quarta-feira, 18 de agosto de 2010

THAT’S ALL, FOLKS!



- Põe a bênção na minha filha... seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com Dionóra que está tudo em ordem.

Últimas palavras de Augusto Matraga, já sussurrando, para João Lomba, seu velho conhecido. “Depois, morreu.”

PLEASE MISTER POSTMAN

Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CAROS AMIGOS


Segue a minha crônica que está na revista Caros Amigos de julho, já nas melhores bancas do ramo. Neste número temos uma imperdível entrevista com Frei Betto, refletindo sobre as eleições, o Brasil de hoje e sua história e otras cositas. E mais o time de craques de sempre.

OS TUPINAMBÁS E A FORMAÇÃO DO NOVO MUNDO EUROPEU

Não foi por acaso que, em 1500, os Tupinambás saíram do porto do Rio de Janeiro e navegaram até as terras do Novo Mundo, batizando-as de Europa. Eles sabiam muito bem o que iam fazer por lá: levar o primeiro processo de globalização ao continente desconhecido.

É verdade que de início se limitaram à retirada do Pau-Europa, mas com o ciclo da beterraba iniciaram a produção de açúcar, que exportaram para todo o Velho Mundo, desde a Argentina até o Canadá. Junto com o lucro vieram os conflitos com os índios europeus – franceses, ingleses, portugueses, espanhóis e os temidos holandeses, que se aliaram aos Xavantes quando estes invadiram o Nordeste da Europa em 1630, liderados por Juruna de Nassau e sua Companhia Xavante das índias Ocidentais.

Nos anos 1700, para explorar o ouro descoberto no interior da Europa, os Tupinambás são obrigados a importar mão de obra estrangeira, já que a indolência do europeu o torna incapaz de trabalhar nas minas. É criado assim o tráfico negreiro para a Europa, que dura até 1888, quando os Tupinambás promulgam a Lei Áurea e dão liberdade a todos os escravos.

No século XX, chegam as guerras de independência, com Churchill, De Gaulle, Stalin e outros líderes terroristas sacudindo uma Europa até então pacífica. E se no século XXI já não há mais colônias, há os populistas como Sarkozy e Berlusconi oferecendo milagres à população.

Mas a dura realidade histórica é que nada disso altera o quadro do subdesenvolvimento europeu. Afinal, seria ele resultado de séculos de imperialismo tupinambá ou do inóspito clima frio do continente somado à preguiça natural dos índios, sejam eles ingleses, portugueses, franceses ou alemães?

O autor é historiador e leciona na University of Tchucarramãe.

LETRA DANDO SOPA / SOPA DANDO LETRA

& ANTUNES MAIS ARNALDO DO QUE NUNCA
& ARNALDO TÃO ANTUNES COMO SEMPRE


Cantor, compositor, poeta, escritor. Tudo isso é Arnaldo Antunes. E em qualquer coisa que faça ele é sempre um inventor. Como em seu novo livro de poemas “n.d.a.”. Ali temos poesia, poesia em prosa, em foto, em montagem, em desenho... Mas sempre com a marca inconfundível da invenção.Veja o texto abaixo sobre o ato de escrever. E depois trate de ir logo comprar o livro! Anda! Xispa!


Pessoas mudas escrevem pra falar. Analfabetos aprendem a escrever. Pessoas sem braços escrevem com os pés. Os surdos escrevem no ar com gestos. Os cegos escrevem com a voz no escuro. Pessoas que esquecem escrevem listas. Canhotos escrevem com a mão esquerda. Pessoas distantes escrevem cartas. O tempo escreve no rosto rugas. Nas palmas linhas, nas pintas pontos. E nas estrelas cadentes. E nas cadeias escrevem nas paredes. E nas carteiras de escola. Neurônios escrevem na memória. Os genes escrevem nos corpos vivos. A chuva que escorre escreve nos vidros. E os dedos nos embaçados. E nas cavernas traçados de antepassados. Bisontes, flechas, humanos, arcos. E os médicos nas receitas. Orientais usam outras letras. De cima a baixo, nas verticais. E começando sempre por trás. Nos livros, placas e nos mangás. Escreventes, escrivães, escritores, escribas. Uns tomam notas pra se lembrar. Uns fazem livros pra ser lembrados. Passos escrevem no chão com rastros. Corvos espalham nanquim no alto. Galinhas grafam bicando o chão. Migalhas fazem frases do pão. Palavras ditas morrem no ar. Em pedra escrevem nomes dos mortos. E em placas de rua. E quando o texto acaba a escrita continua.

Arnaldo Antunes em n.d.a. – Editora Iluminuras, 2010.



