Mostrando postagens com marcador ALICE BARREIRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ALICE BARREIRA. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de julho de 2011

IMPRESSÕES DIGITAIS

"LONGO TRECHO EM DECLIVE" DE A CHAVE DE CASA,
DE TATIANA SALEM LEVY

O livro de tatiana salem levy (boto em minúscula como ela botou na capa do livro) pega a(s) memória(s) de uma neta de judeus turcos, nascida em Lisboa, da mesma forma que a autora, e transforma numa história que agarra o leitor o leva em meio a uma montanha russa de emoções até... Até onde? Até onde nos leva a literatura? Vale a pena ler e descobrir. Ah, a chave de casa ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2008 como melhor livro de autor estreante. E é um lançamento da Editora Record.

Você não pode partir. [Por quê?] Porque não quero, não deixo, porque não é justo. Poderia argumentar que sou muito nova para perdê-la, que você é muito nova para partir. Que não sei caminhar sem um pouco do seu cheiro a me acompanhar, sem suas palavras doces e ternas a me acalentar. Que ainda não estou preparada para caminhar sozinha, que preciso de um pouco mais de tempo. Que preciso de muito tempo. De todo o tempo. Poderia argumentar que há ainda muitas coisas que não fizemos juntas. Que quando estiver triste não terei colo quente para me receber. Que quando tiver medo não poderei me esconder atrás da sua saia. Que não terei a quem dizer que te amo infinitas vezes, sem medo algum, sem receio. Porque só o nosso amor não tem medo. Poderia argumentar que há coisas que nunca lhe disse, coisas que quero dizer. Que você também deve ter histórias para me contar. Que quero você a meu lado para ouvir as aventuras que ainda viverei. Que quero você a meu lado quando eu publicar o meu primeiro livro. Que quero você a meu lado quando eu conhecer o meu príncipe encantado e com ele decidir que o amor é eterno. Que quero você a meu lado quando nascer o meu primeiro filho, e também o segundo e o terceiro. Poderia argumentar isso e mais, porque é infinito o meu desejo de que você fique. Da mesma maneira, sei que há argumentos para a sua partida, que a vida é assim, ela acaba, a morte sempre vem, cedo ou tarde. Mas recuso os argumentos que não venham de mim mesma. E é por isso que grito, esperneio: não parta! Não é justo! E é por isso que berro enquanto espanco o seu caixão de madeira polida: tirem a minha mãe daí! Lanço as mãos ao ar como os que não têm razão, como os únicos que têm razão, e repito: abram o caixão! Mas estão todos sem jeito e envergonhados: coitadinha dela, era tão próxima da mãe. Eles sentem pena mas não me ouvem. É um dia quente de sol, como não devem ser os dias em que partem pessoas queridas. Eles descem o caixão e com largas pás cavam a terra. Não há flores, elas não são permitidas. Há pedras. Eles cobrem o caixão com a terra, deixam você lá dentro, sozinha, e eu aqui fora, sozinha. Paro de gritar, mas me recobro da certeza de estar assistindo a uma grande injustiça, talvez a pior de todas. E penso que se você estivesse aqui tudo seria diferente, que se estivesse aqui certamente me ouviria, abriria o caixão e se tiraria de lá, você se levantaria e viria na minha direção, pegaria nos meus braços e me diria que não há porque sofrer. Se você estivesse aqui certamente secaria minhas lágrimas que caem agora, enquanto lhe dirijo a palavra e você não me escuta, você já não pode me escutar.


POR QUE ESCREVO?

Eu havia caído numa estrada sem volta. Até o dia da minha morte, podia ou não encontrar o sucesso de público, a fama, o dinheiro. Podia ou não ser adorado por multidões de leitores. Podia ou não ser entendido por meia dúzia de especialistas. Qualquer escolha profissional traz esses riscos, e você só fica seguro de que escolheu a carreira certa quando chega à conclusão de que mesmo que dê tudo errado terá valido a pena. De que o fracasso na tentativa ainda é motivo de orgulho, enquanto que ter passado a vida sem tentar seria uma humilhação insuportável, como se você fosse ridicularizado pelo seu próprio destino.

Personagem Pedro, em O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda (CosacNaify).


NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

“Ei, maninho, mais três vômitos quentinhos saindo do forno onde me torro. Publica aí.”

Ela pediu, o público aplaudiu e aí vão: novos haicontos de minha irmã, Alice Barreira.

JOVEM GUARDA

Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você.
Te tranco num quarto escuro. Arranco teus pelos à pinça. E as tuas unhas, uma a uma. Volto até a fumar, só pra tatuar meu nome na tua virilha, com a brasa do cigarro. Só de pensar, já fico aceso.
Quero ver você fazer manha então.

VOVÓ E OS RATOS

No dia de sua morte, minha avó acordou, tomou seu banho e o café da manhã, como sempre fazia. Mas, ao se levantar da mesa, foi direto para o quarto e de lá começou a esbravejar com os ratos que andavam pelo teto, entravam em seu armário, roíam suas roupas, os retratos da família e alcançavam até a fiação.
Durante todo o dia ela gritou até ficar rouca, mas os ratos riam e riam, pois sabiam que ela já estava morta e que eles nem existiam.

VIDA DE ARTISTA

- Próximo - chamou o descobridor de talentos.
Ele se aproximou: - eu sei tocar a Marselhesa peidando.
O descobridor de talentos acenou com a cabeça e ele peidou toda a Marselhesa. Muitos na fila manifestaram uma surda admiração.
- O que mais você faz? – perguntou o descobridor.
- Eu sei cinco idiomas. Inglês, francês, espanhol, russo e japonês.
- Peidando?
- Não, não. Eu falo esses cinco idiomas.
- E a quem pode interessar isso? Próximo.

Alice Barreira

sexta-feira, 6 de maio de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Maninho,

Já que você insiste em manter esse blog, lá vão alguns contitos para teu desjejum. Soube que arrancaste um dente. Já não me morderás mais?

Beijos nos córneos

Alice

A INSISTÊNCIA

Diante da porta, confiro o endereço e toco a campainha. Uma mulher de uns 50 anos, cabelos bem cuidados, sorriso solícito, entreabre a porta e pergunta:
– Cadê a autorização?
Surpreso, digo que não tenho e ela imediatamente começa a fechar a porta. Tento me explicar, afinal ninguém me disse que era, mas a porta já vai se fechar e eu me calo, estico o braço e consigo evitar que ela bata a porta na minha cara. Entre cordial e aflito, pergunto:
– Por favor, senhora, como eu consigo uma autorização?
A mulher volta a estampar o sorriso e, apontando lá para dentro, me informa:
- O senhor tem que ir até o final desse corredor e entrar na terceira sala à direita.
– Muito obrigado, senhora – eu respondo, aliviado, enquanto faço menção de entrar. Mas, num movimento brusco, a mulher recomeça a fechar a porta, enquanto pergunta:
– Cadê a autorização?

