
segunda-feira, 22 de março de 2010
CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –
NOVOS CONTOS DE ALICE BARREIRA
Meu caro maninho Cesar,
Aí vão três haicontos inéditos pra animar teu blog. Ainda não estão no ponto mas eu chego lá. Vamos parar de falar de amor, da natureza, do futuro. Essas coisas são boas pra vender shampoo, apartamento e carro. Vamos falar mesmo é de assassinato e ódio, que é a nossa especialidade enquanto humanos.
PS: o que você acha da gente currar uns arcebispos e depois escrever cartas pedindo desculpas, como eles fazem?
Beijos incestuosos da tua sempre mau comportada irmã,
Alice
A SAÚDE DO BEBÊ
A bolsa d’água já se rompera, o marido já estava com o carro ligado, a mãe já levava a mala com as roupas, a empregada já esquentava o jantar para o filho, o trânsito já estava desimpedido na avenida principal, a vaga para o carro já estava reservada na maternidade, a equipe médica já estava toda preparada, a respiração cachorrinho já lhe saía pela boca, a anestesia já lhe entrava pelo braço, a criança já estava na posição, a médica já a retirava, o marido já filmava tudo e a filha caçula já tinha vindo ao mundo.
A recém-nascida, de cabelos brancos, mãos trêmulas e enrugadas, olhou para ela com dificuldade e disse:
- Sou eu, sua avó.
DE TUDO AO MEU AMOR
Tantas e tantas vezes tinha se imaginado ali. Esperou alguns homens entrarem primeiro, para ter com quem aprender em caso de dúvida, que ele tinha certeza que surgiria. Por fim deu seus passos, como quem entra no labirinto.
Foi cumprindo com facilidade as tarefas. Descobria maravilhado que eles – fossem quem fossem – estavam ali para facilitar. Pôs o troco no bolso, passou pela porta que se escancarava diante dele e, com mão firme, colocou a moeda no local indicado.
À sua frente, uma cortina se abriu por trás de um vidro transparente e suado. E ele pôde ver, por fim. Ela devia ter o quê? Uns oitenta, oitenta e cinco anos. Usava um peignoir que fora rosa um dia e escovava os dentes. Ele começou a se tocar. Sabia que tinha cinco minutos mas quando ela tirou a dentadura e começou a escová-la na mão, não se conteve mais.
RIR É O MELHOR
No centro do palco um sujeito usando roupas de atleta está amarrado de cabeça pra baixo há mais ou menos uma hora e meia. Ele não disse uma palavra, percebemos apenas sua respiração pesada. Por fim, um outro sujeito, também com roupas de atleta, entra em cena, em marcha cadenciada, dá duas voltas pelo palco e, ao passar novamente pelo que está amarrado, saca um revólver e lhe dá um tiro na cabeça, fazendo espirrar sangue até a terceira fila pelo menos.
E nós estouramos numa gargalhada sem fim.
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HAICONTOS.
PATAVINA’S NEWS
BALA PERDIDA MATA IRACEMA
Uma discussão de trânsito acabou em tragédia ontem à tarde, na esquina da Rua Ipiranga com a Avenida São João. O motoqueiro João Rubinato avançou o sinal e atropelou o segurança Cibide Barbosa, que reagiu a tiros. Mas a única pessoa atingida pelos disparos foi a doméstica Iracema (sobrenome desconhecido), que saía do magazine Leader, onde fora comprar seu vestido de noiva. Iracema ainda tentou correr, mas acabou sendo atropelada por um carro, pois o sinal já abrira e ela atravessou na contramão. No entanto o Instituto Médico Legal confirmou à nossa reportagem que Iracema morreu devido ao ferimento à bala, que perfurou seu pulmão, e não por causa do impacto do veículo, que lhe causou apenas escoriações generalizadas e uma fratura de costela. Nenhum familiar compareceu ao IML para requisitar o corpo, nem mesmo o noivo. Segundo informações da funcionária do Magazine Leader, que vendeu o vestido de noiva, a vítima teria lhe mostrado um retrato do noivo e confidenciado que este encontra-se detido por furto na Penitenciária de Guarulhos, “mas que sai mês que vem”.
(Da reportagem local)
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IRACEMA.
AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO
a oficina de literatura do cesar cardoso
desentortamos vírgulas
e pontos de interrogação
aqui você é atendido pela mecânica do texto
CONVERSAS COM MANUEL
Há uma certa covardia em estabelecer conversas com quem não tem mais o poder de simplesmente se calar e ir embora. Mas...
