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terça-feira, 22 de junho de 2010

CAROS AMIGOS

Lá vai minha crônica da revista Caros Amigos de junho, que já está nas melhores bancas do ramo.

Pai Zidane de Ogum revela:

QUEM VAI GANHAR A COPA!

Vamos lá, Brasil, todos juntos, mas em fila indiana senão vira zona!

ABERTURA
O destaque da festa é a seleção da Coreia do Sul explicando como diferenciar seus jogadores dos da Coréia do Norte. E vice-versa.
Surpresa: Neimar e Ganso estão na Copa! Um grupo separatista sérvio sequestrou os dois, levou-os pra lá e, pra libertá-los, exige a devolução de Montenegro, do Kosovo e do imposto de renda do ano passado.

OITAVAS DE FINAL
No intervalo do jogo com a Argentina, a seleção grega invade o vestiário adversário e bate a carteira de Maradona. É que com a crise grega o FMI embolsou a grana que era pra pagar o hotel.

A FIFA permite que os atletas atuem de terno e boné, dando mais espaço pras seleções venderem publicidade. É permitido também que os apitos dos juízes toquem jingles ao serem soprados.

QUARTAS DE FINAL
Camarões, a grande surpresa da Copa, é eliminado. Seus três craques - Mukeka, Bobó e Caruru - não passam no exame antidoping porque estão com o prazo de validade vencido.

SEMIFINAL
Por fim Neimar e Ganso são libertados e jogam! Mas é pela seleção de Honduras. Eles comem a bola e desclassificam o Brasil.

Na outra partida, Eslovênia e Eslováquia se juntam, formam a Eslovaquênia e derrotam a Alemanha. Em represália o papa invade o campo e excomunga os eslovaquênios.

FINAL
A Nike decide que a final será EUA x Irã, pra dar mais emoção e renda. Mas logo aos dez minutos um zagueiro iraniano acerta uma bolada nas torres gêmeas da mulher do Obama, que assiste o jogo atrás do gol. Os americanos protestam, o tumulto se generaliza e tem início a Terceira Guerra Mundial.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

MEUS CAROS AMIGOS

Segue minha crônica que está na revista Caros Amigos do mês de maio, já nas melhores bancas do ramo. A edição desse mês traz reportagem sobre os danos contra trabalhadores e meio ambiente causados pela Vale do Rio Doce, a arquiteta Ermínia Maricato falando sobre a desgraceira que são nossas grandes cidades, o fracasso da política anti-drogas e muito mais, incluindo a seleção brasileira de colunistas-craques que o Dunga não convocaria. É ler para crer!

SE A ELEIÇÃO FOSSE HOJE...

... em qual seleção você votava? Argentina? Espanha? Costa do Marfim? Você tirava o Lula, botava o Adriano e recuava o Robinho?

Imagine o seguinte: por uma dessas coincidências a final da Copa do Mundo vai cair na mesma hora da eleição. Pra piorar, o Tribunal Eleitoral e a Globo não chegaram num acordo, então você tem que escolher: ou vota ou vê a final. E o Brasil tá na final, é claro! Você prefere um presidente eleito ou uma seleção campeã? Qual dos dois vai mudar o país? Uma seleção campeã serve pra gente comemorar no maior porre e pra centenas de contratos milionários (nenhum conosco, também é claro!) E um presidente, serve pra que?

Eu, você, todo mundo joga uns dois reais por semana na mega-sena. Mas quanto a gente investiria num presidente? Se a gente fizer uma vaquinha, dá pra comprar um? Ou pra isso tem que ser vaquinha de latifundiário com banqueiro e empresário? E um presidente se vende? É no cheque, no cartão ou em dinheiro? Tem que ser à vista ou rola um crediário?

Se a eleição fosse hoje, você votava na Dilma, no Serra ou no Dunga? E se a eleição fosse pra técnico da seleção e o Ricardo Teixeira sozinho escolhesse o presidente? O Brasil melhorava no campo? E na cidade? Afinal, uma eleição serve pra quê? E um presidente, serve a quem?

Mas... e se a eleição não fosse hoje? Isso! Nem a eleição nem a final da Copa. Se hoje fosse por exemplo o Dia Universal do Líquido Amniótico ou da Proclamação da Escravidão? Ou fosse, digamos, o Dia Mundial da Giárdia ou do Assassinato por Motivo Torpe? Ou pior ainda: se hoje fosse hoje? Só hoje, hoje e mais nada? O que você faria?

Nunca é o dia certo, não é mesmo?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CAROS AMIGOS



Essa é a minha crônica do mês de abril na revista Caros Amigos, que já se encontra nas melhores bancas do ramo! Este número traz várias matérias sobre cultura brasileira: uma entrevista com o ministro da cultura Juca Ferreira, o escritor Paulo Lins falando de literatura, cinema e Rio de Janeiro, e o cartunista da nova geração André Dahmer. E mais: a destruição da mata atlântica na Juréia, Bezerra da Silva e os 13 anos de existência e resistência da revista. Sem falar na seleção brasileira de articulistas, pra Dunga nenhum botar defeito.

REVISTA CARAS... AMIGAS

O SUPLEMENTO RICO E CHIQUE DA CAROS AMIGOS

(no próximo número sairemos em inglês e papel couché,
para nos diferenciarmos do resto da revista)


Editores: Gisélio Bunchen & Cesar Cardoso


Saiu a Coleção “Para Entender O Brasil”, com os depoimentos dessa gente humilde, que vontade de chorar! Volume um: Porque Eu Amo Morar Numa Favela que Desaba e Inunda. Volume dois: Porque Eu Adoro Trabalhar de Camelô em Vez de Ter Carteira Assinada e Aposentadoria. E volume três: Porque eu Sou Apaixonado Por Vender Droga em Vez de Estudar. Finalmente nós, da elite, vamos entender essa gentalha (e descobrir que eles não têm jeito mesmo).

E já que, por falta de assunto melhor, estamos falando do povinho, pesquisa: responda depressa, o brasileiro é um povo pacífico ou atlântico?

Amiga participativa: saíram as novas palavras de ordem pra você desfilar sua coleção outono/inverno nos Jardins: “Paz na Terra! Viva a Batalha Naval!” “Basta de basta. Agora é Bosta!” E: “Nem mais um dia: liberdade aos frangos de padaria!”

Um pouco de economia. Preocupados com a ascensão dos pobres ao mundo do consumo, os bancos lançaram uma linha de crédito popular para a compra da dignidade própria. O kit completo vem com diploma universitário que dá direito à prisão especial. Vamos lá, miserável, não perca a sua chance de dizer: “sabe com quem está falando?”

E o Brasil, hein? Corrupção, vá lá. Agora, ascensão social dos pobres? Francamente! Mas otimismo, my friends, otimismo. O planeta vai esquentar? Oba, vamos vender ar condicionado. Vai ter enchente pra todo lado? Oba, vamos vender bóia. Vai desabar tudo? Oba, vamos vender material de construção!

É isso aí. Liberdade, liberdade: abre as patas sobre nós!

segunda-feira, 22 de março de 2010

MEUS CAROS AMIGOS

Segue minha crônica mensal na revista Caros Amigos. O número de março traz: lixo radioativo em plena capital paulista. Entrevista com o escritor Milton Hatoum. Lugar de mulher é na política! A Universidade dos Trabalhadores. E a seleção brasileira de craques da palavra e da opinião independente. Já à venda nas boas bancas do ramo!

