Quem não se lembra de Emília e de Amélia? Quem? Quem já não cantou uma delas? Ou até as duas numa noite mais animada, numa madrugada de samba e cerveja, lugares tão comuns?
POSSO MAIS
Não tinha mesmo. Ah, mas quanto custava a Amélia aquele exercício diário. Emília, não. Era vaidosa. Mas entre o fogão e o tanque não há vaidade que não se afogue, verdade que não se queime.
As duas costumavam andar no mercado, fazendo as compras e além das compras. Amélia. Emília. Amélia, Emília. Muito prazer. E passaram a se encontrar entre o sabão, o café, o óleo. Com o tempo, trocavam umas tantas receitas, umas poucas queixas, um ou outro desejo.
Mas houve o dia de apenas um desejo. Que Amélia nem sabia, pensava ser só aflição, sem perceber que das aflições nascem tantos desejos. O caso é que faria dez anos de casada. Ocasião especial? Quem sabe. Mas uma ocasião, isso era, com certeza. Emília animava a outra, tinha que se enfeitar. Mas Amélia tinha tantas verdades guardadas que não sobrara espaço aos enfeites. Por sorte, Emília sabia lavar, cozinhar e se enfeitar também. Levou a amiga até sua casa e emprestou-lhe um vestido vermelho com um decote que deixou Amélia vermelha só de ver. E colar, salto alto, perfume.
Que noite! De manhã Amélia ainda estava acordada, sentada na mesa da sala. Sozinha. O marido não lembrara da data e passara a noite fora. Quando ouviu bater as oito, tirou a festa do corpo e foi devolver a Emília. Que não se conformou. Começou consolando a amiga mas a raiva foi subindo e um pouco depois estava esculhambando o marido da amiga, o seu e os homens. Amélia tentava acalmá-la. Tinha medo da raiva. Talvez pressentisse que da raiva também nascem desejos. Sem saber o que fazer, desandou a chorar. Emília parou, olhou a amiga que era só fome ao seu lado. O que se há de fazer? Abraçou Amélia. Deu-lhe o ombro. Quando o choro secou, levou Amélia até seu quarto, deitou-a e deitou-se a seu lado e encontrou a menor vaidade da amiga, que apenas lhe disse: Emília, Emília, Emília, não posso mais.
Cesar Cardoso
(Músicas Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, e Ai, que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mario Lago.)








