segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PATAVINinha’s


- o playground do patavina’s –

E já que é dia das Crianças, menos tênis e mais poesia pra elas.


UM ELEFANTE ELEGANTE


Elias, o elefante
gosta de andar elegante.
No inverno veste terno.
No verão, um bermudão.

O alfaiate Alfredo
é quem costura sua roupa.
Tem que acordar bem cedo
que a tarefa não é pouca.

Fez um casaco listrado
e um colete estampado.
Duas calças de flanela
e uma cueca amarela.
Com a sobra da fazenda
fez quatro meias de renda
e uma blusa sem gola.

Mas que azar...
Na hora de experimentar
o rabo ficou de fora!

PLEASE MISTER POSTMAN


MEU E MAIL

cesarcar@uninet.com.br


©Cesar Cardoso, 2009. Todos os direitos reservados. E os esquerdos também. Que as pulgas infectadas de 6000 camelos infestem a cama de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CAIU NA REDE É PIXEL



CINCO CARAS - AUTO DE RESISTÊNCIA

O elemento encontrado em flagrante delito na tentativa de evadir-se, é conhecido pela alcunha de Cinco Caras e de alta periculosidade, com passagens anteriores por diversas instituições de recolhimento do Estado. Suas atitudes ilícitas são comprovadas por depoimentos de diversas autoridades assim como por moradores da localidade, envolvendo o tráfico de drogas e vários outros delitos como o jogo clandestino, sendo também comprovado seu parentesco de neto com o foragido Zé do Nove, que comanda o jogo do bicho em toda a região.

Durante o cerco policial à localidade suspeita, o elemento reagiu à voz de prisão, tendo disparado mais de vinte projéteis em direção aos agentes da lei. Após o necessário revide policial para a neutralização do resistente, foram encontradas em seu poder duas granadas de uso exclusivo das Forças Armadas, além cinco quilos de cocaína. O corpo foi recolhido ao Instituto Médico Legal para exame de perícia, tendo todos os trâmites se dado dentro do estrito cumprimento do dever legal.

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

HAICONTOS


A NOTÍCIA

A cada manhã, ele acorda às seis e meia, desliga o despertador antes que toque, se levanta sem fazer barulho nem acender a luz, vai até o banheiro, fecha a porta meio emperrada com cuidado, ergue a tábua de madeira, mija, pega a escova na prateleira dentro do box, bota pasta, escova os dentes, bochecha, cospe, passa uma água fria demais no rosto, vai até a sala, tira o pijama, veste a bermuda e a camiseta que deixou esticadas de véspera sobre a poltrona, calça as havaianas, abre a porta da sala com cuidado, desce o lance de escadas, abre a portaria, atravessa a rua, para em frente à banca, espera que cheguem os três jornais, empilha os exemplares, paga com o dinheiro já certo, volta para casa, senta-se em frente à mesa da cozinha e lê atentamente os obituários, à procura da notícia de sua morte.


A PRISÃO

Foi julgado, condenado e levado à cela com vendas nos olhos. No caminho lhe informaram que nas novas prisões não havia grades e lá ele só permaneceria por sua livre vontade, mesmo tendo sido condenado.

Quando pôde tirar a venda estava só na cela e pôs-se a andar apressado com um único pensamento: ir embora dali imediatamente.

Mas a cela é tão ampla que, por mais que caminhe dias e noites sem parar, jamais consegue encontrar a saída.


A VIAGEM

Esse ano conheci Praga, a única capital européia em que ainda não fora. Tive que tomar um dalmadorm e meio pois o vôo era mais longo que o habitual. O cálculo do doutor Castello mais uma vez foi perfeito, acordei com o avião pousando.

As instalações do hotel correspondiam exatamente ao que eu vira no site. Inclusive os cabides vermelhos. Já o bar que escolhi não se mostrou tão agradável assim. O trânsito fazia com que a viagem até lá durasse sempre cinco minutos a mais do que o previsto. Algumas cervejas não vieram na temperatura prometida no e mail. E nem todas as garçonetes aceitaram minhas ofertas monetárias para me acompanhar até o quarto.

Mesmo assim tomei os doze porres, um para cada noite passada na cidade.

Talvez eu volte pro ano.

OUTDOR – poemas visuais –




piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
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iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
ngo

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –



Monteiro Lobato e Dona Benta Encerrabodes de Oliveira
Mário de Andrade e a Índia Tapanhumas

Convidam para a cerimônia religiosa
do casamento de seus filhos

Emília e Macunaíma

A realizar-se às vinte horas do dia 10 de outubro de dois mil e nove,
na Capela do Sítio do Picapau Amarelo.