A ORIGEM DA ESPÉCIE

Por Cesar Cardoso (mas pode chamar de Charles Darwin)

Época: cerca de 90 mil anos atrás. Uma espécie relativamente nova se desenvolve nas estepes africanas. Ela se chama Homo Sapiens e aprende a construir ferramentas de pedra. Por algum motivo que não se sabe ao certo, o homo sapiens percebe que não pode mais ficar restrito ao continente africano, sob pena de se extinguir. Talvez em algum lugar de seus cérebros eles tenham registrado o desaparecimento de seu antecessor, o homo erectus. Seja lá o que for, algo dentro deles os impele a sair, a procurar outras terras, outros climas, para que sua espécie possa se expandir. Eles então empreendem a maior aventura de sua existência: a migração para a Europa. Enfrentam desertos com temperaturas escaldantes. Enfrentam a fome e o frio de uma nova era glacial. Enfrentam feras até então desconhecidas. Enfrentam a si mesmos, medindo sua resistência a tantos desafios. E superam tudo isso, em busca da sobrevivência da espécie. Chegam por fim às portas da Europa. Lá encontram dois exemplares de uma espécie muito semelhante a deles. E os exemplares conversam.

- Ô Berlusconi, esses carinhas tão dizendo que são homo sapiens, uma espécie nova e que têm que imigrar aqui pra Europa pra sobreviver. Isso tá me cheirando a safadeza.

- Claro, Sarkozy! Tu vai acreditar na conversa fiada dessa gentalha? Mete a polícia em cima deles.

E foi assim que há dez mil anos atrás o Homo Sapiens entrou em extinção. Em seu lugar se originou uma outra espécie, parecida e descendente daqueles dois sujeitos parados lá nas portas da Europa.

Cesar Cardoso é escritor e quando crescer quer ser Homo Sapiens.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

MEUS CAROS AMIGOS

Aí vai a minha crônica na revista Caros Amigos do mês de janeiro, que já se encontra nas boas bancas do ramo. No número desse mês, Irmã Geraldinha: mais uma freira na mira do latifúndio; o Partido Pirata – contra as patentes do capitalismo; entrevista com Letícia Sabatella. E o time de craques de sempre, como Emir Sader, Frei Betto, Joel Rufino dos Santos e muito mais.

UM HERÓI


Lutei o bom combate. E ele era tão bom e justo e nobre, que eu seguia lutando mesmo com a chegada da noite, dos ventos, das tempestades. E, em meio às trevas, só reconheci meu próprio irmão quando o trespassei com a espada, julgando ser um inimigo.

Aquilo caiu sobre mim como uma maldição. Eu derramara o sangue do meu sangue! Mas o bom combate precisava de mim. E voltei a lutá-lo. E dessa vez matei meu pai. Para melhor lutar o bom combate, ele se disfarçara de árvore. Como era uma árvore que não crescia em nossa floresta, tomei-a por uma vegetação inimiga e trespassei-a com a espada. Quando a árvore me disse: “filho, o que fizeste?”, tive consciência de minha nova tragédia.

Sem poder encarar os companheiros e a família, parti. Mas nem o coração dilacerado me impediu de seguir lutando o bom combate. Disfarçado, invadi o território inimigo aleijando, trucidando e matando. Mapeei, uma por uma, as nascentes de água que abasteciam sua capital. E numa só noite, mesmo com a chegada dos ventos e das tempestades, envenenei toda a água. De madrugada escutei os gritos dos que morriam. E ao amanhecer entrei, triunfante, na cidade dominada. Corpos e mais corpos jaziam nas ruas. E pude reconhecer ali minha mãe, minhas irmãs, meus filhos e meus vizinhos. Todos mortos, envenenados. Eu não sabia que nós havíamos ganhado a guerra e invadido a cidade uma semana antes.

Me deixei ficar para ser capturado pelo inimigo que voltava. Eles me pegaram, me carregaram pelas ruas cheias de sangue enquanto davam vivas ao seu salvador. Agora sou o maior herói da História. Pelo menos da História que eles repetem diariamente em seus livros escolares.

(O autor desse texto foi dispensado de lutar o bom combate por ter pé chato.)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

UM CASO CRÔNICO


Eis aí a minha crônica mensal da revista Caros Amigos, que já está nas boas bancas do ramo de todo o país. No número de dezembro: Agrotóxicos envenenam a comida do brasileiro; entrevistas com Carlos Nelson Coutinho e com o ministro dos direitos humanos Paulo Vannuchi: “vamos abrir os arquivos da ditadura”. E o timaço da Caros Amigos, com Frei Betto, Ana Miranda, Emir Sader e muito mais.

SHAZAM!

E chega o fim do ano. Mas quem ainda precisa de calendários, Papai Noel, décimo-terceiro? Nós é que não. Estamos a um passo da perfeição. Mais do que um novo ano, uma nova era se inicia no planeta. Na noite de Natal, vamos todos assistir ao especial apresentado por William Obama e Fatimadona Bernardes. O Rio foi escolhido cidade-sede do evento. Mais de três milhões de pessoas vão lotar a praia de Copacabana para ver Deus em pessoa passar às mãos de Cristiano Ronaldo, o representante da humanidade e da Nike, não uma tábua, mas um kindle, com o novo e único mandamento que substitui os outros dez e diz: “Não Errarás”. E no site www.novomandamento.com as pessoas poderão votar e escolher o casal que vai passar três meses no paraíso, vivendo do mesmo jeito que Adão e Eva. E mais: Deus e Alá também vão estar lá, ao alcance das câmeras, e concorrendo ao título de melhor divindade.

Mas enquanto o Big Father não começa, Deus chama seu filho e Jesus apresenta à humanidade as novas hóstias que serão distribuídas a todos nas igrejas e farmácias. São feitas de prozac e viagra e dispensam receita médica. Quem toma se arrepende de seus erros? Muito melhor: quem toma não erra nunca mais. E ainda há o modelo infantil, de farinha orgânica e ritalina.

Seremos finalmente uma sociedade de super-heróis. Que venham os apagões, nós enxergaremos no escuro. Que venham as blitzes no trânsito. Nós gritaremos shazam e voaremos bêbados pelos céus da cidade. Que venham as doenças, as guerras e as mortes. Cada ser humano estará dopado o suficiente para não perceber nada.

E eliminaremos para sempre o medo do goleiro diante do erro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CAROS AMIGOS


Eis aí a minha crônica mensal da revista Caros Amigos, que já se encontra nas boas bancas do ramo. Nesse número: a polícia tem licença pra matar? Por que continuam as capitanias hereditarias? (Em defesa do MST). A periferia de Sampa também vai explodir. Aposentadoria: a esmola nossa de cada dia. E muito mais.


EI, VOCÊ VIU DEUS POR AÍ?


Está provado: Deus existe.

E não foi preciso discussão mística nem prova científica, nada. Um belo dia o céu se cobriu de nuvens escuras e quando todos pensavam que mais um temporal ia parar São Paulo, um monte de anjos com espadas de fogo e outros apetrechos bíblicos desceu do céu, interrompeu o William Bonner e anunciou: - ó, Deus vem aí falar com vocês.

E Ele veio. E falou pras tevês do mundo todo, pra não dizerem que estava privilegiando essa ou aquela emissora. E recordou os seis dias em que criou o universo. Ô semaninha agitada! E se lembrou das conversas com Adão e Eva (evitem coisas com M: maçã, maconha...). E rememorou sua fase minimalista, quando escreveu os mandamentos. E ainda os conselhos que deu a Jesus (se beber na ceia, não dirija!), a Santa Inquisição... Não, esse pedaço Ele pulou. E foi logo pro motivo de sua vinda.

