quinta-feira, 23 de julho de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL


CANTA PRA MIM, 33!

Adriana de Paula, Vó Didi, viveu um século. No fim dos anos 20, foi telefonista. Na Companhia era conhecida por seu número, 33, e as pessoas ligavam para lá e pediam que ela cantasse pelo telefone. Foi uma das épocas mais felizes de sua vida, dizia Didi, que continuou sendo feliz e cantando vida afora. Morreu em 23 de julho de 2007, um mês antes de completar cem anos. Sempre o tempo, essa soma e luta entre vontade e acaso. Ou isso é o destino? Não importa. Resta essa falta indefinida a que chamamos saudade.

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –



FAMÍLIA DE PELÚCIA


Flanfar era um pequeno urso de pelúcia todo verde com olhos e nariz azuis. E era isso o que ele mais odiava. Seu irmão mais novo, Flanfis, era todo azul e tinha olhos e nariz verdes. Ele era da cor que Flanfar queria ser, tinha os olhos e o nariz da cor que Flanfar queria ter. Talvez por isso Flanfar fumasse sem parar. E talvez por isso também apagasse todos os seus cigarros na pelúcia azul e macia do irmão. Flanfis não reagia e tentava encontrar algum motivo que justificasse a atitude de Flanfar, mas de noite na cama chorava ininterruptamente. Chorava baixinho para que ninguém notasse ou para ver se ele mesmo não notava. Mas Flanfar, que dormia na mesma cama do irmão, sentia o balançar dos soluços de Flanfis e puxava os olhos e o nariz azuis de Flanfis até que ele quase desmaiasse de dor.

Depois disso, Flanfar caía num sono profundo enquanto dezenas de pensamentos cruzavam o cérebro de pelúcia azul de Flanfis e ele não conseguia dormir. Então sentava na cama, de costas para o irmão, olhava em torno do armário onde viviam e via as prateleiras com outros bichos de pelúcia, com carrinhos de corda, soldadinhos de chumbo, bailarinas de crepom, bolas de gude, pipas de papel colorido, dados e caixas de jogos. E seus olhos sempre terminavam pousados no mesmo lugar. A pequena cama de Flanmia, sua irmã caçula. Flanfis gostava de Flanmia, que tinha a pelúcia de uma cor que ele não conhecia e que possuía um olho amarelo e outro vermelho e que não possuía nariz. Flanfis achava curioso ela ter um olho de cada cor. E achava gozado a irmã tão miúda e sem nariz. Talvez por isso nas noites insones não conseguisse desgrudar os olhos de sua pequena cama, descesse da prateleira onde estava, atravessasse o armário onde viviam, subisse na cama de Flanmia, abraçasse a irmã caçula, chamasse baixinho pelo seu nome, acariciasse as pálpebras que cobriam aqueles olhos amarelos e vermelhos, apertasse contra seu próprio corpo aquela pelúcia de cor indefinida, abrisse lentamente aquelas pernas quentinhas, tampasse a pequena boca de dentes macios e a possuísse até sonhar que gozava numa terceira cor que ele não conhecia e resultava da mistura do amarelo com o vermelho.

AVISO AOS NAUFRAGANTES

PÉROLAS RUBINATAS

Adoniran Barbosa, que se chamava João Rubinato e não existe mais, cantou a sua São Paulo, que ficava em São Paulo e também não existe mais. Foi assim que os dois ficaram pra sempre.

“Minha mudança é tão pequena / que cabe no bolso de trás.”

“Amanhã vou trabalhar se Deus quiser. / (Mas Deus não quer.)”

“Hoje eu vivo no abandono / um vira-lata sem dono / e pra me judiar, Pafunça, / nem meu nome tu pronunça.”

“Doutor, eu vou lhe ser franco, / por essa nega eu já vi muito branco / subir parede lisa de tamanco.”

“Essa mulher sabe que por ela / sou capaz de tudo, / sou capaz até / de atravessar a rua dos Gusmões / lendo Ali Babá e os Quarenta Ladrões...”

“E no chão / bem perto do fogão / encontrei um papel escrito assim: / pode apagar o fogo, Mané, / que eu não volto mais.”

“Minha maloca / a mais linda que eu já vi / hoje está legalizada / ninguém pode demolir. / Minha maloca / a mais linda desse mundo / ofereço aos vagabundos / que não têm onde dormir.”

“Eu sou a lâmpida / e as mulher é as mariposa...”

“NÚNCARAS”

1.
seria algo assim
como matar & desmatar o tocantins
com a clave dos dentes duendes tocar
o sax do céu

em vez disso essas palavras
q não saem do papel


2.
trelutas semfimensas
desloucados pulsonhos
atravessias belzebutópicas
feroceânicas rebatalhas


e eu aqui
a engasgar-me com migalhas


Dois momentos, uma conversa. O primeiro, no meu livro A Nossa Moranguíssima Paixão, de 1993. O segundo, de meu novo livro, Coisa Diacho Tralha, que, como as belas mulheres, está se arrumando para sair e vai demorar um pouquinho.

