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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

“NÚNCARAS” – po+es+ia

Affonso Ávila sempre nos premiou. Com o artesanato fino da sua poesia. De vez em quando alguém lembra de retribuir e dar a ele um prêmio. Foi o que fez a Secretaria de Cultura de Minas Gerais, atribuindo a Affonso o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pelo conjunto de sua obra.
Mineiro dos melhores, aqueles que nascem em Minas e depois vão deixando Minas nascer dentro deles, Affonso começou a publicar em 1953, se ligou ao grupo da Poesia Concreta, colaborando em sua revista Invenção, e recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia – 1991 com o livro O Visto e o Imaginado. Em 1963, organiza com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, na Universidade Federal de Minas Gerais. Grande estudioso do barroco brasileiro, de 69 a 96 dirige a revista Barroco, publicada pelo Centro de Estudos Mineiros da UFMG. E na década de 80 cria o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.
Sua poesia é marcada pela invenção, pela experimentação. Affonso nasceu em 1928 e não vai morrer nunca, enquanto houver na Terra quem leia e pense e imagine.

Os negros de Itaverava

Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.

Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.

Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.

(Em Código de Minas & Poesia anterior, Editora Civilização Brasileira, 1969.)

insólito

contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
 
(Em poeta poente, Editora Perspectiva, 2010.)

IMPROVISO

A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário,
pelo amor de sempre.

A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo amor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

(Em Carta do Solo, Editora Tendência, 1961).

ARTE DE FURTAR

O poeta declarou que toda criação é tributária de outras
     criações no permanente processo de linguagem da poesia

O poeta afirmou que todo criador é tributário de outros no
     processo de linguagem da poesia

O poeta se confessou um criador tributário de outros na
     linguagem de sua poesia

O poeta não esconde que sua poesia é tributária da linguagem
     de outros criadores

O poeta não esconde que sua poesia é influenciada pela
     linguagem de outros criadores

O poeta não faz segredo de que se utiliza da linguagem de
     outros poetas

O poeta fala abertamente que se apropria da linguagem de
     outros poetas

O poeta é um deslavado apropriador de linguagens

O POETA É UM PLAGIÁRIO

(Em O discurso da difamação do poeta, Summus Editorial, 1978)

URBANA

turvo rio margem assoreada
de terras podres ímpetos detritos
decompostos da plenitude e da beleza
saqueados a shoppings edifícios
o poder açodado e o poder acuado
vias de pecúnia pedante e rodante
quilômetros de fita métrica
medindo a aflição do relógio
e carros zero enfilando humilhados
o que não mais se vê que veículos e veículos
de vaidade afã de quem expecta
o sobe e desce da bolsa
o encontro da fêmea de programa
o conferir inferido da féria
e sobrenadando a água poluída
do último temporal
o conduto dos sem dos que não têm
lupenato dos mal natos
ordem de vez da astúcia do comando
súbito letal o regalo tomando
assalto relâmpago
 
(Em poeta poente, editora Perspectiva, 2010.)