E Deus disse com todas as letras que está de saco cheio da humanidade. Já enviara dicas, indiretas, sinais, mas nem com o tsunami que mandou há cinco anos a gente se tocou. Agora, ou tomamos jeito ou Ele vai levar todas as formas de vida pra Marte e recomeçar por lá, sem a gente por perto pra atrapalhar.

Nem a morte de Jesus repercutiu tão fundo na humanidade. Todos querem se converter. Deus gostou, mas surgiu um problema: para qual religião? E os líderes religiosos correram pra falar pessoalmente com Ele. Mas na porta do Hilton onde Deus e sua comitiva se hospedaram, já estavam políticos de todo o planeta fazendo fila pra tirar foto com o Todo-Poderoso. E corria o boato que na suíte divina representantes da Disney, da Microsoft, da Coca-Cola e da Nokia apresentavam suas ofertas para patrocinar Deus.

Mas um anjo que saía pelos fundos do hotel teria dito ao William Bonner que Deus não está mais entre nós e foi visto se reunindo com castores, golfinhos e outros animais e mandando eles construírem uma arca.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


Aqui vai a homenagem do Patavina’s: aos mestres com carrinho (e o desejo de que passem a ganhar o suficiente para cada um comprar o seu)!


DIA DO PROFESSOR

Está bem próximo o dia em que não haverá mais professores e todas as escolas estarão fechadas. É a marcha do progresso e alguém aí é contra o progresso? Há quem seja, há quem seja, mas como o progresso está progredindo cada vez mais, em breve ele mesmo se encarregará de acabar com essa praga.

Sim, é um grupo inútil, o dos professores. E caro, ainda por cima. As mensalidades das chamadas boas escolas custam mais do que um tênis importado. E um tênis importado, todos sabem, dura mais do que qualquer frase escrita num quadro-negro.

Sem dúvida, um grupo inútil e que não se entende entre si. A maioria se limita a reproduzir um saber que já se sabe há séculos. São papagaios. E, como os papagaios, entrarão em extinção. E há um outro grupo, pequeno e ativo, que vive questionando os valores mais banais da sociedade. São os criadores de desajustados. E quem precisa de criadores de desajustados?

Já estão quase extintos os professores de geografia. Óbvio, ninguém quer saber onde ficam outros povos e países. A menos que por lá haja empregos ou que seja um lugar cheio de riquezas e valha a pena invadir. Mas para esses objetivos há cadernos de classificados e exércitos, não é preciso professores numa sala de aula fazendo chamada. Você pode argumentar que há sempre um pequeno grupo de curiosos. Você gosta de argumentar, não é? Você deve ser professor. Muito bem, mas eu lhe digo que, no mundo de hoje, para ser curioso é preciso ter dinheiro, muito dinheiro. Quem luta desesperadamente pela sobrevivência não tem tempo bem disposição para ter curiosidade. E quem tem dinheiro mata sua curiosidade geográfica fazendo turismo, que é muito mais interessante do que assistir aulas.

Também não há mais necessidade de professores de línguas. Primeiro pela absoluta inutilidade de se falar francês, alemão, espanhol, vietnamita, quarenta dialetos do interior da China ou qualquer outra língua que não seja o inglês. Você vai perguntar porque, eu vou ter certeza que você é um professor e nem vou lhe responder. Com licença, onde eu estava mesmo? Ah, no inglês! Para aprender inglês, basta torná-lo língua oficial. Do nosso país ou mesmo do planeta todo. É o Mundo Livre, livre inclusive de um amontoado de dialetos que vêm sempre acompanhados de reivindicações de liberdade e autonomia ou até de algum grupo terrorista jogando bombas. E sendo o inglês língua oficial, será falado em todos os lares e não haverá necessidade de nenhum professor para ensiná-lo.

Também não precisaremos de professores de matemática, ciências, filosofia ou até educação física. Ouço alguém perguntando porquê. É você de novo, não é, meu caro professor? É típico! Professores adoram perguntar. A humanidade tem pilhas de séculos de perguntas feitas por vocês. Mas agora, meu caro e inútil amigo, nós precisamos é de respostas. Simples, práticas, diretas. Aquelas respostas que vocês, professores, não sabem dar ou não querem, não gostam, não foram treinados para isso ou uma outra explicação que você certamente tem e quer me dar, levantando seu dedinho aflito para pedir a palavra. Sinto muito, mas pode abaixar o dedo, seu tempo acabou, o sinal tocou, pode ir pra casa e não precisa voltar. Mas antes, escute mais um pouco.

O mundo hoje é prático e lucrativo. Enquanto vocês defendem o ensino público e gratuito, o mundo deseja tudo privado e o mais caro possível, com belas embalagens e anúncios na tv. Bilhões de pessoas lutam por isso com unhas e dentes. Você não vê diariamente essa gente toda na rua, se matando? Acha que estão se matando por quê? Para encontrar as respostas às suas perguntas?

Nós, aqui, no terceiro mundo, por exemplo. Somos invadidos e escravizados? Sim, é claro. Mas também podemos invadir e escravizar países menores, que também encontrarão outros, minúsculos, e os invadirão. Sempre há alguém mais fraco. Essa é a nova democracia. Sem filosofias nem histórias. Filosofias levam muito tempo e não chegam a lugar nenhum, chegam apenas a palavras. Dignidade, justiça. Isso não vende. História? Quem fica olhando o passado não constrói o futuro. Pirâmides? Nunca ouvi falar! Vejo apenas umas pilhas de pedras, que podem ser bombardeadas ou transformadas em um bom muro para evitar invasões.

Você se calou? Ora, não fique triste, as profissões terminam um dia. Ânimo, até a vida humana vai terminar um dia! Lembra dos escribas da Idade Média, que copiavam os livros gregos e romanos e detinham todo o saber do Ocidente? Gutemberg criou a imprensa e acabou com eles. Com vocês está acontecendo algo parecido. Criamos tanta tecnologia que não precisamos mais de pensamento. Precisamos de dedos, para apertar botões nas fábricas e escritórios e contar dinheiro nos bancos. E botões não precisam de professor. Portanto você pode ir pra casa contar sua história para seus netos. Eles vão rir um bocado do avô doido que têm.

TODO PROSA


Desde 2016 antes de Cristo já se sabe que o importante é competir. É tão importante que vale até subornar o juiz e pisar na carótida do adversário só para competir por aquela medalhinha dourada.

OS JOGOS

1.
Lembrem-se do inimigo. E lembrem-se que não há inimigos. Sim, porque o motivo da competição é mostrar que somos todos irmãos, humanos. Temos a honra de representar nossa pátria. A mesma honra que todos aqui têm, cada qual com sua pátria. Por isso eu gostaria de parabenizar a todos. Ainda não começamos nossa missão e já vencemos. Porque estarmos aqui, imbuídos desse espírito, é a maior vitória que podemos alcançar.

4.
Lembrem-se das cores de nossa bandeira. Sim, porque ali está a nossa pátria, que vamos defender mais uma vez. E que sacrifício nós, qualquer um de nós, não é capaz de fazer para defender o nome da pátria? Sim, vamos competir. Mas que prazer não teremos em ver o nome de nossa pátria brilhar o mais alto possível nas competições? Que honra não teremos em trazer alguma medalha, uma que seja, para nosso país?