IMPRESSÕES DIGITAIS

PORQUE ESCREVO

“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”

Alice Barreira


“Para minha mãe, que se chama Durvalice, no meu caso não há mistério algum. Fiquei sabendo disso durante uma palestra para estudantes numa cidade baiana chamada Alagoinhas, onde fiz o ginásio. Ela vive lá, e estava na platéia. De repente se levantou e disse:

- Eu sempre soube que você ia ser escritor. Descobri isso quando você tinha dois anos de idade.

Perguntei-lhe o que a levara a ter tal certeza, tão prematuramente.

- Eu me lembro, ela respondeu-me. – Eu me lembro muito bem de quando você tinha dois anos e pegou um livro pela primeira vez. Você abriu o livro e ficou um tempão olhando a página. Parecia encantado com as palavras impressas. Fiquei observando, de longe, achando que você ia rasgar aquele livro. Mas não fez isso. Naquele momento eu percebi tudo: se você não rasgava o livro era porque estava lendo ele. Foi nesse dia que eu descobri que você ia ser escritor.

- Mas como isto pode ter acontecido, mamãe? Até onde me lembro, lá em casa não tinha livros. Só passou a ter depois que eu e minhas irmãs fomos para a escola, não foi?

Ela não se deu por vencida:

- E os da igreja, menino? Tinha os livros da igreja!

A platéia a aplaudiu, de pé. Minha mãe roubou a cena.

Se essa história é uma ficção dela, tive bem a quem puxar.”

Antônio Torres, autor de Essa Terra e tantas outras histórias, em depoimento da série “O Escritor por ele mesmo”, do Instituto Moreira Salles.

E você, por que escreve? Escreva para o Patavina’s e conte. Invente, minta. Na literatura, mentir é a melhor verdade. (e mail: cesarcar@uninet.com.br)

PATAVINA’S NEWS

O Patavina’s News se dá ao luxo de ter um correspondente internacional. Diretamente de seu quarto e sala na Rue de Feaubourg, meu amigo Jean Prévert, filho do famoso poeta Jacques Prévert e meu ex-aluno de língua portuguesa no inverno parisiense, manda notícias do planeta para este blog. Obrigado, Jean. A casa é virtual mas é sua.

O UNIVERSO É LOGO ALI
Jean Prévert- correspondente internacional

Chicago. As funerárias dessa cidade enfumaçada e falida, com as indústrias fechando as portas com a crise, descobriram um novo filão para seus negócios. Já há algum tempo elas filmam os enterros que “promovem” e vendem o filme para as famílias. E a coisa funcionou tão bem que praticamente todas têm seu cineasta de plantão. Mas agora elas deram um passo adiante. Para quem acredita na vida após a morte, os papa-defuntos oferecem um caixão com tevê. Isso mesmo: uma mini–tevê, como a que podemos ter em nossos automóveis e transmitindo mais de 100 canais. Basta o morto – ainda em vida, é claro – deixar em seu testamento a programação que gostaria de assistir e a funerária se encarrega de colocá-la no ar, pelo tempo contratado, atendendo a esse estranho e último pedido.

Ondurman. A mais populosa cidade do Sudão foi sacudida por três atentados em apenas uma semana. Atentados sem explosões nem vítimas em massa, como os deste mês nos hotéis da Indonésia. Mas de qualquer forma as ações terroristas caíram como bombas nessa terra já tão devastada por guerras civis. Num país onde anualmente se pratica a extirpação de clitóris em centenas de mulheres, um grupo terrorista auto-denominado Dente por Dente levou a frase bíblica às últimas consequências, sequestrou três autoridades locais, todas do sexo masculino, e procedeu à devida extirpação dos testículos de seus prisioneiros. O grupo promete seguir aplicando em autoridades masculinas sua política de, digamos, olho por olho, para não entrarmos em detalhes técnicos, enquanto existir no país a extirpação dos clitóris.

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –

Essa é a minha crônica do mês na revista Caros Amigos, que já está nas bancas à sua espera. Vai logo lá, seu preguiçoso!

TEMPORARIAMENTES


Eu sabia porque se chama carioca da gema quem nasce no Rio, sabia a escalação de Fluminense e Bangu na final de 64, sabia o que quer dizer blue moon. Mas pela manhã ao acordar fui acertar o relógio, os ponteiros me acertaram primeiro e esqueci tudo isso. Do que ainda lembro? Da emoção do primeiro caderno encapado com papel de seda azul. Ah, sim! Me lembro que o homem aprendeu a voar com Santos Dumont e a mulher com Fred Astaire. Ou terá sido ao contrário? O muro de Berlim, o império romano, as torres gêmeas, Teresinha de Jesus. Quem desses reconheceu a queda e não desanimou? Quem levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima? Que praga destruiu a primavera de Praga?

