quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CAIU NA REDE É PIXEL








Bras. Zool. Espécie de crustáceo decápode, braquiúro, ocipodídeo, que ocorre das Antilhas até SP, e cuja carapaça tem cerca de 2cm de comprimento. Vive nos mangues.
Bras. Cap. Golpe desequilibrante em que o capoeirista salta com uma perna atrás do joelho do adversário e a outra no seu abdome, com o objetivo de derrubá-lo.
Bras. Zool. Ave passeriforme, tiranídea (Muscivora tyrannus), de coloração geral cinzento-clara, alto da cabeça preto, meio do vértice amarelo, asas e uropígio pardo-escuros, cauda preta e retrizes exteriores marginadas de branco na parte basal; piranha.
Arquit. Constr. Conjunto de peças de madeira ou de ferro, que sustenta a cobertura de um edifício; asna.
Fig. Pessoa maledicente.
Constr. Nav. Cada um dos barrotes de madeira presos obliquamente aos jazentes, para os segurarem na carreira de construção.
Peça longitudinal, de madeira ou de ferro, nos jogos dianteiros dos carros de quatro rodas.
Cruzamento das rédeas com que os cocheiros dirigem uma parelha de tiro.
Instrumento cortante, constituído por duas lâminas reunidas por um eixo, sobre o qual se movem, abrindo em cruz.

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


PEQUENO INDICIONÁRIO DE NUTILIDADES – FASCÍCULO 8

ABANDOLIM
[Do persa antigo بیستون
, pelo italiano amandolino]
Instrumento musical originário da antiga Pérsia e formado apenas por cordas duplas que se sustentam a si mesmas, sem nenhuma caixa que lhes dê apoio. As cordas são feitas de fibras extraídas dos rins do pássaro Simorgh, que vive nas Montanhas Elburz, ao norte do Mar Cáspio. Usado apenas em enterros, o abandolim tem o dom de ressuscitar os mortos, mas em troca leva uma outra pessoa da família, três dias depois do milagre. Dizem que Jesus teria tocado o abandolim para Lázaro.

DESANDORINHAR-SE
[ Do lat. Desirundinere ]
desverbo

Deixar de ser andorinha. De todos os tipos de andorinhas existentes – cerca de 350 – somente uma tem a capacidade de se desandorinhar, a Andorinha do Sétimo Círculo, que vive às margens do Rio Flegetonte. Ela consegue se transmutar em outros seres, como sapos, unhas, pilhas, tumores e objetos que se encontram nos contos de Júlio Cortazar. E é o único ser vivo que se metamorfoseia por simples diversão.

FOICE DE CARTAGO
[ Var. de fouce, derivado do latim falce. + do latim Cartagus]
É a foice que a morte carrega. Houve um tempo em que os deuses eram mortais como os seres vivos, mas só morriam quando golpeados pela Foice de Cartago, que então pertencia a Zeus. Cansado de escondê-la ou de criar escaramuças para se livrar de deuses com desejos assassinos e heróis humanos com sede de glória, Zeus deu a Foice de Cartago de presente à Morte, com a certeza de que ninguém mais procuraria aquele objeto por não querer se encontrar com sua nova dona. Mas Zeus se esqueceu que o sonho de todo herói é desafiar a morte. E por isso até hoje a Indesejada das Gentes tem que se ocupar em dar cabo de dúzias de generais, piratas, justiceiros e outros criminosos, além de diversos deuses menores em busca de ascensão no diversos céus. E ela se lamenta pelos corredores celestiais e dos infernos por ter tão pouco tempo para de dedicar ao que mais gosta de fazer: escolher sem pressa e ao acaso os seres humanos que vai buscar para a sua companhia.

GATURAMO DE VENEZA
[Do lat. Catturamu + do vêneto Venexia]
Ludicemne, a deusa das brincadeiras, queria alegrar seu filho Lusco-Fusco e trouxe para os jardinsde seu palácio todos os bichos de estimação da criança. Mas nada alegrava Lusco-Fusco. A deusa já não sabia o que fazer e seu único filho então lhe pediu para criar um novo animalzinho, misturando o tei-tei das gôndolas, um pássaro admirado por seu canto e suas cores, com o gato do Adriático. Ludicemne fez a vontade do filho, criando assim o Gaturamo de Veneza, um ser metade pássaro, metade gato, que sente uma incontrolável compulsão para se ferir o tempo todo. Lusco-Fusco adorou seu novo brinquedo e trancou-o numa gaiola de prata. Mas, como sempre, meia hora depois já estava reclamando daquele bicho burro, que não fazia mais nada além de cravar em si seu próprio bico, e foi embora dali, batendo o pé por mais diversão. Antes de ir atrás dos novos desejos do filho, Ludicemne teve pena do gaturamo de Veneza e abriu a porta da gaiola. O bicho voou rápido, foi atrás de Lusco-Fusco e furou seus dois olhos. Desde então, todos os gaturamos de Veneza vivem se escondendo pelas matas e só voam à noite, fugindo da vingança de Ludicemne.