OUTDOR - po+es+ia +v+is+ual

SAMARAL
– POESIA, CRIAÇÃO E AGITO –

Nas décadas de 70, 80 e 90 era comum vê-lo ali pela Glória e pelo Catete, sempre fumando, ou em algum boteco das redondezas tomando uma cerveja, sempre falando de poesia, sempre agitando algum projeto, sempre com papéis debaixo do braço. Podiam ser poemas novos, podiam ser esboços de um novo número da Urbana, um fanzine de poesia que ele produziu e editou. Ele, o poeta Samaral.
Samaral nasceu em 1948 no Rio Grande do Sul. Não sei quando veio para o Rio mas sei que nos cercas de 30 anos qua andou por aqui foi um agitador cultural, na linhagem de Oswald, de Vinícius. Na sua geração, fez muitas parcerias com os poetas Paco Cac e Chacal, outros dois grandes agitadores culturais que continuam na ativa – Chacal no Rio e Paco em Brasília. Fez por exemplo as “Segundas Urbanas – poesia luzidia no ar da velos cidade”, no Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, o Castelinho do Flamengo.
Samaral morreu em 17 de março de 1998. Viva Samaral!
O poeta e jornalista Samaral, 1948 – 1998, que em 1973 havia editado a revista O FETO, rodada em mimeógrafo, reuniu um grupo de amigos e lançou no Rio de Janeiro, em 1985, o primeiro número de uma publicação que a princípio se chamou “Jornal de Bordo, URBANA”, com representantes em Belo Horizonte e Manaus. Seus editores/produtores foram: Cuíca, Eduardo Barr, João Sem Terra, Narciso Lobo, Paco Cac e Samaral. O projeto e a execução gráfica ficou sob a batuta de Samaral e Eduardo Barr. Vinte e oito foram os colaboradores. Ei-los: Alexandre Salgado, Ângela Melin, Ana Maria Miranda, Carmen Saporetti, Cuíca, Denise Alvarenga, Edgar Ribeiro, Eduardo Barr, João Sem Terra, Jorge Orlando, Jorge Salomão, José Alberto Lopes, Kátia Prates, Leonardo Fróes, Mauro Pamplona, Narciso Lobo, Paco, Marize Castro, Paulo Nunes, Rasec, Peter Magubane, Ricardo Beliel, Regina Lustosa, Ronaldo Macedo, Samaral, Solange Padilha,Vânia de Magalhães e Xico Chaves.
No seu projeto gráfico, URBANA nos apresenta uma proposta visual extremamente inovadora. Seu tamanho é de 29 x 44 cm, totalmente azul, com manchas marrom na capa e na contracapa. As interferências presentes entre as fotos, ilustrações e poemas revelam a proposta estética da revista. As páginas centrais foram dedicadas à poesia africana, reunindo diversos autores de diversos países africanos. A última página presta homenagem ao poeta e militante do CNA, Benjamim Moloise, enforcado no dia 18 de Outubro de 1985, na África do Sul. Com apenas 12 páginas esta publicação é umas das mais arrojadas experiências poéticas desse período.
O segundo número da Urbana foi mais radical na proposta de socializar a divulgação de trabalhos poéticos, reunindo aproximadamente trabalhos de 94 artistas brasileiros e de outros países, num caleidoscópio de estilos e temas. Autores de quase todos os estados brasileiros tiveram seus trabalhos publicados. A tiragem foi de 2.500 exemplares, 14 páginas e contou com o apoio da FUNARTE e da Associação Brasileira de Artistas Plásticos Profissionais.
Apesar do impacto dos seus excepcionais números, o projeto Edições URBANA ficou parado, mas latente nas cabeças dos seus primeiros organizadores. Em Agosto de 1987, dando continuidade ao projeto, foi lançado o URBANA Mural 1, Se Angra Explode quem se fode?, mais uma experiência poética inusitada, com o tamanho de 44 x 61 cm. A proposta era lançar um Mural temático de dois em dois anos.
Depois do segundo número, a revista teve uma parada de 3 anos e 5 meses. Em maio de 1990, com o lema Cobra que não anda não engole sapo, a URBANA ressurge, em seu terceiro número, com quatro páginas apenas, em papel jornal, no tamanho 29 x 36 cm. As dificuldades financeiras eram muitas, era preciso manter acesa a chama da utopia e partir para o ataque. Mais uma vez o espírito cooperativo predominou, os amigos contribuíram com poemas e afetividade: Álvaro Marins, Fred Maia, que cedeu camisetas para serem vendidas e assim ajudar na produção, João de Abreu Borges, Mano Melo, Márcia Freitas fazendo a revisão, Margareth Castanheiro, Vanda Freitas ilustrando e Zeca de Magalhães, Kzé. Zeca ficou com a responsa de também fazer a distribuição. A editoração teve o apoio de um amigo trotskista, Erick, que estava montando uma produtora de editoração computadorizada chamada Cinesoft. A tiragem foi de 5 mil exemplares. Zeca e Paco vendiam na Barca Rio-Niterói, fazendo lançamentos e falando poemas relâmpagos no trajeto da barca às 23h, quando os estudantes voltavam da UFF, e assim a URBANA seguiu adiante. Depois deste número ela nunca mais parou, só o fazendo quando o seu timoneiro faleceu. Vários foram seus co-editores e passageiros.
Até o décimo terceiro número, a URBANA, tinha como subtítulo Jornal Poema Fanzine, era editada em papel jornal, formato 29 x 36 cm, e sua tiragem variava entre 2 mil e 5 mil exemplares. Nos números 14º e 15º o subtítulo passou a ser Poema Fanzine, sendo retirado o nome “jornal”. Mas foi a partir do número 16, inverno de 1993, que a URBANA passou a ser editada como revista, no formato 17 x 28 cm, que ainda sofreria modificação. Os números 16 em diante seriam no formato 14,5x 27 cm e assim foi até o seu último número, o 22, como edição homenagem a Samaral que havia falecido em 17 de março de 1998. Essa edição especial de 15 anos de existência foi lançada em 2001, com tiragem de 5.000 exemplares, organizada pela Vidarte Urbana Edições e editada pelo poeta Dirval. Diagramação e arte-final de João de Abreu Borges e assessoria visual de Wladimir Dias-Pino. 144 autores participaram com textos, incluindo poetas que foram referência para Samaral, como Maiakovski e uma página dedicada a Che Guevara.
Além de publicar aproximadamente 400 poetas brasileiros, URBANA foi um pólo catalisador, divulgando eventos e publicações que circularam no período de 1985 a 1998, no Rio de Janeiro. Seus lançamentos mantinham acessa a centelha dos anos 70, eram acontecimentos onde diversos artistas se apresentavam em suas mais diversas formas, um happening, ou como na gíria da rapaziada, um apronto.

