sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011


EPITÁFIO PARA M

Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.
(Bertold Brecht em Poemas e Canções, seleção e versão portuguesa de Paulo Quintela, Livraria Almedina, Coimbra, Portugal.)
+ + +

Aqui jaz Pedro Rocha
Como uma ejaculação precoce
Entregou-se tanto como se pudesse
Faltou-lhe resistência e polígrafo
Cedeu cedo, pelo que não ia
A vida não foi de colher
Esquece camarada
Já sou xaxim
+ + +

Esquece camarada
Que essa etapa agora encerra
Posto que agora eu sou mais parte terra
Me acaricia com a enxada
Esquece camarada
E guarda toda a sua mágoa
Tu, que ainda és mais parte água
E siga tua estrada
(Resposta a Pedro Rocha, de autor olvidado, etéreo, indeterminado)
+ + +

AQUI JAZ AMORA PÊRA
QUE CEDO AMADURECEU.
NÃO FOI AO CHÃO ,MAS COLHIDA
E SEMPRE MUITO BEM COMIDA
NEM NA MORTE APODRECEU
+ + +

Aqui jazz, MPB, tango, vinho e alegria
e também, contrariada, uma tal Claudia Maria
que clama por justiça e pela tecnologia!
Afinal, que faço aqui, nessa casa escura e fria,
quando meu corpo mais bem honrado seria
se transformado em papel, e impresso com poesia?
+ + +

Literário antropófago, mordaz,
adversário da cultura de massa
poesiprosa, obra sua foi capaz
de vingar? Ou deu de comer à traça?
Farra? Não! Ele zarpou tempos atrás
para a terra dos pés-juntos – desgraça!
Sangue de bugre e ibero, mestiços laços:
Ora pois, aqui jaz Mateus, o Passos
+ + +

Aqui jaz Geraldo Carneiro
que quis ganhar o mundo inteiro,
mas só ganhou metade.
O resto?
Vai esperar pela eternidade.
+ + +

Aqui jaz Tavinho Paes
cujas cinzas crocantes
servidas aos vermes
como beluga caviar
agora sim,
se tornaram interessantes.
+ + +

Aqui jaz Tanussi Cardoso
Que da vida só queria
comer carne e roer o osso.
Agora, sem sol nem esteira,
vive lambendo na beira
pó de cimento barato.
Ai, que saudades – quimeras –
da sola dos meus sapatos!
+ + +

Epitáfio de Bruno Tavares

Aqui neste sítio arborizado,
na encosta desta colina
foi enterrado um cabra.
Não se sabe como assina,
seus ossos são finos e longos
servem prá tocar tambor.
A cabeleira comprida
trançada com mão de artista
pode ter serventia
prá amarrar um novo amor.
Não tenha medo amigo
dessa carcaça enterrada.
Em vida, faz festa e te alegra
que a morte é prá todos, mas tarda.
+ + +

Velho, mesmo lerdo bardo, F. Flamante,
presto, educado, atendeu num instante
ao toque de recolher.
Mas sua chamada foi feita em má hora,
E em P.S. se registre isso agora:
Ela foi frustrante, causou um tormento.
Inesperada, se deu no justo momento
em que aprendia a viver.
+ + +

Descansa nutriente em sua terrinha
Silas Corrêa Leite, o Poetinha.
Depois de um viver inquieto,
depois de escrever brincando,
aqui descansa em paz e feliz
Nasceu analfabeto,
viveu estudando e
morreu aprendiz.
+ + +

Aqui jaz Jiddu Saldanha
que se decompõe por inteiro
as vísceras, as entranhas
liberando todos os cheiros.
Este poeta medíocre
agora tem sua serventia:
alimenta a microfauna
com sua carne fria!
+ + +

Aqui jaz Guilherme Zarvos, o Zarvoleta
Desde pequeno, como tantos, quis demais.
O tempo me deu + que uma Romiseta,
Meu mundo vai finalizando com ++ alegria que dor.
Quis ser até presidente, hoje me contento
com o futuro cair dos dentes.
Escrever e ter amigos foi meu destino,
deixo de herança a enorme esperança
e a intensa covardia.
+ + +

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
(Vinícius de Morais em Poesia Completa e Prosa, Editora Nova Aguilar.)
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CRUZ NA PORTA

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.

(Álvaro de Campos, em Poesia Completa de Álvaro de Campos (edição de bolso), Companhia das Letras.)
+ + +

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta

(Manuel Bandeira, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira.)
+ + +

POETA DE MORTE

[para líria porto]

matei-me
aos poucos
:
atirei rimas
a esmo
bebi do cale-se
do verso
saltei do décimo
andar do ritmo

- sem sucesso -

entre um cigarro
e um porre
a chance
que deu certo
:
ateei poemas
no corpo

(Valéria Tarelho)
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CONFISSÃO

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“henry!”
e henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu te
amo.

