segunda-feira, 6 de julho de 2009

IMPRESSÕES DIGITAIS

IT’S A LONG WAY E NÃO TEM TRADUÇÃO


Não sou bom com datas, mas foi lá pelo final da década de 60 que eu escutei o Sol nas bancas de revista e não entendi. Era uma época em que eu começava a não entender muitas coisas e Caetano Veloso me ajudou um bocado nisso. Eu ouvia suas canções, via aquela figura, magra como um Vê, sorrindo, levando vaia e se indignando nos festivais e era como se eu tivesse me atirado numa correnteza que ia me levando com medo e prazer. Eu também caminhava contra o vento? Contra moinhos de vento, caminhávamos, lutávamos, amávamos? O Sol nas bancas de revista era uma estrela, era um jornal, era o começo de uma caminhada, it’s a long way, viver é muito perigoso, nos sertões, na Bahia, na ditadura, em Londres, numa canção do exílio, no passado recantado e decantado da nossa música, na lua oval da esso e de São Jorge, shy moon, it’s a long and winding road, but today I don’t know why...

E nesses caminhos de fina estampa, o que disse Caetano? E como disse Caetano?, criando outra língua que não é mais a portuguesa e continua sendo, minha pátria, minha mátria, minha frátria, outra língua que é ritmo, arte, que é só um jeito de corpo, onde me levam esses trilhos urbanos, baianos, humanos?

Cada disco de Caetano (somos da época do disco!) sempre precisava ser escutado duas vezes pela primeira vez, para que eu começasse a traduzir o que não tem tradução, pois afinal o que disse Caetano, o que diz, o que dirá? Se não tem tradução, tem tradição e tem novo. Caetano tinha sempre uma novidade antiga e uma antiguidade nova. E continua tendo e cada vez que escuto Caetano vou relendo Caetanos, plural, releitor, recantor, recompositor. Mas o que ele disse mesmo?

Me lembro que já na década de 70 eu estudava na faculdade de Letras da UFRJ, que tinha sido jogada pela ditadura num velho galpão na avenida Chile. Os diretórios dos estudantes ainda estavam fechados, fichados, proibidos. Nós conseguimos inventar um órgão cultural – o SEMA, Seminário Mário de Andrade – e com ele íamos fazendo política proibida e cultura idem. Uma de nossas atividades foi realizar no teatro da faculdade o Circuito Aberto de Música Popular Brasileira, bolado por Chico Chaves, Marlui Miranda e outros que então começavam. A cada sábado, três ou quatro novos cantores/compositores se apresentavam junto com alguém já conhecido, como Clementina de Jesus, Cartola e vários outros. No dia em que o nome conhecido era Caetano Veloso estávamos à tarde preparando a decoração do palco quando soubemos que um dos novos não ia poder se apresentar. Acabamos de arrumar tudo e saímos para comer alguma coisa antes do show. Na época as redondezas do Largo da Carioca eram um labirinto pra fio de Ariadne nenhum botar defeito, graças às obras do metrô. Quando já voltávamos, escutamos um forró delicioso que vinha do acampamento dos operários do metrô. Daí alguém deu a idéia e nós resolvemos convidar os forrozeiros para abrir o show, já que havia tempo sobrando. Eles ficaram cabreiros de ir tocar numa faculdade, para um público desconhecido mas, com meia hora de conversa e cerveja, acabaram topando e, já de saída, perguntaram quem mais ia tocar por lá. Desfiamos os nomes novos, que eles não conheciam, e fechamos com Caetano. Novamente eles se recusaram a ir lá tocar, e com muito mais veemência. Caetano continuava assustando. Mais meias horas de conversa e cerveja e eles acabaram topando e abriram um show universitário que contava com ninguém menos que Caetano Veloso.

É mais uma história superbacana, estilhaços sobre Copacabana, bem ali na Ipiranga com a São João. A caetanave é um caleidoscópio tropical. São outras mesmas palavras, de quando ele se encontrava preso na cela de uma cadeia e os podres poderes gritavam vamos matar Caetano. Mas não, vamos comer, beber e dançar caetanos, porque alguma coisa está fora da ordem e essa coisa é sua mãe e eu e a mãe do seu irmão e o coração materno dela, é Santa Clara padroeira da televisão, é Didi, santo trapalhão, é de noite na cama, o divino conteúdo, que se quebrou, e caetano está se quebrando e se requebrando. Caetano é assim, assusta e enriquece. Desbrava-esbraveja o Brasil e beija a boca de Gil. Que impressão eu tenho de Caetano? Todas, digitais, mecânicas, manuais, acústicas. Caetano é a filha da Chiquita Bacana. E a mãe também. Alguém cantando muito, alguém cantando bem. Vadio laptop atrás do trio elétrico. Locos por ti todos perguntamos e respondemos quem é Caetano. E toda essa gente se engana.