8.
Lembrem-se que os últimos não serão os primeiros. Sim, o importante, sem dúvida, é competir. Esta é nossa meta, nosso fim, nosso destino. Mas ninguém gosta de chegar em último. As pessoas até se conformam que essas coisas aconteçam uma vez, mas certamente se revoltam quando isso se torna rotina. Por isso, desta vez, nos empenhamos tanto na preparação. Portanto, pedimos encarecidamente não questionem nossos métodos. Acreditem! Tomem as pílulas e as injeções. Elas são complementos indispensáveis para o nosso desempenho. E dessa vez, o nosso desempenho engrandecerá as cores de nossa pátria! E as medalhas virão!

12.
Lembrem-se que nossos patrocinadores esperam que cada um cumpra com o seu dever. Sim, porque eles já cumpriram o deles. Investiram uma fortuna em vocês. E esperam retorno. Parem com essa mania de injeção e pílulas, apenas apliquem os chips subcutâneos, mais nada além disso, por favor. Qualquer outra coisa será responsabilidade de cada um, e nós da delegação não nos envolveremos em nenhuma questão legal daí resultante. Às medalhas, minha gente!


16.
Lembrem-se. Vocês são a vergonha do país. Sim, a vergonha, a escória, a ralé. É assim que partimos para mais essa competição. Se vocês querem voltar e ter novamente uma vida normal, ao lado de seus familiares, façam por merecer. Ganhem! Vençam! Derrotem! Usem de todos os expedientes para isso. Da mesma maneira que nós já usamos durante a preparação. Trapaceiem, enganem, fraudem! Vale tudo para competir. E triunfar!

20.
Lembrem-se que o esporte é a continuação da guerra. Sim, foi por isso que fizemos essa tregua nas batalhas e vamos mais uma vez participar dos jogos. Mas dessa vez não basta competir, temos que superar e subjugar os nossos competidores. Lembrem-se que eles também são atletas e que todo atleta adversário é um inimigo e deve ser massacrado da mesma maneira que temos massacrado nossos inimigos no campo de batalha. Que vença o mais forte. E nós já provamos que somos os mais fortes.

24.
Esqueçam o passado. O importante é que vocês estarão defendendo as cores da pátria. Sim, foi para isso que todos vocês foram contratados e naturalizados. Gostaria de desejar sorte, gostaria de agradecer o empenho de cada um e desde já, gostaria de parabenizar a todos. Com vocês, unidos entre si e a nossos patrocinadores, não há a menor possibilidade de não ganharmos todas as medalhas. E, para terminar, gostaria de lembrar mais uma vez: as cores da pátria são verde, amarelo e vermelho! É fácil, são as mesmas de nossos patrocinadores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

UM CASO CRÔNICO




Eis aí minha crônica da revista Caros Amigos, que já se encontra nas melhores bancas do ramo. No número deste mês: pra que senado?; a Lei Maria da Penha; quem paga imposto?; os EUA na América Latina; a gripe suína no Brasil e uma entrevista com a historiadora Virgínia Fontes.


TRAJETÓRIAS

Você queria transformar o mundo mas se desiludiu com os políticos e resolveu ir pro mato criar galinha. Aí você foi mas as galinhas pegaram uma doença que você nunca ouviu falar porque é da cidade e só conhece gripe, enfarte e colesterol e as bichinhas morreram todas antes de você conseguir vender a sua primeira safra de ovos.

Aí você desistiu de ter uma casa no campo e compor rocks rurais, resolveu realizar os sonhos de juventude e virar surfista. Comprou uma prancha, foi pro Havaí e uma onda de dois metros quebrou sua prancha em três lugares e você em quatro, te deixando horas estendido na areia pra recuperar o fôlego e pegar uma insolação que te levou pra UTI com queimaduras de primeiro grau.

Aí você cansou de cuidar do corpo e resolveu ir pra Índia meditar sobre o futuro da humanidade. Foi e se banhou no Ganges em busca da iluminação mas escureceu, você se perdeu, foi assaltado e levaram tua carteira e teu passaporte.

Aí você decidiu olhar o lado prático da vida. Pegou as últimas economias, aplicou num fundo de commodities com a maior rentabilidade do mercado e o seu fundo tinha financiado o mega-investimento da General Motors que faliu transformando em poeira todos os gigalucros americanos e os seus também.

Aí você foi morar numa favela, num barraco com um colchão e um fogareiro e torrou sua última grana em 50 litros de cachaça que você pretendia beber até morrer. Mas o pastor te mostrou que Jesus podia te salvar, os irmãos quebraram teus 50 litros de cachaça no culto, você doou pra igreja o colchão e o fogareiro, o pastor viu que você era um caso perdido e te expulsou de lá, junto com os teus demônios.

Aí você sai da favela, vai andando pela rua e alguém te entrega um papel onde está escrito: “você queria transformar o mundo mas se desiludiu com os políticos? Madame Marta traz seu senador de volta em três dias”.

Aí...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

UM CASO CRÔNICO

E eis que um dia, na terra do leite e do mel, os eleitos não eram mais aqueles de sempre. E todo mundo queria ser o dono da verdade. E a humanidade já não sabia em quem acreditar. E não adiantava a galera do céu mandar anjos com espadas de fogo nem dilúvios. E foi então que, em meio ao desespero e a descrença,

DEUS CRIOU A MÍDIA!

E os jornais logo ensinaram ao povo incrédulo o certo e o errado. E as tevês logo mostraram às gentes despreparadas o que vestir, o que comer e principalmente o que engolir. E as agências de publicidade logo trouxeram os novos mandamentos, mas em tábua não que tábua tá fora de moda, é antiecológico. E os novos mandamentos vieram em tela de cristal líquido. E vós podeis votar nos dez melhores, é só entrardes no site www.mandandobemnomandamento.com.

E tudo deveria ter voltado ao normal, mas vós sabeis que a humanidade não é fácil, ô gentinha do contra, principalmente as humanidades do terceiro mundo. E as tvs e os jornais, pacientes como Jó, subiram aos céus, que ficavam um andar acima de seus escritórios, e pediram a ajuda de Deus. Mas eis que Deus estava ocupado tentando criar vida em Marte pra ver se dessa vez dava certo. E então a turma da mídia fez um workshop e alguém falou: vamos copiar aquela idéia de Deus. E tirando uma costela do Cid Moreira a mídia criou... (com pausa dramática) os Especialistas, à imagem e semelhança de Deus, mas um pouco melhorados que hoje em dia tem tecnologia que até Deus duvida.

E eis que dos céus desceram os Especialistas, montados em laptops de duas cabeças e carregando celulares de fogo. E Eles garantiram que, desse dia de glória em diante, não haveria mais dúvida sobre a verdade porque Eles, os Especialistas, diriam a todos o que é a verdade e como deve ser usada. E a humanidade respirou aliviada (segundo os Especialistas, é claro).

Cesar Cardoso foi criado por Deus, mas passava o fim de semana com o Diabo.

HOJE É DIA DE VISITA

E quem vem nos visitar é o escritor e professor de literatura Elesbão Ribeiro, diretamente do escurinho do cinema para o Patavina’s.


di CINEMAS*

por onde passará o seu pensamento

por dentro da minha saia

adriana calcanhoto

Primeiro, mandou-me uma sobrinha; agora manda-me uma amiga fotos de cinemas antigos desta cidade. EMOCIONANTE, diz a chamada. Mas o emocionante não foi escrito por elas, faz parte do pacote.