PINGO DE GATO
[Do lat. vulg. pendico + do lat. cattu]
Expressão substantiva aquosa
Suor desses felinos, vertido durante a caça aos ratos. Quando esses animais copulam ainda suados dão origem aos gatos-pingados, que acompanham a morte e sempre rondam os lugares aonde ela vai recolher suas vítimas. Aquele que consegue enxergar um gato-pingado pode escapar da morte.

SONHOBRO
[Do lat. somniubrae]
Subst. onírico
Restos de sonhos que não chegamos a sonhar e ficam dentro de nós, envenenando-nos até levar-nos a uma morte lenta e dolorosa. No princípio o homem não sabia dormir, era dominado pela exaustão e morria antes de chegar à vida adulta. Até que um dia, nas florestas de pinheiros que circundam o Golfo de Riga, na Estônia, um garoto encontrou um sonho emaranhado entre os galhos de uma daquelas árvores e levou-o para o povoado onde morava. Maravilhados com aquela descoberta, todos foram para a floresta à procura de outros sonhos. Andaram dias e noites, se embrenhando entre os pinheiros sem nada encontrar e, nesse esforço contínuo, acabaram por adormecer, extenuados. Então sonharam. E, ao acordar, perceberam que precisavam dormir para pode sonhar. Desde então o homem passou a usar as noites para o sono. Mas a escuridão noturna dificulta que os sonhos consigam sair dos seres humanos. E daí se originam os sonhobros. Para se livrar deles, ao acordar deve-se beber um cálice de suor da égua da noite. Mas este animal habita as florestas de pinheiros que circundam não o Golfo de Riga real, na Estônia, mas um outro que só existe em nossos mais terríveis pesadelos. É lá que temos que ir para escaparmos da morte pelo sonhobro.

TREVISADO
[Do francês arcaico trevisée]
Adjetivo de fubá mimoso
Diz-se dos personagens de Dalton Trevisan que conseguiram fugir de seus contos e foram morar na verdadeira Curitiba. Só que eles não suportaram a nova vida e também não conseguiram mais voltar aos textos de onde haviam escapado. Agora vivem vagando à procura de outras Curitibas e tendo pesadelos onde são devorados por pássaros de cinco asas.

“NÚNCARAS” – po+es+ia


COMIGO ME DESAVIM
Sá de Miranda

Comigo me desavim,
Sou posto todo em perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

O português Francisco Sá de Miranda nasceu em Coimbra em 1481, foi contemporâneo de Camões e um dos poetas mais lidos do século 16. A lisboeta Maria Teresa Horta nasceu em 1937, fez parte do grupo Poesia 61 e publicou Novas Cartas Portuguesas, com Maria Velho e Isabel Barreno, livro que deu as autoras processos na (In)Justiça salazarista. E agora não vamos atrapalhar a conversa deles, deixemos os dois à vontade.

MINHA SENHORA DE MIM
Maria Teresa Horta

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

(Minha Senhora de Mim, Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal)

AS NOVAS CAROCHINHAS


AS TRANÇAS

Eu tinha cabelos longos, tão finos como fios de ouro. E passava a maior parte do dia cuidando deles. Talvez tenha me descuidado de tudo o mais. Talvez. Mas como eu ia me cuidar?

Eu nunca mais soube de meus pais. A feiticeira que me raptou e me prendeu aqui nessa torre jurou que eles nunca procuraram por mim e que até teriam tido outra filha, tão loura e de tranças quanto eu. Mas eu nunca acreditei em nada do que a feiticeira falou. Mesmo quando fiquei doente e ela disse que iria me levar ao médico, eu não acreditei. Para que uma feiticeira leva alguém ao médico? Por que não usa seus poderes? Eu não cheguei a falar mas ela me respondeu: - estou velha, muitos poderes se foram. Meus feitiços não dissolvem a doença que te come o corpo.

