terça-feira, 31 de agosto de 2010

AS NOVAS CAROCHINHAS

NOVO ENFRENTAMENTO ENTRE CHAPEUZINHO E LOBO MAU

A atriz principal da novela das seis, Chapeuzinho Vermelho, voltava de uma gravação na madrugada de domingo quando seu carro enguiçou na Estrada de Furnas, que corta a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ao saltar para tentar descobrir o defeito do automóvel, a atriz foi abordada pelo Lobo Mau, que habita aquelas matas. Depois de roubar vários pertences de Chapeuzinho, o animal acabou por devorá-la. Mas sentiu-mal logo em seguida e, usando o carro de Chapeuzinho, dirigiu-se a um hospital das redondezas. Lá foi submetido a uma ultrassonografia abdominal que constatou a presença de Chapeuzinho, ainda viva, em seu estômago. De imediato, a equipe médica quis realizar uma cirurgia para a retirada da atriz. Mas o procedimento teve que aguardar autorização do plano de saúde do Lobo, que alegou nunca ter enfrentado um caso como esse. Era necessário uma consulta ao departamento jurídico para esclarecer se os médicos poderiam salvar a vida de Chapeuzinho usando o plano de saúde do Lobo Mau. Sem dúvida, uma situação inusitada.

O Lobo permaneceu internado enquanto aguardava uma decisão do plano médico. Nesse meio tempo a avó de Chapeuzinho, informada do infortúnio que se abatera sobre sua neta, compareceu ao hospital, acompanhada de seu advogado e exigindo uma cirurgia imediata, não pelo plano do Lobo e sim pelo de sua neta, já que o procedimento médico visava salvar a vida dela e não a do animal. Os médicos concordaram com a avó e chegaram a levar o Lobo Mau para o centro cirúrgico. Mas, durante a anestesia, o plano de saúde de Chapeuzinho alegou precisar de tempo para saber do direito ou não de sua associada àquele tipo de cirurgia.

As pendências jurídicas levaram todo o dia de segunda feira. E quando, por fim, o plano de Chapeuzinho autorizou a operação, a chegada dos advogados da atriz ao hospital levou tudo para a estaca zero novamente. Os doutores Christian e Andersen trouxeram um mandato que impedia a cirurgia, a pedido de sua cliente.
Segundo eles, Chapeuzinho contatou-os pelo celular afirmando que, ao perceber que pode permanecer viva dentro do Lobo, optou por não mais sair de lá. Ainda segundo os advogados, sua cliente garantiu sentir-se muito mais segura dentro do animal, onde não há engarrafamentos, risco de assaltos, vizinhos chatos nem outras violências. Quanto à novela, Chapeuzinho declarou que o autor certamente encontrará uma saída criativa para a trama. E realmente na segunda feira à noite, representantes da emissora de tevê chegaram ao hospital para oferecer ao Lobo um contrato. Há especulações de que o animal já deve aparecer ou pelo menos ser citado no capítulo desta terça feira. Há também a expectativa de um ibope recorde com os novos rumos da história e chances muito grandes de todos viverem felizes para sempre.

(Da reportagem local)

SALTA UMA CAROS AMIGOS NA MESA 5!


Saiu do forno o novo número da revista Caros Amigos, com 3 entrevistas quentinhas: Marcio Pochmann, professor da Unicamp e presidente do IPEA, analisa o país e sua desigualdade histórica. É um prato cheio! E pra matar sua fome de informação, o professor da UFRJ José Luís Fiori fala da atual crise européia. E pra rebater: Inezita Barroso e seus 30 anos no comando do programa “Viola Minha Viola”. De sobremesa: os 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, a nova onda do cinema latinoamericano e a arte nordestina na Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro. E por conta da casa ainda tem uma porção bem servida de colaboradores. Depois dessa, traz a minha crônica na pressão aí embaixo e fecha a conta! (Mas ainda tem o aperitivo: saiu também um número especial da revista só sobre eleições. Assim não há regime que aguente!)

OS TUPINAMBÁS E A FORMAÇÃO DO NOVO MUNDO EUROPEU

Não foi por acaso que, em 1500, os Tupinambás saíram do porto do Rio de Janeiro e navegaram até as terras do Novo Mundo, batizando-as de Europa. Eles sabiam muito bem o que iam fazer por lá: levar o primeiro processo de globalização ao continente desconhecido.