A VISITA

Como faço todo fim de tarde, tomei meu banho, botei um vestido bem leve, me maquiei, passei perfume, ajeitei os cabelos com gel, chamei um táxi, peguei o elevador, cumprimentei o porteiro, entrei no taxi, dei a volta no quarteirão, saltei, tornei a cumprimentar o porteiro e a pegar o elevador, parei em frente à porta e toquei a campainha.

Ninguém abriu.

Insisti. Uma, duas, três, quatro vezes. Nada. Não adianta. Não estou. Nunca estou. E fico aqui parada, diante da porta: deixo um bilhete para mim?

YEAH, YEAH, YEAH

Como sempre não há quase nenhum movimento na rua. Os quatro rapazes chegam na esquina, com suas roupas coloridas, brincam muito uns com os outros e atravessam a rua cantando. O fotógrafo ri e vai pedir calma, pois ainda nem montou sua câmera. Mas não há tempo, um caminhão de mudanças dobra a esquina em alta velocidade e atropela os quatro.
Foi uma pena, não só pela dor das famílias mas porque todos ali em Abbey Road dizem que eles levavam muito jeito pra música.

PRIMAVERA-VERÃO

O estilista Piertr Rosui é o único não europeu a apresentar uma coleção na Semana de Moda de Paris, sem dúvida a mais importante do mundo. Para essa temporada Pietr desenvolveu uma linha de casacos de pele confeccionados à mão, com shapes que brilharam no corpo de Way Mulberry, em sua cadeira de rodas de linhas influenciadas pelo design italiano.
Em seguida, o golpe mais ousado de Rosui: seus vestidos trabalhados com bordados e deixando as ancas marcadas. Foram o principal destaque da coleção, com suas fendas esvoaçando para fora das macas onde vieram Alisia Deschcovith e Lea Rydewni, num desfile inspirado em Edgar Allan Poe. Para quem gosta de detalhes, até as agulhas dos soros de Lea e Alisia eram trabalhadas em ouro e não deixavam nada destoar na passarela.
Por fim ele nos mostrou mais uma vez seus casacões clássicos, de ombros bufantes e com o já tradicional toque báltico. Chegou a ser emocionante ver Raquel Dougherzy e Livia Cirmansk nos caixões que as traziam para seus últimos desfiles.
Quem quer novidades no mundo da moda pode tratar de seguir Pietr. Ou então esperar a próxima temporada.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

QUE NÃO SEJA IMORTAL POSTO QUE É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Novos Haicontos de Alice Barreira.

VIDA A UM
Ainda reclama de mim e se acha infeliz. E eu, que nem posso dar uma saidinha, que tenho que ficar comigo 24 horas por dia?

NEM TODO HOMEM É UMA ILHA
Hoje encontrei novas pegadas. Desconfio que Sexta Feira anda me traindo.

ENFIM SÓS
Eu nem me toco.
Ela nem se mete.

RAINHA
Eu aqui feita de costela e ele roendo o meu osso.

NA SAÚDE E NA DOENÇA
Eu disse que fazia tudo, que ele não precisava se preocupar, e fui abraçar. Foram, o quê? Três tiros, eu acho. Sabe que foi comigo mas eu não consigo ter certeza? Agora aqui, nessa cadeira de rodas. Eu sei falar inglês, podiam me aproveitar, não é?

DOCE LAR
Meu avô em cima da cama, só pele e osso, comido pelo câncer, e falando o nome dela sem parar. Minha avó do lado, fingindo que não escutava. O nome da outra.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA.

O FIM

Gregor pressentia. Já não sabia bem o que, mas pressentia que aquelas pessoas –
seriam mesmo sua família? – queriam se livrar dele, a qualquer custo. Esperou anoitecer e o silêncio tomar conta da casa. Mesmo com a maçã encravada nas costas, juntou todas as suas forças, conseguiu entreabrir a porta do quarto e fugir pela fresta. Na cozinha, subiu pela parede e alcançou um basculante aberto. Por ali teve acesso ao corredor do prédio, onde parou para descansar, na escuridão. Estava feliz, havia conseguido fugir da casa e daquelas pessoas. Teriam sido mesmo a sua família um dia? Pensar era tão cansativo! Estava assim absorto quando foi despertado pelo barulho do velho elevador. Entrou em pânico. E se o pegassem ali? Viu outro basculante semiaberto, de onde vinha uma pequena luz. Sem pensar, subiu pela parede e se esgueirou, entrando na casa vizinha. O cansaço e o medo faziam com que se movesse muito lentamente. Como por instinto seguiu a pequena luz e foi parar na sala. Lá, um abajur iluminava muito fracamente a mesa onde um homem escrevia. Gregor ficou olhando aquela cena, tinha algo familiar, o que era? Aquele homem curvado, escrevendo na semi-escuridão, quase clandestinamente. Gregor foi sentindo nascer dentro de si a certeza de que o conhecia. Quem? Tão encolhido, como se estivesse cometendo um crime. Sim, devia ser. Franz. Claro, era ele. Franz Kafka. Gregor juntou suas últimas forças e foi se aproximando, cada vez mais. Se esgueirando silenciosamente pelo espaldar da cadeira. O homem parou de escrever, como que pressentindo algo. Mas, antes que se virasse, Gregor usou suas últimas forças para apertar-lhe a garganta com suas antenas.


SONHOS

Sonhou que largava tudo, emprego, família, aquela vidinha e finalmente aprendia a tocar bateria. Acordou com as pancadas. Não as suas, na bateria sonhada. Não, em plena madrugada alguém esmurrava a porta do apartamento. Levantou assustado e foi correndo ver o que era. Pelo olho mágico viu a cara zangada do vizinho. Abriu a porta, sem entender, e o homem, ainda furioso, lhe disse:

- Sonhei que você sonhava que estava finalmente aprendendo a tocar bateria.

Mais surpreso ainda, ele confirmou. Realmente estava dormindo e sonhando que aprendia o instrumento de que tanto gostava. E o vizinho, ainda de mão fechada e quase mordendo os próprios dentes:

- Acontece que quando você toca no seu sonho, me acorda no meu sonho. Portanto, pare de sonhar com isso e trate de ficar acordado. Eu quero dormir, entendeu?

Deu meia volta, entrou no seu apartamento e bateu a porta com força।

sábado, 13 de novembro de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Um novo haiconto de Alice Barreira.