ESPANTADO foi como fiquei. Como podem ser apresentados como antigos os cinemas CARIOCA e AMÉRICA, ali na Sães Peña, se ainda há pouco estive lá com os meus filhos pequenos?!

Gosto dos cinemas antigos e também gosto dos cinemas atuais.

Antigamente, as sessões eram às duas, às quatro, às seis... ou às duas, às três e quarenta, às cinco e vinte... Podia-se entrar no cinema às duas e sair na hora do lobo. Podia-se entrar no meio da sessão, ver o filme do meio para o final e depois vê-lo do início para o meio. O expectador tinha a liberdade de transformar uma narrativa linear em não linear, tinha a liberdade de fazer o seu flash-back. Antigamente, comprava-se um saco de pipocas na carrocinha em frente ao cinema, eram poucos os cinemas que vendiam pipoca. Agora, quase todos vendem. Devem ter esticado os intervalos entre uma sessão e outra para dar tempo de venderem mais pipoca. E a gente tem de ver um vassalo carregando para uma suposta princesa uma bandeja com sacos enormes de pipocas e copos enormes de refrigerantes.


Antigamente, tínhamos o azar, ou a sorte (dependendo do vizinho), de nos debruçarmos sobre a poltrona ao lado, porque o outro da frente nos impedia de ler a legenda. Agora como as poltronas estão dispostas em degraus e entre elas há um porta copos, temos de aturar o cheiro da pipoca e ouvir o chupão no canudo do refrigerante.

Mas os cinemas de hoje têm um bom som, uma acústica boa. Acho que isto sempre foi um atrapalho para o cinema brasileiro. O gênio rebelde gravava com som direto o filme que seria passado em salas cujo som era pífio.

Os cinemas de hoje são pequenos, mas os grandes cinemas de antigamente tinham grandes filas.


Mas os melhores cinemas, de ontem ou de hoje, são aqueles que ainda têm poltronas no mesmo plano, sem degraus. Aqueles em que as poltronas, porque escondem, ainda permitem que a mão boba percorra a namorada por dentro de sua saia.

* pro Zé Trindade, por sua mão boba

Elesbão Ribeiro

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

IMPRESSÕES DIGITAIS


Aqui vai minha crônica da revista Caros Amigos de agosto, que já está nas boas bancas do ramo. O número deste mês traz uma entrevista com o presidente da Petrobrás, os 30 anos da Lei da Anistia, as milícias do Rio de Janeiro, o golpe em Honduras e muito mais.

CLIC


Tô te vendo na tevê, no meio de cores e caras, entre cremes e crediários, comprando ingresso pra turnê do caixão do Michael Jackson e concorrendo a uma coroa de flores autografada ao vivo pelo cadáver do seu ídolo. Ele musicou os discursos do Sarney, que vendeu tudo que tinha, comprou um país na África, se casou com a Mulher Maravilha e foi ser imperador por lá. Ela abortou um filho de Bento 16 e a criança é o mais novo super-herói dos quadrinhos: the Placenta Boy. Em sua primeira missão, provou o envolvimento do pai, do filho e do espírito santo no contrabando de armas pras torcidas organizadas européias e botou na internet as fotos dos sobrinhos do pato Donald fazendo strip-tease nas orgias do Berlusconi.

Todo mundo tá te vendo na tevê, no meio de urbelas, nosferas e maninfetas। Você noticia que, depois do ano da França, 2010 vai ser o ano dos Incas Venuzianos no Brasil। Nacional Kid vai derrotar o Chavez nas eleições e virar presidente da próxima novela das oito, onde enfrentará São Jorge, provará que de santo ele não tem nada e que fabrica lanças e armaduras num barracão na Indonésia, pagando meio centavo de dólar ao mês. E na cena final, nosso herói e Placenta Boy celebram o casamento de Ahmadinejad e Obama, que finalmente conseguem ser felizes para sempre. Mas do guichê já chamam sua senha: você se classificou pro Mamãe Eu Vou às Compras, o novo reality show. Cada participante recebe uma metralhadora e um cartão de crédito e tem que eliminar seu saldo bancário e seus concorrentes. Ao vencedor, um mês de hospedagem no famoso submarino amarelo, que foi comprado por um milionário de Dubai e transformado em igreja flutuante, com Ringo Star trabalhando de garçonete-striper e a sensacional missa-show do pastor-ectoplasma John Lennon. E, alegria-alegria!, você ainda ganhou um filho, produzido pelas empresas MaxChild. Fecundados sob rígidos padrões de qualidade e garantidos contra qualquer defeito genético, os filhos MaxChild têm garantia de dezoito anos e são perfeitamente compatíveis com a sua família. Agora sim, sua descendência está garantida e você, como um Michael Jackon, pode morrer com tranquilidade. Sim, porque eu tô te vendo na tevê. O enterro tá um luxo e o defunto é você.

UM CASO CRÔNICO


QUERIDO PAI,

Este domingo é dia dos pais e eu tenho pensado muito em você. Passei a semana toda com a mesma pergunta me martelando a cabeça: o que é um pai? E hoje, depois de sonhar com você, finalmente acordei com a resposta: pai é um sujeito que tem filhos. Tão simples! Sem filho não existe pai, entendeu? Vou explicar melhor porque você é meio tapado (ou se faz de tapado, não sei. Mas desempenhou tanto esse papel na família que agora não consegue mais sair dele). Pai: sem mim você não é n-a-d-a! Portanto, nesse seu dia, leia essa carta com atenção e trate de fazer exatamente o que eu mando.

Já que você só é pai graças a mim nada mais justo do que, no seu dia, você homenagear a sua razão de viver: eu. E vou logo te ajudando para que você não esquente a sua cabeça tentando descobrir como fazer isso: quero um carro importado e um apartamento em meu nome. Quero também que você contrate um jornalista para escrever a minha biografia. Tem que ser um dos bons, desses que você confia e que vivem escrevendo coisas a teu favor nos jornais. Também vou precisar de uma plástica, é claro. Ou várias plásticas, ainda não sei ao certo. Vai depender de uma conversa com o diretor que for filmar o meu livro. Ah, você vai financiar o filme, não vai, paizinho?

Eu sei perfeitamente que vai ser difícil atender todos esses meus pedidos. Mas poxa, papai, é o seu dia! Além do mais, mamãe continua em meu poder e você nunca vai descobrir onde é o cativeiro dela. Nem adianta falar com aquele delegado amigo seu. Eu falei primeiro e foi ele quem me arranjou o cativeiro.

Papi, apesar de estar lhe proporcionando tudo isso no seu dia eu também preciso de um help, de uma orientação. É sobre o apartamento que você vai me dar. Não sei se te peço em Nova York ou Paris. É, porque se tem uma lição que eu aprendi com você é que não tem a menor graça morar no Brasil, com toda essa violência e essa gentinha. Sem falar nos políticos, essa corja de ladrões que a gente vive tendo que comprar.

Well, daddy, o que mais posso te dizer? Seja feliz e não me faça esperar. Você sabe como a ansiedade mexe com meus nervos. Ah, vi uma foto sua no jornal. Caramba, se eu passasse por você na rua era capaz de não te reconhecer, sabia? Cortei a foto e botei no lugar da que eu tinha, você comigo no colo. Estou olhando pra ela enquanto escrevo essas linhas. Nossa, você está acabado!

Beijos

Do teu Filho.

sábado, 1 de agosto de 2009

UM CASO CRÔNICO



VOCÊ É O MELHOR DE TODOS!

