terça-feira, 20 de setembro de 2011

CAIU NA REDE É PIXEL

video
Esse Nosso Olhar Quando Encontra a Bossa Nova

Ensaio fotográfico de Maria Pace Chiavari,
Maria Cristina Fonseca e Cesar Cardoso

Montagem: André Pinnola
Curadoria e duas fotos históricas de Walter Firmo

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito

Conforme já anunciei aqui nestas páginas virtuais e virginais, eu e meu maninho Cesar – o capataz eletrônico desse blog – estamos montando um livro de microcontos que por enquanto leva o nome de HAICONTOS. É um work in order and progress, expressão que foi traduzida pelo espírito de Hélio Oiticica num Centro Estético-Espírita como “vamu tocando essa merda aí pra que nu qui dá”. Despeitável público, com vocês mais quarto haicontos dessa dupla mais dinâmica que Batman e Robin!

Alice Barreira

DIÁLOGO
Há anos que faço esse caminho, posso ver até a marca dos meus passos nele. E sei de cor cada detalhe. É curto o meu caminho, é verdade. E ele também não tem obstáculos. Às vezes eu até acho que há algum obstáculo à minha frente, ou mesmo atrás de mim. Mas acabo constatando, aliviado, que tudo não passa de uma má impressão. Talvez por não ter dormido bem àquela noite, quem sabe? Acontece comigo e eu não sei. Que dirá os outros.
Os outros.
Há anos faço e refaço esse caminho e nunca cruzo com ninguém. Vivalma, como dizem. Dizem, não é? Já me enganei com a minha própria sombra várias vezes. Mas não perco a esperança. Isso não.
Há anos aqui, sozinho e falando com as paredes.
Há anos.

Hoje, por fim, elas começaram a responder.

Cesar Cardoso


NA ALFÂNDEGA
O pouso foi tranquilo e nós estávamos na fila, empurrando os carinhos com as bagagens. Todos cansados mas felizes, mostrávamos aos homens dos guichês nossos passaportes e nossas dentaduras e passávamos em seguida pelo raio X. Até que um dos guardas gritou: “ela tem dentes, ela tem dentes!”. Em segundos o pânico tomou conta do lugar e todos corríamos sem saber pra onde e gritávamos sem saber o quê.
Mas um outro guarda manteve a calma e, com segurança e rapidez, descarregou sua arma na cabeça da mulher que tinha dentes. Ela caiu, morta, e nós pudemos respirar aliviados e retomar a fila, tomando apenas o cuidado de contornar a grande poça.

Alice Barreira


VIAGENS
Férias inesquecíveis! – dizia o anúncio, em meio a fotos coloridas de paisagens campestres, praias, montanhas e também cenas urbanas diversas.
Eu não resisti e entrei. Afinal, eu estava de férias. Depois de 38 anos de trabalho ininterrupto, eu estava de férias pela primeira vez na vida. E confesso que também não resisti à belíssima mulher que me atendeu. Porque ela não era só bonita, e simpática, e alegre. Não. Ela era... insinuante. Isso. E talvez mais do que isso. Ela deixava tanta coisa no ar, além do perfume, que eu não resisti à sua oferta. Comprei o pacote de viagem, fui pra casa, fiz as malas e embarquei. Até do meu passaporte a agência se encarregou.
E aqui estou. De férias. Depois de 38 anos. Já devo ter percorrido todas as cidades do país. Ou devem faltar muito poucas. Não sei ao certo. Tenho viajado tanto desde que cheguei aqui há cinco anos. O país é realmente lindo, como prometia o anúncio. Só não sei em que país estou. Por mais que me esforce, não consigo entender nada do que as pessoas daqui falam. E nem elas a mim. Já tentei o inglês, o francês e o espanhol, três línguas que falo razoavelmente bem. Sem resultado. Não consigo fazer interurbanos, enviar e mails, encontrar uma embaixada ou chegar a uma fronteira. Nada. Também não me cobram a conta do hotel ou qualquer outra conta. Então eu sigo viajando.
Acho que a agência de viagem e aquela bela mulher perfumada estavam certos. Essas férias serão mesmo inesquecíveis.