A VISITA

Como faço todas as tardes, tomei meu banho, botei um vestido bem leve, me maquiei, passei perfume, ajeitei os cabelos com gel, fui até a sala, chamei um táxi, desci no elevador, cumprimentei o porteiro, peguei o taxi, dei a volta no quarteirão, saltei, tornei a cumprimentar o porteiro, subi no elevador, parei em frente à porta e toquei a campainha.

Ninguém abriu.

Insisti. Uma, duas, três, quatro vezes. Nada. Não adianta. Não estou. Nunca estou. E fico aqui parada, diante da porta, na dúvida: deixo um bilhete para mim?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Maninho Cesar,
Aí vai mais um haiconto de minha larva. Publique-se! (Ou limpe-se com o papel, o que você achar mais sensato e oportuno.)

Beijos nos córneos
Alice

O SENTIDO DA VIDA

1. Ele sabe que precisa se levantar. Mas sente muito, muito sono.
2. Ele vai se levantar, mas só em pensar que terá que enfrentar tudo de novo...
3. Ele pensa: pra quê? Pra quê? E continua deitado.
4. Ele quer que o cérebro lhe mande um comando: levantar! Mas o cérebro lhe manda uma frase estranha: “a vida não vale a pena e a dor de ser vivida”.
5. “Quem terá dito esse troço?”, ele pensa.
6. Em seguida ele sacode a cabeça, espantando o torpor e dizendo pra si mesmo: não adianta ficar com essa conversa mole. Tenho que levantar a-go-ra! Vamos lá.
7. Mas o resto do seu corpo grita: “ah, só mais um pouquinho!”
8. Em vez de reagir, ele ri. Ri muito.
9. Enquanto tenta conter o riso, ele pensa: “mas o que será que está acontecendo comigo dessa vez?”
10. Por fim ele diz: “ah, foda-se. Eu queria mesmo era ser sambista”, e afunda de vez a cabeça entre as luvas, enquanto o juiz ergue o braço do outro lutador e o estádio delira e urra.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


POR ALICE BARREIRA

Querido irmão,
Aí vão os tais comentários. Pode publicar no Patavina’s. E parei de vez com os remédios, viu?
Baci
Alice.



Aumenta cada vez mais a conversa fiada de que o e book é um puta sucesso e vai já já superar o livro de papel. O que há é uma gigantesca máquina montada para vender essa e todas as outras traquitanas informatizadas que a indústria inventa. Ou alguém aí acredita que tecnologia cai do céu, é mais um milagre que Deus manda aqui pra Terra? As notícias que saem em toda a mídia dão a impressão de que estão simplesmente sendo atendidos os desejos das pessoas, que adoraram essas novas tecnologias. Conversa fiada. O que há é muita grana em publicidade, financiada por um grupo que vai faturar cada vez mais milhões e milhões de dólares, impondo sua vontade industrial goela abaixo da parte da humanidade que interessa a eles, que são os consumidores, com dólar suficiente no bolso e shit suficiente na cabeça pra ser feita de trouxa. Não há nem um milímetro de democracia no mundo dos negócios e da tecnologia.

Vi o documentário sobre a vida de John Lennon nos States. Chama “Os EUA VS John Lennon” e é muito bom. Pra quem não quiser continuar cego é uma boa chance de ver a escrotidão que se vende pelo mundo com o nome de democracia americana. A covardia americana contra um país pequeno e corajoso, que bota pra correr o Império mais filho da puta da história. E a covardia de um presidente americano, Nixon, que persegue o ex-beatle. Enquanto Lennon aprendeu uma porrada de coisas sobre o mundo real (como ele mesmo admite) e é perseguido pelo FBI, seu ex-parceiro Paul continuou sendo o babaca de sempre (e continua até hoje). Quanto a Yoko, qualquer semelhança com a perseguição de que foi vítima Elza Soares no Brasil, por amar Garrincha, não é mera coincidência.

Maninho, você viu que saiu o novo livro velho do Paulo Coelho? Chama-se O Aleph. O cara não se deu ao trabalho nem de escolher um título original, pelo menos. Copiou direto do Borges. Mas tá cheio de gente comprando. E ainda dizem que o Borges é que era cego.

Aliás, meu irmãozinho querido, também saiu o livro novo do teu amado Trevisan. Sinto te informar, mas o cara envelheceu e tá diluído em 400 copos dágua. Bom, mas vai reclamar do quê? Poucos estiveram tanto tempo no topo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

Meu irmão,

Quem sou eu para negar um pedido de meu público, esta gente submissa? Adoraria amarrá-los e dar em todos umas boas chicotadas. Ou pode ser com você mesmo. Topas?

Beijos da mana,

Alice


Cara irmã,

Topo pagar mais um ano de terapia pra você. E obrigado pelos textos.

Beijo

Cesar


as nãopatias - 2

Para alimentar seus inimigos
Espere chegar o mês de agosto. Então, em uma bacia, misture dois litros de seu perfume preferido e sete colheres de sopa de urina de rato. Leve ao fogo. Quando estiver fervendo, coloque suas mãos em imersão até que a pele se solte, depois a carne e por fim os nervos. Tempere com pimenta, sal e noz moscada e sirva.

Para fazer a pessoa amada pensar em você
Pegue a polpa de dez morangos, abra a cabeça da pessoa amada com golpes de talhadeira e deposite ali os morangos. Recoloque os pedaços da cabeça no lugar e envolva tudo com sudários até que, por milagre, o sangue estanque. Quando a infecção supurar marque a data de seu casamento.

Para que lacraias entrem em seu ouvido durante o sono
Numa noite de quarto minguante, procure o tronco podre de uma figueira numa praça ou num parque. Deite-se ao pé dela e faça uma trilha de excrementos de serpente das raízes até seu ouvido esquerdo. Espere as lacraias seguirem a trilha, entrarem em seu ouvido e aguilhoarem seu tímpano. O inchaço resultante será aliviado pelos túneis que as lacraias cavarão dentro de sua cabeça. Deixe-se embalar pelo ruídos de suas patas e só então adormeça e sonhe.

Para que o bebê rejeite seu leite
Unte seus seios com uma pasta de mel e curare. Dê o seio para o bebê. A princípio ele vai rejeitar devido às queimaduras que o curare causará em seus lábios. Mas a fome vai ser mais forte que o medo do veneno. Em três dias começarão os vômitos.

Para ser reconhecido por animais das florestas de Bangla desh
Desaprenda a falar e a ouvir. Passe a caçar seus alimentos, começando com insetos e, aos poucos, matando pequenos mamíferos, até chegar a seus familiares. Lembre-se de agradecer a Deus o alimento que ele lhe dá e você estará pronto.