Eu não faço a menor idéia de quem você é, mas você já veio aqui ver porque eu digo que você é o melhor de todos. Ora, só pra te fisgar. Na verdade você é um peixinho bobo como todo peixinho. Um elogio do tamanho de uma minhoquinha se mexendo no oceano de um blog já é o suficiente para te fisgar.

Mas não se zangue comigo. Estou apenas constatando uma verdade. Se te serve de consolo, eu também sou assim. E não adianta tentar esconder. Eles sabem que nós somos assim.

Quem são eles? Eles são os caras que fazem as propagandas, os anúncios, a publicidade. Os novos apóstolos. Sim, porque a publicidade é a bíblia moderna, é a nova constituição, é a verdadeira declaração universal dos direitos do homem. Você tem o direito de comprar, adquirir, alugar, fazer leasing, arrendar, a prazo, à vista, sem juros, no cheque, no cartão, com dinheiro ou sem dinheiro, tudo facilitado, tudo! Tudo que você não precisa mas que vai segredar no seu ouvidinho que você é o tal, sem defeitos, só perfeição. Além de lindo e tesudo.

Sim. No maravilhoso, estonteante e megapower mundo da publicidade é tempo de elogios, de adjetivos. Sempre. Chega de críticas que não levam à nada. Ou pior, te levam a perceber que você é uma pessoa cheia de defeitos, que não educou direito os filhos, que não amou o suficiente a mulher ou o marido, que não ligou pra sua mãe, coitadinha, viuvinha, vivendo da pensãozinha do INSS, que não realizou nem um décimo dos sonhos que tinha... Nem é bom pensar, pensar só traz aporrinhação. O bom mesmo é sonhar. E pra não pensar, sem taquicardias nem suspiros, e sonhar-sonhar-sonhar em tecnicolor, em digital-surround-sound, em nunca-vi-cores... nada melhor do que uma boa publicidade.

Ah, que delícia! Um mundo de chocolates cremosos que escorrem de carros possantes que pegam mulheres possantes que sorriem dentes possantes! Venha, venha fazer uma lipoaspiração nos seus fracassos, venha botar silicone nas suas frustrações, venha fazer o download dos seus sonhos. Sua vida vai ser um viagra sem fim. Venha gritar gol! e ter a felicidade do gol sem precisar de bola, chuteira, correria, cansaço. E sem apito final. Quer droga melhor do que essa?

E não se envergonhe de fazer parte desse mundo. Até Deus faz publicidade e é dono de uma agência, a maior de todas: a igreja. Os dez mandamentos foram o primeiro outdoor da história. O Espírito Santo, a primeira garota-propaganda, uma espécie de ancestral da Neide Aparecida. E todos os outros deuses, como os políticos, por exemplo? Eles também são eleitos pela publicidade, não são? Então, venha você também ser um eleito. Olhe em volta do seu quarto, da sua casa, do quarteirão, do bairro, da cidade, do país, do continente, do hemisfério, do planeta enfim... É tudo publicidade. O que é um colar, senão uma propaganda dos peitos? Ei, olhem pra cá. Adivinhem quem está por aqui! E o que são os peitos, senão a mais bem bolada embalagem de leite, revelando um dos grandes truques da publicidade: a embalagem é sempre muito mais gostosa do que o produto.

Viu só? Como eu falei, eles te fazem se sentir o tal, o melhor de todos. E você não quer ser o melhor de todos? Claro que quer! Não sonha toda noite com isso quando chega do trabalho e se mete no banho quente pra relaxar e esquecer o quanto se aborreceu e se frustrou em mais um dia de trabalhinho ridículo nessa sua vidinha de merda? Pois é, eles sabem disso e vão na mosca. E você é a mosca, se debatendo na teia da aranha e achando a teia uma cama de seda e a aranha uma Giselle Bunchen com oito coxas pra te agarrar e te alisar.

E agora que você já leu esse texto, preencha o cupom, junte dez rótulos e concorra a milhões em prêmios, a bilhões de viagens interplanetárias, a trilhões de bocas e peitos e bundas deliciosas. Tudo à sua escolha. Porque aqui é você quem manda!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –

Essa é a minha crônica do mês na revista Caros Amigos, que já está nas bancas à sua espera. Vai logo lá, seu preguiçoso!

TEMPORARIAMENTES


Eu sabia porque se chama carioca da gema quem nasce no Rio, sabia a escalação de Fluminense e Bangu na final de 64, sabia o que quer dizer blue moon. Mas pela manhã ao acordar fui acertar o relógio, os ponteiros me acertaram primeiro e esqueci tudo isso. Do que ainda lembro? Da emoção do primeiro caderno encapado com papel de seda azul. Ah, sim! Me lembro que o homem aprendeu a voar com Santos Dumont e a mulher com Fred Astaire. Ou terá sido ao contrário? O muro de Berlim, o império romano, as torres gêmeas, Teresinha de Jesus. Quem desses reconheceu a queda e não desanimou? Quem levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima? Que praga destruiu a primavera de Praga?

Tudo tão difícil. A memória vem do latim, sim, mas vai para onde? Quantas vezes por dia é preciso morrer pra continuar vivo? Quantas memórias precisamos perder? Em que tempo?

Um ano, por exemplo. O intervalo de tempo correspondente a uma revolução da terra em torno do sol. Ou bissexto ou letivo ou lunar. Talvez o tempo de gestação das girafas, de se fechar balancetes, de se parir e embalar Mateus.

Mas em alguma dobra da memória, que é o nosso tempo, existe um certo ano-luz sem nenhuma ciência que lhe dê conta. Uma revolução - não da terra – marítima, com seu ritmo que nenhum piano alcança, incabível - e como dança! E lá talvez esteja tudo que precisamos de preciso e impreciso: ligar o rádio, buscar a sintonia, o que vai ficando nos álbuns do olhar, tatuagens que não se vê, lã de vidro na ampulheta sem tampo nem fundo, escorre nos corpos - tão macia...

Quanto tempo terá levado até que o primeiro homem fizesse o primeiro armário e deixasse aberta a primeira gaveta à esquerda onde se encontra - quem sabe? - um bilhete esquecido dizendo bom dia?

Ventar e inventar folhinhas, memórias. O calendário vai pras calendas. Os relógios partem e se partem. Estamos com a corda toda, despertamos a madrugada e anunciamos aos galos: o ano domini!

E o tempo segue nos dominando.

Cesar Cardoso perde tempo escrevendo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –

VAMOS LATIR


Chega de política, de ONG, de eleição. Basta de protestos, de abraçar árvores e lagoas, defender florestas e negros, pobres e baleias, ir no Fórum Social, no sindicato, na passeata... Isso tudo dá muito trabalho e nenhum resultado. A solução agora é outra.

Vamos latir!

Au-au-au! Vamos latir pro senador com imunidade, pro preso com celular, pro candidato a jesus que promete milagres, pro pm que pede documento e cervejinha em troca de porrada e tiro, pra quem telefona e vai estar vendendo qualquer coisa, pra quem nos barra, nos rouba e nos mata. Au-au-au-au-au! Vamos latir pra essa gente toda. Latir, rosnar, mostrar os dentes.