Cesar Cardoso


MIAU
Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você. Num quarto escuro, amarro e algemo. Volto até a fumar só pra, na brasa do cigarro, tatuar meu nome na tua virilha. De pensar, já fico aceso. Arranco teus pelos à pinça, tuas unhas, uma a uma. Quero ver você fazer manha então, presa, surpresa. Nem adianta beicinho, chorar baixinho ou se esgoelar. Você pode até ganir e se urinar. Eu sei que dói, seu coração, os mamilos, dói tudo, mas eu quero, quero ver, quero ver você dizendo me amar, dizendo que agora faz sim tudo que eu mandar. E eu vou dizer na tua cara, meu bem, já não precisa.

Alice Barreira

2222 - FLOR DO LÁCIO - ÁFRICAS, VIA COPACABANA

A literatura africana de língua portuguesa é singularmente plural. São outros que nos falam. Quem são? E portanto quem somos? Aqui seguem algumas vozes femininas dessa literatura. Pensando com Mia Couto, são grandes savanas: veredas.
(Estes poemas se encontram nos livros Poesia Africana de Língua Portuguesa, organizado por Maria Alexandre Dáskalos, Livia Apa e Arlindo Barbeitos, lançado por Lacerda Editores e pela Academia Brasileira de Letras, e Agarra-me o Sol Por Trás (e outros escritos & melodias) de Tânia Tomé, lançado pela Editora Escritura.)

MANUELA MARGARIDO
Poeta de São Tomé, nascida na Ilha do Príncipe em 1926. Publicou Alto Como o Silêncio (1955).

XVI

No dia em que foste embora,
longos navios de silêncio
encheram a casa,
tão grande, tão vasta!
Todos os gatos da vizinhança
comiam cogumelos
e varriam as cascatas
dos cemitérios
com agudas lâminas de tédio.
No cais das horas
fiquei a esperar-te:
grande pedra de saudade
de olhos hirtos.
Paira sobre mim a presença
de uma mão pálida
e sempre uma ave parte:
nunca sei para onde.

ANA PAULA TAVARES
Poeta e cronista angolana, nascida em Lubango, em 1952. Obras publicadas: Ritos de Passagem (1985) e O lago da lua (1999).

BOI À VELA

Os bois nascidos na huíla
são altos, magros
navegáveis
de cedo lhes nascem
cornos
leite
cobertura

os cornos são volantes
indicam o sul
as patas lavram o solo
deixando espaço para
a semente
a palavra
a solidão.

NOVEMBER WITHOUT WATER

Olha-me p’ra estas crianças de vidro
cheias de água até as lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

VERA DUARTE
Poeta de Cabo Verde, nascida em Mindelo em 1952. Publicou Amanhã Madrugada (1993).

MOMENTO VI
(desabafo)

Vai e grita pelas achadas imensas
que a vida se conquista
contra a violência e a morte.

Diz
do amor que brota das areias
do mar solitário
do abraço fecundo que nasce
dos confins de nossos seres.

Diz tudo
mas não digas que te amei
– e amo –
pois chega-me a morte pela recusa.
Não quero morrer duas vezes!

ALZIRA CABRAL
Poeta de Cabo Verde, nascida em Bissau em 1955. Publicou uma seleção de poemas na antologia Mirabilis de veias ao sol (1991).

MANTENHA

Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!

TÂNIA TOMÉ
Poeta moçambicana, nascida em 1981. Participou da antologia Um Abraço Quente da Lusofonia e publicou Agarra-me o Sol Por Trás (Ed. Escrituras, São Paulo). Realiza o espetáculo Showesia, que reúne poesia, música e performance.

QUE FLORES SÃO ESTAS?

Que flores são estas
crescendo-me nas mãos?

Invadindo o meu corpo
fogo cheio
Musgo
Flor

Mas que flores são estas
Crescendo-me nas mãos?

