terça-feira, 25 de agosto de 2009

“NÚNCARAS” – po+es+ia


“Tecendo a manhã” e “Galo Galo” nos trazem dois poetas e muitos galos. Galos individuais e coletivos, galos pesando sua arquitetura ou arquitetando seu pensamento, sua voz. De que falam os galos? De seu próprio grito? Do que ele – grito – faz surgir? Serão parentes do elefante que Drummond constrói?

TECENDO A MANHÃ
João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

GALO GALO
Ferreira Gullar


O galo
no saguão quieto.
Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.
Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
— que faço entre coisas?
— de que me defendo?

Anda

no saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura ?
Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ?
Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?
Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa
Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.

Vê-se: o canto é inútil.
O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!
Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento
Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

UM CASO CRÔNICO

E eis que um dia, na terra do leite e do mel, os eleitos não eram mais aqueles de sempre. E todo mundo queria ser o dono da verdade. E a humanidade já não sabia em quem acreditar. E não adiantava a galera do céu mandar anjos com espadas de fogo nem dilúvios. E foi então que, em meio ao desespero e a descrença,

DEUS CRIOU A MÍDIA!

E os jornais logo ensinaram ao povo incrédulo o certo e o errado. E as tevês logo mostraram às gentes despreparadas o que vestir, o que comer e principalmente o que engolir. E as agências de publicidade logo trouxeram os novos mandamentos, mas em tábua não que tábua tá fora de moda, é antiecológico. E os novos mandamentos vieram em tela de cristal líquido. E vós podeis votar nos dez melhores, é só entrardes no site www.mandandobemnomandamento.com.

E tudo deveria ter voltado ao normal, mas vós sabeis que a humanidade não é fácil, ô gentinha do contra, principalmente as humanidades do terceiro mundo. E as tvs e os jornais, pacientes como Jó, subiram aos céus, que ficavam um andar acima de seus escritórios, e pediram a ajuda de Deus. Mas eis que Deus estava ocupado tentando criar vida em Marte pra ver se dessa vez dava certo. E então a turma da mídia fez um workshop e alguém falou: vamos copiar aquela idéia de Deus. E tirando uma costela do Cid Moreira a mídia criou... (com pausa dramática) os Especialistas, à imagem e semelhança de Deus, mas um pouco melhorados que hoje em dia tem tecnologia que até Deus duvida.

E eis que dos céus desceram os Especialistas, montados em laptops de duas cabeças e carregando celulares de fogo. E Eles garantiram que, desse dia de glória em diante, não haveria mais dúvida sobre a verdade porque Eles, os Especialistas, diriam a todos o que é a verdade e como deve ser usada. E a humanidade respirou aliviada (segundo os Especialistas, é claro).

Cesar Cardoso foi criado por Deus, mas passava o fim de semana com o Diabo.

HOJE É DIA DE VISITA

E quem vem nos visitar é o escritor e professor de literatura Elesbão Ribeiro, diretamente do escurinho do cinema para o Patavina’s.


di CINEMAS*

por onde passará o seu pensamento

por dentro da minha saia

adriana calcanhoto

Primeiro, mandou-me uma sobrinha; agora manda-me uma amiga fotos de cinemas antigos desta cidade. EMOCIONANTE, diz a chamada. Mas o emocionante não foi escrito por elas, faz parte do pacote.

ESPANTADO foi como fiquei. Como podem ser apresentados como antigos os cinemas CARIOCA e AMÉRICA, ali na Sães Peña, se ainda há pouco estive lá com os meus filhos pequenos?!

Gosto dos cinemas antigos e também gosto dos cinemas atuais.

Antigamente, as sessões eram às duas, às quatro, às seis... ou às duas, às três e quarenta, às cinco e vinte... Podia-se entrar no cinema às duas e sair na hora do lobo. Podia-se entrar no meio da sessão, ver o filme do meio para o final e depois vê-lo do início para o meio. O expectador tinha a liberdade de transformar uma narrativa linear em não linear, tinha a liberdade de fazer o seu flash-back. Antigamente, comprava-se um saco de pipocas na carrocinha em frente ao cinema, eram poucos os cinemas que vendiam pipoca. Agora, quase todos vendem. Devem ter esticado os intervalos entre uma sessão e outra para dar tempo de venderem mais pipoca. E a gente tem de ver um vassalo carregando para uma suposta princesa uma bandeja com sacos enormes de pipocas e copos enormes de refrigerantes.


