terça-feira, 25 de agosto de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL






































alfabetos


Esses sistemas simbólicos do mais humano, sua fala.
Linguagens em estado latente.
Contadores de aventuras, registros, instrumentos.
Que outra tecnologia os supera?

Alguns falam por si, com seus caracteres.
Outros nascem nas algaravias das metrópoles
e suas novas necessidades de comunicação,
seja na publicidade, seja nos códigos de trânsito
ou nos sinais das tribos urbanas,
como novas outras pedras de roseta,
com o mistério dos alfabetos desconhecidos,
que nos remetem à condição de analfabetos,
um estado de infância, individual ou coletivo.

Lembram daqueles pequenos quadrinhos de escrita cuneiforme
que encontrávamos nos nossos livros de história
– e o imponderável que guardavam?


CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


TERRA DO NUNCA

Como faz todos os dias Wendy anota a senha do banco num pedaço de papel que guarda no sutiã. Depois pega a sacola e antes de sair, para em frente ao banheiro e bate na porta.

- Peter Pan, meu bem.

Como ele não responde, ela bate com mais força.

- Peter! Peeeeter!

- Hã.

- Estou saindo. Vou no mercado e depois no banco. Você quer alguma coisa do mercado?

- Não.

- Mas a sua semente de linhaça está acabando. Você não quer que eu traga?

- Não.

- Mas, Peter, meu bem, o médico recomendou a semente de linhaça pro seu intestino. Eu trago sem problema. Não é pesado. Vou trazer, está bem?

- Tá.

- Ah, vou passar no banco e pegar o extrato da nossa conta. Você viu que deu um real e cinquenta centavos de diferença?

Novamente Peter não responde e Wendy insiste.

- Você viu, Peter?

- Não.

- Mas deu. Você não acha que a gente devia falar com o gerente?

- Tá.

- Tá o que, Peter? Você quer que eu fale ou você mesmo quer falar?

- Tá.

- Tá o quê, homem? Você fala? Que ir comigo? Se você quiser ir comigo eu te espero.
Você quer ir comigo?

Dentro do banheiro, Peter Pan larga o próprio pau, ainda flácido, guarda as fotos de Sininho e desiste de se masturbar pensando na fadinha. Suspende as calças e abre a porta.

- Eu vou com você, meu amor.

OUTDOR – poemas visuais –

amanhojontem

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –

chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
eles preferem vender essa metamorfose trambulhante
e raul sobe aos céus da mídia
doze pontos no ibope do fantástico
doze apóstolos de cristo doze meses no ano
o barulho acordou vovó na cadeira de rodas de balanço
ela abriu um olho reconheceu o roqueiro e sorriu meio lábio
chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
teu parceiro vende misticismo barato
nas esquinas do primeiro mundo
nós preferimos ser essa mediocridade faturante
nem com raul tocando a gente se toca
vamos vendendo sopa de mosca no hiper-mercado
somos tolos de ouro e al capone foi canonizado
junto com jimi joplin
o filho de proveta de miss janis e mr. hendrix
agora todo mundo é singular não existem mais plurais
maiakovsky mais um drinque
ainda é melhor morrer de vodka do que de tédio
hoje eu lembrei de você
e chamei o Raul e chamei o ladrão e chamei
que tudo se apagou

Alice Barreira


(Alice Barreira nasceu em Barura, no Amapá, em 1968. Trabalha como enfermeira, publicou por conta própria Pequena Enciclopédia de Inutilidades (contos, 1987) e vem colaborando com alguns sites como o coralsemvozes e o vivernavespera. Ainda em 2009 pretende lançar o livro de poemas Coisa Diacho Tralha.)

PATAVINA’S NEWS

De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.

Cesar,

Muita gripe suína aí no Rio? Aqui a onda ameaça voltar com as temperaturas caindo. Nada como o mundo contemporâneo, onde podemos partilhar as pragas e assim suplantar a luta de classes.

Fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora estou me instalando num dos bancos da Grand Central, de onde consiga ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Cada vez mais me isolo em pequenas partes de NY. Ou eu estou ficando velho ou esta cidade está ficando com a cara da Disney (ou mais provavelmente as duas coisas). Consegui um banco vazio, sentei-me, abri meu laptop e começo a escrever.

New Orleans - Cresce na cidade um novo comércio. Depois de festinhas de aniversário, funerais requintados e psicólogos de plantão, os cachorros de New Orleans têm agora a seu dispor clínicas de cirurgia plástica. Os desfiles de cães, que também crescem a olhos vistos, agora não são apenas para mostrar roupas e outros acessórios. Mostram-se as novas orelhas, os novos rabos, as bochechas esticadas e piercings aplicados em rostos, patas e até mamilos. Já está prometido para dezembro o Miss DogAmerica, o primeiro concurso de misses caninas para todo o país. E para o ano, a empresa promotora do evento promete o primeiro Miss DogUniverse. Eu, se fosse essa gente, não provocava tanto assim a ira divina. Eles já se esqueceram do Katrina?