(Charles Bucowski em Os 25 Melhores Poemas de Charles Bucowski, tradução de Jorge Wanderley, Bertrand Brasil.)
+ + +

DESDE O PRINCÍPIO
SINTO-ME AFLITO
DIA APÓS DIA APÓS DIA APÓS DIA
À BEIRA DO ABISMO
VIVO POR UM FIO
TEMPORÁRIO NO AR
RESPIRO E CISMO:
DEPOIS DO FIM,
ALÉM DE MIM,
O QUE SERÁ?

PERMANECE A DÚVIDA
QUESTÃO PRINCIPAL
PRECIPÍCIO INFINITO E FUNDAMENTAL
ONDE
QUANDO
POR QUÊ
SERÁ PRECISO
O PONTO FINAL ?
(Ronaldo Santos)
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cigarras zoando
a casca não explode
cantando até a morte

(Paco Cac)
+ + +

FARMÁCIA AQUÁRIO

Raras vezes me importam a velhice
e suas despedidas:

Cabelos negros se vão,
dentes,
o que não somos também.

Alguns sonhos escorrem
pela boca,
Nossas mãos só sustentam
nossas mãos
e o reino das subtrações:

Sono de menos,
amigos,
a pele que enrijece seu frescor usual.

Tudo faz parte daquele
longo túnel,
que nos avisa aos poucos
da solidão
final.

(Susana Vargas em Caderno de Outono e Outros Poemas, EDUNISC – Editora da Universidade de Santa Cruz do Sul.)
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SONETO JÁ ANTIGO

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

(Álvaro de Campos, em Poesia Completa de Álvaro de Campos (edição de bolso), Companhia das Letras.)
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MOINHO

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.

(Carlos Drummond de Andrade em As Impurezas do Branco, José Olympio, 1973.)
+ + +

O bastão, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a murcha
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O vermelho espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso esquecimento;
Não saberão jamais que nos fomos.
(Jorge Luis Borges, em Nova Antologia Pessoal, tradução de Maria Julieta Graña e Marly de Oliveira, Editora Sabiá।)
+ + +

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões, que me arrastava;
ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mais eis sucumbe a natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus! oh Deus! quando a morte a luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos.
Saiba morrer o que viver não soube.
(Manuel Maria Du Bocage, em Livro dos Sonetos 1500-1900 (poetas portugueses e brasileiros),organização Sergio Faraco, L&PM Pocket।)
+ + +

E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO

E a morte perderá o seu domínio.
Nus os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.

(Dylan Thomas, tradução de Fernando Guimarães, em http://www.culturapara.art.br/opoema/dylanthomas/dylanthomas.htm)
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MORTE DE CLARICE LISPECTOR

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

(Ferreira Gullar em Toda Poesia, José Olympio Editora.)
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final

Um homem morreu e estão juntando seu sangue
em colherinhas,
querido juan, morreste finalmente.
De nada serviram teus pedaços
molhados em ternura.

Como foi possível
que tu fosses embora por um furinho
e ninguém tenha posto o dedo
para que ficasses?

Deve ter comido toda a raiva do mundo
antes de morrer
e depois ficava triste triste
apoiado em seus ossos.

Já te baixaram, maninho,
a terra está tremendo de ti.
Velemos para ver onde brotam tuas mãos
empurradas por tua raiva imortal.

(Juan Gelman, em Amor que serena, termina?, tradução e seleção de Eric Nepomuceno, Editora Record - edição bilíngue.)
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29.

Meu Deus,
quem terá guardado
as miudezas da velha?

Quem terá se apoderado
do pouco que era dela?

Quem guardou a camisola
de bolinhas azuladas?

Suas agulhas de linhas,
onde estarão espetadas?

Seu dedal, suas rendinhas,
seus panos para remendo?

Onde estarão seus santinhos
e a Bíblia que andava lendo?

E a coleção de caixinhas
umas cheias e outras vazias?

Agora que a velha é noite
quem vai repassar seus dias?

(Luís Pimentel em As Miudezas da Velha, Editora Myrrha.)
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O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...
(Mário Quintana em Poesia Completa, Editora Nova Aguilar।)
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Quando eu morrer quero ficar

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
(Mário de Andrade em Poesias Completas, Editora Itatiaia।)
+ + +

se a morte
é o mote
mato o cobra
e mostro
o pau [lo]

psicografo
um po[l]ema
meio polaco
meio afro

obra póstuma
que late e morde
como o próprio
cachorro louco

[por quem morro]

(Valéria Tarelho)
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lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
(Paulo Leminski em Caprichos e Relaxos, Editora Brasiliense।)
+ + +

para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão
(Paulo Leminski em Caprichos e Relaxos, Editora Brasiliense।)
+ + +

VISITA

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando
(Ferreira Gullar, em Muitas vozes: poemas, José Olympio Editora।)
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2.334

SONETO SUICIDA

O Stephan foi desgosto pela guerra.
Também Santos Dumont foi desalento.
O de Torquato e Péricles lamento,
Mas o de Allende ou Hitler nada encerra.

Razões de Ana Cristina estão na terra.
Jim Jones e outros loucos nem comento.
Mishima foi solene em seu intento.
No de Getúlio o povo é quem se ferra.