É verdade que de início se limitaram à retirada do Pau-Europa, mas com o ciclo da beterraba iniciaram a produção de açúcar, que exportaram para todo o Velho Mundo, desde a Argentina até o Canadá. Junto com o lucro vieram os conflitos com os índios europeus – franceses, ingleses, portugueses, espanhóis e os temidos holandeses, que se aliaram aos Xavantes quando estes invadiram o Nordeste da Europa em 1630, liderados por Juruna de Nassau e sua Companhia Xavante das índias Ocidentais.

Nos anos 1700, para explorar o ouro descoberto no interior da Europa, os Tupinambás são obrigados a importar mão de obra estrangeira, já que a indolência do europeu o torna incapaz de trabalhar nas minas. É criado assim o tráfico negreiro para a Europa, que dura até 1888, quando os Tupinambás promulgam a Lei Áurea e dão liberdade a todos os escravos.

No século XX, chegam as guerras de independência, com Churchill, De Gaulle, Stalin e outros líderes terroristas sacudindo uma Europa até então pacífica. E se no século XXI já não há mais colônias, há os populistas como Sarkozy e Berlusconi oferecendo milagres à população.

Mas a dura realidade histórica é que nada disso altera o quadro do subdesenvolvimento europeu. Afinal, seria ele resultado de séculos de imperialismo tupinambá ou do inóspito clima frio do continente somado à preguiça natural dos índios, sejam eles ingleses, portugueses, franceses ou alemães?

Cesar Cardoso é historiador e leciona na University of Tchucarramãe.

AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO



EPISÓDIO DE HOJE: O CACHORRO LOUCO DO PAULO LEMINSKI

Parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta.



Dois loucos no bairro
Um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também.


O Paulo Leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau e pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filho da puta
de fazer chover
em nosso piquenique

- LHUFAS - coisa com coisa nenhuma –


SEQUESTRO DE AMÉLIA TEM SALDO TRÁGICO

Benedito Pereira, conhecido pelos apelidos de Escurinho e Unha de Gato, saiu de cana ainda não faz uma semana, beneficiado pela progressão de sua pena, que passou de regime fechado para semi-aberto. Mas o presidiário não perdeu a mania de brigão, que lhe fez famoso no Morro da Providência, no Centro do Rio, onde mora. Na mesma manhã em que deixou a Penitenciária de Bangu 1, Benedito invadiu a casa de sua ex-mulher, Amélia do Lago, que almoçava com seus pais. Muito descontrolado e armado com um revólver calibre 38 e uma pistola, Benedito fuzilou os ex-sogros com mais de dez tiros e manteve Amélia como refém por dois dias, sob a mira de suas armas e de constantes ameaças.
Agentes do Grupo de Ações Táticas Especiais cercaram a casa e tentaram negociar a rendição de Benedito. Mas, inconformado com o fim do casamento, ele se negava a soltar Amélia ou mesmo a entregar os corpos dos pais dela. A polícia cortou a água e a luz da residência, mas nem assim Benedito aceitou negociar. Sua mãe, a doméstica Dora – conhecida no morro como rainha do frevo e do maracatu – foi chamada ao local e declarou à nossa reportagem que Benedito era um homem comum mas passou muito tempo entre maus elementos e que aquilo era macumba de alguma escurinha que ele fez ingratidão. Num dramático apelo ao filho, Dora implorou para que ele se entregasse. O que aconteceu, no entanto, foi que Benedito, ao ouvir a voz da mãe, gritou que não iria de novo para a cadeia e de lá só sairia morto. Em seguida fez quatro disparos dentro da casa, levando os policiais especializados a se decidirem pela invasão do local. Durante a operação houve um violento tiroteio e Benedito acabou morto, cumprindo tristemente sua profecia. Amélia, ferida na perna e no abdômen, foi levada ao Hospital Souza Aguiar. À nossa reportagem ela declarou apenas: “o que se há de fazer?”

(Da reportagem local)

“NÚNCARAS” – po+es+ia



O paraibano Zé Limeira nasceu em Teixeira em 1886, foi repentista e cordelista dos melhores e ficou conhecido como O Poeta do Absurdo. Dizem que se vestia de modo extravagante e usava óculos escuros e muitos anéis. Uma figura pop em pleno Nordeste do século 19 e começo do 20. Se quiser saber mais sobre ele e sua obra compre o livro O Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo, Editora Caliban (já na 11ª edição). E agora veja porque ele ganhou o apelido de Poeta do Absurdo.