Paco Cac

 
“A poesia de Samaral tem aquela capacidade rara de sintetizar a influência da contracultura dos anos 60 e 70, com seu desbunde, improviso, liberdade criativa e escrita automática com o experimento plástico de pesquisa dos limites da poesia visual, da concreta e do poema-processo. Seus poemas visuais transitam assim numa confluência de linhas em que a crítica ao sistema consumista, à mídia e à coisificação se apresentam estruturados num espaço cujo limite é para além da liberdade absoluta e sem limites, o reencontro com a ordem, não mais agora a ordem da tradição ou da norma gratuita, mas o rigor transcendente do universo multidimensional. Associado ao fato de que boa parte da produção poética de Samaral se dá num momento pré-internet e ante-pc-pessoal, em que a produção do poema ainda se via dominada pelo âmbito dos recurso físicos de uma pequena gráfica: off-set, xerox, mimeógrafo, máquina de escrever e quando não, tesoura, revistas velhas e papel, seguindo de perto a receita de um Tristan Tzara mais por recondicionamento das condições sociais, do que por filiação dadaísta; os poemas de Samaral têm uma atmosfera envolvente de desarranjo aparente, de névoa de pub londrino com gafieira carioca, que marca um momento da jovem poesia marginal brasileira da década de 70 para 80 que poucos críticos têm prestado atenção, mas que essa poesia fez por enriquecer a dinâmica e o imaginário poético da cultura brasileira de uma forma que chegamos hoje a compreender muito do que aplaudimos em um Caetano Veloso, Waly Salomão e Jorge Mautner - para citar os mais velhos - e num Skank, Legião Urbana, Arnaldo Antunes - para citar os mais novos, devido às ousadias pioneiras de poetas como Samaral e sua luta pela poesia marginal no Rio de Janeiro.”