PORQUINHO DA ÍNDIA
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prà sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
TERESA
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na
minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me de-
ram quando eu tinha seis anos.
MADRIGAL TÃO DESGRAÇADINHO
Quando ele chegou o jantar já estava no forno. Por mais que insistisse, não contei o que estava assando. Ficamos ali na cozinha tomando um vinho, ele tentava fazer jogos de adivinhações para que eu contasse, mas eu estava mesmo irredutível. Como não desistia, fui transformando aquilo num outro jogo. Agora, a cada adivinhação errada, tirávamos uma peça de roupa. E acabamos trepando embaixo do fogão. Depois eu abri outra garrafa de vinho, coloquei uma venda nele, abri o forno e fui lhe dando daquela carne tenra, já assada. A cada pedaço ele tentava mais uma vez adivinhar. Até que eu falei: Manuel, você é a coisa mais boba que eu já encontrei na minha vida. Você está comendo o seu porquinho-da-índia. Ele ainda tentou mas não teve tempo de reagir. Eu bati com o martelo bem no lado da sua testa e ele desmaiou. Nem terminou de dizer meu nome. Prolongou um pouco a letra R, como se ela tivesse ficado engasgada em sua garganta. Continuei batendo até que a cara ficou parecendo uma perna. Olhei Manuel pela última vez. E seus olhos estavam muito mais novos que o resto do corpo.
Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
A VOLTA
vim-me embora de pasárgada
num jipe junto com as putas
caguei pro rei debilóide
só não dispensei os alcalóides
(Os textos Porquinho da índia, Teresa, Madrigal Tão Engraçadinho e Vou-me Embora de Pasárgada são do genial Manuel Bandeira e podem ser encontrados no livro Estrela da Vida Inteira, que reúne sua obra poética e é facilmente encontrável em sebos, por um preço muito em conta. Sem dúvida, é um investimento muito melhor do que imóveis, ações, diamantes, drogas e armas, essas coisas em que normalmente as pessoas investem.)
desentortamos vírgulas
e pontos de interrogação
aqui você é atendido pela mecânica do texto
CONVERSAS COM MANUEL
Há uma certa covardia em estabelecer conversas com quem não tem mais o poder de simplesmente se calar e ir embora. Mas...
PORQUINHO DA ÍNDIA
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prà sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
TERESA
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na
minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me de-
ram quando eu tinha seis anos.
MADRIGAL TÃO DESGRAÇADINHO
Quando ele chegou o jantar já estava no forno. Por mais que insistisse, não contei o que estava assando. Ficamos ali na cozinha tomando um vinho, ele tentava fazer jogos de adivinhações para que eu contasse, mas eu estava mesmo irredutível. Como não desistia, fui transformando aquilo num outro jogo. Agora, a cada adivinhação errada, tirávamos uma peça de roupa. E acabamos trepando embaixo do fogão. Depois eu abri outra garrafa de vinho, coloquei uma venda nele, abri o forno e fui lhe dando daquela carne tenra, já assada. A cada pedaço ele tentava mais uma vez adivinhar. Até que eu falei: Manuel, você é a coisa mais boba que eu já encontrei na minha vida. Você está comendo o seu porquinho-da-índia. Ele ainda tentou mas não teve tempo de reagir. Eu bati com o martelo bem no lado da sua testa e ele desmaiou. Nem terminou de dizer meu nome. Prolongou um pouco a letra R, como se ela tivesse ficado engasgada em sua garganta. Continuei batendo até que a cara ficou parecendo uma perna. Olhei Manuel pela última vez. E seus olhos estavam muito mais novos que o resto do corpo.
Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
A VOLTA
vim-me embora de pasárgada
num jipe junto com as putas
caguei pro rei debilóide
só não dispensei os alcalóides
(Os textos Porquinho da índia, Teresa, Madrigal Tão Engraçadinho e Vou-me Embora de Pasárgada são do genial Manuel Bandeira e podem ser encontrados no livro Estrela da Vida Inteira, que reúne sua obra poética e é facilmente encontrável em sebos, por um preço muito em conta. Sem dúvida, é um investimento muito melhor do que imóveis, ações, diamantes, drogas e armas, essas coisas em que normalmente as pessoas investem.)