Para ter feridas que não cicatrizem
Vá morar em frente a uma igreja. Cubra a sua cama com sete quilos de açúcar do tipo demerara. Quando o sino da igreja marcar as seis horas da tarde, pegue uma navalha e vá separando a pele das canelas até que as veias fiquem à mostra, sempre repetindo: “navalha-me Deus na terra”. Deite-se então na cama, cubra-se com o açúcar e espere as formigas sentirem o cheiro e chegarem. Repita esse procedimento por sete semanas, cada vez subindo mais os cortes pelo seu corpo, até chegar aos olhos.

Para que seu filho não tenha mais medo da noite
Numa madrugada sem lua, acorde seu filho mais novo com gritos, pegue-o pela mão, atravesse com ele o corredor da noite, ceguem o cachorro, currem dois sonhos e matem o irmão mais velho. Em seguida vão dormir que já é tarde.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

Alice, minha irmã querida, o pessoal escreveu pedindo novas nãopatias. Pode ser?
Beijos do mano,
Cesar

OS BRAVOS SOLDADOS DO FOGO
Acordei com a sirene. O barulho veio vindo, aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri a abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. Insisti que não havia nenhum incêndio em qualquer lugar da casa. Mas eles me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, sempre há um incêndio.

CELULA MATER
Tem que ser uma facada só. E firme. Você apalpa o pescoço e sente direitinho o vão. É ali, não tem erro. Despeja o sangue numa vasilha. Ah, emplastro de vic vaporub. É tiro e queda. No dia seguinte a tosse já sumiu. Joanete, minha filha, me matando. Foi uma cerimônia muito bonita. As palavras do pastor me emocionaram, sabe? O ponto cheio vem depois. Primeiro você faz o ponto de alinhavo. E os salgadinhos? Levinhos! Tinha até de camarão. Ruim com ele, pior com ele.

UM SINAL
Ei, não tá me conhecendo? Sou o filho do hulk, lembra de mim? Eu compro, eu vôo, esmola e chafariz, tá ligado? Ei, mister, come on, I have a ritalina, I have a rivotril. Tudo aqui na veia, na bolsa de quem passa atrás do vidro. A segurança do cinto, né? Não tem essa não, aqui é o maior cinema na sarjeta, hollywood, jet set, bagdá, tá ligado? Eu tô. Ligado no sonho de craque que o crack do sonho me dá. Ei, mister, olha só, bolinha no focinho, uma foca negra no sinal. Eu compro, eu vôo. Cartão e celular. Ei, não tá me conhecendo? Sou a mãe do Volverine. Morrer não é tão ruim assim.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Meu caro maninho Cesar,
Aí vão as minhas primeiras nãopatias. Outras virão. Só não trago a pessoa amada em três dias. Posso, no máximo, levá-la, sem devolução.
Beijos desaforados e adentrados,
Alice (no país dos muravilhos)
(PS: você viu a exposição de arte em Sampa? Quando o problema da arte passa a ser a Receita Federal, algo já esqueceu de apodrecer, não achas?)

as nãopatias

Para que seu tio volte a molestá-la
Numa tarde nublada pegue uma faca só lâmina e retire os testículos de um carneiro. Use o sangue para untar uma Barbie, cubra tudo com punhados de arroz cru e enterre à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais.

Para que a pessoa amada perca os movimentos do lado direito do rosto
Junte punhados de tinhorão e espirradeira, coloque num liquidificador com um litro de seiva de coroa de cristo e bata até obter uma pasta. Durante um mês coloque um copo desse líquido na máquina de lavar junto com as roupas da pessoa amada e repita enquanto a lavagem acontece: com dois te movo, com dez te paro.

Para que não cresçam dentes nos umbigos
A cada noite de lua nova corte um punhado de cabelo de uma pessoa cega e prepare com eles uma sopa. Acrescente vidro moído obtido de janelas. Deixe ferver até secar e ponha as sobras ainda quentes dentro da fronha de seu travesseiro. Durma. Repita esse procedimento por dois meses.

Para ter sangramentos e hemorragias
Fume alguns maços e apague os cigarros um a um em seu supercílio direito, até que aconteça o rompimento de vasos sanguíneos. Repita a cada vez: “o poder do sangue, o sangue do poder, com ele sou vaso que vaza, vermelho de ser”. Para as mulheres, os cigarros podem ser substituídos pela gravidez seguida de aborto induzido por objeto perfuro-cortante.

Para que seu bicho de estimação não consiga mais se alimentar
No dia de São Francisco, retire o menor dente que seu bicho de estimação tiver, com um alicate de unha. Faça um breve com um pano da cor do pelo ou das penas ou da pele do animal e deixe de molho em uma papa de urtigas por três dias. Depois que secar, queime e jogue as cinzas na água do animal. Mas antes, retire o dente e implante-o em sua boca.

Para que nada aconteça
Na madrugada da oitava Sexta Feira de cada mês, acenda uma pequena vela cor de rosa e tente comê-la sem apagar sua chama. Para certificar-se de que a chama não se apagou, olhe no espelho até conseguir ver o brilho dela dentro de você. Desse dia em diante, nada acontecerá.

sábado, 10 de abril de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Novos haicontos de Alice Barreira

O ARTILHEIRO

Logo cedo, após o café da manhã, sou levado para a sala completamente às escuras. Me conduzem até a posição em que devo ficar, alguns passos antes da bola. Não muitos, para não correr o risco de perder a direção dela. Ao ouvir o apito, eu devo cobrar o pênalti imediatamente, sem usar o tempo para tentar enganar o goleiro que, eles me garantem, está lá à minha frente, sobre a linha do gol, tentando defender minhas cobranças. O apito, alto e prolongado, é a única coisa que nós dois conseguimos escutar enquanto eu chuto e ele tenta defender. Alguém, ou algum mecanismo que nem eu nem ele conseguimos ver, logo repõe uma bola na marca do pênalti, eu torno a ouvir o apito e me movimento para uma nova cobrança. E assim passo meus dias, com uma breve interrupção para o almoço, que deve acontecer por volta das duas da tarde, segundo meus cálculos. Quanto gols terei feito? Quantos perdi? Não sei, mas sigo tentando me aperfeiçoar.

BANDIDOS REAGEM À PRISÃO
E MORREM EM QUEDA

Durante uma operação na madrugada de ontem, dois homens foram surpreendidos por policiais da 28ª DP em atitude suspeita numa casa velha no Alto da Mooca। Segundo o Sargento Oliveira, comandante da operação, o local, com cerca de dez metros de frente e dez de fundos, é um conhecido abrigo de vagabundos que não têm onde dormir. Os policiais cumpriam um mandato de despejo e uma ordem judicial para demolição quando foram atacados a tiros por dois marginais, conhecidos apenas como Joca e Mato Grosso. Na tentativa de fuga que se seguiu parte do piso da maloca desabou, carregando com ele os dois homens. Eles ainda foram levados com vida ao Hospital das Clínicas mas não resistiram aos ferimentos. Com os marginais a polícia apreendeu dois revólveres calibre 38, meio quilo de maconha e um pacote de torresmo à milanesa. Um homem que se identificou como João Saracura e se disse fiscal da prefeitura, garantiu no entanto que a maloca na verdade é um palacete assobradado, estava legalizada e ninguém podia demolir. Saracura foi detido para averiguações.