AUGUSTO MONTERROSO

O DINOSSAURO


Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.


Este texto, considerado o menor conto da literatura mundial é do guatemalteco Augusto Monterroso, que nasceu em 1921 e morreu em 2003. Entre uma data e outra fez muita coisa, inclusive um livro chamado “A Ovelha Negra e Outras Fábulas”, que no Brasil foi traduzido por Millor Fernandes, ilustrado pelo Jaguar e lançado pela Editora Record. “O Dinossauro” faz parte desta obra, que o Tio Google te conta como fazer para comprar, ok?

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –



Eu e o artista plástico Hélio Jesuíno fizemos o roteiro
dessa HQ que ele desenhou. Despeitável público,
com vocês, o Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho em “Pra Quê?”
(É só clicar sobre a página que ela aparece em tamanho legível, ok?)

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

MATEMÁTICA MODERNA

Por Malbaratan - matemático e escritor, nascido no Curdistão, um país que não existe, e autor do livro O Homem que Descalculava.

João foi à feira com cinco reais e comprou duas couves, meia dúzia de laranjas e cinco tomates. Ficou com um real e setenta centavos de troco e, na volta para casa, foi atingido por uma bala perdida, morrendo na calçada antes da chegada de uma ambulância.

Joana foi ao shopping com um cartão de crédito e comprou dois tops, um par de sandálias e três batons. Gastou cento e vinte e quatro reais e setenta centavos e, na saída do shopping, foi atingida por uma bala perdida, morrendo sem que se tenha identificado o autor do disparo.

Sabendo-se que a morte de João saiu num canto da página dez e que a de Joana foi manchete de primeira página por uma semana;

Sabendo-se que o preço de um anúncio de jornal na primeira página é 178 por cento mais caro que o mesmo anúncio na página dez;

E sabendo-se que João e Joana estão mortos;

Responda:

Qual o valor da vida humana?

HOJE É DIA DE VISITA


Quem visita o Patavina’s hoje é o escritor e músico Thiago David. Com 23 anos, Thiago faz parte da banda 27, onde ele compõe, canta e toca violão. Carioca, Thiago também faz curta-metragens, está de mudança pra Salvador, onde vai concluir seu curso de comunicação, e continua escrevendo e compondo em qualquer lugar do planeta. Ele já foi corredor e hoje é gordinho. Mas isso já é uma conversa para a crônica aí de baixo. Leia e confira.

SER GORDINHO

Thiago David

Ser gordinho não é só viver em uma camisa apertada: É muito mais! Ser gordinho é sorrir todos os dias por não ser escravo dos exercícios aeróbicos e rir interminavelmente por saber que seus desejos, independente das calorias, serão consumados.

Ser gordinho é ser a pessoa mais confortável para se abraçar em qualquer ocasião. É ter sempre uma balinha de sobra no bolso e usá-la para começar conversas com estranhos. É poder rir da própria pança enquanto tira sarro de outro gordinho mais gordinho. É jogar futebol na defesa, ser o melhor zagueiro e achar graça de magricelos enfezados gritando nomes esféricos como crítica ao seu bom desempenho na vitória de quatro a zero. Ser gordinho é viver com leveza.

Ser gordinho é ser adorado por todas as mães e todas as avós que se deliciam ao ver seus pratos sendo devorados com gosto até o último grão de arroz. É ganhar uma roupa apertada de uma tia distante e afirmar que a roupa irá alargar com o tempo. É chegar ensopado do próprio suor em casa e saber que um banho e um ar-condicionado te deixarão novinho em folha. É poder beber quatro copos de uísque, cinco taças de champanhe e inúmeras latinhas de cerveja e não ficar tresloucado como brotinhos que só tomaram um cálice de vinho do porto. Ser gordinho é ouvir conselhos de moderação e ir para o cardiologista só para confirmar que as pontadas no peito eram gases.

Ser gordinho é morrer de preguiça de andar até a esquina em qualquer tarefa cotidiana, mas caminhar intermináveis quarteirões para comer um hambúrguer com os amigos em qualquer dia da semana. É saber que ovo já foi proibido e já foi liberado, que vacas comem capim e são suculentas. Ser gordinho é passar a manhã petiscando, comer alguns pratos no almoço, ficar triste por não ter sobremesa e fazer as contas de quanto tempo falta para a janta. Ser gordinho ir para o rodízio de pizza fazer competição de quem come mais fatias sabendo que vai ganhar e às vezes perder para um magrelo sem vergonha com metabolismo bichado.