Jayro Luna


Para realizar essa matéria sobre Samaral, contei com a enorme ajuda do poeta Paco Cac e peguei materiais no blogs de Aimerê Cesar, Luiz Trimano e Jairo Luna (Orfeu Spam 14).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,
Passei a manhã no Lower East Side, entre gente do mundo inteiro e a mistura de muitos passados. Depois fui ao Museu de Arte Contemporânea pra equilibrar. Os curadores continuam mandando na nova Bolsa de Valores que é a arte contemporânea. Por fim caminhei uns cinco quarteirões até o Sammy’s Roumanian, onde tomei uma sopa de miúdos e agora saboreio fígado picado acompanhado de mamaliga com queijo, enquanto bebo uma tuica, que é uma cachaça feita de ameixa e forte como o diabo! Aproveito para te mandar a mais recente criação do nosso cantador atômico, Patavina do Alcaçuz. Ele me fez duas promessas: continuar escrevendo para que eu possa por fim organizar o livro com suas poesias e te processar por usar o nome dele para batizar teu blog.

Abracadabraço do
Jean Prévert

O POETA PATAVINA DO ALCAÇUZ
CONVIDA O DESPEITÁVEL PÚBLICO
A CONHECER O ENCOBRIMENTO DO BRASIL

o meu nome é patavina
verso como quem navega
seja no mar da poesia
seja no álcool da adega
chamo a verdade de irmã
e a mentira de colega
e vou contar a história
da nau que ficou às cegas
dizem que até hoje
pelo mar ela trafega

dizem, mas ninguém prova
só se sabe que cabral
era o chefe da esquadra
onde estava essa nau
eram bem mais de mil homens
saídos de portugal
mulher? não tinha nenhuma
nada de xota, só pau
e nem sabiam onde iam
ô que viagem legal!

foi no brasil que chegaram
cabral e sua cambada
debaixo de bruta chuva
viram as índias peladas
mas em vez de tirar a roupa
e cair na batucada
encher a cara de uca
bacalhau com feijoada
vestiram os índios todinhos
com hóstia, missa e porrada

mas uma das 13 naus
não chegou a aportar
foi a de vasco ataíde
que se perdeu pelo mar
e achou outro brasil
muito melhor que o de cá
pois num dia cheio de sol
aqueles índios de lá
despiram os portugueses
e foram comemorar

com todo mundo pelado
começou logo a festança
tinha comida e bebida
mais maconha e fudelança
passaram-se oito meses
sem sequer parar a dança
o vasco ataíde doidão
enchendo a pica e a pança
e quem vai lembrar d’el rei
vivendo nessa bonança?

mas o escriba da nau
que era primo de caminha
fez parar aquela zona
começou a ladainha
lembrando da obrigação
com el rey e a rainha
e temos a fé em cristo
pra salvar essa gentinha
serão nossos escravos
andando sempre na linha

vasco ataíde então disse
você é um soldado leal
bote tudo numa carta
e leve pra portugal
como só tem um navio
vais a nado, animal!
e se não quiser cumprir
esta missão bestial
podes ficar por aqui
sentadinho no meu pau

os índios e os portugueses
voltaram pra putaria
tacaram fogo na nau
assim ninguém mais fugia
decretaram só uma lei
aqui não tem mais chefia
a farra começa de noite
mas não acaba de dia
porque farra nessa vida
é o que tem serventia

batizaram aquela terra
brasa-braseiro-brasil
descoberto por acaso
bem no primeiro de abril
cagaram para el rey
e aposentaram o fuzil
juro que é tudo verdade
ainda não estou senil
e quem duvidar do que eu conto
vá pra puta que o pariu

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

“NÚNCARAS” – po+es+ia

BRÁULIO TAVARES - O CANTADOR CIBERNÉTICO

Nascido em Campina Grande, em 1950, Braulio Tavares escreve poesia, prosa, letras de música, contos, ensaios... É um criador e um pensador da criação literária. Aqui dois poemas desse cantador cibernético: A Coisa e O Caso dos Dez Negrinhos. Se você gostou (e duvido que não goste), tem mais Braulio Tavares no blog dele: Mundo Fantasmo. (http://mundofantasmo.blogspot.com).