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MANUEL BANDEIRA E CESAR CARDOSO.,
POESIA E PROSA
BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –
O PAI DOS BURROS
GUIA IMPRATICÁVEL DA LÍNGUA PORTUGUESA
CAPÍTULO 3.
Olá, gente burra de norte a sul do país. Abri vossos corações ao anjo anunciador da sabedoria. Vinde! Vinde! Prestai vosso singelo tributo a Romário, o Homem-Dicionário. Penetrai nos mistérios da letra D, de Dario I, o célebre pai do não menos famoso Dario II. Embriagai-vos com o E, a mais notável vogal de que se tem notícia na História Moderna e Contemporânea da atualidade que acontece hoje em dia. E empapuçai-vos com o F, que vale por dois: o P e o H.
D
DENEGRIR - Chamar o Michael Jackson de crioulo.
DELATOR - Ator que denuncia o resto do elenco.
DEPRESSÃO - Espécie de panela angustiante.
DEPUTAR - Eleger aquele filho da puta.
DESCALABRO - Absurdo proveniente da Calábria.
DESCARTAR - Livrar-se dos livros do Descartes.
DESCASCADELA - Ato ou efeito de descascar a cadela.
DESCOMUNAL - Comunista de enormes proporções, capaz de comer três criancinhas de uma só vez.
DIPLOMATA - O mais solícito dos primatas.
DISPERSÃO - Sujeito grandalhão e distraído, proveniente da antiga Pérsia.
DISTINTO - Indivíduo muito educado, de cor vermelho-escura.
DOCENTE - Sobremesa com graduação.
DOENTIO - Tio acometido de alguma moléstia.
E
ECLIPSE - Grampo para tapar o sol.
ELOQUÊNCIA - Capacidade de falar até a loucura.
EMARANHAR - Fazer confusão no Maranhão.
EMBAÇADA - Representação diplomática localizada em meio à neblina.
EMPAPAR - Encharcar Sua Santidade.
ENDOSSAR - Apoiar, com muito açúcar.
ENFADONHO - Fado extremamente chato.
EQUIDISTANTE - Bem longe dos cavalos.
ESBANJAR - Tocar banjo até não poder mais.
ESCAFEDER-SE - Fugir aos peidos.
EUCARISTIA - Alta de preços dos produtos utilizados na missa.
EXCURSIONISTA - Israelita de direita em viagem.
F
FARRAPO - Pequena farra.
FOCAR - Dar um close na foca.
FÓSSIL - Diz-se daquele que está na fossa há pelo menos dez mil anos.
FOXTROTE - Trote aplicado em estudantes de música.
FRANCISCANO - Tubulação religiosa.
FRANGALHO - Galináceo de reduzidas dimensões, em péssimo estado.
FRONTISPÍCIO - Hospício para neuróticos de guerra.
FUXICAR - Mexer nas coisas do Chico.
E não percam no quarto e marshmelloso capítulo desta saga literária, as estupefacientes letras G, H e L!
GUIA IMPRATICÁVEL DA LÍNGUA PORTUGUESA
CAPÍTULO 3.
Olá, gente burra de norte a sul do país. Abri vossos corações ao anjo anunciador da sabedoria. Vinde! Vinde! Prestai vosso singelo tributo a Romário, o Homem-Dicionário. Penetrai nos mistérios da letra D, de Dario I, o célebre pai do não menos famoso Dario II. Embriagai-vos com o E, a mais notável vogal de que se tem notícia na História Moderna e Contemporânea da atualidade que acontece hoje em dia. E empapuçai-vos com o F, que vale por dois: o P e o H.
D
DENEGRIR - Chamar o Michael Jackson de crioulo.
DELATOR - Ator que denuncia o resto do elenco.
DEPRESSÃO - Espécie de panela angustiante.
DEPUTAR - Eleger aquele filho da puta.
DESCALABRO - Absurdo proveniente da Calábria.
DESCARTAR - Livrar-se dos livros do Descartes.
DESCASCADELA - Ato ou efeito de descascar a cadela.
DESCOMUNAL - Comunista de enormes proporções, capaz de comer três criancinhas de uma só vez.
DIPLOMATA - O mais solícito dos primatas.
DISPERSÃO - Sujeito grandalhão e distraído, proveniente da antiga Pérsia.
DISTINTO - Indivíduo muito educado, de cor vermelho-escura.