Foi assim que fiquei sabendo da doença. Quando anoiteceu e o príncipe mais uma vez subiu à torre pelas minhas tranças eu não tive coragem de lhe contar o que ouvira. Mas ele viu em meus olhos que alguma coisa havia mudado. E me abraçou com uma ternura que eu ainda não conhecia.

A feiticeira cumpriu o prometido e me levou aos médicos da vila. E depois a outros médicos de uma cidade grande como eu nunca imaginara que existisse. Eles juravam que estavam cuidando de mim, mas eu me sentia cada vez mais fraca. O feitiço deles era mais poderoso que todos os feitiços de minha algoz. E se, no princípio, cheguei a pensar em fugir e atribuí ao medo da cidade desconhecida não tê-lo feito, aos poucos fui me sentindo mais fraca e desistindo de pensar em fugas. E me aconchegando cada vez mais nas novas ternuras com que o príncipe me consolava.

Até que o primeiro fio de cabelo caiu. E eu voltei a sentir o mesmo pavor que tive no dia do meu aniversário de doze anos, quando fui roubada de meus pais e trancada nesta torre sem escadas nem porta. A feiticeira tentou me tranquilizar: - hoje os médicos te explicarão que isso é o efeito do remédio, que esse é o único jeito capaz de te curar e que você deve ficar calma, depois do tratamento teu cabelo voltará a crescer ainda mais lindo do que já é. Eu não acreditei em uma única palavra do que ela disse, até ouvir os médicos repetirem cada uma delas. Só que, dessa vez, ao invés de crer na feiticeira, passei, sim, a desacreditar também dos médicos. Pude ver claramente que eles eram feiticeiros muito mais poderosos do que ela.

E, enquanto anoitecia, fui escovar meus cabelos, me preparando para receber meu príncipe. E minhas tranças caíam, mais rápidas que a noite, pelo chão do aposento da torre. Mesmo com lágrimas nos olhos, juntei todo o cabelo e fiz uma trança forte, que amarrei no trinco da janela e por onde meu príncipe mais uma vez subiu. Acho que vi surpresa e dor no seu olhar, ao se deparar comigo. Contei-lhe tudo e dessa vez ele não me mostrou novas ternuras. Não. O caso exigia uma solução imediata, temos que ser lógicos e práticos, foi o que ele me disse. E realmente, com muita lógica e prática, contou-me tudo que ia fazer, me tirando de uma vez por todas daquela torre, me livrando das garras da feiticeira e dos médicos e me levando para ser sua rainha, no palácio de seu reino, onde finalmente nós seremos felizes para sempre.

Como ele faria tudo aquilo? É o que tenho pensado. Meus dias não mudaram muito. Escovo bem minha trança, vou aos médicos com a feiticeira, continuo fazendo o tratamento e me sentindo cada vez mais fraca. Mas o pior mesmo são as noites. As noites vazias, desde aquela em que meu príncipe fez todas as promessas. Ele nunca mais voltou. Fico pensando no que pode ter acontecido. Será que os médicos e a feiticeira descobriram seus planos e o aprisionaram?

BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –


POR ALICE BARREIRA

Querido irmão,
Aí vão os tais comentários. Pode publicar no Patavina’s. E parei de vez com os remédios, viu?
Baci
Alice.



Aumenta cada vez mais a conversa fiada de que o e book é um puta sucesso e vai já já superar o livro de papel. O que há é uma gigantesca máquina montada para vender essa e todas as outras traquitanas informatizadas que a indústria inventa. Ou alguém aí acredita que tecnologia cai do céu, é mais um milagre que Deus manda aqui pra Terra? As notícias que saem em toda a mídia dão a impressão de que estão simplesmente sendo atendidos os desejos das pessoas, que adoraram essas novas tecnologias. Conversa fiada. O que há é muita grana em publicidade, financiada por um grupo que vai faturar cada vez mais milhões e milhões de dólares, impondo sua vontade industrial goela abaixo da parte da humanidade que interessa a eles, que são os consumidores, com dólar suficiente no bolso e shit suficiente na cabeça pra ser feita de trouxa. Não há nem um milímetro de democracia no mundo dos negócios e da tecnologia.

