terça-feira, 20 de setembro de 2011

2222 - FLOR DO LÁCIO - ÁFRICAS, VIA COPACABANA

A literatura africana de língua portuguesa é singularmente plural. São outros que nos falam. Quem são? E portanto quem somos? Aqui seguem algumas vozes femininas dessa literatura. Pensando com Mia Couto, são grandes savanas: veredas.
(Estes poemas se encontram nos livros Poesia Africana de Língua Portuguesa, organizado por Maria Alexandre Dáskalos, Livia Apa e Arlindo Barbeitos, lançado por Lacerda Editores e pela Academia Brasileira de Letras, e Agarra-me o Sol Por Trás (e outros escritos & melodias) de Tânia Tomé, lançado pela Editora Escritura.)

MANUELA MARGARIDO
Poeta de São Tomé, nascida na Ilha do Príncipe em 1926. Publicou Alto Como o Silêncio (1955).

XVI

No dia em que foste embora,
longos navios de silêncio
encheram a casa,
tão grande, tão vasta!
Todos os gatos da vizinhança
comiam cogumelos
e varriam as cascatas
dos cemitérios
com agudas lâminas de tédio.
No cais das horas
fiquei a esperar-te:
grande pedra de saudade
de olhos hirtos.
Paira sobre mim a presença
de uma mão pálida
e sempre uma ave parte:
nunca sei para onde.

ANA PAULA TAVARES
Poeta e cronista angolana, nascida em Lubango, em 1952. Obras publicadas: Ritos de Passagem (1985) e O lago da lua (1999).

BOI À VELA

Os bois nascidos na huíla
são altos, magros
navegáveis
de cedo lhes nascem
cornos
leite
cobertura

os cornos são volantes
indicam o sul
as patas lavram o solo
deixando espaço para
a semente
a palavra
a solidão.

NOVEMBER WITHOUT WATER

Olha-me p’ra estas crianças de vidro
cheias de água até as lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

VERA DUARTE
Poeta de Cabo Verde, nascida em Mindelo em 1952. Publicou Amanhã Madrugada (1993).

MOMENTO VI
(desabafo)

Vai e grita pelas achadas imensas
que a vida se conquista
contra a violência e a morte.

Diz
do amor que brota das areias
do mar solitário
do abraço fecundo que nasce
dos confins de nossos seres.

Diz tudo
mas não digas que te amei
– e amo –
pois chega-me a morte pela recusa.
Não quero morrer duas vezes!

ALZIRA CABRAL
Poeta de Cabo Verde, nascida em Bissau em 1955. Publicou uma seleção de poemas na antologia Mirabilis de veias ao sol (1991).

MANTENHA

Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!

TÂNIA TOMÉ
Poeta moçambicana, nascida em 1981. Participou da antologia Um Abraço Quente da Lusofonia e publicou Agarra-me o Sol Por Trás (Ed. Escrituras, São Paulo). Realiza o espetáculo Showesia, que reúne poesia, música e performance.

QUE FLORES SÃO ESTAS?

Que flores são estas
crescendo-me nas mãos?

Invadindo o meu corpo
fogo cheio
Musgo
Flor

Mas que flores são estas
Crescendo-me nas mãos?

Flores com músculos
de sede molhadas

Flores com rasto, resto e sonhos

Flores vermelhas
acácias, cidades

Flores que ardem, que falam e que amam

Mas que flores são
estas que existem aqui?
Na sede dos ossos?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol que morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

2 comentários:

  1. Césinha, tu é o bicho. Belissimo garimpo!

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  2. Valeu, meu parceiro.

    Aquele abraço,

    Cesar

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