sábado, 1 de agosto de 2009

AVISO AOS NAUFRAGANTES


SUÍTE ICONOCLASTA

Esse o título na nova exposição de Hélio Jesuíno. Num tempo em que as artes são mais um sabonete tentando achar seu nicho no mercado, Hélio desinveste, desfaz, desolha. Sua suíte iconoclasta é uma cirurgia carnavalesca na história da imagem. Vale a pena refazer nossos olhares nos trabalhos dele. A exposição vai de 3 a 21 de agosto e pode ser vista de segunda a sexta, das 10 às 18hs, na sala Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras. (Esta sala fica bem na esquina com a Av. presidente Antonio Carlos.)

E depois convém tomar uma cerveja acompanhada de sanduíche de rosbife, ou de uma porção de presunto de Parma com salada de batata, no famoso Villarino, bem em frente à Academia. Reza a lenda que ali Tom Jobim foi apresentado a Vinícius de Morais, que procurava um compositor para iniciar seu novo projeto – Orfeu da Conceição. E Tom, então um pianista em início de carreira e batalhando a grana pro aluguel de cada mês, teria dito ao já famoso poeta: e não tem um dinheirinho nisso aí?

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –



NASCER

O ovo é o câncer da galinha. A galinha é o passado da canja. A canja é o efeito colateral da gripe. A gripe é o escritório do termômetro. O termômetro é o símbolo fálico do suvaco. O suvaco é uma axila que não tem erudição. A erudição é um cachorro sem mato. O mato é o cabelo da terra. A terra é o apartamento da minhoca. A minhoca é o desejo do peixe. O peixe é o homem da água. A água é uma invenção da sede. A sede é uma fome em forma de líquido. O líquido é uma forma de liquidação. A liquidação é a literatura do extermínio. O extermínio é o gozo do poder. O poder é o sorriso da mordida. A mordida é o sexo do dente. O dente é o nocaute do vampiro. O vampiro é a porção voadora da masturbação. A masturbação é o consumo do sonho. O sonho é a Marilyn Monroe do sono. O sono é o provisório do eterno. O eterno é a desculpa esfarrapada de deus. Deus é o almoxarifado do medo. O medo é o garfo e a faca da coragem. A coragem é o sexto mandamento do cinema. O cinema é o pânico da pipoca. A pipoca é a borboleta do milho. O milho é uma civilização. A civilização é um parto partido ao meio. O meio nunca é igual a seu irmão. O irmão é a diferença da repetição. A repetição é o aprendizado e sua morte. E a morte é o fim botando um ovo.

“NÚNCARAS”


A solidão e sua porta

Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

Carlos Pena Filho


O poeta pernambucano Carlos Pena Filho escrevia sonetos como esse acima. Aos 20 e poucos anos levou 30 tiros numa manifestação política. Mas morreu de acidente automobilístico, aos 31. Conviveu com Manuel Bandeira, João Cabral, Joaquim Cardozo e outros de Recife. E teve poemas musicados por Capiba e Alceu Valença. Musicalidade, visualidade e grandes sonetos eram algumas de suas marcas.

UM CASO CRÔNICO



VOCÊ É O MELHOR DE TODOS!

Eu não faço a menor idéia de quem você é, mas você já veio aqui ver porque eu digo que você é o melhor de todos. Ora, só pra te fisgar. Na verdade você é um peixinho bobo como todo peixinho. Um elogio do tamanho de uma minhoquinha se mexendo no oceano de um blog já é o suficiente para te fisgar.

Mas não se zangue comigo. Estou apenas constatando uma verdade. Se te serve de consolo, eu também sou assim. E não adianta tentar esconder. Eles sabem que nós somos assim.

Quem são eles? Eles são os caras que fazem as propagandas, os anúncios, a publicidade. Os novos apóstolos. Sim, porque a publicidade é a bíblia moderna, é a nova constituição, é a verdadeira declaração universal dos direitos do homem. Você tem o direito de comprar, adquirir, alugar, fazer leasing, arrendar, a prazo, à vista, sem juros, no cheque, no cartão, com dinheiro ou sem dinheiro, tudo facilitado, tudo! Tudo que você não precisa mas que vai segredar no seu ouvidinho que você é o tal, sem defeitos, só perfeição. Além de lindo e tesudo.

Sim. No maravilhoso, estonteante e megapower mundo da publicidade é tempo de elogios, de adjetivos. Sempre. Chega de críticas que não levam à nada. Ou pior, te levam a perceber que você é uma pessoa cheia de defeitos, que não educou direito os filhos, que não amou o suficiente a mulher ou o marido, que não ligou pra sua mãe, coitadinha, viuvinha, vivendo da pensãozinha do INSS, que não realizou nem um décimo dos sonhos que tinha... Nem é bom pensar, pensar só traz aporrinhação. O bom mesmo é sonhar. E pra não pensar, sem taquicardias nem suspiros, e sonhar-sonhar-sonhar em tecnicolor, em digital-surround-sound, em nunca-vi-cores... nada melhor do que uma boa publicidade.