A coisa

Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa
que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo
com pernas que ela terá de crescer de si própria;
e que seja ela uma máquina viva, uma máquina
capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.
Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.
Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas
e metonímias e quarks e transistores e estames
e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...
Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa
que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam
e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,
e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos
e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,
e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia
tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando
com meus olhos de homem, me sorrindo
com tantas bocas de mulher, me envolvendo
com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,
fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,
como um setor a mais invadido um círculo já completo.
Eu quero que essa coisa existisse, assim como
eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.
Coisa criada, cobra criante, serpente criança,
criatura sentiente, existinte, sente, pensante,
cercada pela linha brusca do seu até-aqui
Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá
como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,
e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.
Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.
Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,
e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ônibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento... que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.


O CASO DOS DEZ NEGRINHOS
(Romance Policial Brasileiro)

Dez negrinhos numa cela
e um deles já não se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.

Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou: cruzou com uma bala...
Correram oito.

Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete;
roupa caqui vem chegando,
fugiram sete.

Sete negrinhos passando
pela rua de vocês;
alguém chamou a polícia,
correram seis.

Seis negrinhos dão o balanço:
bolsa, anel, relógio, brinco...
Houve um erro na partilha,
sobraram cinco.

Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira...
Correram quatro.

Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez.
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.

Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.

Dois negrinhos se embebedam
de Brahma, cachaça e rum.
Discussão, briga, navalha...
e fica um.

E um negrinho vem surgindo
no meio da multidão.
Por trás desse derradeiro...
vem um milhão.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

RINHA DE GALINHA

     Por Don King - nosso correspondente na Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais


Mais um duelo de titãs. E dessa vez é um duelo-ménage, de três. Wallll! No corner da direita, Rodrigues Lobo (1579-1621), o Demolidor de Lisboa, que foi considerado um dos maiores discípulos de Camões e um mestre do Barroco na literatura portuguesa. No soneto Fermoso Tejo Meu ele canta o rio de sua aldeia, que o engoliria anos depois num naufrágio. No corner da esquerda, Gregório de Mattos (1636-1695), O Boca Maldita, que não liga pra morte de Rodrigues Lobo e conversa com ele em Triste Bahia, cantando a terra que também o engoliria. E no terceiro corner do rio, surge, séculos mais tarde, Caetano Veloso cantando Gregório. Cantará um dia Rodrigues Lobo? Ninguém sabe e o pau come na casa de Noca. Holly shit!

Fermoso Tejo meu, quão diferente

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

Rodrigues Lobo

Triste Bahia

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Gregório de Mattos


 
Triste Bahia, poema de Gregório de Mattos musicado por Caetano Veloso. (Fonte: You Tube).

sexta-feira, 6 de maio de 2011

“NÚNCARAS” – po+es+ia

Uma conversa poético-erótica entre os brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Oswaldo Martins e a portuguesa Manuela Amaral. E se você quiser aprofundar a conversa, conheça o ensaio Corpos abertos e silêncios rasgados: o recurso poético e político do erotismo na contemporaneidade, de Larissa Andriolli, publicado na ótima revista on line Mafuá (http://www.mafua.ufsc.br/numero15/ensaios/ ).

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso ao teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

(Carlos Drummond de Andrade, em Brejo das Almas)

A virgem de olhos doces tece intrigas
para conquistar os favores
de deus

para isso usa de artifícios
finge no olhar vazio
ser a menina dos olhos

depois diz para isabel:
fodi com deus.

ah, isabel, isabel,
com ele
é como se fodesse com todos os homens

(Oswaldo Martins, em Cosmologia do Impreciso, 7 Letras)

4
cristo nas bodas de caná houvesse percorrido
o colo das moças

e com os olhos inebriados de tesão
tocasse aqui uma teta
ali as curvas

as portentosas nádegas
da mulher que se oferecia

mais que a morte
seria a carne

nossa unção

(Oswaldo Martins, em Cosmologia do Impreciso, 7 Letras)

Não sou homem
nem mulher
nem lésbica
ou pederasta

Sou tudo

Mas ser tudo
não me basta

(Manuela Amaral)

REBELDIA

Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida

(Manuela Amaral)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO

Pier Paolo Pasolini, o genial cineasta italiano morto a pauladas pelos mesmos neo-fascistas que pariram e amamentaram Berlusconi, também era um grande e polêmico escritor. Confira o poema dele.