O ENGANO

Eu falei, insisti, briguei, me aborreci. Adiantou? Aquele idiota não me deu ouvidos. Por que ele seria escolhido? Um vaidoso, isso sim. Sempre se achou melhor do que os vizinhos, do que nós, do que todo mundo. Quantos meses gastamos nesse projeto maluco? Podíamos ter fugido pra bem longe, como tanta gente fez. Não, aqui trabalhando feito escravos por este sonho doente. E esses animais, pra quê? Pra quê? Se nem podemos matá-los pra nos alimentar. Quando o céu começou a escurecer, ele virou o tal. Não falei? Não falei? – repetia feito um corvo. Trancou a nós todos aqui, junto com esses bichos barulhentos e imundos. E a chuva? E o aguaceiro prometido, você viu? Pois sim, quarenta dias caindo terra e mais terra do céu. Nunca vi nada assim. Dormir ficou impossível. E afinal, o que aconteceu? O que é isso, um deboche? Agora estamos aqui, soterrados nesta desgraça que tinha que ser tão segura. Presos nesta escuridão, com o ar cada vez mais pesado e as feras rondando cada vez mais perto, cada vez mais perto.

segunda-feira, 22 de março de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


NOVOS CONTOS DE ALICE BARREIRA

Meu caro maninho Cesar,

Aí vão três haicontos inéditos pra animar teu blog. Ainda não estão no ponto mas eu chego lá. Vamos parar de falar de amor, da natureza, do futuro. Essas coisas são boas pra vender shampoo, apartamento e carro. Vamos falar mesmo é de assassinato e ódio, que é a nossa especialidade enquanto humanos.

PS: o que você acha da gente currar uns arcebispos e depois escrever cartas pedindo desculpas, como eles fazem?

Beijos incestuosos da tua sempre mau comportada irmã,

Alice

A SAÚDE DO BEBÊ

A bolsa d’água já se rompera, o marido já estava com o carro ligado, a mãe já levava a mala com as roupas, a empregada já esquentava o jantar para o filho, o trânsito já estava desimpedido na avenida principal, a vaga para o carro já estava reservada na maternidade, a equipe médica já estava toda preparada, a respiração cachorrinho já lhe saía pela boca, a anestesia já lhe entrava pelo braço, a criança já estava na posição, a médica já a retirava, o marido já filmava tudo e a filha caçula já tinha vindo ao mundo.
A recém-nascida, de cabelos brancos, mãos trêmulas e enrugadas, olhou para ela com dificuldade e disse:
- Sou eu, sua avó.

DE TUDO AO MEU AMOR

Tantas e tantas vezes tinha se imaginado ali. Esperou alguns homens entrarem primeiro, para ter com quem aprender em caso de dúvida, que ele tinha certeza que surgiria. Por fim deu seus passos, como quem entra no labirinto.
Foi cumprindo com facilidade as tarefas. Descobria maravilhado que eles – fossem quem fossem – estavam ali para facilitar. Pôs o troco no bolso, passou pela porta que se escancarava diante dele e, com mão firme, colocou a moeda no local indicado.
À sua frente, uma cortina se abriu por trás de um vidro transparente e suado. E ele pôde ver, por fim. Ela devia ter o quê? Uns oitenta, oitenta e cinco anos. Usava um peignoir que fora rosa um dia e escovava os dentes. Ele começou a se tocar. Sabia que tinha cinco minutos mas quando ela tirou a dentadura e começou a escová-la na mão, não se conteve mais.

RIR É O MELHOR

No centro do palco um sujeito usando roupas de atleta está amarrado de cabeça pra baixo há mais ou menos uma hora e meia. Ele não disse uma palavra, percebemos apenas sua respiração pesada. Por fim, um outro sujeito, também com roupas de atleta, entra em cena, em marcha cadenciada, dá duas voltas pelo palco e, ao passar novamente pelo que está amarrado, saca um revólver e lhe dá um tiro na cabeça, fazendo espirrar sangue até a terceira fila pelo menos.
E nós estouramos numa gargalhada sem fim.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –



Meu caro maninho Cesar,

Lá vai meu segundo texto no Dedo de Moça, a antologia das Escritoras Suicidas. É mais uma Nova Carochinha. E você viu que o José Castello falou do livro na coluna semanal dele no Prosa e Verso? Pois então, roa-se todo de inveja e aprenda de uma vez por todas quem é que escreve na família. É dos caçulas que eles gostam mais... (E trata de publicar o texto dele aí no Patavina’s, viu? De preferência com a capinha do livro. Rá, rá, rá! )

Beijos incestuosos como sempre de sua maninha caçula como nunca,

Alice


CHACINA NO PALÁCIO
Irmãs da rainha Cinderela encontradas mortas
Família Real usa lei para não dar declaração
Criadagem revela detalhes do crime hediondo

Uma tragédia abalou o fidalgo cotidiano da Família Real e a tranquilidade da nação: as duas irmãs da Rainha Cinderela Augusta Caetana Gala Plotina de Bourbon e Vendôme foram encontradas mortas em seus aposentos, na ala sul do Palácio. O porta-voz da Família Real declarou que “o dolorosíssimo incidente já está sob a responsabilidade dos órgãos competentes, os Olhos e Ouvidos do Rei,” e pediu a compreensão de todos para o silêncio do Monarca e da Rainha, “extremamente abalados e tão ansiosos por esclarecimentos quanto qualquer um de nossos súditos”. Já a Rainha Cinderela lançou mão de seu direito real para não dar declarações nem poder ser interrogada e proibiu a entrada no Palácio da Polícia de Averiguação Criminal, encarregada de todos os crimes do reino.