Ah, que delícia! Um mundo de chocolates cremosos que escorrem de carros possantes que pegam mulheres possantes que sorriem dentes possantes! Venha, venha fazer uma lipoaspiração nos seus fracassos, venha botar silicone nas suas frustrações, venha fazer o download dos seus sonhos. Sua vida vai ser um viagra sem fim. Venha gritar gol! e ter a felicidade do gol sem precisar de bola, chuteira, correria, cansaço. E sem apito final. Quer droga melhor do que essa?

E não se envergonhe de fazer parte desse mundo. Até Deus faz publicidade e é dono de uma agência, a maior de todas: a igreja. Os dez mandamentos foram o primeiro outdoor da história. O Espírito Santo, a primeira garota-propaganda, uma espécie de ancestral da Neide Aparecida. E todos os outros deuses, como os políticos, por exemplo? Eles também são eleitos pela publicidade, não são? Então, venha você também ser um eleito. Olhe em volta do seu quarto, da sua casa, do quarteirão, do bairro, da cidade, do país, do continente, do hemisfério, do planeta enfim... É tudo publicidade. O que é um colar, senão uma propaganda dos peitos? Ei, olhem pra cá. Adivinhem quem está por aqui! E o que são os peitos, senão a mais bem bolada embalagem de leite, revelando um dos grandes truques da publicidade: a embalagem é sempre muito mais gostosa do que o produto.

Viu só? Como eu falei, eles te fazem se sentir o tal, o melhor de todos. E você não quer ser o melhor de todos? Claro que quer! Não sonha toda noite com isso quando chega do trabalho e se mete no banho quente pra relaxar e esquecer o quanto se aborreceu e se frustrou em mais um dia de trabalhinho ridículo nessa sua vidinha de merda? Pois é, eles sabem disso e vão na mosca. E você é a mosca, se debatendo na teia da aranha e achando a teia uma cama de seda e a aranha uma Giselle Bunchen com oito coxas pra te agarrar e te alisar.

E agora que você já leu esse texto, preencha o cupom, junte dez rótulos e concorra a milhões em prêmios, a bilhões de viagens interplanetárias, a trilhões de bocas e peitos e bundas deliciosas. Tudo à sua escolha. Porque aqui é você quem manda!

IMPRESSÕES DIGITAIS

DEZ DOSES

Mark Twain era o pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens. Teve uma vida atribulada, viajou bastante, faliu muito e exerceu mais de dez profissões, entre elas e de piloto de barcos no rio Mississipi. Segundo Hemingway, “toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain chamado ‘Huckleberry Finn’.” Também foi grande humorista, ótimo frasista e excelente pinguço, como mostram as frases abaixo, que extrai e traduzi de vários artigos de jornal escritos por ele.
Alice Barreira


10 - Você é daqueles que, à noite, deita a cabeça no travesseiro e dorme tranquilo? Ninguém te contou que é a essa hora que os bares estão mais animados?

9 - Nunca tive problemas com bebida. Entre um copo e outro sou completamente abstêmio.

8 - Há bares que vêm para o bem!

7 - A bebida arruína o relacionamento familiar. Se for encher a cara, deixe a família em casa.

6 - Meu médico me aconselha a prática de exercícios após as refeições. E eu sempre corro antes que o garçom traga a conta.

5 - Todos nós sentados nessa mesa de bar, numa alegria contagiante! E não faz nem vinte anos que nós éramos o futuro da humanidade.

4 - Cuidado com a ingestão de substâncias químicas. O oxigênio, por exemplo, é uma droga perigosa que causa dependência e pode até levar à morte. Ser você não acredita tente parar de respirar.

3 - Mesmo quando bebo eu nunca me esqueço de nada, com excessão daquilo que não me recordo.

2 - Detesto viagens. A gente demora um tempo enorme pra chegar no bar. E nem conhece o garçom.

1 - Eu bebo por medo dos terremotos. Antes que a terra balance, balanço eu mesmo.

SAIDEIRA – Qual o problema de viver entre as garrafas? Os gênios passam mil anos lá dentro e ainda saem realizando nossos desejos।

PATAVINA’S NEWS

Fiquem agora com as últimas notícias do Congresso (porque depois dessas a gente não tem coragem de dar mais nenhuma).

- Nem a oposição nem a gripe pegaram Sarney. O presidente do senado está vendendo saúde. E sem licitação.

- Com a crise, dizem que o líder da oposição está rindo à toa. Mas os médicos já receitaram um valium e garantiram que isso passa logo.

- Depois de um período de baixo astral, quem está com tudo é o baixinho Romário. Mas a Polícia Federal vai pedir pra ele devolver pelo menos a metade.


- O PSDB presenteou a presidência da república com um aparelho de raio X. Eles querem ver a caveira do Lula.

- Em tempo de gripe, o ministro da saúde está trabalhando dobrado. Parece que é problema na coluna.

- Não convém convidar para a mesma mesa de pôquer Sarney e Artur Virgílio. Eles estão com o rei na barriga.

- E a transmissão da gripe suína já chegou a todo o país, com exceção de Belo Horizonte, que vai assistir ao VT completo de Cruzeiro x Atlético.