DOCENTE - Sobremesa com graduação.
DOENTIO - Tio acometido de alguma moléstia.
E
ECLIPSE - Grampo para tapar o sol.
ELOQUÊNCIA - Capacidade de falar até a loucura.
EMARANHAR - Fazer confusão no Maranhão.
EMBAÇADA - Representação diplomática localizada em meio à neblina.
EMPAPAR - Encharcar Sua Santidade.
ENDOSSAR - Apoiar, com muito açúcar.
ENFADONHO - Fado extremamente chato.
EQUIDISTANTE - Bem longe dos cavalos.
ESBANJAR - Tocar banjo até não poder mais.
ESCAFEDER-SE - Fugir aos peidos.
EUCARISTIA - Alta de preços dos produtos utilizados na missa.
EXCURSIONISTA - Israelita de direita em viagem.
F
FARRAPO - Pequena farra.
FOCAR - Dar um close na foca.
FÓSSIL - Diz-se daquele que está na fossa há pelo menos dez mil anos.
FOXTROTE - Trote aplicado em estudantes de música.
FRANCISCANO - Tubulação religiosa.
FRANGALHO - Galináceo de reduzidas dimensões, em péssimo estado.
FRONTISPÍCIO - Hospício para neuróticos de guerra.
FUXICAR - Mexer nas coisas do Chico.
E não percam no quarto e marshmelloso capítulo desta saga literária, as estupefacientes letras G, H e L!
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O PAI DOS BURROS
“NÚNCARAS” – po+es+ia
SONETO HIPOCONDRÍACO
Leia duas vezes ao dia, após as refeições. Caso não desapareçam os sintomas, consulte seu médico.
allegra afrin cewin ascaridil
cataflan riopan sinvastatina
caltrate pinavério soapelle
higroton hidrocin metiformina
bisolvon hipoglós dermotivin
minâncora malvona rocaltrol
airclin nebacetin polaramine
novacort gelol cetocozol
vaporub plasil moduretic
fenoterol panotil buscopan
tylenol cloridrato lexotan
feldene diprosone zyloric
clobetasol bromoprida plasil
bepantol flixonase floratil
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SONETO HIPOCONDRÍACO.
MEUS CAROS AMIGOS
Segue minha crônica mensal na revista Caros Amigos. O número de março traz: lixo radioativo em plena capital paulista. Entrevista com o escritor Milton Hatoum. Lugar de mulher é na política! A Universidade dos Trabalhadores. E a seleção brasileira de craques da palavra e da opinião independente. Já à venda nas boas bancas do ramo!
A ORIGEM DA ESPÉCIE
Por Cesar Cardoso (mas pode chamar de Charles Darwin)
Época: cerca de 90 mil anos atrás. Uma espécie relativamente nova se desenvolve nas estepes africanas. Ela se chama Homo Sapiens e aprende a construir ferramentas de pedra. Por algum motivo que não se sabe ao certo, o homo sapiens percebe que não pode mais ficar restrito ao continente africano, sob pena de se extinguir. Talvez em algum lugar de seus cérebros eles tenham registrado o desaparecimento de seu antecessor, o homo erectus. Seja lá o que for, algo dentro deles os impele a sair, a procurar outras terras, outros climas, para que sua espécie possa se expandir. Eles então empreendem a maior aventura de sua existência: a migração para a Europa. Enfrentam desertos com temperaturas escaldantes. Enfrentam a fome e o frio de uma nova era glacial. Enfrentam feras até então desconhecidas. Enfrentam a si mesmos, medindo sua resistência a tantos desafios. E superam tudo isso, em busca da sobrevivência da espécie. Chegam por fim às portas da Europa. Lá encontram dois exemplares de uma espécie muito semelhante a deles. E os exemplares conversam.
- Ô Berlusconi, esses carinhas tão dizendo que são homo sapiens, uma espécie nova e que têm que imigrar aqui pra Europa pra sobreviver. Isso tá me cheirando a safadeza.
- Claro, Sarkozy! Tu vai acreditar na conversa fiada dessa gentalha? Mete a polícia em cima deles.
E foi assim que há dez mil anos atrás o Homo Sapiens entrou em extinção. Em seu lugar se originou uma outra espécie, parecida e descendente daqueles dois sujeitos parados lá nas portas da Europa.
Cesar Cardoso é escritor e quando crescer quer ser Homo Sapiens.
