sexta-feira, 11 de setembro de 2009

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


COMUNICADOS


Caros Senhores Condôminos,

Faremos realizar, no dia 27 vindouro deste mês de Setembro, nova assembléia no apartamento de nº 803, visando encetar estudos sobre o orçamento para o conserto da caixa de água. Levaremos a efeito uma primeira chamada exatamente às 20 e 30 horas. E uma outra, às 21 horas em ponto e decorridos, portanto, 30 minutos. Então, e só então, terão início os trabalhos, desde que presentes dois terços dos proprietários, para obtermos o qüórum necessário.

Outrossim,

O Síndico

* * *

A família de Ludimar Brilhaltino cumpre o doloroso dever de comunicar o seu falecimento e convida parentes e amigos para o seu sepultamento, que sairá da Capela Três do Cemitério de Santo Expedito, às 20:30 hs.

* * *

Prezados Funcionários,

Não mais serão tolerados os constantes atrasos. Que vêm se verificando no horário do almoço, para sanar este problema foi instituído o Cartão de Ponto Alimentar. Que deve ser retirado por cada funcionário em sua respectiva, chefia.

Depto. Pessoal

* * *

Torcedor Amigo,

Já se encontram à venda, na remodelada portaria de nosso glorioso clube, os bonitos carnês para a sensacional decisão do renhido campeonato de handball entre nossa briosa equipe e o Campineiro (que só o magnânimo Deus e a descabida conta bancária do salafrário presidente da federação sabem como chegou à emocionante final). O referido e bem-acabado carnê inclui a disputada passagem em confortável ônibus-leito e o cobiçado ingresso no Campineirão. Solicitamos aos nossos esfuziantes associados que levem a contagiante alegria mas deixem em casa os perigosos morteiros.

Torcida Organizada O Terror da Arquibancada

* * *

Os parentes de Ludimar Brilhaltino têm o pesar de comunicar. Que por falta de quórum seu sepultamento foi transferido para o dia 27 vindouro. Aos funcionários e amigos voltamos a avisar. Que se trata de seu FALECIMENTO! O féretro sairá da Capela nº 803 do Cemitério do Campineiro de Futebol e Regatas, no horário do almoço.

* * *

Funcionários,

Seguindo legislação federal somente serão abonados lastimáveis atrasos e imperdoáveis faltas mediante acintosa apresentação de verídico atestado. Reuniões de condomínio e enterros de amigos não constituem motivo de abono. Muito menos excursões para jogos de handball. Isso é um achincalhe!

* * *

Senhores Condôminos,

Deve comparecer às reuniões. Apenas e tão somente UM proprietário por apartamento. Não adianta trazer a mãe, a irmã e os filhos. Cunhado. Muito menos que nem é parente. E é claro que não será permitida a entrada, de animais. A falta de água já poderia ter sido sanada. E nós não vamos remodelar, portaria nenhuma.

* * *

Torcedor,

Não permitiremos a presença de bandeiras vermelhas no ônibus. Todos conhecem as vivas cores de nosso pendão auri-anil: roxo e marrrom. Vermelho é a cor do inimigo Campineiro que, solerte, nos espera nas esquinas daquele fim de mundo que eles chamam de Cidade-Luz. Enquanto isso não se resolver continuarão os constantes atrasos.

* * *

Condôminos,

Ao proibir a entrada de animais na assembléia eu estava com escarradas de razão. Daí a me acusarem pelo sumiço do pastor alemão do apartamento de nº 304 é um candelabro que eu não vou tolerar. O Sr. Ludimar Brilhatino pode chamar a polícia, a Sociedade Protetora dos Animais e o diabo a quatro . E nem me interessa de que federação ele é presidente. Eu tenho a consciência limpa. E por falar em limpeza, seu bando de porcos, sem assembléia neca de água.