AVISO AOS NAUFRAGANTES

DARWIN, O DESERTO E AS LONTRAS

Um inglês, um francês e um boliviano, no meio do Deserto de Atacama, esperando chover e tentando escutar o choro de uma lontra. E o inglês é Charles Darwin, fazendo as primeiras anotações para seu famoso livro.

Eis o enredo de meu conto La Nutria de Atacama, que está publicado no site TextoTerritório. Lá você também vai encontrar as anti-odes de Oswaldo Martins e Alexandre Faria, os dois organizadores do site. E, como eu fiz, você pode enviar textos para a oficina Charles Darwin,: “recriação poética e/ou ficcional da obra e/ou vida do naturalista inglês que tirou o sono do mundo”. Além de outras duas, sobre Machado de Assis e Manuel Bandeira. É só dar um confere. O endereço é: http://www.textoterritorio.pro.br/site/

PRIMEIRO CADERNO
DO ALUMNO DE PORNOGRAPHIA

CESAR CARDOSO

Sob esse título acaba de ser publicada uma série de poemas eróticos meus, no site Germina – revista de literatura e arte. O site tem uma coletânea de textos eróticos reunindo autores como Brecht, Drummond, John Donne, Hilda Hilst, Aretino, entre outros. Como vocês veem eu estou em ótima companhia. (Não sei se eles diriam a mesma coisa...) O endereço é http://www.germinaliteratura.com.br/

PATAVINinha’s

ROBERTO FLOR,
UM COBERTOR


Na minha casa
mora um cobertor
que eu batizei
de Roberto Flor.

Tinha guardado
esse nome pro meu gato.
Só que aqui no prédio
todo bicho vai pro lixo.
É proibido.
É contra a tal da lei

Mas pra que ela serve
isso eu não sei.

Diz que bicho
faz barulho,
suja tudo.
Mas meu irmão menor
chora berra faz xixi
e aí
fica todo mundo mudo.

E a vizinha de baixo
quando briga com o marido?
Também não devia
ser proibido?

Só espero que não proíbam
a gente de ter coberta.
Senão de madrugada
é resfriado na certa.

E no inverno
sem cobertor?
Vou direto
pro doutor!

Mas essa história do gato
Eu não engulo não.
Me dá um resfriado no coração!

Ninguém sabe aqui em casa
que o Roberto já é um rapaz.
E vive namorando uma colcha
lá da cama dos meus pais.
Ela é brincalhona
que nem hora do recreio.
E tem uma lua cheia de idéias
desenhada bem no meio.

Hoje expliquei pros meus pais
que eles precisam batizar a colcha.
Afinal, coitado do Roberto Flor:
pra uma namorada sem nome
como é que se manda
bilhetes de amor?

Sempre que posso
ajudo o Roberto.
Levo e trago recados
boto os dois bem perto.
Juntos na máquina de lavar...
ou então no varal
uso um pregador
pro casal se abraçar.

Às vezes
quando a noite já piscou seu olho
e os sonhos querem me levar
para o mundo do tanto faz
eu e ele vamos visitar
a colcha da lua cheia
lá na cama dos meus pais.

Brincamos de sonhar
enroscados
enquanto o quarto esfria.
Até o sol
bater na janela
e dizer bom-dia.


O texto Roberto Flor saiu no meu livro de poemas infantis Manu,Ela, lançado pela Editorial Nórdica, em 1987 e que se encontra esgotado (ou seja: não se encontra).

MEUS CAROS AMIGOS

Desde 2005 sou colunista da revista Caros Amigos. Aqui republico algumas das crônicas publicadas lá.

TEU MELHOR INIMIGO


Se a essa hora tardia não há como procurar amigo, pela madrugada que esconde o dia e a coragem ou pelo adiantado das horas do relógio de tua vida, procura teu inimigo. Mas não qualquer um, simples desafeto de bar, adversário da pelada de sábado, antagonista do condomínio, concorrente, rival. Não.