Ser gordinho é ter o eterno bom humor de quem tem certeza que a vida deve ser degustada e saber que sua barriga é uma afirmação de sua personalidade. É compreender que Buda também foi gordinho e por isso que ele era tão gente boa. Ser gordinho é brincar com grávidas de quem está com mais meses, é ter mais peito do que pré-adolescentes, é ser o travesseiro perfeito para a namorada durante aquele filme em dia de frio. Ser gordinho é ser seu próprio casaco.

Ser gordinho é fazer da vida um farto buffet e saber que sempre terá algo a mais para ser provado.

(Inspirado na crônica "Ser Brotinho", de Paulo Mendes Campos)

RINHA DE GALINHA


Por Don King - nosso correspondente na Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais

Well, dois peso-pesados ítalo-paulistanos se enfrentam।
Não vai sobrar porpeta sobre porpeta।
Que Nossa Senhora da Achiropita nos proteja!
E enquanto isso, o pau come na casa de Noca! Holly Shit!


Neste canto, com 70 quilos de puro italianismo, está Alexandre Marcondes Machado, o temível Juó Bananère, poeta paulista que escreveu numa enlouquecida mistura de italiano com português, criando uma língua pessoal e intransferível, e recriando poemas famosos de nossa tradição literária. Parodiou também La Fontaine e Machado, e até Dante, com La Divina Increnca (aliás, título de seu principal livro). Nasceu em 1892 e morreu em 33. A Editora 34 publicou “Juó Bananère, o Abuso em Blague”, onde Cristina Fonseca estuda a obra deste escritor e humorista. Lá, além da análise, podemos conhecer uma ótima seleção de textos de Juó.

MIGNA TERRA
Migna terra tê parmeras,
Che ganta inzima o sabiá.
As aves che stó aqui,
Tambê tuttos sabi gorgeá.

A abobora celestia tambê,
Che tê lá na mia terra,
Tê moltos millió di strella
Che non tê na Ingraterra.

Os rios lá sô maise grandi
Dus rios di tuttas naçó;
I os matto si perde di vista,
Nu meio da imensidó.

Na migna terra tê parmeras
Dove ganta a galigna dangola;
Na migna terra tê o Vap'relli,
Chi só anda di gartolla.

Do outro lado do ringue está Adoniran Barbosa, com seus 68 quilos de puro samba. Filho de italianos, João Rubinato – seu nome de batismo –, nasceu em 1910, morreu em 1982, era compositor, cantor, humorista e ator de rádio, tv e cinema. Adoniran é um dos criadores do samba paulista – que muita gente pensa que não existe – e cantou uma São Paulo que hoje só se encontra em suas músicas e graças a elas. São lugares como Jaçanã, a Saudosa Maloca, o Brás, e personagens como Iracema, Arnesto, Pafunça, Joca e Matogrosso. Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar...

SAMBA ITALIANO

(Falado:) Gioconda, pitina mia,
Vai brincar alí no mare í no fundo,
Mas atencione co os tubarone, ouvisto?
Capito, meu San Benedito?

(Cantado: ) Piove, piove,
Fa tempo que piove qua, Gigi,
E io, sempre io,
Sotto la tua finestra
E vuoi senza me sentire
Ridere, ridere, ridere
Di questo infelice qui
Ti ricordi, Gioconda,
Di quella sera in Guarujá
Quando il mare ti portava via
E me chiamaste
Aiuto, Marcello!
La tua Gioconda ha paura di quest'onda!

ESCRITORAS SUICIDAS

Já está no ar a edição 41 das Escritoras Suicidas ( http://www.escritorassuicidas.com.br ). Os temas? Memória de Futebol, Paródia e O Beijo da Mulher Aranha. Lillith Damm e Luci Collin são as convidadas da vez. E as belas fotos que ilustram os textos ficaram a cargo de Márcio Cabral de Moura. Aí vai uma breve mostra, pra dar o gostinho.

quando os homens choram
(de Memórias de Patty Flag)
patty flag


Luzes apagadas, cortina cerrada, cerveja na geladeira. 2002, uma falta imensa de Oromar, de uma discussãozinha tola, de explicar pra ele que não, eu não torceria para a Alemanha. Ele não entenderia e riria de mim se o Brasil marcasse primeiro, ou choraria se fosse a Alemanha a marcar — os homens são mais sinceros no futebol.

Lâmpada na geladeira, cortina apagada, cervejas cerradas. 1934, eu tinha oito anos quando a Alemanha ficou em terceiro lugar na Copa da Itália. Lembro bem de meu pai colado no rádio, a loja fechada, o mundo em suspensão — os clientes podiam esperar.

Luzes cerradas, cortina na geladeira, cervejas apagadas. 1938 foi o ano em que vi meu pai chorar duas vezes. A primeira, com a Alemanha saindo-se tão mal em campos franceses; a segunda, na Kristallnacht.

