desde o Mar Índico ao Mar Mouro.

Morte levou o meu duplo tesouro
A causa deste meu contentamento
E consolar não pode o meu tormento
Nem gema oriental, nem terra ou ouro.

Por ser consentimento do destino,
Perde-se em mágoa a triste alma minha,
Choram meus olhos e o meu vulto inclino.

Oh, vossa vida vã, cheia de enganos!
Como numa manhã se perde asinha
O que para ganhar passaram anos!

(Petrarca, em Poemas de Amor, organização de Alexei Bueno, tradução de Jamir Almansur Haddad, Ediouro.)
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Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

(Luis de Camões, em Melhores Poemas de Luis de Camões, Global Editora.)
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A CAROLINA

Querida, ao pé do leito derradeiro
em que descansas dessa longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

(Machado de Assis, em Livro dos Sonetos 1500-1900 (poetas portugueses e brasileiros),organização Sergio Faraco, L&PM Pocket.)
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À MORTE DE LAURA - 2

Os olhos que eu cantei ardentemente,
As mãos que eu sonho, o rosto almo que eu viso,
Que me mantém de mim mesmo diviso,
Estranho me tornando à alheia gente;

A crespa chama de ouro reluzente,
E o lampejar do angélico sorriso,
Que faziam da terra um paraíso
Não são mais do que pó que nada sente.

No entanto por viver eu me desdenho;
Despojado do lume que amei tanto,
Navego agora em desarmado lenho.

Cesse afinal meu amoroso canto!
É seca a veia de tão gasto engenho,
E a minha lita é dissolvida em pranto.

(Petrarca, em Poemas de Amor, organização de Alexei Bueno, tradução de Jamir Almansur Haddad, Ediouro.)
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2 comentários:

  1. Com a contribuição milionária de todos os erros! Pelos céus!

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  2. De todos o erros, herros, eros.

    Abraço

    Cesar

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