A ORIGEM DA ESPÉCIE
Por Cesar Cardoso (mas pode chamar de Charles Darwin)
Época: cerca de 90 mil anos atrás. Uma espécie relativamente nova se desenvolve nas estepes africanas. Ela se chama Homo Sapiens e aprende a construir ferramentas de pedra. Por algum motivo que não se sabe ao certo, o homo sapiens percebe que não pode mais ficar restrito ao continente africano, sob pena de se extinguir. Talvez em algum lugar de seus cérebros eles tenham registrado o desaparecimento de seu antecessor, o homo erectus. Seja lá o que for, algo dentro deles os impele a sair, a procurar outras terras, outros climas, para que sua espécie possa se expandir. Eles então empreendem a maior aventura de sua existência: a migração para a Europa. Enfrentam desertos com temperaturas escaldantes. Enfrentam a fome e o frio de uma nova era glacial. Enfrentam feras até então desconhecidas. Enfrentam a si mesmos, medindo sua resistência a tantos desafios. E superam tudo isso, em busca da sobrevivência da espécie. Chegam por fim às portas da Europa. Lá encontram dois exemplares de uma espécie muito semelhante a deles. E os exemplares conversam.
- Ô Berlusconi, esses carinhas tão dizendo que são homo sapiens, uma espécie nova e que têm que imigrar aqui pra Europa pra sobreviver. Isso tá me cheirando a safadeza.
- Claro, Sarkozy! Tu vai acreditar na conversa fiada dessa gentalha? Mete a polícia em cima deles.
E foi assim que há dez mil anos atrás o Homo Sapiens entrou em extinção. Em seu lugar se originou uma outra espécie, parecida e descendente daqueles dois sujeitos parados lá nas portas da Europa.
Cesar Cardoso é escritor e quando crescer quer ser Homo Sapiens.
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REVISTA CAROS AMIGOS.
REVISTA GANDAIA
A POESIA TEM QUE CAIR NA GANDAIA!
- SEGUNDA PARTE
Segue a segunda parte da entrevista que o poeta e escritor Paulo Leminski deu à revista GANDAIA, na longínqua década de 70. Mas quanto tempo faz?
O tempo da poesia não é o tempo do relógio.
É o tempo do incenso, um tempo oriental.
Mas uma coisa é certa: o poeta tem que viver dentro da prosa. Prosa profissional. Prosa do dia a dia. Prosa dos jornais. Aí está toda a barra. O poeta é um ser semiótico, crítico, utópico.
Dever do poeta é manter acesa a chama e a ideia de poesia. A noção de uma atividade radical, crítica e utópica. Na linguagem. Não apenas conteúdos edificantes e pios temas veiculados através de um discurso convencional e recebido passivamente.
Um poeta deve – sobretudo – agenciar os meios para poder continuar sendo poeta.
Até os 21 anos todo mundo é poeta. O foda é depois. Daí, você tem que provar.
Poucos resistem.
99% dos que fazem poesia hoje, dentro de dez anos, vão estar fazendo outra coisa. Poesia não é brincadeira, é loucura mesmo.
É nadar contra a corrente. Produzir o anti-discurso.
E – principalmente – evitar coisas como o sucesso e a consagração. Aquilo que o sistema canoniza como boa poesia é apenas a poesia que ele consegue vender. Edições bem sucedidas não fazem a boa poesia. Tem que segurar a barra sem parar. Senão acaba desfrutável como Drummond. Ou acadêmico como João Cabral.
Para isso não há regras e cada caso é um caso.
Mas você tem que montar tua vida de tal forma que possa continuar sendo poeta. A homogeneidade que essa sociedade propõe é totalmente fascista.
Você tem que montar sua vida ERRADO.
Quem aceita o discurso contínuo e homogêneo do trabalho massificado, difícil produzir o anti-discurso descontínuo e insurrecional da poesia. Só mesmo dando uma de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Quanto a mim, larguei a faculdade já nos anos 60. De lá pra cá sou um bóia-fria do texto.
Publicidade, jornalismo, roteiro de quadrinhos, palestras, levo uma vida profissional muito rarefeita.
Toda poesia que é poesia mesmo é experimental. Poesia de invenção. Todo poeta tem estes momentos. Você os encontra em Bandeira. Em Drummond. Nos músicos poetas (Gil, Caetano, Chico).
São eles, esses momentos, que valem.