Meu pai que a Alemanha matou em um campo de concentração, quase morria quando a Alemanha entrava em um campo de futebol: não sobreviveu para ver a Alemanha Ocidental campeã em 1954. Alemanha Ocidental, Oriental, Muro de Berlim. Palavras com duplo sentido, mundo sem sentido algum.

Céu aberto, duzentos mil brasileiros em roupas de gala e juventude. 1950, duas horas após o gol uruguaio, Maracanã vazio, Guilherme, homem irretocável, trincava devagarinho sobre o concreto orgulhoso.

Fim de jogo, cortinas abertas. Ainda que o ensurdecedor Rio de Janeiro se incendiasse em festa, sua risada alta e inconfundível queimava minha pele. Oromar não perderia a piada.

Fim de jogo, cortinas abertas. O Kelle Wasse lentamente se afastava da costa, abrindo um Mar Egeu dentro de mim.

Meu pai era o triste capitão.


pelada
tati skor

A mão pequena e lisa, como que regida por um frenesi musical, não parava de ir e vir, ora ao doce receptáculo, ora aos lábios. Cá e lá. Lá e cá.

A língua ousava estender-se, acompanhando o ritmo surdo, procurando nuances de sabor em cada gota caçada com indizível prazer.

Dedos trabalhavam leves, umedecendo-se no líquido viscoso, trazendo-os à boca que, gulosa, os sugava sem nenhum decoro.

Os últimos e insistentes movimentos de cabeça denunciavam o final, um êxtase de sabor que jamais se desfaria em reminiscências.

Bons tempos aqueles, "limpando" a tigela de compota da vovó, depois do futebol.

used to love her
lilith damm


[Ao som de Used To Love Her, G'N'R]

Ela era gordinha, parecia um menino com aquele jeitão dela, mas eu gostava. Ria muito de suas frases imprevisíveis.

Nos acabávamos na cama como duas patifes, como duas assassinas.

Até que aconteceu. Eu não queria, mas ela veio sem tato nenhum, cravando aquele michê enorme no meu rabo.

Enfiei goela abaixo.

Fiquei em cima dela. Gritando, rasgando a carne dela, mordendo as orelhas e o pescoço, até a pele arroxear.

Ela se debatia, me arranhava com suas unhas roídas, me puxava os mamilos — e eu gozava vezes seguidas.

Ela demorou pra burro até ficar quietinha.

Saí do banho pronta pra uma noite que nem papai sonha possível. Preparava a primeira carreira quando lembrei do que tinha feito.

Ela estava na cama com o puta consolo estufando a traqueia. Puxei com força e acabei arrancando um dos caninos.

Achei melhor botar ela pra fora do apartamento antes que ficasse fria.
Mas primeiro, brinquei de salãozinho. Vesti e maquiei como se fosse uma boneca.

Carregar aquela gordinha bêbada pelos corredores tudo bem, mas descer aquele peso morto pelas as escadas, nem pensar.

Era uma decisão difícil, mas ninguém ia se meter no meu esquema.

Virei uns goles de Jack Daniel's, bati umas cavalas na mesa e cheirei até não sentir o maxilar.

Apoiei o traseiro dela no beiral da janela, lambi seu lóbulo e soltei.

Isso foi há três anos.

Acabo de sair de um centro de reabilitação para drogaditos. Namorei bastante as enfermeiras, mas elas só aprenderam a abrir as pernas.

Não vejo a hora de ser cravada no rabo. O problema é que agora sou de maior.

AVISO AOS NAUFRAGANTES

DESINFORMAÇÃO SELETIVA

É este o nome e o desejo do blog do escritor e humorista Tuca Zamagma. Na chamada: “como assinar o globo e receber, de graça, a folha e o estadão. Como tentar ler o primeiro sem jogar fora o segundo – ou vice versa e o terceiro. Como forrar o chão molhado com um, escorregar no outro, se estabacar e quebrar, em vez da coluna vertebral, todas as colunas invertebradas dos três. Como, entende? Como, me explique!!!” Entendeu? Então vai lá: http://tucazamagna.blogspot.com

É CRUMB NA VEIA

A qualidade do trabalho de Robert Crumb faz dele um clássico. Você pode comprar qualquer livro de Crumb que está se dando bem. Os dois últimos: Gênesis e Kafka. Crumb ilustrou várias histórias da Bíblia, com o texto original, sem nenhuma adaptação. E em Kafka, conta a vida e mostra trechos das principais obras do tcheco louco. Mas falar o que Crumb faz não adianta. Tem que ir lá no livro e curtir o trabalho de um dos grandes criadores contemporâneos.