Cachorro é que é gente. Porque a gente, a gente é cachorro. Você vai nas ruas mais chiques e encontra o quê? Escola pública? Não, pet shop. Hospital público? Que nada, hotel pra cachorro. Depois de séculos de filosofia finalmente encontramos a essência humana: somos cachorros. Então, pessoal, vamos latir! Au-au-au-au-au-au-au! Quem sabe assim a gente passa a ser bem tratado. E latir é uma ótima terapia, acaba com o stress. Pergunte a qualquer psicólogo de cachorros, a qualquer Freud canino. Portanto, teu vizinho liga o som alto às três da manhã? Vá latir na porta dele. Teu chefe te transfere pra outra seção enquanto você está de férias? Rosne e morda a barra da calça dele. Querem te contratar sem carteira assinada? Levante a perna e faça xixi na porta de vidro fumê deste filho da puta!

Chega de correr atrás de diploma, de emprego, vamos correr atrás de carros e carteiros. Chega de ter raça pra enfrentar a vida. A gente não precisa de raça, a gente precisa é de pedigree. Por exemplo, um shopping. Vá um sem terra, um sem tênis, um sem cartão de crédito, ou seja: um fudido, com sua cara de fudido, sua roupa de fudido e seu DNA com milhões de ancestrais fudidos brilhando em cada célula, enfim, vá este projeto falido de cidadão entrar no shopping. Logo os seguranças o cercam e o enxotam dali. Mas entre você no shopping com seu cachorro. Todos estalarão os dedos, assobiarão e perguntarão que shampoo fez o pêlo ficar tão lustroso. Então, o que você está esperando? Pare de matar cachorro a grito, bote uma coleira e seja o seu próprio cachorro. Ou se candidate pra ser cachorro de alguém.

Pense bem. Você vai poder cagar no elevador só pra irritar o síndico, quebrar o jarro de porcelana que ficou de lembrança da mãezinha do patrão e se atracar na perna daquela gostosa que passa todo dia pela tua rua com um olhar de não te dou nem um pedacinho, seu merda! Até sua mãe finalmente te tratará como filho – o filho fiel e obediente que ela sempre quis ter. O que é que você está esperando? Vamos abanar o rabo, vamos soltar os cachorros que existem dentro de nós, vamos esquecer o SUS e ter veterinário, banho e tosa. Vamos virar irracionais e ser o melhor amigo do homem. Vamos ser animais de estimação e ter alguma auto-estima. Vai ser legal pra cachorro!

Vamos latir pra esse mundo-cão.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

IMPRESSÕES DIGITAIS

IT’S A LONG WAY E NÃO TEM TRADUÇÃO


Não sou bom com datas, mas foi lá pelo final da década de 60 que eu escutei o Sol nas bancas de revista e não entendi. Era uma época em que eu começava a não entender muitas coisas e Caetano Veloso me ajudou um bocado nisso. Eu ouvia suas canções, via aquela figura, magra como um Vê, sorrindo, levando vaia e se indignando nos festivais e era como se eu tivesse me atirado numa correnteza que ia me levando com medo e prazer. Eu também caminhava contra o vento? Contra moinhos de vento, caminhávamos, lutávamos, amávamos? O Sol nas bancas de revista era uma estrela, era um jornal, era o começo de uma caminhada, it’s a long way, viver é muito perigoso, nos sertões, na Bahia, na ditadura, em Londres, numa canção do exílio, no passado recantado e decantado da nossa música, na lua oval da esso e de São Jorge, shy moon, it’s a long and winding road, but today I don’t know why...

E nesses caminhos de fina estampa, o que disse Caetano? E como disse Caetano?, criando outra língua que não é mais a portuguesa e continua sendo, minha pátria, minha mátria, minha frátria, outra língua que é ritmo, arte, que é só um jeito de corpo, onde me levam esses trilhos urbanos, baianos, humanos?

Cada disco de Caetano (somos da época do disco!) sempre precisava ser escutado duas vezes pela primeira vez, para que eu começasse a traduzir o que não tem tradução, pois afinal o que disse Caetano, o que diz, o que dirá? Se não tem tradução, tem tradição e tem novo. Caetano tinha sempre uma novidade antiga e uma antiguidade nova. E continua tendo e cada vez que escuto Caetano vou relendo Caetanos, plural, releitor, recantor, recompositor. Mas o que ele disse mesmo?

Me lembro que já na década de 70 eu estudava na faculdade de Letras da UFRJ, que tinha sido jogada pela ditadura num velho galpão na avenida Chile. Os diretórios dos estudantes ainda estavam fechados, fichados, proibidos. Nós conseguimos inventar um órgão cultural – o SEMA, Seminário Mário de Andrade – e com ele íamos fazendo política proibida e cultura idem. Uma de nossas atividades foi realizar no teatro da faculdade o Circuito Aberto de Música Popular Brasileira, bolado por Chico Chaves, Marlui Miranda e outros que então começavam. A cada sábado, três ou quatro novos cantores/compositores se apresentavam junto com alguém já conhecido, como Clementina de Jesus, Cartola e vários outros. No dia em que o nome conhecido era Caetano Veloso estávamos à tarde preparando a decoração do palco quando soubemos que um dos novos não ia poder se apresentar. Acabamos de arrumar tudo e saímos para comer alguma coisa antes do show. Na época as redondezas do Largo da Carioca eram um labirinto pra fio de Ariadne nenhum botar defeito, graças às obras do metrô. Quando já voltávamos, escutamos um forró delicioso que vinha do acampamento dos operários do metrô. Daí alguém deu a idéia e nós resolvemos convidar os forrozeiros para abrir o show, já que havia tempo sobrando. Eles ficaram cabreiros de ir tocar numa faculdade, para um público desconhecido mas, com meia hora de conversa e cerveja, acabaram topando e, já de saída, perguntaram quem mais ia tocar por lá. Desfiamos os nomes novos, que eles não conheciam, e fechamos com Caetano. Novamente eles se recusaram a ir lá tocar, e com muito mais veemência. Caetano continuava assustando. Mais meias horas de conversa e cerveja e eles acabaram topando e abriram um show universitário que contava com ninguém menos que Caetano Veloso.

É mais uma história superbacana, estilhaços sobre Copacabana, bem ali na Ipiranga com a São João. A caetanave é um caleidoscópio tropical. São outras mesmas palavras, de quando ele se encontrava preso na cela de uma cadeia e os podres poderes gritavam vamos matar Caetano. Mas não, vamos comer, beber e dançar caetanos, porque alguma coisa está fora da ordem e essa coisa é sua mãe e eu e a mãe do seu irmão e o coração materno dela, é Santa Clara padroeira da televisão, é Didi, santo trapalhão, é de noite na cama, o divino conteúdo, que se quebrou, e caetano está se quebrando e se requebrando. Caetano é assim, assusta e enriquece. Desbrava-esbraveja o Brasil e beija a boca de Gil. Que impressão eu tenho de Caetano? Todas, digitais, mecânicas, manuais, acústicas. Caetano é a filha da Chiquita Bacana. E a mãe também. Alguém cantando muito, alguém cantando bem. Vadio laptop atrás do trio elétrico. Locos por ti todos perguntamos e respondemos quem é Caetano. E toda essa gente se engana.

MEUS CAROS AMIGOS

Desde 2005 sou colunista da revista Caros Amigos. Aqui republico algumas das crônicas publicadas lá.

TEU MELHOR INIMIGO


Se a essa hora tardia não há como procurar amigo, pela madrugada que esconde o dia e a coragem ou pelo adiantado das horas do relógio de tua vida, procura teu inimigo. Mas não qualquer um, simples desafeto de bar, adversário da pelada de sábado, antagonista do condomínio, concorrente, rival. Não.

Procura teu melhor inimigo.