A UM PAPA

Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.

Pier Paolo Pasolini, em Poemas, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Assírio & Alvim, Portugal.

PREPARE O SEU ORELHÃO PRAS COISAS QUE EU VOU CONTAR



O poeta Fabrício Corsaletti lê o poema SEU NOME, que faz parte do livro Esquimó, lançado pela Companhia das Letras.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

“NÚNCARAS” – po+es+ia


ADRIANO ESPÍNOLA

A poesia solar do cearense Adriano Espínola se constrói com musicalidade e concisão,
fugindo do derramamento verbal. Em uma das vertentes criativas de seus versos,
o poeta dialoga com a história da literatura, revelando suas leituras e conversas
e mostrando como foi construindo seus caminhos.
Adriano publicou os livros Táxi/Metrô (1996), Beira-Sol (97), Fala, Favela (98),
O Lote Clandestino (2002) e praia provisória (2006,
Prêmio 2007 de poesia da Academia Brasileira de Letras).


CAIS

Ó nau, de novo, ao largo mar te levam / as ondas!
Horácio

à beira
do
velho
cais

ondas
novas
levam
ao
vento

o teu
barco
e este
mo
mento

para
o mar
do nunc
a
mais


O PREGO

o que mais dói
não é o retrato
na parede

mas o prego
ali cravado
persistente

no centro da
mancha
do quadro au-
sente


A CEBOLA

Cortá-la camada
por camada
até chegar

ao centro.

(Ao bulbo do nada
do eu
mais dentro.)

Não chorar.


SOUSÂNDRADE

yea!
na
lín
gua

por
tu
guesa
a

por
tou
er

rante
um
guesa


Língua-mar

A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua-mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

“NÚNCARAS” – po+es+ia -


SALGADO MARANHÃO
– UMA VOZ DA POESIA CONTEMPORÂNEA


Maranhense até no nome, Salgado Maranhão vive no Rio desde 1973. Em 78, participou da antologia Ebulição da Escrivatura e de lá pra cá vem construindo uma obra poética marcada pelo alto grau de invenção presente em sua recriação da língua no verso, buscando “a torteza inusitada que me arranque do chão”. Ali podemos encontrar suas origens, sua cor, sua vivência oriental e outros rastros da vida do poeta, mas sempre com a marca de engenho e arte para tratar de qualquer tema ou mesmo de tema nenhum.
Salgado publicou os livros Punhos da serpente (Rio de Janeiro, Achiamé, 1989); Palávora (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1995 ); O beijo da fera (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1996); Mural de ventos (Rio de Janeiro, José Olympio, 1998, Prêmio Jabuti), Sol Sanguíneo e A Cor da Palavra (reunião de sua obra poética até agora, Editora Imago/FBN).
O poeta também é letrista e este seu trabalho pode ser conferido no cd Amorágio, onde estão reunidas algumas de suas parcerias com Ivan Lins, Elton Medeiros, Paulinho da Viola e outros.

A cidade

Espaços da cidade
agônica
fluem com os bárbaros
insurretos. Noiados.
Sem visgo de afeto
que adoce as ranhuras .

Quito ao meu olhar
virtual
sua cota de sonhos:
gatas de chocolate
e bundas avulsas.

Que passam e não me agendam
em nenhuma manhã.

(Egos de bife e batom.)

Estrelas de carne e faíscas
entrefodem-se no Olimpo.