Antigamente, tínhamos o azar, ou a sorte (dependendo do vizinho), de nos debruçarmos sobre a poltrona ao lado, porque o outro da frente nos impedia de ler a legenda. Agora como as poltronas estão dispostas em degraus e entre elas há um porta copos, temos de aturar o cheiro da pipoca e ouvir o chupão no canudo do refrigerante.

Mas os cinemas de hoje têm um bom som, uma acústica boa. Acho que isto sempre foi um atrapalho para o cinema brasileiro. O gênio rebelde gravava com som direto o filme que seria passado em salas cujo som era pífio.

Os cinemas de hoje são pequenos, mas os grandes cinemas de antigamente tinham grandes filas.


Mas os melhores cinemas, de ontem ou de hoje, são aqueles que ainda têm poltronas no mesmo plano, sem degraus. Aqueles em que as poltronas, porque escondem, ainda permitem que a mão boba percorra a namorada por dentro de sua saia.

* pro Zé Trindade, por sua mão boba

Elesbão Ribeiro

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL



espuma

dente da onda
beijo do chopp

avesso do fogo
mãe da bolha de sabão

o suor dos cavalos
e a raiva do cão

crista sem galo
força sem falo

espuma faz
e se desfaz

transpira
e expira

some
e talvez

nos deixe

o nome

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


Na edição da semana passada, publiquei dez frases de bar de Mark Twain, que me foram enviadas por minha meia-irmã Alice Barreira. Bem, instaurou-se uma polêmica a respeito. Aí vão o e mail que recebi e a resposta de Alice. Tirem as crianças da sala e pulem pra debaixo da mesa que lá vem chumbo!



Caro Cesar Cardoso,

Li no seu blog o texto de uma tal Alice Barreira citando dez frases do grande Mark Twain sobre bares. Sou um admirador de Mark Twain, que considero o fundador da moderna literatura americana que, por sua vez, serviu de base para o grande cinema americano, fornecendo muito mais do que narrativas, fornecendo formas de narrar que estão aí até hoje. Mas não me consta que Mark Twain tenha escrito aquelas frases, nunca as li. E olha que posso dizer que li quase tudo do grande escritor. As frases tentam ter o estilo direto, contundente de Mark Twain, mas caem antes disso, revelando-se um mero pastiche que não sei de onde essa tal de Alice Barreira tirou.

Atenciosamente,

Marcos Heffman


Meu caro Marcos,

Seu nome já me parece um pastiche do nome de Mark Twain, e ainda por cima com esse “essezinho” balançando aí no final como o rabo de um cachorro capacho. Se você nunca leu aquelas frases foi por sua própria incompetência e devia estar abanando o seu rabinho de alegria por eu te dar essa oportunidade. É claro que Mark Twain escreveu aquelas frases! Quando e como? Aí são outros quinhentos. Twain vivia tão bêbado que muitas vezes escrevia em qualquer pedaço de papel ou em qualquer lugar da sua mente. Mas tudo ficava escrito. E eu, quando leio um autor, leio mesmo, não me restrinjo aos livros publicados. Se for preciso, profano o túmulo do cidadão e arranco de lá seus ossos ou o que tiver sobrado de seu gênio. Meus métodos de pesquisa literária vão além dos gabinetes onde gente como você baba em cartas amarelecidas. Você precisa de mais duas encarnações para descobrir de onde eu tirei esses textos inéditos de Mark Twain. Nessa aqui, contente-se em ler o que lhe damos, eu e Mark. Pérolas aos porcos.

E atenciosamente é o cacete! Despeço-me com um beijo na sua boca!

Alice Barreira

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Pela estrada da literatura infantil afora eu vou bem acompanhado levar esses contos pra vocês...

CAROCHINHAS

Chapeuzinho Vermelho está caída no chão. O lobo ronda em torno, uiva ameaçador, os olhos sanguíneos. Ela gagueja: pra que esses olhos... tão grandes? O lobo fareja, arreganha os dentes, torna a uivar. Chapeuzinho chora e com um fio de voz indaga: pra quê? Pra quê?