Tudo tão difícil. A memória vem do latim, sim, mas vai para onde? Quantas vezes por dia é preciso morrer pra continuar vivo? Quantas memórias precisamos perder? Em que tempo?

Um ano, por exemplo. O intervalo de tempo correspondente a uma revolução da terra em torno do sol. Ou bissexto ou letivo ou lunar. Talvez o tempo de gestação das girafas, de se fechar balancetes, de se parir e embalar Mateus.

Mas em alguma dobra da memória, que é o nosso tempo, existe um certo ano-luz sem nenhuma ciência que lhe dê conta. Uma revolução - não da terra – marítima, com seu ritmo que nenhum piano alcança, incabível - e como dança! E lá talvez esteja tudo que precisamos de preciso e impreciso: ligar o rádio, buscar a sintonia, o que vai ficando nos álbuns do olhar, tatuagens que não se vê, lã de vidro na ampulheta sem tampo nem fundo, escorre nos corpos - tão macia...

Quanto tempo terá levado até que o primeiro homem fizesse o primeiro armário e deixasse aberta a primeira gaveta à esquerda onde se encontra - quem sabe? - um bilhete esquecido dizendo bom dia?

Ventar e inventar folhinhas, memórias. O calendário vai pras calendas. Os relógios partem e se partem. Estamos com a corda toda, despertamos a madrugada e anunciamos aos galos: o ano domini!

E o tempo segue nos dominando.

Cesar Cardoso perde tempo escrevendo.

CESAR NA REDE

Calma. É “Cesar na Rede” mas eu não estou de férias na Bahia, não. Estou só dizendo onde você pode encontrar textos meus na internet.


Caderno de exercícios literários do aluno Cesar Cardoso

Assinale as alternativas corretas.

1 - Minha terra tem...

A) Esse coqueiro que dá coco;
B) Um rio que passou em minha vida;
C) Margens plácidas;
D) Um rancho fundo bem pra lá do fim do mundo.

2 - ... onde canta...

A) O tico-tico no fubá;
B) O assum preto;
C) O carcará;
D) El nombre del hombre muerto.

3 - As aves daqui não... como as de lá.

A) Crocitam;
B) Palram;
C) Grasnam;
D) Cricrilam.

4 - Identifique o sabiá.

A) Ave fringilídea (Zonotrichia capensis), de coloração parda e pintada de preto no dorso alto;
B) Ave catartidiforme (S. bouvreil pileata) de cabeça pelada, que se alimenta de carnes em decomposição;
C) Ave tiranídea (Pitangus sulphuratus), de coloração pardo-olivácea;
D) Ave caradriídea (Chilensis cayennensis) de coloração cinzento-clara, com ornatos pretos na cabeça, peito, asa e cauda.

Este poema é um de meus textos sobre a famosa Canção do Exílio e está no caderno especial sobre o tema, Sabiás e Exílios, que Silvana Guimarães e Mariza Lourenço organizaram no site Germina – revista de literatura e arte. Vale a pena conferir. O endereço é www.germinaliteratura.com.br/sabiaseexilios.htm .

quarta-feira, 15 de julho de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL

& quem diria
hein seu che?
a gente aqui
perdendo a ternura
sem sequer
endurecer...


(Foto de Cesar Cardoso, a partir da foto de Albert Korda.)

PATAVINA’S NEWS

CADERNO A...TCHIM APRESENTA:
AS NOVAS GRIPES

Acordou sem vontade sair da cama? Com uma moleza enorme no corpo? E uma sonolência incontrolável? Cuidado! Se você não é baiano nem congressista, deve estar gripado. Mas a equipe do Patavina’s News foi conversar com a doutora Minâncora Buscopan, e ela rabiscou no braço de nosso repórter as principais gripes que assolam o país e o seu nariz e garantiu que não há motivo para pânico, só para histeria.

GRIPE MICHAEL JACKSON
O contaminado vai ficando cada vez mais pálido, mais branco e começa a andar pra trás. Mas se sair por aí agarrando criancinha aí a Organização Mundial de Saúde já muda a classificação de gripe para sem-vergonhice. Depois da morte do paciente a tendência é o aumento no número de óbitos, já que a família começa a se matar na disputa da herança.

GRIPE DO CONGRESSO
Ataca senadores e deputados, que contaminam e nomeiam parentes numa velocidade espantosa. É facilmente detectável pois todos os infectados ficam com uma cara de pau impressionante.

GRIPE MI BUENOS AIRES QUERIDA
É o vírus mais letal, perigoso, violento e agressivo e já deixou de cama milhares de argentinos. Mas espera aí! Pensando bem até que esse vírus não é tão ruim assim.