Difícil é saber quando é covarde
Ou quando é da coragem o disfarce.
É cedo? É tempestivo? É sempre tarde?

Talvez a eternidade na catarse.
Talvez o fatalismo que me aguarde.
Ninguém derrota a morte sem matar-se.

(Glauco Mattoso em Panacéia, Sonetos Colaterais, Nankin Editorial.)
+ + +

EPITÁFIO

Eu sou redondo, redondo
Redondo, redondo eu sei
Eu sou uma redond'ilha
Das mulheres que beijei

Por falecer do oh! amor
Das mulheres de minh'ilha
Minha caveira rirá ah! ah! ah!
Pensando na redondilha

(Oswald de Andrade em Poesias Reunidas, Editora Civilização Brasileira.)
+ + +

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce lago
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
má fada me encantou e aqui fiquei
à tua espera... quebra-me o encanto
(Florbela Espanca, em Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, Lisboa।)
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PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

(Manuel Bandeira, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira.)
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PLEASE MISTER POSTMAN


©Cesar Cardoso, 2011.
cesarcar@uninet.com.br

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Aqui jaz
PATAVINA’S
revista literária on line e quase mensal

Não perca: em 15 de março,
a segunda edição de
“A Indesejada das Gentes”
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CAIU NA REDE É PÍXEL







(c)oração a São Sebastião

ó glorioso,
sejamos
testemunhas do amor
nossa esperança

defendei os nossos dons
para nosso bem

e defendei-nos do mal
o maior de todos
os pecados

assim se deseja
que(m) seja

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

QUE NÃO SEJA IMORTAL POSTO QUE É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Novos Haicontos de Alice Barreira.

VIDA A UM
Ainda reclama de mim e se acha infeliz. E eu, que nem posso dar uma saidinha, que tenho que ficar comigo 24 horas por dia?

NEM TODO HOMEM É UMA ILHA
Hoje encontrei novas pegadas. Desconfio que Sexta Feira anda me traindo.

ENFIM SÓS
Eu nem me toco.
Ela nem se mete.

RAINHA
Eu aqui feita de costela e ele roendo o meu osso.

NA SAÚDE E NA DOENÇA
Eu disse que fazia tudo, que ele não precisava se preocupar, e fui abraçar. Foram, o quê? Três tiros, eu acho. Sabe que foi comigo mas eu não consigo ter certeza? Agora aqui, nessa cadeira de rodas. Eu sei falar inglês, podiam me aproveitar, não é?

DOCE LAR
Meu avô em cima da cama, só pele e osso, comido pelo câncer, e falando o nome dela sem parar. Minha avó do lado, fingindo que não escutava. O nome da outra.

MEUS CAROS AMIGOS NA MESA 5!

Sai uma crônica estupidamente gelada para quem está de cabeça quente! E não esqueça que nas boas bancas do ramo você encontra a revista Caros Amigos, com esse texto e muito mais. Caros Amigos - nunca do que melhor e melhor do que nunca!

AGENDA 2011

Ano novo: tempo de grandes decisões! Sim, porque não basta abortar o aborto. Temos que descobrir o que um embrião pode comprar, como um feto pode ter seu próprio cartão de crédito e até seu celular intra-uterino, por que não? Vamos sonhar grande, gente! Copa do Mundo e Olimpíada é pouco. Vamos democratizar o maior esporte da humanidade: o genocídio. Impossível? Com garra e perseverança nada é impossível. Que tal uma nova loteria, onde toda semana o feliz sorteado ganhe o direito de matar cem pessoas à sua escolha, hã? E campanhas na internet: “Você também pode matar alguém de fome. Participe, colabore!”

Então, pessoal, temos nas mãos um ano novinho em folha. Vamos lá! Vamos criar bombardeios ecológicos. Isso! Bombas que arrasem os países mas deixem intactas plantas e anglo-saxões. E ofereçam desconto nas emissões de carbono. Já imaginaram? Matar iraquianos e afegãos e ainda despoluir o planeta? É desses exemplos que nossas crianças precisam, para crescer e se tornar cidadãos que lutem pelas melhores tradições de nossa civilização.

E os mortos? Os mortos são muito injustiçados. Só porque alguém morreu não pode mais votar nem comprar nem casar e ter filhos. Está certo isso? Afinal, qual a diferença entre estar vivo ou morto hoje em dia? Você vai dizer que um morto não respira, não se alimenta nem sai andando por aí. Mas com esses engarrafamentos, o ar poluído desse jeito e essas comidas fast-food cheias de glúten e gordura trans, quem é que ainda quer respirar, comer e se locomover? Os mortos é que estão certos. Eles é que são vivos.

Então, pessoal, avisem ao Vaticano, ao Obama e ao G-20 que já temos a agenda para 2011: vamos matar e vamos morrer. Que nem moscas.

AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO

Pier Paolo Pasolini, o genial cineasta italiano morto a pauladas pelos mesmos neo-fascistas que pariram e amamentaram Berlusconi, também era um grande e polêmico escritor. Confira o poema dele.

A UM PAPA

Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.

Pier Paolo Pasolini, em Poemas, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Assírio & Alvim, Portugal.