A voz fica mais forte e ela consegue se levantar. O lobo eriça os pêlos da nuca. Agora é ele quem se assusta. Rodando em seus saltos vermelhos ela tira da capa um chicote que estala seguidamente no chão, acuando o lobo em um canto. E como todo animal acuado o lobo ataca.

Os dois rolam no chão, se arranham, se mordem. Com os dentes afiados ele rasga as roupas dela. Ela tem tufos de pêlos nas mãos. Filetes de sangue escorrem. Serão dele, serão dela?

Os dois trepam, ali mesmo no chão.

Depois se levantam e agradecem. O público da boate aplaude o último show da noite.

No camarim, Chapeuzinho tira a maquiagem carregada no vermelho e escova o pêlo do lobo. Os dois saem pela porta dos fundos da boate, atravessam a galeria onde apenas um botequim ainda está aberto, alcançam a rua e entram numa van caindo aos pedaços que os espera na madrugada de Copacabana. No caminho até Queimados, no subúrbio do Rio, o motorista puxa assunto algumas vezes. Mas tanto Chapeuzinho quanto o lobo dormem.

Por fim chegam numa casa de vila. Chapeuzinho salta, puxando o animal. O motorista oferece uma cerveja no boteco da esquina. Chapeuzinho não responde, abre o portão de lata e entra com o lobo. Eles atravessam o quintal e entram pela cozinha que ainda tem a luz acesa. Uma velha cega estende um prato com dois sanduíches. Chapeuzinho joga um para o lobo, que fareja a comida, e morde o outro, enquanto dá um beijo na velha.

- Vó, não precisa ficar esperando a gente não.


UMA FÁBULA!

- Chapeuzinho, bota o colete à prova de balas e vai no asilo levar o lexotan da sua avó, filhinha. Mas não vai pelo caminho da floresta.

- Mas a vovó pediu para eu ir na floresta catar uns cogumelos.

- Pra quê?

- Ela vai fazer um chá pra nós e contar a história de quando ela era a rainha má.

- Sua avó nunca foi rainha nenhuma. E eu não quero você tomando chá daquela velha desmiolada. Não aceita nada dela, nem pra beber, nem pra comer, nem pra fumar.

- Poxa, mãe, eu prometi pegar os cogumelos na floresta.

- Você sabe muito bem que não tem mais floresta nenhuma. Essa favela onde a gente mora chama Complexo da Florestinha por quê? Me obedece, viu?

- Eu sempre obedeço você.

- É? E o dia que você sumiu com aquele maluco lá da sua escola?

- O Peter Pan não é maluco não, mãe. Ele só tem pânico de envelhecer e vive fazendo tudo que é plástica e lipo que aparece.

- Chapeuzinho, pra inventar história já chega a sua avó. Anda, vai levar o remédio dela. Deixa o celular ligado e vai de mão dada com os homens da milícia. Já que a gente paga...

- Por que, o lobo mau vai me atacar?

- Não tem mais lobo nenhum. Comeram todos. O perigo é o caçador, que tá desempregado e vive bêbado por aí pela favela.

- Já sei. É pra não aceitar nada dele também, não é? Ele é desmiolado que nem a vovó.

- Pior, filha. Ele é tarado por menininhas. Você não soube que ele atacou a Branca de Neve?

- Ué, não foram os anões?

- Que anão! Botaram essa história na imprensa pra livrar a cara desse caçador contrabandista de arma. O safado tem costas quentes. Já foi até deputado.

- Mas se ele vier me atacar o papai me protege.

- Seu pai? Seu pai não sabe nem onde você mora. Se cruzar com você na rua nem te reconhece.

- É mesmo, mãe? Poxa, que vida! Eu queria pegar a história da minha vida, escrever um livro, publicar e ser muito famosa.

- Tá doida, Chapeuzinho? Isso vai custar uma fábula!