Após a cerimônia os noivos receberão os convidados
no Petit Trianon da Academia Brasileira de Letras,
Av. Presidente Wilson 203, Castelo

R.S.V.P.: (11) 1802-1922
com Srs. Jiguê, Maanape e Visconde de Sabugosa
Lista de presentes: http/emiliaemacunaima.blogspot.com

IMPRESSÕES DIGITAIS


UM ANIMAL SONHADO POR KAFKA

É um animal com uma cauda grande, de muitos metros de comprimento, parecida com a da raposa. Por vezes eu gostaria de segurá-la, mas é impossível; o animal está sempre em movimento, a cauda sempre de um lado para outro. O animal tem algo de canguru, mas a cabeça pequena e oval não é característica e tem alguma coisa de humano; só os dentes têm força expressiva, quer os esconda ou mostre. Tenho seguidamente a impressão de que o animal quer me amestrar; senão, que propósito pode ter ao retirar-me a cauda quando quero agarrá-la, e depois esperar tranquilamente que ela volte a atrair-me, para logo tornar a saltar?

Franz Kafka.

O texto acima está no Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luiz Borges, onde ele coleta seres da mitologia grega, como o Minotauro e o Cão Cérbero, que guarda a entrada do Inferno (nenhum de nós deseja ir pra lá mas é prudente levar sempre um pequeno osso num dos bolsos da calça), da oriental, como o Elefante de seis presas que predisse o nascimento de Buda, e vários outros, inclusive seres imaginados por escritores, como este animal sonhado por Kafka. Lá estão o unicórnio, a quimera, o devorador das sombras, o macaco de tinta, a mãe das tartarugas, a lebre lunar e muitos outros. É uma enciclopédia do delírio, que vale a pena conhecer.

Kafka, sem dúvida o mais kafkiano dos escritores, entendia de animais imaginários, fantásticos, sonhados ou fugidos de nossos pesadelos. Basta lembrar o ínicio de seu mais famoso texto:

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

A tradução é de Modesto Carone, que, assim como Borges, traduziu Kafka. Ou melhor: Carone traduziu direto do alemão para o português toda a obra de Kafka e acaba de lançar pela Companhia das Letras Lição de Kafka, reunião de ensaios, conferências e escritos seus sobre aquele tcheco doido. Vale a pena ler os ensaios de Carone, reler toda a obra de Kafka, ler mais um pouco de Borges e...

Por falar nisso, você sabia que Kafka e Borges já se enfrentaram no Rio?

BORGES VERSUS KAFKA – A LUTA DO SÉCULO

A primeira Bienal do Livro do Rio de Janeiro aconteceu em 1923 e conseguiu uma façanha: juntar na mesma festa literária Jorge Luiz Borges e Franz Kafka. Os dois vieram ao Rio aceitando um desafio: provar qual deles era o melhor. Mas para isso não iriam esgrimir canetas, papéis ou máquinas de escrever. Não. Kafka e Borges vieram ao Rio de Janeiro para se enfrentar em uma luta de boxe, proposta por eles mesmos como a melhor forma de se decidir quem era o melhor escritor, senão do mundo, pelo menos da primeira Bienal do Livro do Rio de Janeiro.

Como Borges já estava praticamente cego, Kafka concordou que a luta fosse disputada em total escuridão. E na noite de 12 de maio de 1923, diante de um recém-construído Maracanãzinho inteiramente lotado e com uma multidão do lado de fora tentando entrar, Kafka e Borges, ajudados por seus segundos, subiram ao ringue construído no centro do estádio. As luzes se apagaram e um silêncio avassalador caiu sobre todos. Ouvia-se apenas o ruído dos tênis dos dois escritores em seu atrito contra o chão emborrachado, as respirações ofegantes e os eventuais gemidos acusando algum golpe mais certeiro. Todos tentavam imaginar quem estaria levando a melhor. De três em três minutos o gongo soava, como que trazendo de volta à realidade aquela multidão. Até que o gongo indicou o final do oitavo round, o último. E as luzes voltaram de súbito, cegando por um instante a multidão. Todos esfregaram os olhos e finalmente puderam ver o ringue vazio. Os dois escritores haviam desaparecido.

PATAVINA’S NEWS



Nosso franco atirador Jean Prévert, diretamente de seu posto avançado em New York.