Quem vem lá é Zé Limeira,
Cantor de força vulcânica,
Prodologicadamente
Cantor sem nenhuma pânica
Só não pode apreciá-lo
Pessoa senvergonhânica.

Zé Limeira quando canta
Estremece o Cariri,
As estrelas trinca os dentes,
Leão chupa abacaxi,
Com trinta dias depois
Estoura a Guerra Civí.



Se tu for na minha casa
Tem capim pro teu cavalo,
Se chegar um filósofo
Eu mando fotoigafá-lo,
Se chegar um fotóigafo
Eu mando filosofá-lo.



O Marechal Floriano,
Antes de entrar pra Marinha,
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano.
Foi vaqueiro vinte ano,
Fora os dez que foi sargento,
Nunca saiu do convento
Nem pra lavar a corveta,
Pimenta só malagueta,
Diz o Novo Testamento!

Pedro Álvares Cabral,
Inventor do telefone,
Começou tocar trombone
Na volta de Zé Leal.
Mas como trocava mal,
Arranjou dois instrumento...
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três,
Quem tem razão é o freguês,
Diz o Novo Testamento!

Um dia, Nossa Senhora
Se encontrou com Rui Barbosa,
Tiraro um dedo de prosa,
Voltaro e foram-se embora.
Judas se enforcou na hora,
Numa corda de cimento,
Botou os filho pra dentro,
Foi pra barca de Noé,
Viva a Princesa Isabé,
Diz o Novo Testamento!

Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E dona Leopoldina
Devia a Deus e ao mundo,
O poeta Zé Raimundo
Começou castrar jumento,
Teve um dia um pensamento:
Tudo aquilo era boato,
Oito noves fora quatro,
Diz o Novo Testamento!

Napoleão Bonaparte
Saiu de dentro da grota,
Veio contar anedota
Pra seu Pedro Malazarte,
Dom Pedro teve um enfarte,
Tomou um chá de jumento,
Vomitou, botou pra dentro,
Tornou goipar outra vez,
Ás, dama, valete e reis,
Diz o Novo Testamento!

Quando Jesus veio à Terra
Foi gerente da Paulista,
Sócio de São João Batista,
Depois da Segunda Guerra...
De tanto subir a Serra,
Tivero um padecimento,
Inda existe decumento
Da juvenía dos dois,
Hoje, amanhã e depois,
Diz o Novo Testamento!


O meu nome é Zé Limeira
De Lima, Limão , Limansa
As estradas de São Bento
Bezerro de Vaca Mansa
Vala-me, Nossa Senhora
Ai que eu me lembrei agora:
Tão bombardeando a França

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Minha cara irmã Alice,

Aí vai o haiconto que te falei, com o tema da memória.
Beijo
Cesar


MEMENTO - 1

Hoje ele me contou as histórias outra vez. Eu o ensinando a andar de bicicleta, os nossos jogos de futebol na beira do rio, a força que fiz para a minha amiga ser sua primeira namorada, as viagens para assistir os festivais, as farras na cidade grande. Vai contando, cada vez mais animado, e de vez em quando para, emocionado com esta ou aquela lembrança. Sei que ele fica me olhando quando vou embora. Mas não olho para trás. Vou andando em linha reta e pensando que nada daquilo aconteceu.


Salve, maninho,

Aceitei o desafio. Lá vai o meu haiconto sobre a memória. Publica os dois lá no Patavina’s. Podíamos desenvolver mais esse jogo, essa parceria em desafio. Que tal?

Beijos gulosos da mana
Alice


MEMENTO - 2

Finalmente. Quanto tempo se passou? Não importa, o fato é que eu estou aqui. Eu consegui voltar.

Andei pelo cemitério mas não achei o túmulo. Então respirei fundo e atravessei a rua principal. Entrei na farmácia, na papelaria, na padaria, comprei coisas de que não precisava, só para poder pisar de novo aquelas calçadas e, aos poucos, ir medindo as reações. No bar, pedi uma cerveja e fiquei ali no balcão puxando assunto e mastigando alguma coisa.

Anoiteceu. Eu continuo no mesmo balcão. Mas agora estou bêbado. Nada. Ninguém lembrou de nada. Nem de mim. Vou pagar a conta e voltar pra rodoviária.