* * *

Ô,

Quando organizamos a excursão ficou bem claro que se destinava aos associados. E não me consta que tenhamos um pastor alemão como sócio! Ou o engraçadinho que trouxe essa fera para cá se apresenta ou essa merda desse ônibus não sai. Lembro a todos que nossos bravos rapazes aguardam o incentivo fervoroso dessa ufaneira torcida. Brepa Urra Rei! Nosso grito de guerra que seus tímpanos atentos anseiam ouvir reboar pelo estádio do Campineiro. Vamos lá, pessoal: tirem esse cachorro daqui!

* * *

Atenção empregados,

Não vamos admitir o vandalismo caracterizado pelas lamentáveis ocorrências de ontem à noite. Para o reinício das negociações a Diretoria exige que sejam retirados: 1. Do pátio principal o confortável ônibus-leito ali estacionado. 2. Do corredor AA, o caixão ali pousado por ocasião do enterro simbólico da magnânima e injustiçada pessoa de nosso gerente geral. 3. De toda a empresa, as bandeiras de cores roxa e marrom, com os dizeres ”abaixo o síndico, viva o sindicato!”.

Lembramos ainda que a produção e manutenção de caixas de água em cemitérios é considerada atividade essencial para a economia da nação e, desta forma, é regida por legislação especial que não permite assembléias e muito menos greves.

* * *

A Sociedade Protetora dos Animais de Arquibancada tem o apesar de comunicar o desfalecimento do pastor alemão Condômino, por tantos anos mascote do Campineiro de Futebol e Capela. O féretro sairá do Edifício Cidade-Luz, apartamento 304, assim que a gentalha com bandeiras vermelhas que lá se instalou pare de soltar morteiros.

* * *

Caros Prezados da Associação Atlética Caixa De Água e Achincalhe,

Nossa sensacional greve visa dar início à final do Campeonato de Féretro Brioso. Eu pediria aos gerentes gerais do Campineiro que desocupassem a remodelada Capela. Não é hora para isso, minha gente. Calma! Infelizmente reafirmamos que parentes e amigos não serão admitidos no recinto. É absolutamente necessária a identificação: morteiro na mão direita, carteirinha de síndico com a conta bancária em dia na mão esquerda. Para cunhados basta o atestado. Isso, vamos lá! E atenção: eu pediria a todos que tremulassem seus cartões de ponto alimentar para saudar a estrela dessa noite. Três vivas para Ludimar Brilhaltino. Brepa Urra Rei!

OUTDOR – poemas visuais –





HIGNORÂNCIA

IGNORÂNSSIA

YGNORÂNCIA

IGUINORÂNCIA

IGNORÂMCIA

IGNORÂNÇIA

IGNORÂNCYA

IGNORANCIA

IGNORÂNCIA

PATAVINinha’s


O PLAYGROUND DO PATAVINA’S –
ENQUANTO A MAMÃE FAZ COMPRAS NA INTERNET,
AS CRIANÇAS SE DIVERTEM.


O JACARÉ ANDRÉ

O jacaré André
tem uma barba
bem amarela.
O pai dele
é muito velho
e se chama
Jacareca.

André tem uma toca
na beira do lago
e é o mais corajoso
dos bichos do mato.
Enfrenta até um tufão
dá susto em assombração
se agarra com carrapato.

Só duas coisas
ele teme de fato:
virar bolsa de madame
ou então par de sapato.

[ O poema O Jacaré André foi publicado no livro Manu,Ela (Editorial Nórdica), que, assim como o jacaré, entrou em extinção. ]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL






































alfabetos


Esses sistemas simbólicos do mais humano, sua fala.
Linguagens em estado latente.
Contadores de aventuras, registros, instrumentos.
Que outra tecnologia os supera?

Alguns falam por si, com seus caracteres.
Outros nascem nas algaravias das metrópoles
e suas novas necessidades de comunicação,
seja na publicidade, seja nos códigos de trânsito
ou nos sinais das tribos urbanas,
como novas outras pedras de roseta,
com o mistério dos alfabetos desconhecidos,
que nos remetem à condição de analfabetos,
um estado de infância, individual ou coletivo.

Lembram daqueles pequenos quadrinhos de escrita cuneiforme
que encontrávamos nos nossos livros de história
– e o imponderável que guardavam?


CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


TERRA DO NUNCA

Como faz todos os dias Wendy anota a senha do banco num pedaço de papel que guarda no sutiã. Depois pega a sacola e antes de sair, para em frente ao banheiro e bate na porta.

- Peter Pan, meu bem.

Como ele não responde, ela bate com mais força.

- Peter! Peeeeter!

- Hã.

- Estou saindo. Vou no mercado e depois no banco. Você quer alguma coisa do mercado?

- Não.

- Mas a sua semente de linhaça está acabando. Você não quer que eu traga?

- Não.

- Mas, Peter, meu bem, o médico recomendou a semente de linhaça pro seu intestino. Eu trago sem problema. Não é pesado. Vou trazer, está bem?

- Tá.

- Ah, vou passar no banco e pegar o extrato da nossa conta. Você viu que deu um real e cinquenta centavos de diferença?

Novamente Peter não responde e Wendy insiste.

- Você viu, Peter?

- Não.

- Mas deu. Você não acha que a gente devia falar com o gerente?

- Tá.

- Tá o que, Peter? Você quer que eu fale ou você mesmo quer falar?

- Tá.

- Tá o quê, homem? Você fala? Que ir comigo? Se você quiser ir comigo eu te espero.
Você quer ir comigo?

Dentro do banheiro, Peter Pan larga o próprio pau, ainda flácido, guarda as fotos de Sininho e desiste de se masturbar pensando na fadinha. Suspende as calças e abre a porta.

- Eu vou com você, meu amor.

OUTDOR – poemas visuais –

amanhojontem

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –

chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
eles preferem vender essa metamorfose trambulhante
e raul sobe aos céus da mídia
doze pontos no ibope do fantástico
doze apóstolos de cristo doze meses no ano
o barulho acordou vovó na cadeira de rodas de balanço
ela abriu um olho reconheceu o roqueiro e sorriu meio lábio
chama o raul chama o ladrão chama que tudo se apaga
teu parceiro vende misticismo barato
nas esquinas do primeiro mundo
nós preferimos ser essa mediocridade faturante
nem com raul tocando a gente se toca
vamos vendendo sopa de mosca no hiper-mercado
somos tolos de ouro e al capone foi canonizado
junto com jimi joplin
o filho de proveta de miss janis e mr. hendrix
agora todo mundo é singular não existem mais plurais
maiakovsky mais um drinque
ainda é melhor morrer de vodka do que de tédio
hoje eu lembrei de você
e chamei o Raul e chamei o ladrão e chamei
que tudo se apagou

Alice Barreira


(Alice Barreira nasceu em Barura, no Amapá, em 1968. Trabalha como enfermeira, publicou por conta própria Pequena Enciclopédia de Inutilidades (contos, 1987) e vem colaborando com alguns sites como o coralsemvozes e o vivernavespera. Ainda em 2009 pretende lançar o livro de poemas Coisa Diacho Tralha.)

PATAVINA’S NEWS

De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.

Cesar,

Muita gripe suína aí no Rio? Aqui a onda ameaça voltar com as temperaturas caindo. Nada como o mundo contemporâneo, onde podemos partilhar as pragas e assim suplantar a luta de classes.

Fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora estou me instalando num dos bancos da Grand Central, de onde consiga ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Cada vez mais me isolo em pequenas partes de NY. Ou eu estou ficando velho ou esta cidade está ficando com a cara da Disney (ou mais provavelmente as duas coisas). Consegui um banco vazio, sentei-me, abri meu laptop e começo a escrever.

New Orleans - Cresce na cidade um novo comércio. Depois de festinhas de aniversário, funerais requintados e psicólogos de plantão, os cachorros de New Orleans têm agora a seu dispor clínicas de cirurgia plástica. Os desfiles de cães, que também crescem a olhos vistos, agora não são apenas para mostrar roupas e outros acessórios. Mostram-se as novas orelhas, os novos rabos, as bochechas esticadas e piercings aplicados em rostos, patas e até mamilos. Já está prometido para dezembro o Miss DogAmerica, o primeiro concurso de misses caninas para todo o país. E para o ano, a empresa promotora do evento promete o primeiro Miss DogUniverse. Eu, se fosse essa gente, não provocava tanto assim a ira divina. Eles já se esqueceram do Katrina?