Flores com músculos
de sede molhadas

Flores com rasto, resto e sonhos

Flores vermelhas
acácias, cidades

Flores que ardem, que falam e que amam

Mas que flores são
estas que existem aqui?
Na sede dos ossos?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol que morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PREPARE O SEU ORELHÃO PRAS COISAS QUE EU VOU CANTAR

ANNE RICE É ARROZ DE TERCEIRA
VAMPIRO MESMO É JORGE MAUTNER

Valei-me , meu São Van Helsing! Enquanto em livrarias, cinemas e tvs pulam e pululam um bando de vampirinhos caretas, donos de bancos de sangue, jogando na Bolsa de plasma, Jorge Mautner já sentiu há muito tempo na boca a saliva que já secou. Eis aí a letra de VAMPIRO, de Mautner, o rastro eletrônico do maracatu atômico, gravada por Caetano Veloso.

Eu uso óculos escuros
pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado,
ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro
que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando
porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando,
com aquele seu cheiro louco de jasmim
E eu fico embriagado de você
Eu fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue não corre, não,
corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando
todo o amor que eu sinto por você
Você ficava escutando impassível
e eu cantando do teu lado a morrer
E ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
"oh! pero que letra más hermosa,
que habla de un corazónapasionado"

Por isso é que eu sou um vampiro
e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos
e das meninas que eu encontro
Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida
que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto
a saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo, ai,
aquele beijo que nunca chegou
Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia
que tem a lua e o sol do meio-dia


VOCÊ JÁ ACENDEU SUA LUA HOJE?

Deixando os vampiros mas seguindo na noite, entre no mundo da lua de Anna-Anna, uma brasileira chamada Manuela Leal, que está de volta ao Brasil depois de muitos anos estudando artes plásticas nos EUA e que canta em inglês uma música com traços de ficção científica. Ontem à noite ela acendeu a lua. E você?

LAST NIGHT I LIT THE MOON

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

I stepped over broken bones, saw the ghosts of bombs
Climbed and climbed
I fly with time
Lunar surface is a field of dust
Electric dust of space and sun
I saw the earth from above
Kept my ear to the ground
Heard the moon tremble,
Put gravity aside

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

The sun reaches out to the moon
And milks its silver mold
then sure I would see you
from high above
The moon, silvery angel
Reflects the light of the mightier sun
Your body, moon crater
Mirror of love

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

And if a thread of silver touches you
Thoughts, lit into flames
cold flames shivering, shivering silver light
if one day they’ll reach you, well they might
it’s too late for memories
I’ve burned them up for the light
of silver thoughts
to follow you

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,
Passei a manhã no Lower East Side, entre gente do mundo inteiro e a mistura de muitos passados. Depois fui ao Museu de Arte Contemporânea pra equilibrar. Os curadores continuam mandando na nova Bolsa de Valores que é a arte contemporânea. Por fim caminhei uns cinco quarteirões até o Sammy’s Roumanian, onde tomei uma sopa de miúdos e agora saboreio fígado picado acompanhado de mamaliga com queijo, enquanto bebo uma tuica, que é uma cachaça feita de ameixa e forte como o diabo! Aproveito para te mandar a mais recente criação do nosso cantador atômico, Patavina do Alcaçuz. Ele me fez duas promessas: continuar escrevendo para que eu possa por fim organizar o livro com suas poesias e te processar por usar o nome dele para batizar teu blog.

Abracadabraço do
Jean Prévert

O POETA PATAVINA DO ALCAÇUZ
CONVIDA O DESPEITÁVEL PÚBLICO
A CONHECER O ENCOBRIMENTO DO BRASIL

o meu nome é patavina
verso como quem navega
seja no mar da poesia
seja no álcool da adega
chamo a verdade de irmã
e a mentira de colega
e vou contar a história
da nau que ficou às cegas
dizem que até hoje
pelo mar ela trafega

dizem, mas ninguém prova
só se sabe que cabral
era o chefe da esquadra
onde estava essa nau
eram bem mais de mil homens
saídos de portugal
mulher? não tinha nenhuma
nada de xota, só pau
e nem sabiam onde iam
ô que viagem legal!