AVISO AOS NAUFRAGANTES


POESIA NO SESI-RJ

O poeta e amigo Claufe Rodrigues informa: “Setembro vem aí e com ele o mar de comemorações pelos 80 anos de Ferreira Gullar. No nosso evento, o poeta maranhense será devidamente incensado, com participação de nomes como Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Mano Melo, Salgado Maranhão, Augusto Sergio Bastos, Gregorio Duvivier, Alexandra Maia e, sendo apresentado pela primeira vez ao público carioca, o excelente poeta e romancista cearense Ary Albuquerque. O próprio Gullar encerrará a programação.
O projeto Poesia no SESI-RJ estreou em março e vai até dezembro. Estaremos no Teatro do SESI-Rio (Rua Graça Aranha, no. 1, centro), todas as quartas-feiras, ao meio-dia, com um elenco diferente a cada semana homenageando o poeta do mês.

Programação de setembro:

8 de setembro: Adriano Espínola e Augusto Sérgio Bastos
15 de setembro: Salgado Maranhão e Alexandra Maia
22 de setembro: Mano Melo e Gregório Duvivier.

A apresentação é feita por Claufe Rodrigues e por Mônica Montone e o encontro acontece sempre às quartas, das 12h às 13h, no Teatro do SESI-RJ (Av. Graça Aranha, 1 - Centro - Rio de Janeiro/RJ). A entrada é gratuita.

OUTDOR - po+es+ia +v+is+ual



PORQUE ESCREVO


“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”

Alice Barreira

O texto que segue está no ensaio “À Meia-Luz”, sobre o escritor argentino Adolfo Bioy Casares, escrito por José Castello e publicado em seu livro Inventário das Sombras, (Editora Record) onde José nos dá esse e mais 14 ensaios sobre escritores e criadores como Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector, João Antonio, Caio Fernando Abreu, Manoel de Barros, Nelson Rodrigues Saramago, Trevisan e outros. A leitura deste “Inventário” é uma grande prazer. Aliás José Castello está nos dando também seu novo romance: “Ribamar”, já nas boas livrarias do ramo.


Bioy Casares pergunta se desejo ouvir uma história. Não é uma gentileza de sua parte, adverte, mas sim um favor que eu lhe prestarei. Antes que eu possa responder que, sim, ficarei muito orgulhoso de ouvir uma hist[oria relatada por Bioy Casares, ele me fala um pouco a respeito de seus hábitos de escritor. Escreve diariamente, sempre pela manhã, nunca mais que duas páginas de caderno. “Depois disso, já se começa a escrever tolices”, justifica. Acrescenta que, na verdade, escreve todo o tempo, não com as mãos, mas com a cabeça. “Ah, eu nunca paro de escrever”, me garante. Um exemplo? Está, suponhamos, fazendo a barba. Enquanto espalha a espuma pelo rosto, vai contando uma história para si mesmo. Em seguida a esquece. Durante o almoço, retoma a mesma história e a relata para uma amiga que o acompanha. Se o relato desperta interesse, sente-se estimulado e na manhã seguinte começa a passá-lo para o papel. Mas se a amiga fica entediada, se muda de assunto, prefere esquecer da história. “É porque ela não presta”, conclui rapidamente.

Mas nem sempre, mesmo quando consegue agradar, Bioy Casares passa a sua história para o papel na manhã seguinte. Prefere ruminá-la mentalmente pelo maior tempo possível, aguardando o momento adequado para a transcrição. “Quando tenho a trama esboçada, começo a pensar: bem, esses serão os pontos difíceis, as partes que podem me derrubar”. Então, sempre mentalmente, sem anotar uma única linha, trata de solucioná-los, um a um. “Só assim, com a estrutura pronta, posso me sentar para escrever com a certeza de que não serei enganado pela história”, diz. Mas esse é mais um engano, a literatura é feita de enganos. Bioy admite: “O problema é que, quando começo a escrever, todas as minhas soluções falham. Quando está diante do papel, por mais que tenha ruminado a história, todas as dúvidas reaparecem. “Esse preparo mental só serve, no fundo, para que eu me engane e assim fique menos tenso para escrever”, diz. “Engano-me, mas já sei que, na hora de escrever, minhas soluções maravilhosas não funcionarão e então serei obrigado a partir do zero. E, com um sorriso no rosto, conclui: “Sou apenas um charlatão”. Poucas vezes terá definido melhor a literatura.

THAT’S ALL, FOLKS!

Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há. É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.

PALAVRAS FINAIS DE RIOBALDO, EM GRANDE SERTÃO: VEREDAS.