Seul - Para que serve a poesia? Tentando dar novas respostas a essa pergunta surgiu na Coréia um autodenominado Grupo de Inter-In-Venção Poética. Eles acreditam que a poesia tem que sair dos livros e se relacionar diretamente com as pessoas. Sua primeira inter-in-venção poética aconteceu semana passada, no feriado nacional da Coréia. Na noite anterior, os poetas foram às três maiores rodovias que saem de Seul e trocaram as placas de trânsito que indicam as direções para as cidades mais próximas. O resultado foi um gigantesco engarrafamento que levou praticamente o dia todo para ser desfeito. Os poetas acreditam que a desorientação é uma vivência poética que eles possibilitaram a milhões de pessoas. Uma inter-in-venção. Pode até ser mas a polícia coreana está atrás deles. Por enquanto o grupo diz que não se intimida e promete novas inter-in-venções.

E segue o e mail, Cesar. Patavine-se!

Abracadabraço do

Jean Prévert

“NÚNCARAS” – po+es+ia


“Tecendo a manhã” e “Galo Galo” nos trazem dois poetas e muitos galos. Galos individuais e coletivos, galos pesando sua arquitetura ou arquitetando seu pensamento, sua voz. De que falam os galos? De seu próprio grito? Do que ele – grito – faz surgir? Serão parentes do elefante que Drummond constrói?

TECENDO A MANHÃ
João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

GALO GALO
Ferreira Gullar


O galo
no saguão quieto.
Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.
Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio
— que faço entre coisas?
— de que me defendo?

Anda

no saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura ?
Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ?
Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?
Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa
Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.

Vê-se: o canto é inútil.
O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial —
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!
Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento
Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.

UM CASO CRÔNICO

E eis que um dia, na terra do leite e do mel, os eleitos não eram mais aqueles de sempre. E todo mundo queria ser o dono da verdade. E a humanidade já não sabia em quem acreditar. E não adiantava a galera do céu mandar anjos com espadas de fogo nem dilúvios. E foi então que, em meio ao desespero e a descrença,

DEUS CRIOU A MÍDIA!

E os jornais logo ensinaram ao povo incrédulo o certo e o errado. E as tevês logo mostraram às gentes despreparadas o que vestir, o que comer e principalmente o que engolir. E as agências de publicidade logo trouxeram os novos mandamentos, mas em tábua não que tábua tá fora de moda, é antiecológico. E os novos mandamentos vieram em tela de cristal líquido. E vós podeis votar nos dez melhores, é só entrardes no site www.mandandobemnomandamento.com.

E tudo deveria ter voltado ao normal, mas vós sabeis que a humanidade não é fácil, ô gentinha do contra, principalmente as humanidades do terceiro mundo. E as tvs e os jornais, pacientes como Jó, subiram aos céus, que ficavam um andar acima de seus escritórios, e pediram a ajuda de Deus. Mas eis que Deus estava ocupado tentando criar vida em Marte pra ver se dessa vez dava certo. E então a turma da mídia fez um workshop e alguém falou: vamos copiar aquela idéia de Deus. E tirando uma costela do Cid Moreira a mídia criou... (com pausa dramática) os Especialistas, à imagem e semelhança de Deus, mas um pouco melhorados que hoje em dia tem tecnologia que até Deus duvida.

E eis que dos céus desceram os Especialistas, montados em laptops de duas cabeças e carregando celulares de fogo. E Eles garantiram que, desse dia de glória em diante, não haveria mais dúvida sobre a verdade porque Eles, os Especialistas, diriam a todos o que é a verdade e como deve ser usada. E a humanidade respirou aliviada (segundo os Especialistas, é claro).

Cesar Cardoso foi criado por Deus, mas passava o fim de semana com o Diabo.