OUTDOR – poemas visuais –


DIA SIM
DIA NÃO
DIA SIM
DIA NÃO
DIA SIM
DIA NÃO
DIA SIM
DIA NÃO

NOITES TALVEZ

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


PEQUENO INDICIONÁRIO DE NUTILIDADES – 3

Boa-Noite-Alegria
[Do tupi]
S. m. Bras. Zool.
Pássaro da família dos arumará, distribuído pelo norte do Brasil e países andinos fronteiriços. Ninguém sabe ao certo sua coloração pois o Boa-Noite-Alegria vive nas partes mais inacessíveis da floresta amazônica e só canta quando escurece. Segundo lenda de dos M’baturemba, tribo da região, o Boa-Noite-Alegria tinha por função acordar o deus Tupã e fazia seu ninho no ombro esquerdo dele. Mas num dia de muita chuva o pássaro preferiu ficar encolhido em seu ninho, não acordou Tupã e a Uiara-Comedora-de-Gente devorou nove filhos do deus. Tupã pensou em destruir o pássaro, mas ao invés disso o obrigou a viver na escuridão por nove séculos, um para cada filho morto seu. Segundo os M’baturemba, a maldição termina no ano de 2057.

Cordisburgo

[Corruptela da expressão “corro de burro”]
Vocábulo que se origina da expressão “cor de burro quando foge”, que, por sua vez, seria inicialmente “corro de burro quando foge”. A cidade localizada no centro-norte de Minas Gerais ganhou esse nome ainda no século XVII, quando os tropeiros do sertão ali se reuniam para contar seus causos que, à semelhança das fábulas, sempre tinham uma moral. Com sua prosódia, seu sotaque, seu vocabulário esses tropeiros estavam participando da criação de uma forma de falar a língua portuguesa típica do sertão e que seria pesquisada e reinventada séculos mais tarde por Guimarães Rosa, natural de Cordisburgo. Diz-se que a expressão “corro de burro quando foge” era a moral do causo mais famoso ali contado, mas que se perdeu nos tempos, restando dele apenas a moral já sem sentido. Guimarães Rosa contou essa história no conto “No não longe voltei da raiva”, onde ele teria recriado o causo. Mas o autor do “Grande Sertão, Veredas” nunca autorizou a publicação desse texto.

Ímpar-ou-ímpar

[S. m. Bras. Jog.]
Jogo em que dois adultos ocultam uma das mãos e contam até três, para então usar da mão que estava à mostra, sacar com rapidez e destreza alguma arma branca escondida em suas vestes e sangrar seu contendor até a morte.

Palma do Asfalto
[Do latim asphaltu palma]
Planta descoberta pelo jardineiro Carlos A. em 1945, na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. A Academia Brasileira de Botânica no entanto nunca reconheceu a existência da flor, movendo uma campanha nacional de descrédito contra Carlos A. Desacreditado, ele se matou deixando um bilhete: “Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor.”

Pingo De Viola
S. m. Bras. Bot.
1. Pequeno arbusto da família das uremaias (Dieffenbachia lobus), de bagas vermelho-azuladas. Para tocar bem e vencer seus inimigos nos duelos musicais, os violeiros do interior do Brasil, principalmente da região do pantanal mato-grosssense, fazem dois breves que guardam, um dentro da viola e outro encostado ao coração. Esta seria também a planta que nasce nas margens do rio Hades, que banha o inferno e seu uso com esse objetivo seria, por consequência, um pacto com o demônio.
2. Lágrima do choro causado pelo toque da viola de cocho do pantanal. A mulher que se emociona a ponto de derramar o pingo de viola enfeitiça o tocador. Mas como ele está comprometido com o demo, o amor entre eles nunca se consumirá.

IMPRESSÕES DIGITAIS


Aqui vai minha crônica da revista Caros Amigos de agosto, que já está nas boas bancas do ramo. O número deste mês traz uma entrevista com o presidente da Petrobrás, os 30 anos da Lei da Anistia, as milícias do Rio de Janeiro, o golpe em Honduras e muito mais.

CLIC


Tô te vendo na tevê, no meio de cores e caras, entre cremes e crediários, comprando ingresso pra turnê do caixão do Michael Jackson e concorrendo a uma coroa de flores autografada ao vivo pelo cadáver do seu ídolo. Ele musicou os discursos do Sarney, que vendeu tudo que tinha, comprou um país na África, se casou com a Mulher Maravilha e foi ser imperador por lá. Ela abortou um filho de Bento 16 e a criança é o mais novo super-herói dos quadrinhos: the Placenta Boy. Em sua primeira missão, provou o envolvimento do pai, do filho e do espírito santo no contrabando de armas pras torcidas organizadas européias e botou na internet as fotos dos sobrinhos do pato Donald fazendo strip-tease nas orgias do Berlusconi.