Seul - Para que serve a poesia? Tentando dar novas respostas a essa pergunta surgiu na Coréia um autodenominado Grupo de Inter-In-Venção Poética. Eles acreditam que a poesia tem que sair dos livros e se relacionar diretamente com as pessoas. Sua primeira inter-in-venção poética aconteceu semana passada, no feriado nacional da Coréia. Na noite anterior, os poetas foram às três maiores rodovias que saem de Seul e trocaram as placas de trânsito que indicam as direções para as cidades mais próximas. O resultado foi um gigantesco engarrafamento que levou praticamente o dia todo para ser desfeito. Os poetas acreditam que a desorientação é uma vivência poética que eles possibilitaram a milhões de pessoas. Uma inter-in-venção. Pode até ser mas a polícia coreana está atrás deles. Por enquanto o grupo diz que não se intimida e promete novas inter-in-venções.

E segue o e mail, Cesar. Patavine-se!

Abracadabraço do

Jean Prévert

“NÚNCARAS” – po+es+ia


“Tecendo a manhã” e “Galo Galo” nos trazem dois poetas e muitos galos. Galos individuais e coletivos, galos pesando sua arquitetura ou arquitetando seu pensamento, sua voz. De que falam os galos? De seu próprio grito? Do que ele – grito – faz surgir? Serão parentes do elefante que Drummond constrói?

TECENDO A MANHÃ
João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

GALO GALO
Ferreira Gullar


O galo
no saguão quieto.
Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.
Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
— que faço entre coisas?
— de que me defendo?

Anda

no saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura ?
Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ?
Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?
Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa
Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.

Vê-se: o canto é inútil.
O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!
Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento
Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

UM CASO CRÔNICO

E eis que um dia, na terra do leite e do mel, os eleitos não eram mais aqueles de sempre. E todo mundo queria ser o dono da verdade. E a humanidade já não sabia em quem acreditar. E não adiantava a galera do céu mandar anjos com espadas de fogo nem dilúvios. E foi então que, em meio ao desespero e a descrença,

DEUS CRIOU A MÍDIA!

E os jornais logo ensinaram ao povo incrédulo o certo e o errado. E as tevês logo mostraram às gentes despreparadas o que vestir, o que comer e principalmente o que engolir. E as agências de publicidade logo trouxeram os novos mandamentos, mas em tábua não que tábua tá fora de moda, é antiecológico. E os novos mandamentos vieram em tela de cristal líquido. E vós podeis votar nos dez melhores, é só entrardes no site www.mandandobemnomandamento.com.

E tudo deveria ter voltado ao normal, mas vós sabeis que a humanidade não é fácil, ô gentinha do contra, principalmente as humanidades do terceiro mundo. E as tvs e os jornais, pacientes como Jó, subiram aos céus, que ficavam um andar acima de seus escritórios, e pediram a ajuda de Deus. Mas eis que Deus estava ocupado tentando criar vida em Marte pra ver se dessa vez dava certo. E então a turma da mídia fez um workshop e alguém falou: vamos copiar aquela idéia de Deus. E tirando uma costela do Cid Moreira a mídia criou... (com pausa dramática) os Especialistas, à imagem e semelhança de Deus, mas um pouco melhorados que hoje em dia tem tecnologia que até Deus duvida.

E eis que dos céus desceram os Especialistas, montados em laptops de duas cabeças e carregando celulares de fogo. E Eles garantiram que, desse dia de glória em diante, não haveria mais dúvida sobre a verdade porque Eles, os Especialistas, diriam a todos o que é a verdade e como deve ser usada. E a humanidade respirou aliviada (segundo os Especialistas, é claro).

Cesar Cardoso foi criado por Deus, mas passava o fim de semana com o Diabo.

HOJE É DIA DE VISITA

E quem vem nos visitar é o escritor e professor de literatura Elesbão Ribeiro, diretamente do escurinho do cinema para o Patavina’s.


di CINEMAS*

por onde passará o seu pensamento

por dentro da minha saia

adriana calcanhoto

Primeiro, mandou-me uma sobrinha; agora manda-me uma amiga fotos de cinemas antigos desta cidade. EMOCIONANTE, diz a chamada. Mas o emocionante não foi escrito por elas, faz parte do pacote.