Le temps perdu / O tempo perdido

Devant la porte de l’usine / Em frente ao portão da fábrica
le travailleur soudant s’arrête / o operário para de repente
le beau temps l’a tiré par la veste / o tempo bom puxou-lhe pelo casaco
et comme il se retourne / e como ele se vira
et regarde le soleil / e olha o sol
tout rouge tout rond / bem vermelho bem redondo
il cligne de l’oeil / ele pisca o olho
familièrement / de um jeito familiar
Dis donc camarade Soleil / Diga lá camarada Sol
tu nes trouves pas / você não acha
que c’est plutôt con / uma puta esculhambação
de donner une journée pareille / dar um dia como esse
à um patron? / a um patrão?

Jaques Prévert


Oi, Cesar,

Estou mais uma vez sentado aqui na Grand Central Station, ouvindo os trens chegarem e partirem, tentando inutilmente reviver os bondes da infância, e te escrevendo. Me lembro bem quando meu pai escreveu o poema Le Temps Perdu, que eu traduzo canhestramente (convivendo com o inglês novaiorquino, esqueço o francês, desaprendo o português e vou acabar mudo). Eu cursava a quarta série e fazia um daqueles belos dias de junho. Estávamos só os dois em casa, minha mãe fora pra Nice cuidar de minha avó, que morreria dois meses depois. Ele me acordou, fez o café para nós dois, pôs o café na xícara, pôs o leite na xícara com café, pôs o açúcar e meia hora depois saímos para ele me deixar na escola. Eu tinha prova de matemática e comecei a ficar preocupado quando meu pai deu de cara com aquele dia de sol e resolver ir a pé. Foi batata, como vocês aí dizem (ou diziam, não sei bem): nos atrasamos e o portão da escola já estava fechado. Eu ensaiei um choro e meu pai começou ali mesmo a fazer o poema, primeiro me pondo para conversar com o sol e fazendo a voz e o jeito de andar do sol. Ele era um irresponsável bem divertido e eu esqueci da prova. E dali fomos para o centro, onde haveria uma passeata, não me lembro de quem e muito menos contra o quê. Lembro sim que chegamos na passeata e ele logo encontrou um amigo fotografando. Era simplesmente Robert Doisneau fazendo um ensaio sobre passeatas para a revista Life. Logo em seguida chegou Henri Cartier Bresson, os dois iam trabalhar juntos. Mas cada um a seu jeito, é claro. Então Henri, munido de uma inacreditável quantidade de filmes, tratou logo de se embrenhar no meio dos manifestantes, enquanto Doisneau e meu pai, munidos de uma sede também inacreditável embrenharam-se no bar da esquina e ali se puseram a conversar e beber copos e mais copos de vinho. Pediam sanduíches, davam o pão pros cachorros e comiam o recheio de pastrami com mostarda preta. O bar ficava na esquina por onde todo mundo chegava para a passeata e assim a mesa ia se enchendo, esvaziando e tornando a encher enquanto a passeata acontecia. Falou-se de tudo, de poesia à revolução, passando pela fabricação de guarda-chuvas e pelas vantagens ou desvantagens do sexo a três. Lá pelo meio da tarde, quando a passeata chegava ao fim (exatamente ali onde estávamos) Doisneau se lembrou do que viera fazer e saiu para fotografar. E meu pai misturou minha fracassada ida à escola com aquela manifestação, para dar a forma final ao poema Le Temps Perdu.

Patavinese-se e abracadabraço do

Jean Prévert

OUTDOR – poemas visuais –



a

l

t

a e

r

e

s

“NÚNCARAS” – po+es+ia


recordação dos ex-alunos da cultura inglesa
turma de 1963


1.

THE DREAM IS OVER
your head
you just have to jump
and catch


2.

ilha de wright tomada pt
cabeças cortadas vg
línguas a prêmio PT
a música não toca mais PT

seguimos
perseguindo
submarino
amarelo


3.

beatlemaníaco depressivo
psicodelicamente
rabisco um cisco
no olho da lua
na rua cheia
tudo se move
nada me comove
a vida roda em vt
um vulto da nossa história
agarra a glória & ninguém vê



Este poema foi publicado no livro A Nossa Moranguíssima Paixão,
publicado pela Editora da UERJ em 1994.
É republicado agora que os Beatles estão cheios de relançamento
e já se pensa até em ressuscitar o John Lennon.
Só falta a Yoko autorizar.