segunda-feira, 3 de maio de 2010

CAROS AMIGOS



Essa é a minha crônica do mês de abril na revista Caros Amigos, que já se encontra nas melhores bancas do ramo! Este número traz várias matérias sobre cultura brasileira: uma entrevista com o ministro da cultura Juca Ferreira, o escritor Paulo Lins falando de literatura, cinema e Rio de Janeiro, e o cartunista da nova geração André Dahmer. E mais: a destruição da mata atlântica na Juréia, Bezerra da Silva e os 13 anos de existência e resistência da revista. Sem falar na seleção brasileira de articulistas, pra Dunga nenhum botar defeito.

REVISTA CARAS... AMIGAS

O SUPLEMENTO RICO E CHIQUE DA CAROS AMIGOS

(no próximo número sairemos em inglês e papel couché,
para nos diferenciarmos do resto da revista)


Editores: Gisélio Bunchen & Cesar Cardoso


Saiu a Coleção “Para Entender O Brasil”, com os depoimentos dessa gente humilde, que vontade de chorar! Volume um: Porque Eu Amo Morar Numa Favela que Desaba e Inunda. Volume dois: Porque Eu Adoro Trabalhar de Camelô em Vez de Ter Carteira Assinada e Aposentadoria. E volume três: Porque eu Sou Apaixonado Por Vender Droga em Vez de Estudar. Finalmente nós, da elite, vamos entender essa gentalha (e descobrir que eles não têm jeito mesmo).

E já que, por falta de assunto melhor, estamos falando do povinho, pesquisa: responda depressa, o brasileiro é um povo pacífico ou atlântico?

Amiga participativa: saíram as novas palavras de ordem pra você desfilar sua coleção outono/inverno nos Jardins: “Paz na Terra! Viva a Batalha Naval!” “Basta de basta. Agora é Bosta!” E: “Nem mais um dia: liberdade aos frangos de padaria!”

Um pouco de economia. Preocupados com a ascensão dos pobres ao mundo do consumo, os bancos lançaram uma linha de crédito popular para a compra da dignidade própria. O kit completo vem com diploma universitário que dá direito à prisão especial. Vamos lá, miserável, não perca a sua chance de dizer: “sabe com quem está falando?”

E o Brasil, hein? Corrupção, vá lá. Agora, ascensão social dos pobres? Francamente! Mas otimismo, my friends, otimismo. O planeta vai esquentar? Oba, vamos vender ar condicionado. Vai ter enchente pra todo lado? Oba, vamos vender bóia. Vai desabar tudo? Oba, vamos vender material de construção!

É isso aí. Liberdade, liberdade: abre as patas sobre nós!

PATAVINinha’s


O PLAYGROUND DO PATAVINA’S –
ENQUANTO A MAMÃE FAZ COMPRAS NA INTERNET,
AS CRIANÇAS SE ADIVERTE!



O GAMBÁ VIAJANTE

Compadre gambá
resolveu passear
num caronavião
partiu pra Paris.
Na hora do vôo
a aeromoça falou:
- Apertem os cintos
e tapem o nariz.

Chegando lá
compadre gambá
comprou um chapéu
e todo elegante
tirou uma foto
na porta do hotel.

Também comprou
incenso chinês
e trezentos litros
de perfume francês.
Percorreu os museus
passeou pelas noites
com a lua no céu.
E escalou a letra A
da torre Eiffel.
Sentou num barzinho
na borda do rio Sena
pra tomar um vinho.
Estava todo maneiro
mas, que pena!
acabou seu dinheiro.

Compadre gambá
parou, pensou
e não se apertou.
Num caronavio
voltou pra sua casa
na beira do rio.

Foi boa a viagem.
Trouxe de presente
pra gambaxirra
dois quilos de vagem
e uma mochila.
Pro gambarrato
ele deu um queijo
e pra você
que está lendo
mandou este beijo.


Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.

sábado, 10 de abril de 2010

CAIU NA REDE É PIXEL








NOVAS AQUISIÇÕES
DA COLEÇÃO FILÉ CHATEAUBRIAND–MAM
(MUSEU DE ARTE NO MURO)

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Novos haicontos de Alice Barreira

O ARTILHEIRO

Logo cedo, após o café da manhã, sou levado para a sala completamente às escuras. Me conduzem até a posição em que devo ficar, alguns passos antes da bola. Não muitos, para não correr o risco de perder a direção dela. Ao ouvir o apito, eu devo cobrar o pênalti imediatamente, sem usar o tempo para tentar enganar o goleiro que, eles me garantem, está lá à minha frente, sobre a linha do gol, tentando defender minhas cobranças. O apito, alto e prolongado, é a única coisa que nós dois conseguimos escutar enquanto eu chuto e ele tenta defender. Alguém, ou algum mecanismo que nem eu nem ele conseguimos ver, logo repõe uma bola na marca do pênalti, eu torno a ouvir o apito e me movimento para uma nova cobrança. E assim passo meus dias, com uma breve interrupção para o almoço, que deve acontecer por volta das duas da tarde, segundo meus cálculos. Quanto gols terei feito? Quantos perdi? Não sei, mas sigo tentando me aperfeiçoar.

BANDIDOS REAGEM À PRISÃO
E MORREM EM QUEDA

Durante uma operação na madrugada de ontem, dois homens foram surpreendidos por policiais da 28ª DP em atitude suspeita numa casa velha no Alto da Mooca। Segundo o Sargento Oliveira, comandante da operação, o local, com cerca de dez metros de frente e dez de fundos, é um conhecido abrigo de vagabundos que não têm onde dormir. Os policiais cumpriam um mandato de despejo e uma ordem judicial para demolição quando foram atacados a tiros por dois marginais, conhecidos apenas como Joca e Mato Grosso. Na tentativa de fuga que se seguiu parte do piso da maloca desabou, carregando com ele os dois homens. Eles ainda foram levados com vida ao Hospital das Clínicas mas não resistiram aos ferimentos. Com os marginais a polícia apreendeu dois revólveres calibre 38, meio quilo de maconha e um pacote de torresmo à milanesa. Um homem que se identificou como João Saracura e se disse fiscal da prefeitura, garantiu no entanto que a maloca na verdade é um palacete assobradado, estava legalizada e ninguém podia demolir. Saracura foi detido para averiguações.

O ENGANO

Eu falei, insisti, briguei, me aborreci. Adiantou? Aquele idiota não me deu ouvidos. Por que ele seria escolhido? Um vaidoso, isso sim. Sempre se achou melhor do que os vizinhos, do que nós, do que todo mundo. Quantos meses gastamos nesse projeto maluco? Podíamos ter fugido pra bem longe, como tanta gente fez. Não, aqui trabalhando feito escravos por este sonho doente. E esses animais, pra quê? Pra quê? Se nem podemos matá-los pra nos alimentar. Quando o céu começou a escurecer, ele virou o tal. Não falei? Não falei? – repetia feito um corvo. Trancou a nós todos aqui, junto com esses bichos barulhentos e imundos. E a chuva? E o aguaceiro prometido, você viu? Pois sim, quarenta dias caindo terra e mais terra do céu. Nunca vi nada assim. Dormir ficou impossível. E afinal, o que aconteceu? O que é isso, um deboche? Agora estamos aqui, soterrados nesta desgraça que tinha que ser tão segura. Presos nesta escuridão, com o ar cada vez mais pesado e as feras rondando cada vez mais perto, cada vez mais perto.

UM CONTO, UM PONTO - 1

VOCÊ JÁ LEU SEU TREVISAN HOJE?

83.
Guido Viaro, uma rua barulhenta de Curitiba. Mestre Poty, uma praça Tiradentes às cinco da tarde, florida de mocinha, maníaco sexual, pombo branco em revoada. E eu, mal de mim, esse perdido beco sem saída atrás da Catedral.

22.
- Teu seio mais lindo – já viu dois gatinhos brancos bebendo leite no pires?

80.
Do último verão, no tronco da árvore, a casca vazia de uma cigarra: ouça o canto.

(Do livro 111 Ais, de Dalton Trevisan. L&PM Pocket.)

OUTDOR – poemas visuais –

original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original

original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original
original original original original original original original original

UM CONTO, UM PONTO - 2

VOCÊ JÁ LEU SEU TREVISAN HOJE?

1
O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.

18.
Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:
- João. Fale comigo, João.
Geme lá no fundo, abre o olhinho vazio:
- Bruuuxa... diaaaba...
- Ai, que alívio. Graças a Deus.

111.
Amor – esse mesmo dedo amputado que se ergue e te aponta.

(Do livro 111 Ais, de Dalton Trevisan. L&PM Pocket.)