NOTÍCIA SE ESPALHA

Apesar das determinações e cuidados tomados, a terrível notícia se espalhou rapidamente pelo reino. Segundo apurou nossa reportagem, algumas criadas do Palácio tiveram acesso ao local e juraram ter-se tratado de um crime com requintes de violência e selvageria. As irmãs Amélia Teresa e Cecília Cristina sofreram dezenas de perfurações e teriam se esvaído em sangue até a morte, lenta e dolorosa. O provável objeto que perpetrou o crime seria algum tipo de faca muito afiada, possivelmente uma adaga dupla sarracena, o que levantaria suspeitas de um atentado terrorista. Mas, ainda de acordo com algumas criadas, no meio da madrugada a madrasta da rainha Cinderela teria saído do aposento fatal, onde encontrou os cadáveres de suas filhas, chorando muito e gritando: “foi ela, ela finalmente se vingou”. Essa mesma fonte, que pediu para permanecer no anonimato, disse que a madrasta estaria acusando a enteada de ter assassinado suas filhas para se vingar do tempo em que vivia no borralho. O porta-voz da Família Real desmentiu todos esses boatos e declarou que a madrasta, atual Duquesa de Brabante e Campinas, abaladíssima com a perda foi sedada pelos médicos reais e está recolhida aos seus aposentos, orando e pedindo orações a todos os súditos. E divulgou o retrato falado de dois malfeitores que teriam conseguido penetrar na ala sul do Palácio com o intuito de roubo. Ao serem descobertos pelas irmãs, os dois meliantes teriam cometido o crime e fugido sem conseguir furtar nada, afirmou o porta-voz, garantindo ainda que os facínoras tiveram sua entrada facilitada por alguns membros da criadagem, muito provavelmente os mesmos que agora divulgam boatos infundados e mesquinhos, com o objetivo de despistar as investigações e permanecer sem serem descobertos, nas sombras de uma vida de crimes.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
UMA RELAÇÃO TUMULTUADA
O porta-voz da Família Real não se cansa de
declarar que no Palácio todos vivem felizes para
sempre, fato que pode ser comprovado nas fotos que
diariamente vemos em nossos jornais: uma família
unida e sempre risonha. Mas muitos são os que
apregoam haver disputas, intrigas e desavenças por
trás de tantos sorrisos. Boatos dão conta de que,
desde que foi aclamada Rainha, Cinderela não
permitiria a presença das irmãs nas refeições e
mesmo sua madrasta só seria autorizada a desfrutar
da mesa com a enteada sob a condição de ali
permanecer em silêncio. Há ainda a estranha história
da cirurgia plástica a que Amélia Teresa e Cecília Cristina
estariam se submetendo com o cirurgião real e que
teria sido interrompida por Cinderela, causando danos
irreversíveis aos rostos de suas irmãs. O que há
de verdade e de perfidiosa invenção nesses
boatos? Talvez nunca saibamos.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


DEDO DE MOÇA & ALICE BARREIRA

Meu caro maninho Cesar,

Aí vai mais uma carochinha. Essa é uma das duas que saíram na coletânea das Escritoras Suicidas, Dedo de Moça. Te mandei o livro mas você não me disse se recebeu, seu mal educado. E você, continua escrevendo? Isso mesmo: insista bastante que um dia você aprende.

Beijos em tua bela boca.

Da sua irmã, cada vez mais caçula e incestuosa,

Alice


PROVANDO DO FEITIÇO

O príncipe avisou-lhe que ia ficar longos meses fora em mais uma guerra, mas que seria o mais cruel dos homens em cada batalha, para assim poder voltar logo aos braços de sua esposa e amada; e nas batalhas, enquanto torturasse e matasse seus inimigos, não pensaria em outra coisa a não ser nela. Beijou a testa da princesa e se foi. Ela se deixou ficar na janela real, vendo o príncipe e a tropa desaparecerem na curva da estrada real. Tudo ali era tão real... E ela chorou como nunca chorara, nem nos tempos de maldições, perseguições e bruxarias, nem nos piores pesadelos que tivera nos cem anos de sono.

Houve então um passe de mágica, coisa que ela não via há anos. E a outra surgiu bem à sua frente. Perguntou quem era a aparição e ao saber que se tratava de sua fada madrinha, questionou logo: por que você me deixou dormir cem anos? A outra explicou então que era apenas uma de suas fadas madrinhas, não tinha tantos poderes assim, muito menos para enfrentar a bruxa que a enfeitiçara, fazendo-a dormir aquele tempo todo. Mas também tinha valor, afinal fora ao seu batizado e lhe dera de presente nada mais nada menos do que a beleza, atributo que ela ainda carrega no nome e no corpo, e que encantara o príncipe. Ao ouvir falar do príncipe, Bela suspirou e balançou a cabeça. A fada logo interpretou o gesto como saudades, prontificou-se a usar seus poderes para resolver o problema e antes que Bela dissesse ah, brandiu sua varinha de condão e se metamorfoseou no príncipe, mais encantado do que nunca. A fada-agora-príncipe ia começar uma possível declaração de amor, mas Bela interrompeu-a. Não suspirara por saudades do príncipe, a vida do casal já estava longe de ser uma maravilha, ele só pensava em guerras, invasões, batalhas e o mais das vezes chegava exausto na cama, pegando no sono rapidamente. Pelo menos não roncava, como Bela ouvia falar da maioria dos homens, mas deveria sonhar muito mais com os inimigos do que com sua princesa.

Diante dessa triste história, a fada voltou à sua forma original e as duas sentaram-se na varanda do quarto, que dava para o bosque real. E então foi a vez da fada desabafar. Sua vida também não era tão graciosa quanto parecia nas histórias. Fadas passam os dias e as noites fazendo mágicas, quase sempre as mesmas. Arranjam muitos príncipes, mas nunca ficam com nenhum deles, sempre morrem solteiras. E lembrou quantas vezes desejara para si um daqueles homens que entregara para tantas donzelas. Certa vez, não se conteve e ficou invisível para espiar um deles nu, no banho. E qual não foi seu susto ao ver o tal príncipe se masturbar no banheiro. Chegou a dar um grito, que fez o outro interromper o que fazia, olhar em volta desconfiado e se certificar de que a porta do banheiro real estava mesmo trancada.

As duas riram um pouco e Bela contou sua única aventura. Foram — ela e seu príncipe — visitar um reino vizinho. Lá mandava um imperador. O homem achava o título mais imponente do que príncipe ou mesmo rei. Era muito vaidoso, como a maioria dos reis, príncipes ou lá que nome tivessem ou se atribuíssem. E embora ficasse se pavoneando bastante, era de fato inteligente e bonito e Bela passou a noite entretida com seu charme. Na hora dos licores e charutos, seu marido foi escolher o que iria fumar e ela ficou a sós com o imperador por um brevíssimo instante. Muito breve mesmo, mas suficiente para que o homem a agarrasse pela cintura, a puxasse para si e lhe tascasse um beijo na boca. Bela conseguiu se soltar, deu um tapa no rosto do abusado, e foi ao encontro do marido no salão ao lado. E até o final da visita, ela e o conquistador barato agiram como se nada houvesse acontecido. Bela nunca tocou nesse assunto com o marido nem com ninguém. Nem contou — como fazia agora — que não botou muito empenho no tapa e até demorou um pouco para começar a fazer força e se soltar. Ainda era capaz de sentir os lábios do outro nos seus.