Procura teu melhor inimigo.

Aquele que nunca te foi indiferente. Aquele que com certeza foi grande amigo um dia, ou pelo menos você assim achava, até que ele te traiu, te passou a rasteira, te deu a facada pelas costas. E se ninguém agiu assim contigo, o dia está prestes e ele está à espreita, pronto para o bote. E se você ficar atento, ele saberá esperar, até que tua atenção se canse, esmoreça, cochile.

Porque ele é teu melhor inimigo. Ele te trai, mas compra uma roupa especial pra ocasião. Ele te passa uma rasteira, mas é aquela que ele nunca ensinou pra ninguém, é te mostrando o pulo do gato que ele voa na tua carótida. Ele espera que você se vire, pensando em nada, e te esfaqueia pelas costas, esposteja tua carne, separa tuas costelas, secciona veias, perfura teu pulmão. E o faz com uma adaga moura antiqüíssima e enquanto você agoniza ele ampara teu rosto e te conta dos sultões que possuíram aquela adaga e dos tesouros que mudaram de mão graças a ela e dos bravos que sucumbiram pelo golpe fatal que só ela sabe desferir, independente da mão que a segura. Ela esteve em Roma, entre os Césares, esteve com Gengis Khan, talvez até mesmo nas mãos de Caim. Ela é quem comanda a mão e se a mão não tiver a estirpe necessária, ela cortará, não a tua jugular, mas a própria mão do inimigo para que ele aprenda que não estava a altura do teu ódio, não era digno de teu asco, nunca fora merecedor de tua repulsa, não foi sem seria nunca teu melhor inimigo.

É inútil. Por mais olhos que você tenha ou contrate, você nunca vê teu melhor inimigo chegar. Nunca. Se você pensa que vê, ou tua vista é quem te engana ou tua idéia está variando ou é você inteiro que não conhece teu melhor inimigo. Você ainda vive no engano, no logro, no erro. Mas teu melhor inimigo não erra nem vem te enganar, que pra enganar qualquer inimigo serve. Ele, o teu melhor inimigo, ele vem te desenganar.

É uma paixão esse ódio a que ele dá de comer cotidianamente, como um pássaro, um louva-a-deus. E para amparar tamanho ódio, para construir tanto rancor, ele se dedicou a te conhecer a fundo, como só tua mãe te conhece. Nenhuma amizade tua é capaz dessa dedicação, dessa fidelidade canina, de cão hidrófobo. Ele te prepara uma canção que embosque como dois olhos de felino no escuro. E irá te destruir com a melhor repugnância, o mais alto nojo, a mais dedicada raiva. Com um desprezo fraterno, com uma ira maternal. E mesmo depois de te aniquilar, ele não te esquecerá. Quando ninguém mais lembrar de ti, quando você for nada para o mundo e os que nele vivem, para os que te conheceram, para os que te amaram um dia, para os que choraram tua morte, só teu melhor inimigo irá te ver na tua última morada e cuspir na tua cova e urinar sobre o teu nome, quase apagado na lápide.

Teu melhor inimigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. E ele há de te guardar debaixo de sete palmos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

DE VOLTA AO SÍTIO

A casa branca, de cômodos espaçosos, restou semi-abandonada. A menina largou a boneca num dos quartos e se masturbava toda noite com o sabugo de milho. Até descobrir que com o primo era muito mais divertido e engravidar dele. A velha empregada anda pelos cantos com muita dificuldade e com medo de tudo, contando as estrepolias do menino que pita o dia inteiro um fumo que eu nunca vi e que faz ele ficar com uns olhos vermelhos e rindo à toa que só pode ser coisa do demo, sabe sinhá? Mas a sinhá não sabe mais nada e apenas ri, olhando para aquela mulher que ela não faz a menor idéia de quem seja.

“NÚNCARAS”

clic

ontem te vi na tevê
no meio de cores & caras
triscateiros vendendo sagüitarras
naturânios babaquários
bostentavam descrediários
cremes & massacrários
falsérios rififando garimpérios
urbelas nosferas maninfetas
fiofóruns frutas trutas & mamutretas
tremilicos bocalculavam
glamores dó-ré-mi-fatais
margente como o quê
o erre o esse & o tê
ontem te vi na tevê
o enterro tava um luxo
& o defunto era você

Poema publicado no Caderno Ideias do Jornal do Brasil, em 1986 e incluído no livro A Nossa Moranguíssima Paixão, publicado pela Editora da UERJ em 1994. O livro está esgotado. E o autor também.

MEUS CAROS AMIGOS

Desde 2005 sou colunista da revista Caros Amigos. Aqui republico algumas das crônicas publicadas lá.

Basta de injustiça, chega de exploração:
MAMÃE, EU QUERO MAMAR!


Minha amiga, me faça um favor, ligue a tv, bote em qualquer canal e assista a uns três ou quatro anúncios, a umas duas ou três notícias. Pode ir que eu espero.

Foi? Agora me diga se eu estou errado. Nos anúncios as crianças agem como adultos e os adultos como crianças? Você viu um senador da república roubando descaradamente e defendendo até às lágrimas seu direito de roubar descaradamente? Viu um ministro lá do judiciário ganhando uns 20 mil, se aposentando com os 20 mil limpinhos e reclamando que não tem aumento? Viu milhões de pessoas vivendo numa favela, sem esgoto, hospital e escola, com tiroteio diário e todo mundo saindo de casa pra trabalhar em vez de sair pra tocar fogo na cidade inteira?

Bem, você e o resto da turma eu não sei, minha amiga, mas eu, diante disso tudo, eu pergunto: esses poderosos todos acham que vão me tratar feito criança e eu não vou fazer nada? Pois estão muito enganados! Eu vou fazer birra, vou fazer manha, vou fazer beicinho, vou deitar no chão e espernear! E não vou ficar calado não. Vou chorar bem alto: uééééé! E se você está estranhando, eu explico, minha amiga. É simples: está mais do que provado, está mais do que na cara que eu tenho a idade mental de um bebê. Que outra explicação pode haver para esse mundo ser esse mundo e eu não sair por aí incendiando tudo, como um descendente de Nero, ou cometendo uns três ou quatro genocídios, tal qual uma reencarnação de Átila, de algum papa ou do Stálin?

E já que eu não fiz nada disso, a partir de hoje eu exijo ser tratado como um recém-nascido, um lobotomizado. É, minha amiga, essa aqui é a Declaração Universal dos Direitos de um Zero à Esquerda. E o zero à esquerda sou eu, muito prazer. Chega de ser inocente útil. Eu quero ser um inocente inútil, improdutivo, imprestável e não ter mais responsabilidade nenhuma. Eu não quero saber de restaurante de um real nem de ticket-refeição: eu quero o governador em pessoa aqui em casa na hora do almoço fazendo “olha o aviãozinho” com a colher cheia de feijão. Eu não quero transporte público, eu quero que me levem no colo. Neném gosta é de colinho! É isso mesmo, o Brasil pode tratar de se apertar porque chegou mais um pra ficar deitado eternamente em berço esplêndido: eu! Podem me prender e até me torturar. Minhas únicas declarações serão: papá, mamã, dadi-dudi-dódó!

Mas não se assuste, minha amiga, porque eu também não sou nenhum revoltado inconsequente. De jeito nenhum! Tanto que prometo bater palminha pra todas as declarações dos poderosos. Podem mentir à vontade, podem até cair na gargalhada no meio de seus importantes pronunciamentos. Eu vou também vou rir. Nós, os bebês, somos assim: sempre que a gente vê um adulto rindo a gente ri junto.

E nunca mais vou recitar emocionado: Ah, que saudades que eu tenho da minha infância querida. Sabem por quê? Porque a minha infância querida só vai acabar quando eu morrer bem velhinho. E ainda estarei andando de carrinho e tomando mamadeira. Não quero decidir mais nada, o máximo que eu posso fazer é comprar e comprar e chorar quando escangalhar. Só uma última proposta: em vez de deputados e senadores, a gente devia eleger babás para ocupar o Congresso e a ONU e decidir os destinos da nação e do mundo.

E você é bem capaz de me perguntar: mas quem vai tomar conta dessa criançada? Quem vai gerir o mundo e a humanidade? Ah, sei lá, eu sou pequenininho, não me preocupo com isso não. Não quero mais saber de governantes. Aceito no máximo uma governanta. De preferência uma alemã peituda e mandona. Eu sou que nem o Peter Pan. E quero comer a Sininho. Escrever esse texto foi a última iniciativa que eu tomei na vida. Depois do ponto final eu não tenho mais opinião, só tenho vontade: eu quero! Eu quero! Eu quero! E pronto! Quero liberdade total, vou fazer cocô nas calças e ainda vou esfregar na parede! Não quero bolsa-família, não quero bolsa-escola, não quero cidadania. Tenho uma única reivindicação final, minha amiga: dá a chupeta pro bebê não chorar!

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –

JORNAL LITERÁRIO: ISSO EXISTE?

Existe sim! É o Rascunho, jornal mensal editado em Curitiba. São 4 cadernos com cerca de 16 páginas discutindo e publicando literatura do Brasil e do mundo. Polêmica à vontade, sempre o depoimento de um escritor sobre seu trabalho e sua trajetória , um visual bem transado e muita prosa, poesia e ensaio, com 8 anos de existência e resistência. Entre a turma que costuma estar todo mês lá, Flávio Carneiro, José Castello, Milton Hatoum e Nelson de Oliveira. Quem quiser pode ler e assinar, quem quiser pode mandar colaboração. Eles aceitam e publicam, dentro dos critérios editoriais.

Pra conhecer mais (e vale e pena!):
www.rascunho.com.br

A CENA MUDA

Este curioso nome batiza uma banca de jornais que fica na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Rio de Janeiro, na Visconde de Pirajá quase esquina com a Maria Quitéria. . A dona – Adda di Guimarães – bota à disposição de quem quiser revistas de qualquer época do século 20. Você encontra por lá Manchete, O Cruzeiro, Grande Hotel, quadrinhos, revistas sobre cinema, teatro, moda e TV, como a TV Guia, lembram? Há também os almanaques, como o Capivarol, fotos de cinema, propagandas antigas, cartões postais e muito mais... É um prazer reencontrar todos os gibis que a gente leu na infância. E A Cena Muda ainda reedita as famosas revistinhas de sacanagem de Carlos Zéfiro, que – assim como os times do Botafogo e do Santos - tantas alegrias deram à garotada da década de 60!


ESCRITORAS SUICIDAS CONVIDAM

Calma! Não é pra se jogar da Ponte Rio-Niterói. É pra conhecer este “site de mulheres e homens que fingem de”, como ele mesmo se apresenta. São mais de 30 autoras, sempre em edições temáticas. A atual, edição 34, tem três temas: farpas, o outro lado e retrato. Eu recomendo a leitura de Alice Barreira, que vem a ser minha meia-irmã e que é a segunda melhor escritora da família. Alice nasceu em Barura, no Amapá, em 1968 e trabalha como enfermeira. Publicou por conta própria Pequena enciclopédia de inutilidades (contos, 1987) e vem colaborando com alguns sites como o coralsemvozes e o vivernavespera. Ela está lá com os contos “Chororô” e “Mariiinha”.

Ah, o endereço das suicidantes é
www.escritorassuicidas.com.br

HOJE É DIA DE VISITA

Maira Parula e Oswaldo Martins.

Ela me ligou de Montevidéu para dizer que havia se casado. Eu estava no último parágrafo e de repente não sabia mais o que fazer. Eu não conheço Montevidéu. Ou por que tudo acabou dando lá. Puxei meus óculos do rosto e mergulhei num silêncio pesado e sufocante. Pendurada na linha, ela ficou esperando uma palavra que fosse. Não me lembrou de que já estava morta desde o primeiro capítulo.


Eis aí a prosa poética de Maira Parula. Quer mais? É só ler seu livro "Não Feche Seus Olhos Esta Noite" (ed. Rocco, 2006), onde este texto mora.

4
lições oswaldianas

as professoras dariam nuas as de história
por sua vez alunas e alunos também nus
assimilariam o que a história nos roubou

a celebração do corpo e do espírito assim
recolocados permitiriam a nossos jovens
a experiência dos ferozes tupinambá

Eis aí a poesia de Oswaldo Martins, em sua “arte da deseducação”. Quer o livro todo? Chama-se “Cosmologia do Impreciso” (7Letras, 2008) e traz, além da instigante poesia de Oswaldo, cinco belas ilustrações de Elvira Vigna.

LHUFAS - coisa com coisa nenhuma

A PORNOGRAFIA BATE À SUA PORTA!

Aula inaugural da professora Sílvia Sintagma
na Universidade da Polícia Federal do Rio de Janeiro

Caros alunos,

Mesmo as mulheres afegãs mais recatadas e cobertas por burkas estão desavergonhadamente despidas, nuas, inteiramente nuas por debaixo daqueles panos todos. Esta é apenas uma das provas de que a pornografia tomou conta da humanidade.

E não pensem que essa licenciosidade está longe de nós. Não! A devassidão se encontra no seio de nossos lares, isso sem falar em outras partes menos amamentícias. E para provar minha tese, hoje tomo como exemplo os inocentes versos do cancioneiro popular:

Batatinha quando nasce
Se esparrama pelo chão.

Tão singelo, não? É o que vocês pensam! Isso é safadeza da grossa! Libertinagem! E eu vou provar.

Tomemos a primeira palavra do poema: BATATINHA. Porque “batatinha” e não batata, simplesmente? Ora, o diminutivo é mais carinhoso, mais íntimo. Mas que intimidades são essas, pergunto eu. Da intimidade pra pouca vergonha é um pulo, um passo, um dedo! Imoralidade, isso sim! Mas vamos adiante, porque a coisa só piora, meus amigos, só piora.

QUANDO. O que significa isso? Todos sabem que “quando” pode ser a qualquer hora, até depois das 22, que já é hora de gente de bem estar em casa e de criança estar dormindo. O que andam fazendo por aí depois das 22 horas eu não tenho coragem de mencionar em público. Mas vocês sabem muito bem do que eu estou falando. Não se façam de engraçadinhos comigo. E agora todo cuidado é pouco. Chegamos ao primeiro verbo dessa devassidão em forma de versos.

NASCE. A forma verbal “nasce” não foi feita para andar por aí de boca em boca. Por acaso alguém nasce em local público? No meio da rua? Nos parques da cidade? Claro que não. É na maternidade, em quarto separado, com tudo esterilizado e médico de lenço na cara para prevenir certos contatos e possíveis doenças infecto-contagiosas cujo nome nem é bom lembrar. Embora todos aqui estejam carecas de saber ao que eu estou me referindo. Ou vão ficar aí se fazendo de desentendidos? Hã? Pois preparem-se porque a pornografia só aumenta nessa bandalheira que ainda ousa se denominar “poesia”.

ESPARRAMA, Deus meu, “esparrama”! A pessoa ou ser vivo que... (desculpem a repetição do termo chulo mas é necessário) se “esparrama” é completamente desprovida de bons modos, não traz de berço nenhum sinal de educação e não tem as mínimas condições para o convívio em sociedade. Deviam era “esparramar” um canalha como esse numa penitenciária de segurança máxima, em defesa da moral e dos bons costumes. Pois vocês pensam que terminou? Segurem-se nas cadeiras! O pior ainda está por vir.

PELO. Eis aí um vocábulo cheio de duplos sentidos. Só em pensar em certos “pelos” em sinto náuseas, minha pressão cai, a sudorese toma conta de mim. Além disso, esse é um poema supostamente feito para entreter as crianças. E desde a Grécia Clássica que o conhecimento humano já comprova serem as crianças indivíduos praticamente desprovidos de “pelos”. Sócrates falou sobre isso em seus discursos. E se não falou devia ter falado, aquele libertino. Qual então o intuito do autor destes versos? Fazer com que nossos filhos convivam com... “pelos”? Ora, pelo amor de Deus, não é à toa que este sujeitinho pervertido não assinou tais versos, preferindo se manter no mais covarde anonimato. É assim que agem os que querem destruir nossa civilização. Mas vamos logo até o fim desse descalabro.

CHÃO. Ora, caros alunos, francamente! Quem em sã consciência deseja ficar ao nível do “chão”? O “chão” está sempre sujo, ainda mais com as empregadinhas que andam por aí. No “chão” se cospe e os cachorros fazem coisas que nem convém citar numa instituição de ensino como essa, que é de nível superior, estando portanto bem acima do chão.

Aí está, estudantes. O que parecia um simples dístico popular se revela um amontoado de impropérios. E daí pro sexo desenfreado, selvagem, num quarto escuro, com muita gente besuntada de mel e com chicotes e velas e algemas é um pulo. Se esse “poema” foi divulgado de geração em geração pela boca do nosso povo isso prova que nosso povo devia era ficar de boca fechada pra não falar besteira.

Na próxima aula estudaremos os desvios sexuais nas equações de segundo grau.


Sílvia Sintagma é doutora em Letras Maiúsculas pela Universidade de Tahihoo, em Rexona do Sul. Colabora com o blog Patavina’s porque Cesar Cardoso possui fotos comprometedoras dela e ameaça colocar na rede.