“NÚNCARAS” – po+es+ia


promissória

sete promessas
de levar adiante
pro marido morno
pra armada amante
pro reino dos céus
pro inferno de dante
pro incendiário
pro fogo de palha
pro bombeiro hidrófobo
q engoliu o hidrante

seis promessas
preto no branco
pro psicopato
q te cura o cancro
pro charuto do Freud
cego surdo &manco
pro cheque sem fundo
pro dono do banco
pro ingmar bergman
pro j. b. tanko

cinco promessas
q não deem na vista
pro grande democrata
q já foi nazista
pra todas as cabrochas
q passeiam na pista
pro broto brocha
q virou corista
pro fiscal da alfândega
pro contrabaixo do contrabandista

quatro promessas
com fé & confete
pro pivô do creme da tia odete
pra tiete do pivete
q sofre o diabo com diabete
pra parada de sucesso do dia sete
pro doce de leite
de caldas aulete

três promessas
a serem cumpridas
pro suicida
q abriu o vidro
& se mandou da vida
pra barata tonta
pro inseticida

duas promessas
de não se jogar fora
pra bala perdida
do drops dulcora
pra quem não chegou
mas já foi embora

& por fim
uma promessa
pro leitor
entrar nessa

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –

O PAI DOS BURROS
GUIA IMPRATICÁVEL DA LÍNGUA PORTUGUESA
CAPITULO 5

Compatriotas! As forças do obscurantismo desencadeiam tormentas contra a luz divinal de nosso idioma. Vileza! Ignomínia!! Nefertite!!! A gíria solerte solapa e solavanca o diálogo. Não vos deixeis cair em tentação. Oh não! Querem espicaçar a comunicação! Querem destruir a fala! Querem acabar comigo! (Obrigado, Roberto.) Mas, qual! Lutarei até a última das letras do alfabeto. E, se mais letras houvesse, mais lutaria!!!

(P.S.: Agradeço ao ponto de exclamação, sem o qual este discurso não faria sentido. E registro a contribuição do filólogo sino-norueguês Ălvaгō Ŗẫmǿs que também dá sua regadinha na última Flor do Lácio e nos envia o vocábulo “Excelente - artefato óptico de muito boa qualidade”.)


G
GABÃO - País do continente africano, extremamente convencido.
GAFANHOTO - Inseto da ordem dos ortópteros que fala pelo nariz.
GALALAU - Ladrão enorme; aumentativo de pivete.
GENERALIZAR - Ato de alisar o general.
GENITÁLIA - Órgão reprodutor dos italianos.
GERINCONÇA - Onça mal acabada.
GLÓBULO - Suplemento medicinal do Globo.
GRAMÁTICO - Espécie animal que se alimenta exclusivamente de grama.
H
HABEMUS PAPA - Expressão latina, encontradiça no Vaticano, equivalente à “Hora da Bóia”.
HANS STADEN - Escritor alemão que foi extremamente apreciado por nossos povos indígenas.
HAMBURGO - Cidade alemã feita de carne moída.
HAXIXE - Dança estupefaciente do nordeste brasileiro.
HEBREU - Interjeição utilizada para exprimir escuridão profunda.
HEMATOMA - Ato de insistir com a Ema para ela tomar.
HERBÍVORO - Diz-se daquele que gosta de comer o Herbert.
HERRERA - Família de nobres espanhóis que fazia tudo errado.
HIBERNAR - Fazer sonoterapia em Berna.
HIC - Soluço latino.
HISPÂNICO - Pavor de espanhol.
HUMILHAR - Sacanear alguém pela extensão de uma milha.
HUAI - Uai, em chinês.

I
IDEALIZADOR - Henê para idéias enroladas.
IGNARA - Diz-se da pessoa que ignora a Nara.
IMORAL - Que não tem onde morar.
IMPOSTOR - Representante do governo encarregado de coletar os impostos.
IMPREVIDENTE - Aquele que confia na previdência, divina ou social.
IMPUTAR - Trazer o puto para dentro.
INCAUTO - Indivíduo do povo inca, que confiou nos espanhóis.
INCREMENTO - Nome científico do cocô daqueles que sofrem de prisão de ventre.
INTEGRALISTA - Nazista vegetariano.

E não perca o quinto e nauseabundo capítulo do Pai dos Burros, com as sensacionais e maiúsculas letras J, K e L! Você vai concorrer a milhões em prêmios que não serão pagos!