Vi o documentário sobre a vida de John Lennon nos States. Chama “Os EUA VS John Lennon” e é muito bom. Pra quem não quiser continuar cego é uma boa chance de ver a escrotidão que se vende pelo mundo com o nome de democracia americana. A covardia americana contra um país pequeno e corajoso, que bota pra correr o Império mais filho da puta da história. E a covardia de um presidente americano, Nixon, que persegue o ex-beatle. Enquanto Lennon aprendeu uma porrada de coisas sobre o mundo real (como ele mesmo admite) e é perseguido pelo FBI, seu ex-parceiro Paul continuou sendo o babaca de sempre (e continua até hoje). Quanto a Yoko, qualquer semelhança com a perseguição de que foi vítima Elza Soares no Brasil, por amar Garrincha, não é mera coincidência.

Maninho, você viu que saiu o novo livro velho do Paulo Coelho? Chama-se O Aleph. O cara não se deu ao trabalho nem de escolher um título original, pelo menos. Copiou direto do Borges. Mas tá cheio de gente comprando. E ainda dizem que o Borges é que era cego.

Aliás, meu irmãozinho querido, também saiu o livro novo do teu amado Trevisan. Sinto te informar, mas o cara envelheceu e tá diluído em 400 copos dágua. Bom, mas vai reclamar do quê? Poucos estiveram tanto tempo no topo.

AVISO AOS NAUFRAGANTES


SEXTA NA QUINTA (NÃO CONFUNDIR COM QUINTA NA SEXTA)

SEXTA-FEIRA DE MADRUGADA é o nome do ótimo show em homenagem ao compositor Paulo Vanzolini que os cantores Lúcio Sanfilippo e Marina Iris fazem junto com o Grupo Coisa & Tal, que tem entre seus componentes o percussionista Chico Abreu. Vanzolini é um sujeito interessante, que costumava dividir seu tempo entre catar répteis na floresta amazônica e fazer sambas antológicos nos botequins de São Paulo. Além de ser um cientista de renome mundial, o cara é autor de Ronda e Volta Por Cima. É mole? O show visita esses sucessos e dá um balanço na produção de Vanzolini, mostrando até sambas de breque de sua autoria. Anotem aí as próximas datas: 2 e 9 de setembro, quintas feiras, às 21:30, no Bar do Tom, que fica lá no Leblon, ao lado da Churrascaria Plataforma (que todo mundo conhece). Clique aqui para mais informações.

LIVRARIA A DOMICÍLIO

Você quer qualquer livro, nacional ou importado, entregue no conforto de seu lar e ainda podendo pechinchar um descontinho? Pois a Livraria Garamond está oferecendo exatamente isso. Bom, não é? Você liga para 2221-6604 e fala com o Márcio ou a Bruna. Ou então entra em contacto pelo e mail livraria@garamond.com.br . Agora, se você é desses que prefere ir ao local do crime e passar um tempo folheando livros até escolher um ou mais títulos, pode ir conhecer a livraria, sem problemas. Ela funciona dentro do IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ –, no Largo. de São Francisco n° 1. E boa leitura!

OUTDOR - po+es+ia +v+is+ual



esquecimemor

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

A CRIANÇA

A criança estava ali, adormecida, e eu andava muito lentamente para não acordá-la.

Aquele estado de torpor, aquela nuvem diante dos olhos, aquele lugar quase que suspenso no ar. Era um sonho. E a criança adormecida era eu mesmo.

Tentei despertá-la com ruídos casuais. Me aproximei, toquei em seu braço coberto pelo lençol, toquei sua mão, sacudi.

Então me dei conta. A criança estava morta.


A DOR

Ela sorriu, tirou o guardanapo do colo, chamou o garçom, pediu mais um vinho e disse que sim.

Eu estendi minha mão esquerda até tocar seu braço, aquele braço que tantas vezes, disse calmamente que ia embora para sempre, me levantei e caminhei lentamente para fora do restaurante e do seu sorriso.

É o que me dói até hoje.

TORNEI-ME UM

Na bebida busco esquecer, mas nem sempre foi assim. Eu buscava só me divertir. Esquecia também, mas sem querer. As noites de vodka. Às vezes acordava e não sabia como tinha chegado em casa. Depois comecei a acordar e ver que não tinha chegado em casa. Voltava com flores e presentes. Ela não reclamava. Continuávamos nos amando.

Um dia acordei todo ensanguentado. Tomei um puta susto. Enquanto verificava se não estava ferido, gritava por ela. Mas ela não me respondia. Levantei nervoso, gritando mais alto e assim que saí da cama tropecei e caí. Por cima dela. Estava deitada no chão, os pés pra debaixo da cama, o rosto cheio de sangue e a cabeça aberta, com os cabelos empastados e uma poça em volta. Aquelas coisas que a gente só vê em filme, só que muito pior, é claro.