Todo mundo tá te vendo na tevê, no meio de urbelas, nosferas e maninfetas। Você noticia que, depois do ano da França, 2010 vai ser o ano dos Incas Venuzianos no Brasil। Nacional Kid vai derrotar o Chavez nas eleições e virar presidente da próxima novela das oito, onde enfrentará São Jorge, provará que de santo ele não tem nada e que fabrica lanças e armaduras num barracão na Indonésia, pagando meio centavo de dólar ao mês. E na cena final, nosso herói e Placenta Boy celebram o casamento de Ahmadinejad e Obama, que finalmente conseguem ser felizes para sempre. Mas do guichê já chamam sua senha: você se classificou pro Mamãe Eu Vou às Compras, o novo reality show. Cada participante recebe uma metralhadora e um cartão de crédito e tem que eliminar seu saldo bancário e seus concorrentes. Ao vencedor, um mês de hospedagem no famoso submarino amarelo, que foi comprado por um milionário de Dubai e transformado em igreja flutuante, com Ringo Star trabalhando de garçonete-striper e a sensacional missa-show do pastor-ectoplasma John Lennon. E, alegria-alegria!, você ainda ganhou um filho, produzido pelas empresas MaxChild. Fecundados sob rígidos padrões de qualidade e garantidos contra qualquer defeito genético, os filhos MaxChild têm garantia de dezoito anos e são perfeitamente compatíveis com a sua família. Agora sim, sua descendência está garantida e você, como um Michael Jackon, pode morrer com tranquilidade. Sim, porque eu tô te vendo na tevê. O enterro tá um luxo e o defunto é você.

“NÚNCARAS” – po+es+ia


MIRR STAUB E O BYSTRIQUE


Banská Bystrica é uma província da Eslováquia, na região centro-sul do país, faz fronteira com a Hungria e é banhada pelo Danúbio. Até o século XIII a região englobava uma parte da Hungria e possuía língua própria, o bystrique. Mas foi sendo invadida por todos os impérios que dominaram seguidamente a Europa Central e, nesse vai e vem de poderosos, a língua bystrique foi perdendo terreno e falantes, virando minoritária, chegando a ser proibida e por fim, completamente esquecida. Ou quase, graças a gente como o poeta e biólogo Mirr Staub. Natural de Banská Bystrica e descendente dos bystriques, ele luta para, mais do que preservar, manter viva a língua de seus antepassados. Tem um programa de rádio transmitido para toda a Eslováquia e falado única e exclusivamente em bystrique, a língua em que também escreve toda a sua obra. Por tudo isso, mas principalmente pela qualidade de sua literatura, Staub é sério candidato ao próximo Prêmio Nobel de Literatura. A seguir um de seus poemas, traduzidos diretamente do bystrique pelo poeta português Pedro Veludo, possivelmente o único caso de bilinguismo português-bystrique.

Ka da bleus ritco fasse mbelein tinte
Dustreblen rimna krys endema lets
Marnossablen dit vuna larne pinte
Uhgh nalen wiste pir sinso bervets

Lug blume cun gertresse – vader ven
Minda lub dontreval kalub sor
Monda jub darlembron tosan tizem
Ok çircen quisto trun jadozibor

Quis esginben nar destir cun den destirr
Çubi dês wister limne arosau
Pos qoladen zab loen garantun...

Ok trune cun gerdalen den tesir
Mendei fuss malumbei pressin treval
Ob fassem vena dit pór levunn


decifrar esse tempo é como achar
do ouro seu valor e seu desejo
sinto a brisa morna como o mar
e o brilho que me envolve nunca vejo

me embrenho pela estrada - o melhor cego
garimpando o que sei estar comigo
o seguro a correr maior perigo
o que guardo melhor é o que te entrego

da esfinge resta pedra sobre pedra
as respostas se divertem perguntando
como tremem nas mãos essas pepitas...

nos entres do maduro o novo medra
a polpa desse tempo é sempre quando
e a saga da paixão está escrita