O resto é moldura. O recheio de prosa sem o que não se vive.
No Brasil o termo “experimental” ficou ligado àqueles poetas que desenvolveram, de alguma forma, os pressupostos do Construtivismo concreto dos anos 50-60: materialidade do texto, função poética de Jackobson, espacialização, obra aberta, manipulação do vocábulo, novas sintaxes, intersemioticidade. Esses são os temas formais da poesia brasileira mais viva, presentes nos momentos mais vivos de qualquer poesia brasileira que se pretenda, pelo menos, moderna ou atual.
Já os poetas das mais novas gerações são às vezes “naturalmente” experimentais. Experimental é a atitude que contesta e questiona as formas do passado, a poesia desautomatizada, a que pratica a subversão de nos despertar da hipnose das formas tradicionais que a burguesia mima, promove em suas universidades, premia em seus concursos, porque FORMAS TRADICIONAIS VENDEM. A ordem literária exprime a mesma ordem que reprime e explora o operário. E os versinhos que se dizem a favor dos operários vendem que nem pão: um fenômeno mercantil, como qualquer outro. A favor do operário porque radicalmente contra a ordem que o oprime é a poesia problemática, a experimental, a que traz o futuro dentro de si, dentro de sua abertura para a consciência e a participação do outro. É a que aposta no desconhecido.
O poemão e a versalhada trazem na pele a marca de suas origens burguesas. E até latifundiárias... Com temas populistas, são caridade cristã. Alívio da consciência pesada do intelectual da classe média.
Não há dúvida: quanto mais poético, mais político.
E o experimental é a poesia mais anti-prosa.
Experimental é o risco.
Não concebo poesia sem risco.
O maior inimigo da poesia é a literatura.
Inimigo pior só mesmo o próprio capitalismo que, esse sim, é brochante em matéria de poesia.
A literatura é a legalidade poética.
Ora, a poesia - se tem um sentido - é ser uma atividade ilegal, marginal, criminosa, em termos de linguagem.
Então, viva a poesia! Abaixo a literatura!
A poesia se manifesta em experiências falhas. Discutíveis. Inclassificáveis. O discurso automatizado que se pratica por aí, com o nome pomposo de P-p-poesia, só é bom para as editoras e as academias, o aparato repressivo do exercício do texto. A legibilidade da “poesia participante” é simétrica aos interesses do mercado. É uma exigência do mercado, comunicar é seu álibi.
Poesia é lógica e linguagem insurretas.
Poesia é extremismo.
Poesia média é prosa. Empilhada em versinhos. Ou acondicionada em estrofes. O sistema insiste em dizer que sabe o que é poesia.
Mentira.
Pergunte aos poetas.
Ninguém sabe o que é poesia.
Anda bem.
Quer dizer: a inimiga é a literatura.
A literatura é a classe dominante dos signos.
Quer dizer: poesia sem literatura é carne sem gordura.
- SEGUNDA PARTE
Segue a segunda parte da entrevista que o poeta e escritor Paulo Leminski deu à revista GANDAIA, na longínqua década de 70. Mas quanto tempo faz?
O tempo da poesia não é o tempo do relógio.
É o tempo do incenso, um tempo oriental.
Mas uma coisa é certa: o poeta tem que viver dentro da prosa. Prosa profissional. Prosa do dia a dia. Prosa dos jornais. Aí está toda a barra. O poeta é um ser semiótico, crítico, utópico.
Dever do poeta é manter acesa a chama e a ideia de poesia. A noção de uma atividade radical, crítica e utópica. Na linguagem. Não apenas conteúdos edificantes e pios temas veiculados através de um discurso convencional e recebido passivamente.
Um poeta deve – sobretudo – agenciar os meios para poder continuar sendo poeta.
Até os 21 anos todo mundo é poeta. O foda é depois. Daí, você tem que provar.
Poucos resistem.
99% dos que fazem poesia hoje, dentro de dez anos, vão estar fazendo outra coisa. Poesia não é brincadeira, é loucura mesmo.
É nadar contra a corrente. Produzir o anti-discurso.
E – principalmente – evitar coisas como o sucesso e a consagração. Aquilo que o sistema canoniza como boa poesia é apenas a poesia que ele consegue vender. Edições bem sucedidas não fazem a boa poesia. Tem que segurar a barra sem parar. Senão acaba desfrutável como Drummond. Ou acadêmico como João Cabral.