ESPANTADO foi como fiquei. Como podem ser apresentados como antigos os cinemas CARIOCA e AMÉRICA, ali na Sães Peña, se ainda há pouco estive lá com os meus filhos pequenos?!

Gosto dos cinemas antigos e também gosto dos cinemas atuais.

Antigamente, as sessões eram às duas, às quatro, às seis... ou às duas, às três e quarenta, às cinco e vinte... Podia-se entrar no cinema às duas e sair na hora do lobo. Podia-se entrar no meio da sessão, ver o filme do meio para o final e depois vê-lo do início para o meio. O expectador tinha a liberdade de transformar uma narrativa linear em não linear, tinha a liberdade de fazer o seu flash-back. Antigamente, comprava-se um saco de pipocas na carrocinha em frente ao cinema, eram poucos os cinemas que vendiam pipoca. Agora, quase todos vendem. Devem ter esticado os intervalos entre uma sessão e outra para dar tempo de venderem mais pipoca. E a gente tem de ver um vassalo carregando para uma suposta princesa uma bandeja com sacos enormes de pipocas e copos enormes de refrigerantes.


Antigamente, tínhamos o azar, ou a sorte (dependendo do vizinho), de nos debruçarmos sobre a poltrona ao lado, porque o outro da frente nos impedia de ler a legenda. Agora como as poltronas estão dispostas em degraus e entre elas há um porta copos, temos de aturar o cheiro da pipoca e ouvir o chupão no canudo do refrigerante.

Mas os cinemas de hoje têm um bom som, uma acústica boa. Acho que isto sempre foi um atrapalho para o cinema brasileiro. O gênio rebelde gravava com som direto o filme que seria passado em salas cujo som era pífio.

Os cinemas de hoje são pequenos, mas os grandes cinemas de antigamente tinham grandes filas.


Mas os melhores cinemas, de ontem ou de hoje, são aqueles que ainda têm poltronas no mesmo plano, sem degraus. Aqueles em que as poltronas, porque escondem, ainda permitem que a mão boba percorra a namorada por dentro de sua saia.

* pro Zé Trindade, por sua mão boba

Elesbão Ribeiro

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL



espuma

dente da onda
beijo do chopp

avesso do fogo
mãe da bolha de sabão

o suor dos cavalos
e a raiva do cão

crista sem galo
força sem falo

espuma faz
e se desfaz

transpira
e expira

some
e talvez

nos deixe

o nome

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


Na edição da semana passada, publiquei dez frases de bar de Mark Twain, que me foram enviadas por minha meia-irmã Alice Barreira. Bem, instaurou-se uma polêmica a respeito. Aí vão o e mail que recebi e a resposta de Alice. Tirem as crianças da sala e pulem pra debaixo da mesa que lá vem chumbo!



Caro Cesar Cardoso,

Li no seu blog o texto de uma tal Alice Barreira citando dez frases do grande Mark Twain sobre bares. Sou um admirador de Mark Twain, que considero o fundador da moderna literatura americana que, por sua vez, serviu de base para o grande cinema americano, fornecendo muito mais do que narrativas, fornecendo formas de narrar que estão aí até hoje. Mas não me consta que Mark Twain tenha escrito aquelas frases, nunca as li. E olha que posso dizer que li quase tudo do grande escritor. As frases tentam ter o estilo direto, contundente de Mark Twain, mas caem antes disso, revelando-se um mero pastiche que não sei de onde essa tal de Alice Barreira tirou.

Atenciosamente,

Marcos Heffman


Meu caro Marcos,

Seu nome já me parece um pastiche do nome de Mark Twain, e ainda por cima com esse “essezinho” balançando aí no final como o rabo de um cachorro capacho. Se você nunca leu aquelas frases foi por sua própria incompetência e devia estar abanando o seu rabinho de alegria por eu te dar essa oportunidade. É claro que Mark Twain escreveu aquelas frases! Quando e como? Aí são outros quinhentos. Twain vivia tão bêbado que muitas vezes escrevia em qualquer pedaço de papel ou em qualquer lugar da sua mente. Mas tudo ficava escrito. E eu, quando leio um autor, leio mesmo, não me restrinjo aos livros publicados. Se for preciso, profano o túmulo do cidadão e arranco de lá seus ossos ou o que tiver sobrado de seu gênio. Meus métodos de pesquisa literária vão além dos gabinetes onde gente como você baba em cartas amarelecidas. Você precisa de mais duas encarnações para descobrir de onde eu tirei esses textos inéditos de Mark Twain. Nessa aqui, contente-se em ler o que lhe damos, eu e Mark. Pérolas aos porcos.

E atenciosamente é o cacete! Despeço-me com um beijo na sua boca!

Alice Barreira