Nesse instante a fada dá um pulo do sofá e, enquanto grita "tenho uma ideia!", corre até o quarto, pega sua varinha e — mágica das mágicas, tudo é mágica! — se transforma no imperador vaidoso. Bela olha o outro sem saber o que fazer. Então, lentamente, se aproxima e beija aqueles lábios, agora sem tapa nem interrupção.

E elas não foram felizes para sempre, mas tiveram muitos momentos divertidos naqueles dias.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Meu caro Cesar,
Aí vão os contos que você pediu. E você me pergunta porque escrevo? Bem, só posso te dizer que se fosse sólido eu comia, se fosse líquido, eu bebia. Escrevo porque é gasoso.

Besos,

Alice Barreira

QUE HORAS SÃO

Sempre nunca, como quem fosse aos Estados Unidos e jejuasse no guichê do correio até que uma amiga lembrasse de enviar um cartão postal dando notícias de mim. Andar de bonde em São Francisco e ficar muda em outra língua talvez acalmem este não querer olhar como meu pai fazia. Ah... o cigarro e a vodka podem ser boas apólices de seguro. Por que as alfândegas só me pedem passaportes? Eu gostaria de contar ao homem de sorriso gentil que torço pelo Fluminense, que fiquei viúva, que não vi a uva. E ele, solícito, carimbaria minha alma e determinaria meu tempo de permanência em algum lugar.

O tempo, esta soma improvável de vontade e acaso.


ESTRELA BRASILEIRA NO CÉU AZUL

Ah, se eu tivesse um avião! Cada problema um aeroporto, cada angústia uma viagem. Apertem os cintos, os acentos são flutuantes, non stop. E o sorriso seguro das aeromoças.

Alguém morreu? O DCA avisa que é proibido fumar em todo território nacional. Separação? O prazo de validade do passaporte é de dez anos, podendo ser renovado. Câncer? Flight number fifty two now boarding in gate four.

Quanto ao anseio infinito e vão, quanto ao nunca de núncaras, as linhas aéreas literárias agradecem a preferência e esperam sempre contar com sua presença a bordo de nossas aeronaves.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


HAICONTOS

Com o cansaço antecipado do que não acharei, fui para o meio de Lisboa acompanhar o início das filmagens de Haicontos, média-metragem do cineasta português Fernando Gente, baseado em 15 contos meus. O roteiro foi premiado e conseguiu financiamento da Faculdade de Cinema da Victoria University of Wellington, da Nova Zelândia, e mesmo que ninguém entenda porque a Nova Zelândia resolve financiar cinema em português, deve ficar pronto em meados de 2010 ou Deus sabe quando. Seguem três dos haicontos, que no filme vão se misturando, formando aquela terceira cor que alguém chamou de aurora. Tomara que o filme não fique como ervas, sem ser arrancado.

Alice Barreira

PRETÉRITO DO FUTURO

Uma chuva fina começava a cair e eu apertei o passo para atravessar a praça e chegar logo ao teatro. De repente o velho surgiu quase à minha frente, como se tivesse se materializado do nada. Vinha num arremedo de corrida, com uns passinhos miúdos e desencontrados, e de súbito estacou, sacudiu os braços e deu meia volta.

Vai embora o velho doido, eu pensei. Mas ele deu outra meia volta e recomeçou seu estranho balé de passinhos desengonçados, tentando uma rapidez que não alcançava e vindo novamente em minha direção. Então foi minha vez de parar e olhar fixamente para ele, tentando algum contato ou pelo menos entendimento. Mas o velho seguiu absorto em sua dança, ritual ou mal de Parkinson.

Se estendesse o braço poderia tocá-lo. Súbito, ele partiu pra cima de mim, cabeça baixa, cheguei a levantar as mãos em sua direção para evitar uma trombada. Então ele deu uma guinada de corpo para a esquerda. Tive a certeza que ia cair. Mas não. Seus pezinhos gingaram e o levaram a passar por mim. Em seguida esticou a perna e novamente se pôs a sacudir os braços, dizendo algo incompreensível. O que dizia o velho? Que língua era aquela? Ou melhor, que monossílabo era aquele, repetido já quase ao lado do meu ouvido?

Gol. Era isso. O velho repetia gol, gol, gol. E me encarava com seu grito quase mudo. Gol. Olhei fixamente seu rosto, a boca, o nariz torto, os olhos, o olhar, aquele olhar, naquela praça.

Sim, o velho era eu.


PROFISSÃO

Uma haste dos óculos presa com esparadrapo. A dentadura frouxa por causa da boca torta. A boca torta devido ao derrame. As costas com uma dor constante do abaixar para as guimbas. Os dedos amarelados pelas guimbas. O peito atravessado pela alça da bolsa. O zíper quebrado. Os retratos amassados dentro da bolsa. Os tios, a mulher, o casal de filhos, às vezes na memória. As pernas sobre o cobertor. O cachorro por entre as pernas, latindo para os garotos que jogam futebol bem em frente e gritavam gol, gol, gol.

A memória por entre a boca. As pernas frouxas. As costas presas com esparadrapo. Os tios, a mulher, sobre o cobertor. Uma haste dos óculos dentro da bolsa. O peito atravessado por uma dor constante, bem em frente. A dentadura quebrada. As guimbas tortas na boca. Os dedos tortos do abaixar por causa do cachorro. Os retratos amarelados dos garotos no futebol. As pernas devido ao derrame. O casal de filhos amassados pelas guimbas, pela alça da bolsa, pelo zíper. Às vezes latindo.

Bem em frente, a placa, na calçada: aluga-se.


FINADOS


Os helicópteros seguem cruzando o céu e despejando bombas, ao som de Waldick Soriano, enquanto as crianças interrompem o futebol para que a kombi do ferro-velho passe lentamente, quase se desconjuntando, com o velho ao microfone, compro minas, compro aerrequinzes, compro máquinas de lavar. Ninguém o escuta no meio da algazarra de mulheres disputando a unhadas e empurrões as ofertas dos camelôs. Do outro lado do campo de terra batida os gigolôs tentam eles mesmos satisfazer os clientes depois que todas as putas foram internadas com a epidemia.

Apenas uma pessoa atravessa em passos lentos essas pequenas multidões e se aproxima do que restou do pequeno cemitério. Ele entra, dobra à esquerda e logo se ajoelha. É Deus. Ajoelhado, ele deposita uma tábua no túmulo da esperança.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


A escritora Alice Barreira lembra dos velhos carnavais e de outras dores da infância. Afinal, o que cantava aquela marchinha: saudade é coisa que dá e passa ou que dá e pesa?