Para isso não há regras e cada caso é um caso.
Mas você tem que montar tua vida de tal forma que possa continuar sendo poeta. A homogeneidade que essa sociedade propõe é totalmente fascista.
Você tem que montar sua vida ERRADO.
Quem aceita o discurso contínuo e homogêneo do trabalho massificado, difícil produzir o anti-discurso descontínuo e insurrecional da poesia. Só mesmo dando uma de Dr. Jekyll e Mr. Hyde.
Quanto a mim, larguei a faculdade já nos anos 60. De lá pra cá sou um bóia-fria do texto.
Publicidade, jornalismo, roteiro de quadrinhos, palestras, levo uma vida profissional muito rarefeita.
Toda poesia que é poesia mesmo é experimental. Poesia de invenção. Todo poeta tem estes momentos. Você os encontra em Bandeira. Em Drummond. Nos músicos poetas (Gil, Caetano, Chico).
São eles, esses momentos, que valem.
O resto é moldura. O recheio de prosa sem o que não se vive.
No Brasil o termo “experimental” ficou ligado àqueles poetas que desenvolveram, de alguma forma, os pressupostos do Construtivismo concreto dos anos 50-60: materialidade do texto, função poética de Jackobson, espacialização, obra aberta, manipulação do vocábulo, novas sintaxes, intersemioticidade. Esses são os temas formais da poesia brasileira mais viva, presentes nos momentos mais vivos de qualquer poesia brasileira que se pretenda, pelo menos, moderna ou atual.
Já os poetas das mais novas gerações são às vezes “naturalmente” experimentais. Experimental é a atitude que contesta e questiona as formas do passado, a poesia desautomatizada, a que pratica a subversão de nos despertar da hipnose das formas tradicionais que a burguesia mima, promove em suas universidades, premia em seus concursos, porque FORMAS TRADICIONAIS VENDEM. A ordem literária exprime a mesma ordem que reprime e explora o operário. E os versinhos que se dizem a favor dos operários vendem que nem pão: um fenômeno mercantil, como qualquer outro. A favor do operário porque radicalmente contra a ordem que o oprime é a poesia problemática, a experimental, a que traz o futuro dentro de si, dentro de sua abertura para a consciência e a participação do outro. É a que aposta no desconhecido.
O poemão e a versalhada trazem na pele a marca de suas origens burguesas. E até latifundiárias... Com temas populistas, são caridade cristã. Alívio da consciência pesada do intelectual da classe média.
Não há dúvida: quanto mais poético, mais político.
E o experimental é a poesia mais anti-prosa.
Experimental é o risco.
Não concebo poesia sem risco.
O maior inimigo da poesia é a literatura.
Inimigo pior só mesmo o próprio capitalismo que, esse sim, é brochante em matéria de poesia.
A literatura é a legalidade poética.
Ora, a poesia - se tem um sentido - é ser uma atividade ilegal, marginal, criminosa, em termos de linguagem.
Então, viva a poesia! Abaixo a literatura!
A poesia se manifesta em experiências falhas. Discutíveis. Inclassificáveis. O discurso automatizado que se pratica por aí, com o nome pomposo de P-p-poesia, só é bom para as editoras e as academias, o aparato repressivo do exercício do texto. A legibilidade da “poesia participante” é simétrica aos interesses do mercado. É uma exigência do mercado, comunicar é seu álibi.
Poesia é lógica e linguagem insurretas.
Poesia é extremismo.
Poesia média é prosa. Empilhada em versinhos. Ou acondicionada em estrofes. O sistema insiste em dizer que sabe o que é poesia.
Mentira.
Pergunte aos poetas.
Ninguém sabe o que é poesia.
Anda bem.
Quer dizer: a inimiga é a literatura.
A literatura é a classe dominante dos signos.
Quer dizer: poesia sem literatura é carne sem gordura.
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ENTREVISTA COM PAULO LEMINSKI.,
REVISTA GANDAIA
PATAVINinha’s
PROBLEMAS LUNARES
Um astronauta
mandou pra São Jorge
uma rede de presente.
O santo foi-se deitar
todo contente.
Mas ficou atrapalhado
olhando pra todo lado:
_ Onde penduro a rede
se aqui na lua
não tem parede?
(Ilustração de Wilmar Rodrigues.)
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Cesar Cardoso,
LITERATURA INFANTIL.
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