foi no brasil que chegaram
cabral e sua cambada
debaixo de bruta chuva
viram as índias peladas
mas em vez de tirar a roupa
e cair na batucada
encher a cara de uca
bacalhau com feijoada
vestiram os índios todinhos
com hóstia, missa e porrada

mas uma das 13 naus
não chegou a aportar
foi a de vasco ataíde
que se perdeu pelo mar
e achou outro brasil
muito melhor que o de cá
pois num dia cheio de sol
aqueles índios de lá
despiram os portugueses
e foram comemorar

com todo mundo pelado
começou logo a festança
tinha comida e bebida
mais maconha e fudelança
passaram-se oito meses
sem sequer parar a dança
o vasco ataíde doidão
enchendo a pica e a pança
e quem vai lembrar d’el rei
vivendo nessa bonança?

mas o escriba da nau
que era primo de caminha
fez parar aquela zona
começou a ladainha
lembrando da obrigação
com el rey e a rainha
e temos a fé em cristo
pra salvar essa gentinha
serão nossos escravos
andando sempre na linha

vasco ataíde então disse
você é um soldado leal
bote tudo numa carta
e leve pra portugal
como só tem um navio
vais a nado, animal!
e se não quiser cumprir
esta missão bestial
podes ficar por aqui
sentadinho no meu pau

os índios e os portugueses
voltaram pra putaria
tacaram fogo na nau
assim ninguém mais fugia
decretaram só uma lei
aqui não tem mais chefia
a farra começa de noite
mas não acaba de dia
porque farra nessa vida
é o que tem serventia

batizaram aquela terra
brasa-braseiro-brasil
descoberto por acaso
bem no primeiro de abril
cagaram para el rey
e aposentaram o fuzil
juro que é tudo verdade
ainda não estou senil
e quem duvidar do que eu conto
vá pra puta que o pariu

AVISO AOS NAUFRAGANTES


“O QUE É QUE NÃO É?” NO PNBE
Meu livro infantil O Que É Que Não É?, ilustrado por Cris Alhadef e lançado pela Editora Biruta, acaba de ser selecionado para o PNBE – Programa Nacional de Biblioteca da Escola. O PNBE existe desde 1997 e seleciona obras literárias que serão distribuídas a “todas as escolas públicas de educação básica cadastradas no Censo Escolar”.

DEBATENDO A AUTORIA
Na próxima sexta feira, dia 23 de setembro, eu e a doutora em Linguística Bethania Mariani estaremos numa mesa-redonda falando sobre o tema Limites e Possibilidades da autoria nas práticas sociais de escrita. O encontro faz parte de um ciclo de debates sobre o tema, que tem como objetivo problematizar a presença da autoria nas práticas sociais de escrita e pretende enfocar a autoria como um direito, uma necessidade, uma escolha, um traço decisivo para a constituição dos sujeitos em nossa sociedade.O ciclo é promovido pelo Fórum de Ensino da Escrita - projeto de extensão da Faculdade de Educação da UFRJ – e acontece no Auditório do Prédio Anexo do CFCH (Av. Pasteur, 250 ou Av. Venceslau Brás, 71, Campus da Praia Vermelha), das 14 às 17 hs.

VOCÊ NÃO VAI ABRIR?
Modestamente informo que meu novo livro infantil – Você Não Vai Abrir? – já pode ser encontrado nas livrarias de toda a Via Láctea. Ilustrado por Salmo Dansa, Você Não Vai Abrir? mostra um escritor contando como se faz um livro. Só que o livro não concorda com ele, começa a discutir, acha o tal escritor muito do metido e sem-graça e lá vão os dois brigando pela história afora. Você Não Vai Abrir é um lançamento da Editora Biruta.


POESIA NO METRO

No mês de outubro aqui no Rio a poesia vai invadir várias estações do Metrô. É a série “Intervenções Poéticas no Metrô”, uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura e do Metrô-Rio, que tem curadoria do poeta Claufe Rodrigues. Vejam aí a programação. Ah, as apresentações são sempre às sextas feiras, das 18 às 19 horas e este poeta que vos fala estará na Estação Pavuna, no dia 21. E vamos nos trilhos da poesia!