Aquele que nunca te foi indiferente. Aquele que com certeza foi grande amigo um dia, ou pelo menos você assim achava, até que ele te traiu, te passou a rasteira, te deu a facada pelas costas. E se ninguém agiu assim contigo, o dia está prestes e ele está à espreita, pronto para o bote. E se você ficar atento, ele saberá esperar, até que tua atenção se canse, esmoreça, cochile.

Porque ele é teu melhor inimigo. Ele te trai, mas compra uma roupa especial pra ocasião. Ele te passa uma rasteira, mas é aquela que ele nunca ensinou pra ninguém, é te mostrando o pulo do gato que ele voa na tua carótida. Ele espera que você se vire, pensando em nada, e te esfaqueia pelas costas, esposteja tua carne, separa tuas costelas, secciona veias, perfura teu pulmão. E o faz com uma adaga moura antiqüíssima e enquanto você agoniza ele ampara teu rosto e te conta dos sultões que possuíram aquela adaga e dos tesouros que mudaram de mão graças a ela e dos bravos que sucumbiram pelo golpe fatal que só ela sabe desferir, independente da mão que a segura. Ela esteve em Roma, entre os Césares, esteve com Gengis Khan, talvez até mesmo nas mãos de Caim. Ela é quem comanda a mão e se a mão não tiver a estirpe necessária, ela cortará, não a tua jugular, mas a própria mão do inimigo para que ele aprenda que não estava a altura do teu ódio, não era digno de teu asco, nunca fora merecedor de tua repulsa, não foi sem seria nunca teu melhor inimigo.

É inútil. Por mais olhos que você tenha ou contrate, você nunca vê teu melhor inimigo chegar. Nunca. Se você pensa que vê, ou tua vista é quem te engana ou tua idéia está variando ou é você inteiro que não conhece teu melhor inimigo. Você ainda vive no engano, no logro, no erro. Mas teu melhor inimigo não erra nem vem te enganar, que pra enganar qualquer inimigo serve. Ele, o teu melhor inimigo, ele vem te desenganar.

É uma paixão esse ódio a que ele dá de comer cotidianamente, como um pássaro, um louva-a-deus. E para amparar tamanho ódio, para construir tanto rancor, ele se dedicou a te conhecer a fundo, como só tua mãe te conhece. Nenhuma amizade tua é capaz dessa dedicação, dessa fidelidade canina, de cão hidrófobo. Ele te prepara uma canção que embosque como dois olhos de felino no escuro. E irá te destruir com a melhor repugnância, o mais alto nojo, a mais dedicada raiva. Com um desprezo fraterno, com uma ira maternal. E mesmo depois de te aniquilar, ele não te esquecerá. Quando ninguém mais lembrar de ti, quando você for nada para o mundo e os que nele vivem, para os que te conheceram, para os que te amaram um dia, para os que choraram tua morte, só teu melhor inimigo irá te ver na tua última morada e cuspir na tua cova e urinar sobre o teu nome, quase apagado na lápide.

Teu melhor inimigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. E ele há de te guardar debaixo de sete palmos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

MEUS CAROS AMIGOS

Desde 2005 sou colunista da revista Caros Amigos. Aqui republico algumas das crônicas publicadas lá.

Basta de injustiça, chega de exploração:
MAMÃE, EU QUERO MAMAR!


Minha amiga, me faça um favor, ligue a tv, bote em qualquer canal e assista a uns três ou quatro anúncios, a umas duas ou três notícias. Pode ir que eu espero.

Foi? Agora me diga se eu estou errado. Nos anúncios as crianças agem como adultos e os adultos como crianças? Você viu um senador da república roubando descaradamente e defendendo até às lágrimas seu direito de roubar descaradamente? Viu um ministro lá do judiciário ganhando uns 20 mil, se aposentando com os 20 mil limpinhos e reclamando que não tem aumento? Viu milhões de pessoas vivendo numa favela, sem esgoto, hospital e escola, com tiroteio diário e todo mundo saindo de casa pra trabalhar em vez de sair pra tocar fogo na cidade inteira?

Bem, você e o resto da turma eu não sei, minha amiga, mas eu, diante disso tudo, eu pergunto: esses poderosos todos acham que vão me tratar feito criança e eu não vou fazer nada? Pois estão muito enganados! Eu vou fazer birra, vou fazer manha, vou fazer beicinho, vou deitar no chão e espernear! E não vou ficar calado não. Vou chorar bem alto: uééééé! E se você está estranhando, eu explico, minha amiga. É simples: está mais do que provado, está mais do que na cara que eu tenho a idade mental de um bebê. Que outra explicação pode haver para esse mundo ser esse mundo e eu não sair por aí incendiando tudo, como um descendente de Nero, ou cometendo uns três ou quatro genocídios, tal qual uma reencarnação de Átila, de algum papa ou do Stálin?

E já que eu não fiz nada disso, a partir de hoje eu exijo ser tratado como um recém-nascido, um lobotomizado. É, minha amiga, essa aqui é a Declaração Universal dos Direitos de um Zero à Esquerda. E o zero à esquerda sou eu, muito prazer. Chega de ser inocente útil. Eu quero ser um inocente inútil, improdutivo, imprestável e não ter mais responsabilidade nenhuma. Eu não quero saber de restaurante de um real nem de ticket-refeição: eu quero o governador em pessoa aqui em casa na hora do almoço fazendo “olha o aviãozinho” com a colher cheia de feijão. Eu não quero transporte público, eu quero que me levem no colo. Neném gosta é de colinho! É isso mesmo, o Brasil pode tratar de se apertar porque chegou mais um pra ficar deitado eternamente em berço esplêndido: eu! Podem me prender e até me torturar. Minhas únicas declarações serão: papá, mamã, dadi-dudi-dódó!

Mas não se assuste, minha amiga, porque eu também não sou nenhum revoltado inconsequente. De jeito nenhum! Tanto que prometo bater palminha pra todas as declarações dos poderosos. Podem mentir à vontade, podem até cair na gargalhada no meio de seus importantes pronunciamentos. Eu vou também vou rir. Nós, os bebês, somos assim: sempre que a gente vê um adulto rindo a gente ri junto.

E nunca mais vou recitar emocionado: Ah, que saudades que eu tenho da minha infância querida. Sabem por quê? Porque a minha infância querida só vai acabar quando eu morrer bem velhinho. E ainda estarei andando de carrinho e tomando mamadeira. Não quero decidir mais nada, o máximo que eu posso fazer é comprar e comprar e chorar quando escangalhar. Só uma última proposta: em vez de deputados e senadores, a gente devia eleger babás para ocupar o Congresso e a ONU e decidir os destinos da nação e do mundo.

E você é bem capaz de me perguntar: mas quem vai tomar conta dessa criançada? Quem vai gerir o mundo e a humanidade? Ah, sei lá, eu sou pequenininho, não me preocupo com isso não. Não quero mais saber de governantes. Aceito no máximo uma governanta. De preferência uma alemã peituda e mandona. Eu sou que nem o Peter Pan. E quero comer a Sininho. Escrever esse texto foi a última iniciativa que eu tomei na vida. Depois do ponto final eu não tenho mais opinião, só tenho vontade: eu quero! Eu quero! Eu quero! E pronto! Quero liberdade total, vou fazer cocô nas calças e ainda vou esfregar na parede! Não quero bolsa-família, não quero bolsa-escola, não quero cidadania. Tenho uma única reivindicação final, minha amiga: dá a chupeta pro bebê não chorar!