Foi o pior dia da minha vida? Não sei. Limpei tudo, deixei chegar a madrugada e enterrei o corpo no quintal. De novo aquelas coisas todas de filme. E como em todo filme, eu seria descoberto. Não sou criminoso, não sabia fazer aquilo, certamente devo ter deixado um montão de pistas.

Mas não. Dei queixa na delegacia sobre seu desaparecimento e a polícia cagou e andou. Ninguém na família sonhou com a possibilidade de eu tê-la matado. Eu não tinha motivo nenhum. Nós éramos felizes. E eu nunca consegui me lembrar do que aconteceu naquela noite.

QUERIDO OUVINTE

Adoro ouvir histórias. É a única hora em que eu não tenho pressa nenhuma. Se levar o dia inteiro, aí é que eu me divirto mesmo. Quando eu era pequeno, minha avó contava para mim toda noite. Aqui é a mesma coisa. E todo mundo conta. Mesmo que no começo eu precise incentivar, com choque elétrico, palmatória e afogamento.

PATAVINA’S NEWS

- com Jean Prévert
nosso correspondente em Nova York -


Oi, Cesar,

Depois de um longo e tenebroso inferno, também conhecido como verão em Nova York, eis-me de volta à cidade. Saí do Morgan Library Museum, onde passei a manhã vendo iluminuras da Idade Média. Obras-primas produzidas pelo catolicismo, que você só julga capaz de exterminar dezenas de povos do Novo Mundo. Well, tô de altos, como a gente dizia brincando de pique em Quintino, subúrbio do Rio que você, garoto de Ipanema, talvez não conheça. Revejo o belo portão do Grand Central Terminal – essa porta de entrada da cidade – e já caminho por seus largos espaços à procura de um banco, onde já me sentei e comecei a batucar essas mal traçadas. Tenho notícias, meu caro. Vamos a elas?

Todos os jornais de escândalo da cidade não falam de outra coisa: John Kennedy não morreu! Isso mesmo que você está lendo. A nova teoria é a seguinte: Kennedy teria forjado a própria morte para fugir dos Estados Unidos com outro defunto famoso: ninguém menos que Marylin Monroe. (Eles não brincam em serviço, não é mesmo?) O casal teria se mandado num jatinho e estaria até hoje vivendo muito bem obrigado numa casa de campo às margens do Lago Van e sob as neves eternas do Monte Aratat, no interior da Turquia. Há fotos, ilegíveis o suficiente, é claro. Você já imaginou Marylin aos 84 anos cantando Happy Birthday dear presidente, para um Kennedy de 93 springs? Oh God!

Não sei se é para enfrentar a crise econômica, mas surgem novos empregos nesta paradisíaca ilha perdida bem em frente a esse país desagradável. O curador, essa figura paterna que tomou conta das artes plásticas e da grana que corre por lá, estica seus tentáculos a novas atividades. Sim, agora temos na cidade o curador para batizados, cirurgias e até para enterros. Com aqueles belos textos falando sobre os artistas, no caso bebês, doentes e mortos. Garantem as más línguas jornalísticas que daqui a pouco surgirá o curador para assassinatos. Quem viver – e portanto não for a vítima – verá.

Veja o que inventaram os desocupados de sempre (geniais desocupados). Pegaram Luzes da Cidade, uma das muitas obras primas de Chaplin, chamaram um mudo e pediram que ele fizesse leitura labial do que está sendo dito e não ouvimos, é claro, durante o filme. Pois bem, nas primeiras cenas Chaplin passa cantadas e mais cantadas em Virginia Cherril, que faz o papel da florista cega. Mas o tom vai mudando e ele acaba esculhambando com a atriz, dizendo que ela é péssima e que pensa em substituí-la. Pelo menos esta parte condiz com o que a história do cinema registra. Contam que Chaplin queria substituir Virginia por Georgia Hale, mas não teve dinheiro suficiente para isso.

Jean Prévert, de N. Y., para o Patavina’s.

THAT’S ALL, FOLKS!



- Põe a bênção na minha filha... seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com Dionóra que está tudo em ordem.

Últimas palavras de Augusto Matraga, já sussurrando, para João Lomba, seu velho conhecido. “Depois, morreu.”