07/10 - Estação Del Castilho – Organismo, Mauro Santa Cecilia & parceiros e Mano Melo
14/10 -– Estação Carioca – Os 7 novos, Pedro Rocha e Madame Caos
21/10 - Estação Pavuna – Mônica Montone, Cesar Cardoso e Tavinho Paes
28/10 - Estação Central – Poesia Simplesmente, Cairo & Denizis Trindade e Salgado Maranhão

POR QUE ESCREVO?

“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”
Alice Barreira

Três momentos em que o poeta João Cabral de Melo Neto pensa a sua poesia e seu ofício de escritor. O primeiro deles é o poema Psicologia da Composição, que está no livro que lhe empresta o nome e é de 1947. O segundo é de 1966 e está no livro A Educação pela Pedra. Trata-se do poema A Educação pela Pedra, que também tem o mesmo nome do livro em que se inclui. Nessas coincidências, que não o são, vemos que os livros de João Cabral não são meras coletâneas de poesia, são projetos. Como ele mesmo conta no terceiro momento, quando conversa de forma pungente com o escritor e fotógrafo Eder Chiodetto, em sua casa, já no final da vida. (Eder fotografou Cabral e incluiu a conversa e as fotos em seu belo livro O Lugar do Escritor, publicado pela Cosak & Naify.)

Psicologia da composição

I
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

II
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera).

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera).

IV
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; romper
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça).

V
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

VI
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

VIII
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras).

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.


A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.


Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática)
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

A CONSTRUÇÃO “Não sou mais um escritor. Estou cego. Para escrever, preciso ver. Não leio, não consigo escrever também. Sou um ex-escritor. Não adianta ditar versos para alguém porque preciso ver a minha letra construindo-os. Escrevo como quem constrói uma casa. Meus livros têm estrutura, não são reuniões de poesias. Minha influência foi Le Corbusier, que li em Recife quando ainda era moço, e também os poetas cubistas franceses. Paul Valéry, que não era cubista, também. Para mim é uma tortura não poder ler, sabe? Desde pequeno não fiz outra coisa senão ler. Não ler é pior do que não escrever. Publiquei meu primeiro livro com 22 anos. E o último com 73. A literatura perdeu completamente o sentido para mim. Não me lembro mais de nenhum poema meu.”

O FIM DE TUDO “Eu era diplomata. Escrevi quando havia tempo. Quando voltei de Portugal para o Brasil estava contente, porque teria mais tempo para me dedicar à escrita. Aí fui fazer uma operação no intestino e fiquei cego. Foram setenta dias de UTI. Quando acordei, não enxergava mais. Meu psiquiatra foi me visitar no hospital e viu que havia uma luz fortíssima sobre meus olhos. Eu, inconsciente, não podia meter o braço naquela luz. Queimaram minha retina. Hoje tenho apenas uma visão periférica. Enxergo mal, vejo apenas seu vulto. Me sinto fraco, meio doente, sem vontade de nada. Morrer é o fim de tudo. O descanso.”

O BARBEIRO “Você quer me fotografar no meu escritório? Aqui não tem escritório. Não escrevo mais. Além do que, estou barbado. O barbeiro só vai chegar às sete horas. Você é insistente, hein garoto? Tá bom, eu sento aqui nesta cadeira e você faz a foto.”


THAT’S ALL, FOLKS!