BIGORRILHO

Lá em casa também tinha um bigorrilho. Bigorilho fazia o quê? Acordava sempre muito tarde e ia fazer as entregas do açougue da esquina. Lá pelas quatro tinha terminado e então sentava-se num banco no quintal, tendo à frente uma mesa improvisada e bamba que ele mesmo fizera. Ali colocava a garrafa de cachaça e o copo e começava a beber. Quando passávamos por ele fazia sempre algum comentário sobre o tempo e conforme anoitecia entendíamos cada vez menos o que dizia.
Minha mãe dizia que bigorrilho era nosso tio. Mas ele não era seu irmão e no retrato de meu pai ainda jovem havia alguns outros rapazes que poderiam ser seus irmãos mas nenhum deles era o bigorrilho. Ele e minha mãe conversavam coisas que a gente não conseguia escutar.
Aos poucos bigorrilho foi acordando mais tarde e voltando mais cedo das entregas, até que parou de fazê-las e começou a sentar-se no banco do quintal logo depois do almoço. No final da tarde nós já não compreendíamos suas frases sobre chuva, sol ou nuvens. Ele também passou a pedir dinheiro à minha mãe.
Até que uma noite bigorrilho invadiu nosso quarto. Nessa época já passáramos todos a dormir no quarto de minha mãe. Mais uma vez não entendemos o que ele disse. Tenho quase certeza que queria mais dinheiro. Mas ele não repetiu a frase, como sempre fazia. Em vez disso começou a bater em minha mãe.
Hoje bigorrilho continua morando conosco e bebendo sua cachaça. Minha mãe lhe dá o dinheiro. Ela perdeu dois dentes e um pouco da visão do olho esquerdo. Eu não confio mais nela, nem em ninguém. Bigorrilho foi quem me ensinou.

ALICE BARREIRA

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

LETRA DANDO SOPA / SOPA DANDO LETRA


LONGA VIDA ÀS ESCRITORAS SUICIDAS

Saiu a nova edição de textos das Escritoras Suicidas, blog de literatura onde escreve Alice Barreira, colaboradora aqui do Patavina’s. Esta edição conta com 36 autoras e traz como temas: “Agora é quase amanhã”, “Brinquedo” e “O Nono mandamento”. Alice Escreveu um conto chamado Brinquedo e que começa assim:

“Um beijo pra Deus e o demônio que vá pro inferno. Agora posso dormir sossegada. É só fechar os olhos com força e não lembrar. O pior é que amanhã de manhã tem culto. Se pelo menos esquecessem de me acordar ou caísse um temporal ou aparecesse um furacão. Mas garanto que logo cedo minha mãe aparece na porta: ‘Tá na hora, vai lavar esse rosto.’ E lá vou eu, manga comprida, um calor de matar, a gola me espetando o pescoço e o coque que a minha mãe cisma em fazer, rodando e rodando meu cabelo. Ela diz que aperta bem pra aparafusar minhas idéias. Me dá é dor de cabeça. Merda de culto, água fria e coque! E mais coisa pra me arrepender.”

Quer conhecer o resto? É só ir lá no blog: http://www.escritorassuicidas.com.br/

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


O METEORO

Todo filme é de época. Toda época é cega. Depois do Renascimento, da imprensa e das grandes navegações, vivemos o Remorrimento. Temos mil capacidades de nos destruirmos. E ao planeta. Depois dos minutos de fama, agora cada um de nós agora terá direito a 15 segundos de terror, jogando uma bomba no seu lugar ou no seu inimigo preferido.

Mas todos eles estão errados, a lua é que quem, afinal? Talvez dos trans-homo sapiens, que do futuro nos pensam, a nós, que desaparecemos. A espécie Homut substitui a humana. Depois do ie-ie-iê, o gen-gen-gen. E vamos tomando ciência pela manhã, bebendo tecnologia pela noite e vomitando história na madrugada.

Eis aqui esse marzinho feito de uma margem só, outras margens vão surgir mas a nossa é uma só. E naufragamos. Isto é a consequência do que acabo? Talvez, mas não é a morte. Graças aos laboratórios criamos guelras e voltamos ao fundo do mar, como a primeira ameba. Lá estaremos a salvo da do terremoto que engoliu o Japão, do espirro que dissolve o cérebro, da gravidez em orelhas de rato? Encontraremos entre as algas mortas a vacina contra deus?

Num mundo tecnopântano rezamos. Apenas nos últimos quatro meses nasceram 428 messias, passearam pelos céus de cianureto 12 mil legiões de anjos com espadas de fogo, de laser, de fibra ótica, de espuma, de nuvem, holográficas. Oitocentas novas bíblias estão sendo escritas no ciber-espaço. Mil e 200 candidatos a Jesus se inscreveram para as próximas eleições. E tudo com desconto no Amazon.

Mas as tentações não nos deixam cair. Grandes corporações escrevem poesia. As indústrias das armas dançam balé. Os cartéis das drogas tocam sonatas. E os discursos se falam sem precisar mais das bocas, das faringes, das cordas vocais, do ar nos pulmões. O silêncio foi proibido em todo o território internacional e todas as letras S foram transformadas em cãezinhos para crianças pela reengenharia genética. Liberdade, liberdade, abre as patas sobre nós.

Todos os fatos são pardos. Que importância têm as coisas? Chips subcutâneos nos fazem reproduzir, escolhem a programação do compceltv, autorizam as compras, bombardeiam países. O fundamentalismo ao alcance de todos. A catatonia em três lições. Os dez pixels para a felicidade.

Até que o meteoro louco veio do nada e nos desdisse a todos.

Alice Barreira

terça-feira, 25 de agosto de 2009

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –

chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
eles preferem vender essa metamorfose trambulhante
e raul sobe aos céus da mídia
doze pontos no ibope do fantástico
doze apóstolos de cristo doze meses no ano
o barulho acordou vovó na cadeira de rodas de balanço
ela abriu um olho reconheceu o roqueiro e sorriu meio lábio
chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
teu parceiro vende misticismo barato
nas esquinas do primeiro mundo
nós preferimos ser essa mediocridade faturante
nem com raul tocando a gente se toca
vamos vendendo sopa de mosca no hiper-mercado
somos tolos de ouro e al capone foi canonizado
junto com jimi joplin
o filho de proveta de miss janis e mr. hendrix
agora todo mundo é singular não existem mais plurais
maiakovsky mais um drinque
ainda é melhor morrer de vodka do que de tédio
hoje eu lembrei de você
e chamei o Raul e chamei o ladrão e chamei
que tudo se apagou

Alice Barreira


(Alice Barreira nasceu em Barura, no Amapá, em 1968. Trabalha como enfermeira, publicou por conta própria Pequena Enciclopédia de Inutilidades (contos, 1987) e vem colaborando com alguns sites como o coralsemvozes e o vivernavespera. Ainda em 2009 pretende lançar o livro de poemas Coisa Diacho Tralha.)