- E por falar em gripe: senhores senadores, antes de meter os pés pelas mãos, certifiquem-se de que eles estão bem lavados.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL


CANTA PRA MIM, 33!

Adriana de Paula, Vó Didi, viveu um século. No fim dos anos 20, foi telefonista. Na Companhia era conhecida por seu número, 33, e as pessoas ligavam para lá e pediam que ela cantasse pelo telefone. Foi uma das épocas mais felizes de sua vida, dizia Didi, que continuou sendo feliz e cantando vida afora. Morreu em 23 de julho de 2007, um mês antes de completar cem anos. Sempre o tempo, essa soma e luta entre vontade e acaso. Ou isso é o destino? Não importa. Resta essa falta indefinida a que chamamos saudade.

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –



FAMÍLIA DE PELÚCIA


Flanfar era um pequeno urso de pelúcia todo verde com olhos e nariz azuis. E era isso o que ele mais odiava. Seu irmão mais novo, Flanfis, era todo azul e tinha olhos e nariz verdes. Ele era da cor que Flanfar queria ser, tinha os olhos e o nariz da cor que Flanfar queria ter. Talvez por isso Flanfar fumasse sem parar. E talvez por isso também apagasse todos os seus cigarros na pelúcia azul e macia do irmão. Flanfis não reagia e tentava encontrar algum motivo que justificasse a atitude de Flanfar, mas de noite na cama chorava ininterruptamente. Chorava baixinho para que ninguém notasse ou para ver se ele mesmo não notava. Mas Flanfar, que dormia na mesma cama do irmão, sentia o balançar dos soluços de Flanfis e puxava os olhos e o nariz azuis de Flanfis até que ele quase desmaiasse de dor.

Depois disso, Flanfar caía num sono profundo enquanto dezenas de pensamentos cruzavam o cérebro de pelúcia azul de Flanfis e ele não conseguia dormir. Então sentava na cama, de costas para o irmão, olhava em torno do armário onde viviam e via as prateleiras com outros bichos de pelúcia, com carrinhos de corda, soldadinhos de chumbo, bailarinas de crepom, bolas de gude, pipas de papel colorido, dados e caixas de jogos. E seus olhos sempre terminavam pousados no mesmo lugar. A pequena cama de Flanmia, sua irmã caçula. Flanfis gostava de Flanmia, que tinha a pelúcia de uma cor que ele não conhecia e que possuía um olho amarelo e outro vermelho e que não possuía nariz. Flanfis achava curioso ela ter um olho de cada cor. E achava gozado a irmã tão miúda e sem nariz. Talvez por isso nas noites insones não conseguisse desgrudar os olhos de sua pequena cama, descesse da prateleira onde estava, atravessasse o armário onde viviam, subisse na cama de Flanmia, abraçasse a irmã caçula, chamasse baixinho pelo seu nome, acariciasse as pálpebras que cobriam aqueles olhos amarelos e vermelhos, apertasse contra seu próprio corpo aquela pelúcia de cor indefinida, abrisse lentamente aquelas pernas quentinhas, tampasse a pequena boca de dentes macios e a possuísse até sonhar que gozava numa terceira cor que ele não conhecia e resultava da mistura do amarelo com o vermelho.

AVISO AOS NAUFRAGANTES

PÉROLAS RUBINATAS

Adoniran Barbosa, que se chamava João Rubinato e não existe mais, cantou a sua São Paulo, que ficava em São Paulo e também não existe mais. Foi assim que os dois ficaram pra sempre.

“Minha mudança é tão pequena / que cabe no bolso de trás.”

“Amanhã vou trabalhar se Deus quiser. / (Mas Deus não quer.)”

“Hoje eu vivo no abandono / um vira-lata sem dono / e pra me judiar, Pafunça, / nem meu nome tu pronunça.”

“Doutor, eu vou lhe ser franco, / por essa nega eu já vi muito branco / subir parede lisa de tamanco.”

“Essa mulher sabe que por ela / sou capaz de tudo, / sou capaz até / de atravessar a rua dos Gusmões / lendo Ali Babá e os Quarenta Ladrões...”

“E no chão / bem perto do fogão / encontrei um papel escrito assim: / pode apagar o fogo, Mané, / que eu não volto mais.”

“Minha maloca / a mais linda que eu já vi / hoje está legalizada / ninguém pode demolir. / Minha maloca / a mais linda desse mundo / ofereço aos vagabundos / que não têm onde dormir.”

“Eu sou a lâmpida / e as mulher é as mariposa...”

“NÚNCARAS”

1.
seria algo assim
como matar & desmatar o tocantins
com a clave dos dentes duendes tocar
o sax do céu

em vez disso essas palavras
q não saem do papel


2.
trelutas semfimensas
desloucados pulsonhos
atravessias belzebutópicas
feroceânicas rebatalhas


e eu aqui
a engasgar-me com migalhas


Dois momentos, uma conversa. O primeiro, no meu livro A Nossa Moranguíssima Paixão, de 1993. O segundo, de meu novo livro, Coisa Diacho Tralha, que, como as belas mulheres, está se arrumando para sair e vai demorar um pouquinho.