Talvez encontre dentro de mim o que o mundo me negou. Talvez só me reste isso: dormir e voar para dentro.
Surge uma cortina de chumbo (sempre as cortinas), contra a qual alguns raios ardem. Uma tempestade sacode a cena. As coxias estalam, o palco balança, os cenários se deslocam. Os camarotes estão vazios.
Perfurando o pano, uma voz, aquela voz, a mesma que até hoje me agita, faz o comunicado medonho: “As implicações dessa operação podem ser traduzidas pelo verbo “penar”. Para que tu pênis.”
Abro os olhos. Lá está a frase, anotada aos garranchos, dessa vez em um cardápio de quarto. A letra é minha, de quem mais?
Assim ouvi, assim anotei: “As implicações dessa operação podem ser traduzidas pelo verbo “penar”. Para que tu pênis.”
Espanta-me o trocadilho. Não “penes”, mas “pênis”. As palavras são dados. Sonhos são jogos. Mas quem os joga?
“As implicações dessa operação.” Mas que operação? E haverá outra senão minha busca?
Essa carta – que você nunca lerá – não é o rascunho do livro que escreverei. Ao contrário: com ela, eu me livro do livro.
A insistência dos sentidos duplos me enlouquece. A língua vacila. Jamais poderei confiar nas palavras.
Você nunca leu a Carta que lhe dei. Em algum sebo, um desconhecido a folheou. E, por espanto, ou por maldade, sublinhou (em seu lugar) a frase maldita.
Também Hermann Kafka não chegou a ler a carta que Franz lhe escreveu. Falsa destinatária, a mãe, Julie, tratou de queimá-la.
São essas as cartas que se perpetuam: as que não chegam a seu destino. As que ficam esquecidas nas prateleiras da posta restante. Aquelas que ninguém lê.
Não chegarei a escrever o livro que escreverei. Ele não passa da carta que o preparou. Preparou e matou. Esta carta.
Trago comigo, pai, os Poemas, de Baudelaire. Um deles tem o título roubado de Terêncio. Significa: “O carrasco de si”. Ou então: “O que se pune a si”.
Meu sonho é um registro desta punição. Mas por que me castigar com o sexo? Sei que os filhos – como os vampiros – sugam as forças do pai.
Diz-se que eles “se identificam”; mas o que se passa é bem mais violento: eles o “devoram”.
Volto a Terêncio, vendido como escravo a um senador latino. O público romano o desprezava. Ainda hoje, é considerado um escritor menor. Talvez por isso eu o leia.
Eu, Franz. Dois homens que rastejam. Eis o Ponto da Gralha: um capacho. Nele me encolho e durmo.
Antes da chegada do táxi, releio o poema de Baudelaire. Sem pensar em Terêncio, sem pensar no carrasco de si, sem saber o que faço – eu faço. Assim fazemos as coisas mais graves: sem perceber.
No poema, surge a resposta à frase de meu sonho: “Eu sou a faca e o talho atroz”. Está tudo dito.
De um lado, a moeda brilha, do outro sangra. A arma é também a ferida. O carrasco e sua vítima se confundem. A voz me adverte: melhor fugir do gozo, porque ele é também a dor.
Por que insistir na reconstrução do passado? De duas, uma: Ou o carrego em mim, ou a procura é inútil. O passado é só a lembrança que temos do passado.
Volta-me a voz abafada do doutor Martins: “Diga-me quem você é, pois já não sei quem sou.” Só temos falsas esperanças. Tudo que temos é o outro.
Já não me interesso pelo Dicionário poético de meu bisavô, Manuel Thomaz. Chave inútil, não abre porta alguma. Em vez de abrir, ela multiplica as trancas.
Só agora me dou conta: esqueci minha Carta ao pai – o mesmo livro que, um dia, lhe dei – em uma gaveta do hotel. Eu o deixei em Parnaíba, pai. Quem será o próximo a ler?
Será possível que, pela segunda vez, o livro me volte? Mesmo que volte, será outro livro. Serei outro homem. Isso é a esperança.
Mas não se pode perder uma frase. A frase que você sublinhou permanece gravada em mim. Dela não me livrarei. Fica não como uma acusação, mas como uma pergunta.
Tornei-me alguém que nunca termina de responder as perguntas que você me fez, meu pai.
É hora de fechar as malas, pagar as contas e voltar para casa. Enrolar as frases, dobrar as esperanças, deixar para trás as ilusões. Não se procura aquilo que se carrega.
Antes de pegar a estrada, preciso passar no correio. Tenho uma carta a despachar. Esta carta, a você, Ribamar, meu pai. A atendente me olha perplexa: “Falta o endereço.” Eu respondo: “Ponha aí um destino qualquer.”

CAPÍTULO FINAL DE RIBAMAR, ROMANCE DE JOSÉ CASTELLO, LANÇADO PELA EDITORA BERTRAND BRASIL.





Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.