O azul e as farpas

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia uma calúnia,
cravam no azul da tarde o zen do azar.
Tento amarrar o tempo e a corda é curta,
tento medir o nada e nada ajusta.
(Meus nervos tocam para os inimigos
que chegam sob o som de uma mazurca.)
Resta a mó do destino – o desabrigo
– a devolver meu pão de volta ao trigo.

Voz

Minha carne é fibra de argila e sol
verão. Ou docas onde a dor se encuba
secretamente. Sei que em meu paiol
os andróides de porre dançam rumba.
No entanto flui de mim um girassol
lilás que luz, que jazz, que mais que alumbra,
esculpe as esquadrias do arrebol
dissolve o tempo sobre a minha juba.
Já de júbilo desse pergaminho,
aceito o temporal – redemoinho
de pedras: tanto degrau... tanta esgrima...
e ao ter somente a voz como caminho
agarro a poesia pela crina
e me arrimo na minha própria rima.

X. NADIRES

A sanha que aquece a raiz dos úmeros
enseja ao coração um disparate,
ao desvelar o que é de flor em fero,
ao se tornar fiel ao que lhe mate.
São forças que nos raptam a um sem número
de vezes e vieses e desates,
felizes perdedores desse embate;
nem no sonho que enlaça nossa íris
nessa teia de nadas e nadires
em que tudo se rende ao mesmo jogo.
Vem da palavra a sagração dos ritos:
esta relíquia de silêncio e gritos.

SENTENÇA

faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.

por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.

domingo, 4 de julho de 2010

“NÚNCARAS” – po+es+ia





Morreu neste sábado em São Paulo o poeta Roberto Piva, aos 72 anos. Autor de Paranóia, recentemente relançado pelo Instituto Moreira Salles, Piva teve toda a sua obra publicada em três volumes pela Editora Globo. E agora, um pouco do muito: sua poesia.

Praça da República dos meus sonhos
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde Garcia Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa


Os anjos de sodoma

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus

(Quer mais Roberto Piva? Vá ao Germina: http://www.germinaliteratura.com.br/literatura_out05_robertopiva.htm )

segunda-feira, 3 de maio de 2010

“NÚNCARAS” – po+es+ia


ROBERTO PIVA

O poeta Roberto Piva está com 73 anos e teve sua obra principal – o livro Paranóia – relançado pelo Instituto Moreira Salles em 2009. São 19 poemas que conversam com fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee. Que dupla, hein?

Piva já publicou Paranóia (Massao Ohno, 1963, reeditado em 2000 e em 2009 pelo Instituto Moreira Salles), Piazzas (1964, reeditado em 1979), Abra os olhos e diga AH! (1976), Coxas (1979), 20 poemas com brócoli (1981), Quizumba (1983), Ciclones (1997) e Estranhos sinais de Saturno (2008), além de uma antologia poética em 2005 e manifestos. Esses livros estão em Obra Reunida (editora Globo), organizada por Alcir Pécora, em três volumes: Um estrangeiro na legião (2005), posfácio de Claudio Willer, Mala na mão & asas pretas (2006), posfácio de Eliane Robert Moraes, e Estranhos Sinais de Saturno (2008), posfácio de Davi Arrigucci Jr. Em 2010, foi lançada uma coletânea de suas entrevistas, Encontros: Roberto Piva, pela editora Azougue. Piva relê São Paulo e o mundo (real e literário) com olhos peculiares, oníricos, beats e experimentais Vale a pena conhecer – ou melhor: mergulhar em sua poesia.

Nesse momento o poeta passa por grandes problemas de saúde, sofrendo de Mal de Parkinson e tem recebido a ajuda de vários outros poetas, como Ademir Assunção, que divulgou as dificuldades de Piva em seu blog, e Claudio Willer, que participou do programa Sempre um Papo, no SESC Vila Mariana, em Sampa, falando sobre Piva e sua obra, junto com depoimentos de Antonio Fernando de Franceschi, Celso de Alencar, Roberto Bicelli, Toninho Mendes, Ugo Giorgetti e Valesca Dios. E com vocês... Roberto Piva!

Paranóia

Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação