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O BLOG DO CESAR CARDOSO
NOTÍCIAS DO OUTRO MUNDO POP:
CAIXÃO DE MICHAEL JACKSON PARTE PARA TURNÊ
Após o sucesso de público que foi a morte do pop star Michael Jackson, seus familiares organizaram uma turnê do caixão do mega-falecido astro. Ele vai se apresentar em missas de sétimo dia e enterros pela Europa e América Latina. Já é certo que o cantor fará um show de corpo presente no Rio de Janeiro, só ainda não está definido se será no Maracanã ou no São João Batista. Embora a família vibre com o sucesso da turnê, para a reportagem do Patavina’s News, o cantor confidenciou: “esses shows acabam comigo. Eu tô mortão”. Mas a verdade é que Mister Jackson mais uma vez está abalando o mundo pop. Milhares de fãs de Madonna exigem que a cantora dê uma guinada na sua carreira e vá fazer companhia a Michael Jackson. E boatos dão conta de que um mega-show estaria sendo organizado: o “Exumation Pop” ou “We Are the Other World”, que contaria com a presença das ossadas de John Lennon e Elvis Presley.
CONTENTAMENTO
É um bom emprego. Trabalhar com água é muito agradável, melhor do que com gente. Primeiro eu tampo a pia, depois abro a torneira e deixo encher. Quando a pia está cheia, fecho a torneira, pego o conta-gotas e faço a sucção. Daí é só sair da casa, atravessar a ruazinha de terra e já estou na praia. Vou até o mar e esvazio o conta-gotas. Depois volto e vou repetindo a operação até esvaziar a pia. Então é só encher de novo e recomeçar. Tem alguma coisa a ver com as marés, mas eu ainda não entendi muito bem. O importante é que eles estão contentes com o meu trabalho.
OS MANUSCRITOS DO BAR DA SANTA CEIA
Uma equipe internacional de arqueólogos encontrou na região da antiga Galiléia as ruínas de um pé-sujo onde teria se realizado a Santa Ceia. A principal prova é um manuscrito de grande valor histórico-religioso, cujos trechos mais importantes nós traduzimos e reproduzimos a seguir. Foi encontrada também a conta da Santa Ceia e os arqueólogos já mandaram perguntar ao papa quem é que vai pagar.
“E Jesus tomou do pão e fez uma bolinha com o miolo e tacou dentro do copo de vinho de Bartolomeu. E Jesus acertou em cheio. E Jesus viu que era bom. E transformou a água em vinho, os pratos em capacetes romanos, os copos em pequenas cruzes, os guardanapos em posters da Maria Madalena de biquíni e dois garçons em estátua de sal. E Jesus viu que era muito bom. E Simão obtemperou: já não tereis bebido demais, ó Senhor? Não seria de bom alvitre pedirdes a conta? E o Senhor falou: por que não encherdes o saco de outro, ó Simão? E vamos parar de falar na segunda pessoa do plural que esse negócio de vós isso e vós aquilo é um saco! E Tiago olhou Jesus e ponderou: mas Senhor, vós, quer dizer, tu, não, o Senhor ainda tem dois sermões para fazer hoje, no Monte das Bananeiras e no Morro da Mangueira. E Jesus mais uma vez protestou: vocês estão marcando um monte de sermão e milagre sem me consultar. Assim eu vou acabar partindo para uma carreira solo. E Judas se levantou e disse: Senhor, abriu uma nova casa de show de um romano amigo meu lá no Calvário. Se o Senhor quiser eu posso falar com ele. E os apóstolos condenaram Judas. E começaram a bater boca. E uns, mais exaltados, ameaçavam partir pra briga. E Jesus deu um murro na mesa e bradou: chega! Não dá nem pra gente sair pra se divertir que vocês já começam com essa brigalhada! Essa é a última ceia que eu faço com vocês! Garçom, a conta!
E os apóstolos se calaram e o garçom trouxe a conta। E Jesus viu que havia doze porções de linguicinha. E Jesus viu que não era bom. E Jesus esbravejou com o garçom. E o garçom falou que doze era o número de pratos de linguicinha na mesa, bastava contar. E Tomé tomou da palavra e garantiu que só tinham sido pedidas seis linguicinhas e que as outras seis Jesus é que multiplicara. E o garçom resmungou que esse golpe de dizer que alguém multiplicou coisas na mesa já estava pra lá de manjado ali na Galiléia e que todo fim de semana aparecia um engraçadinho com essa história. E Jesus continuou olhando a conta e indagou se Pedro havia pedido lagosta de novo e lembrou a Pedro que eles haviam combinado que ninguém pediria lagosta pois era um peixe muito caro. E Pedro negou que tivesse pedido lagosta e afirmou que lagosta não era peixe, era crustáceo. E Jesus retrucou que lagosta podia ser até um coleóptero mas não era pra pedir. E por três vezes Jesus insistiu com Pedro se a lagosta era dele. E por três vezes Pedro negou Cristo: eu não pedi porcaria de lagosta nenhuma, eu tenho alergia a frutos do mar! E Mateus perguntou: mas afinal, lagosta é crustáceo ou é fruto do mar? E Judas mandou Mateus fechar a matraca. E André acusou Judas pela lagosta. E Judas caguetou que quem pediu a lagosta foi a Maria Madalena. E Maria Madalena xingou Judas de dedo-duro e caiu em prantos e implorou que Jesus a perdoasse. E Jesus disse: ó Madalena, o meu peito percebeu que o mar é uma gota comparado ao pranto teu! E Maria Madalena achou lindo e Jesus viu que era bom e João queixou-se: eu não entendi. Essa mania que o Senhor tem de falar com metáfora ainda vai dar confusão. E Arnaldo suplicou: explicai, Senhor. E Jesus deu outro murro na mesa: já falei pra parar com essa história de vós! Aliás, quem foi que te convidou pra nossa ceia, hein? E Arnaldo saiu de fininho. E o garçom trouxe a nova conta e perguntou quem é que ia pagar. E novo bate-boca se iniciou entre os apóstolos. E Jesus pegou a conta e determinou: Judas, você é o nosso tesoureiro e portanto terá que pagar a conta. E João observou: viu só, sem metáfora dá pra entender muito melhor. E Felipe deu uma cotovelada em João e João se calou e Jesus entregou a conta para Judas e Judas reclamou: mas Senhor, estão faltando trinta dinheiros, como é que eu vou arranjar essa quantia? E Jesus calçou suas sandálias e disse, partindo: se vira, Judas, se vira.”
Carochinhas Brazileiras
1.
história do brasil
Era uma vez...
2.
a primeira missa
o descampado está limpo
a cruz está pronta
os paramentos do padre, passados
as hóstias, cozidas
quem vamos pegar pra cristo?
3.
de família
thomas staden
irmão de hans
desembarcou na capitania de pernambuco
também capturado pelos índios
acabou devorado
e suas memórias
o vento espalhou na taba
azar distinto do irmão
ou costumes de outra tribo
4.
made in pindorama
sardinhas bispo
as únicas que não contêm catequese
5.
a vinda da família
lá vai uma barquinha carregadinha de...
fujões
6.
santa mãe!
a rainha não diz coisa com coisa
nossa primeira padroeira
7.
família real
rei dangola
quilombola
bom de bola
8.
os mares nunca dantes
desbravar
desbravata
9.
sonhos de uma noite de verão
ah se villegagnon ganhasse
ah se os inglezes had
ah se
ah se
ah se
e a gente aqui
esperando dom sebastião
e aturando tião
10.
my land
preciso juntar moeda
preciso correr preuropa
pra fazer canção do exílio
11.
herança
liberdade liberdade
abre as patas sobre nós
O poema “Carochinhas Brazileiras” foi classificado entre os dez primeiros no Prêmio Off-Flip de Poesia, da Feira Literária de Paraty e será publicado em breve, numa coletânea organizada pelo concurso.
IT’S A LONG WAY E NÃO TEM TRADUÇÃO
Não sou bom com datas, mas foi lá pelo final da década de 60 que eu escutei o Sol nas bancas de revista e não entendi. Era uma época em que eu começava a não entender muitas coisas e Caetano Veloso me ajudou um bocado nisso. Eu ouvia suas canções, via aquela figura, magra como um Vê, sorrindo, levando vaia e se indignando nos festivais e era como se eu tivesse me atirado numa correnteza que ia me levando com medo e prazer. Eu também caminhava contra o vento? Contra moinhos de vento, caminhávamos, lutávamos, amávamos? O Sol nas bancas de revista era uma estrela, era um jornal, era o começo de uma caminhada, it’s a long way, viver é muito perigoso, nos sertões, na Bahia, na ditadura, em Londres, numa canção do exílio, no passado recantado e decantado da nossa música, na lua oval da esso e de São Jorge, shy moon, it’s a long and winding road, but today I don’t know why...
E nesses caminhos de fina estampa, o que disse Caetano? E como disse Caetano?, criando outra língua que não é mais a portuguesa e continua sendo, minha pátria, minha mátria, minha frátria, outra língua que é ritmo, arte, que é só um jeito de corpo, onde me levam esses trilhos urbanos, baianos, humanos?
Cada disco de Caetano (somos da época do disco!) sempre precisava ser escutado duas vezes pela primeira vez, para que eu começasse a traduzir o que não tem tradução, pois afinal o que disse Caetano, o que diz, o que dirá? Se não tem tradução, tem tradição e tem novo. Caetano tinha sempre uma novidade antiga e uma antiguidade nova. E continua tendo e cada vez que escuto Caetano vou relendo Caetanos, plural, releitor, recantor, recompositor. Mas o que ele disse mesmo?
Me lembro que já na década de 70 eu estudava na faculdade de Letras da UFRJ, que tinha sido jogada pela ditadura num velho galpão na avenida Chile. Os diretórios dos estudantes ainda estavam fechados, fichados, proibidos. Nós conseguimos inventar um órgão cultural – o SEMA, Seminário Mário de Andrade – e com ele íamos fazendo política proibida e cultura idem. Uma de nossas atividades foi realizar no teatro da faculdade o Circuito Aberto de Música Popular Brasileira, bolado por Chico Chaves, Marlui Miranda e outros que então começavam. A cada sábado, três ou quatro novos cantores/compositores se apresentavam junto com alguém já conhecido, como Clementina de Jesus, Cartola e vários outros. No dia em que o nome conhecido era Caetano Veloso estávamos à tarde preparando a decoração do palco quando soubemos que um dos novos não ia poder se apresentar. Acabamos de arrumar tudo e saímos para comer alguma coisa antes do show. Na época as redondezas do Largo da Carioca eram um labirinto pra fio de Ariadne nenhum botar defeito, graças às obras do metrô. Quando já voltávamos, escutamos um forró delicioso que vinha do acampamento dos operários do metrô. Daí alguém deu a idéia e nós resolvemos convidar os forrozeiros para abrir o show, já que havia tempo sobrando. Eles ficaram cabreiros de ir tocar numa faculdade, para um público desconhecido mas, com meia hora de conversa e cerveja, acabaram topando e, já de saída, perguntaram quem mais ia tocar por lá. Desfiamos os nomes novos, que eles não conheciam, e fechamos com Caetano. Novamente eles se recusaram a ir lá tocar, e com muito mais veemência. Caetano continuava assustando. Mais meias horas de conversa e cerveja e eles acabaram topando e abriram um show universitário que contava com ninguém menos que Caetano Veloso.
É mais uma história superbacana, estilhaços sobre Copacabana, bem ali na Ipiranga com a São João. A caetanave é um caleidoscópio tropical. São outras mesmas palavras, de quando ele se encontrava preso na cela de uma cadeia e os podres poderes gritavam vamos matar Caetano. Mas não, vamos comer, beber e dançar caetanos, porque alguma coisa está fora da ordem e essa coisa é sua mãe e eu e a mãe do seu irmão e o coração materno dela, é Santa Clara padroeira da televisão, é Didi, santo trapalhão, é de noite na cama, o divino conteúdo, que se quebrou, e caetano está se quebrando e se requebrando. Caetano é assim, assusta e enriquece. Desbrava-esbraveja o Brasil e beija a boca de Gil. Que impressão eu tenho de Caetano? Todas, digitais, mecânicas, manuais, acústicas. Caetano é a filha da Chiquita Bacana. E a mãe também. Alguém cantando muito, alguém cantando bem. Vadio laptop atrás do trio elétrico. Locos por ti todos perguntamos e respondemos quem é Caetano. E toda essa gente se engana.
DARWIN, O DESERTO E AS LONTRAS
Um inglês, um francês e um boliviano, no meio do Deserto de Atacama, esperando chover e tentando escutar o choro de uma lontra. E o inglês é Charles Darwin, fazendo as primeiras anotações para seu famoso livro.
Eis o enredo de meu conto La Nutria de Atacama, que está publicado no site TextoTerritório. Lá você também vai encontrar as anti-odes de Oswaldo Martins e Alexandre Faria, os dois organizadores do site. E, como eu fiz, você pode enviar textos para a oficina Charles Darwin,: “recriação poética e/ou ficcional da obra e/ou vida do naturalista inglês que tirou o sono do mundo”. Além de outras duas, sobre Machado de Assis e Manuel Bandeira. É só dar um confere. O endereço é: http://www.textoterritorio.pro.br/site/
PRIMEIRO CADERNO
DO ALUMNO DE PORNOGRAPHIA
CESAR CARDOSO
Sob esse título acaba de ser publicada uma série de poemas eróticos meus, no site Germina – revista de literatura e arte. O site tem uma coletânea de textos eróticos reunindo autores como Brecht, Drummond, John Donne, Hilda Hilst, Aretino, entre outros. Como vocês veem eu estou em ótima companhia. (Não sei se eles diriam a mesma coisa...) O endereço é http://www.germinaliteratura.com.br/
ROBERTO FLOR,
UM COBERTOR
Na minha casa
mora um cobertor
que eu batizei
de Roberto Flor.
Tinha guardado
esse nome pro meu gato.
Só que aqui no prédio
todo bicho vai pro lixo.
É proibido.
É contra a tal da lei
Mas pra que ela serve
isso eu não sei.
Diz que bicho
faz barulho,
suja tudo.
Mas meu irmão menor
chora berra faz xixi
e aí
fica todo mundo mudo.
E a vizinha de baixo
quando briga com o marido?
Também não devia
ser proibido?
Só espero que não proíbam
a gente de ter coberta.
Senão de madrugada
é resfriado na certa.
E no inverno
sem cobertor?
Vou direto
pro doutor!
Mas essa história do gato
Eu não engulo não.
Me dá um resfriado no coração!
Ninguém sabe aqui em casa
que o Roberto já é um rapaz.
E vive namorando uma colcha
lá da cama dos meus pais.
Ela é brincalhona
que nem hora do recreio.
E tem uma lua cheia de idéias
desenhada bem no meio.
Hoje expliquei pros meus pais
que eles precisam batizar a colcha.
Afinal, coitado do Roberto Flor:
pra uma namorada sem nome
como é que se manda
bilhetes de amor?
Sempre que posso
ajudo o Roberto.
Levo e trago recados
boto os dois bem perto.
Juntos na máquina de lavar...
ou então no varal
uso um pregador
pro casal se abraçar.
Às vezes
quando a noite já piscou seu olho
e os sonhos querem me levar
para o mundo do tanto faz
eu e ele vamos visitar
a colcha da lua cheia
lá na cama dos meus pais.
Brincamos de sonhar
enroscados
enquanto o quarto esfria.
Até o sol
bater na janela
e dizer bom-dia.
O texto Roberto Flor saiu no meu livro de poemas infantis Manu,Ela, lançado pela Editorial Nórdica, em 1987 e que se encontra esgotado (ou seja: não se encontra).