quinta-feira, 14 de julho de 2011

“NÚNCARAS” – po+es+ia

TÂNIA TOMÉ - A POESIA DE MOÇAMBIQUE NO BRASIL

“Tânia Tomé permite que o mundo escorra por suas pernas como uma semente líquida fundando a sede de um novo tempo”
Floriano Martins

“Moçambique, um dos países africanos de língua portuguesa menos conhecidos entre nós, é terra de excelentes poetas, como José Craveirinha, Reinaldo Ferreira, Glória de Sant'Ana, Noêmia de Sousa, Rui Knopfli, Sebastião Alba, Heliodoro Baptista, Luís Carlos Patraquim e Mia Couto – o único, entre tantos, a ter presença e obra amplamente divulgadas no Brasil.
Agora, o Poesia no SESI, evento promovido pela Firjan através do SESI-RJ, traz ao Brasil a grande revelação de Moçambique em música e literatura neste século XXI: a poetisa, cantora, pianista, declamadora e compositora Tânia Tomé, de 29 anos.”

Assim o evento Poesia no SESI nos apresenta a poeta moçambicana Tânia Tomé. Tânia está no Brasil e se apresentou em dois eventos no Rio de Janeiro, nos jardins da Biblioteca Nacional, junto com vários poetas cariocas num evento que fará parte de um documentário dirigido pelo poeta, jornalista e produtor cultural Claufe Rodrigues, e no Poesia no SESI, no Teatro Sesi, num recital de composições e poemas de sua autoria.
No Brasil, Tânia tem um livro publicado: Agarra-me o Sol por trás, outros escritos e melodias, lançado pela editora Escrituras em 2010, com prefácio de Floriano Martins. Veio agora à América Latina, para participar do Festival de Medellin, na Colômbia e desses dois encontros no Rio.
Em sua terra, Tânia produziu e realizou o primeiro DVD de poesia de Moçambique e criou o movimento Showesia que é um espetáculo de poesia, música e teatro e também uma associação cultural.
Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, aí vão alguns endereços: www.taniatome.com;
www.myspace.com/taniatome; www.showesia.com; www.showesiafestival.com.

E agora, a poesia de Tânia Tomé.

SERMENTE

E se Paul Celan
me entrasse
aqui, no futuro verso
eu seria a flor
tu serias a morte
e não te escreveria
neste desejo
incerto
de morrer-te
como murcha a flor
para ser semente

SE O MEU PESCADOR PESCASSE

Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar...

Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?

E sei que hei de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda forca dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há de nascer
E há de pescar-me no alto
o pescador
Espero

ENCANTAMENTE

Uma confusão de dedos
procurando as mãos
da menina
— Onde estão, mãe,
as minhas asinhas da loucura?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

POESIA TU ÉS O MEU CANTO

Tu és o meu cisne
no urgir das asas.
És o meu ângulo saliente
lírio no tanto que falta
por a vida não ser o bastante.
Poesia,
de pétala em pétala
de silêncio,
canto-te.

ÁFRICA INEXPLORADA

Eu sou a parte de toda África
Ainda inexplorada
Onde batuque
Se auto musica
No orvalho terrestre
Nas águas ainda mudas
Que correm a mutação
Das savanas e das pestes
Eu sou África ainda pura
Que nos seus campos virgens
Ainda adora o sol
E o canta pentatónica
Com a felicidade de existir
Sou África em cada pedaço de mim
E cada pedaço de mim a existir
Mupipi sobrevoando o grão
Urdindo o cântico litúrgico
Da utopia nas sementes
Marrabentando o futuro
Com mesmo sol dendêm
Das acácias e das palancas
Das palmeiras alcançando o céu
Eco ritmando o mistério e o feitiço
Da mãe ventrando a terra una
E da mão carne e alma de mulher
Eu sou a África profunda
Nos montes e ilhas
Que clamam os quatro ventos
Do sonho e dos horizontes
Que nos escorrem pelos dedos
No desacredito dos desertos
E das rochas esquecidas
Sou eu África fecunda
Que te escrevo
No sabor do lirismo que nos une
Na poesia dos povos
Neste exotismo de ânsias
Que nos sonha
Parte da África ainda inexplorada.

UM PIANO, MINHA LOUCURA E EU

Um piano
cogita no silêncio das noites,
arrepia em notas soltas
a desenfreada falésia do desejo.
Ah, estares-me ausente!
Reverbera o saxofone, o teu,
e eu galgando o tempo na lua,
ah amor, cruzo savanas, trópicos e desertos.
E tu comigo, cá dentro, lá fora
amando-me na medida do ritmo
de um jazz cálido e frenético.
Abraço do Índico, o piano
atravessa as fronteiras que nos distam,
recria o sopro do teu sax
no meu corpo.
A boca, as mãos, os teus dentes
no meu lóbulo, o piano
é todo o futuro por vir,
uma pintura quieta como um pomo,
o pêssego que adoça
o som que há no silêncio:

MEU MOÇAMBIQUE

Minha África suburbana.
Eu sei-me Moçambique,
cisterna no pecúlio dos deuses.
Um Zambeze inteiro escala a língua
escorre-me pelas pernas
ramifica nos canhoneiros,
laça os peixes inquietos nas sementes
engolfa-se nos mpipis bêbados nas timbilas.
Eu sei-me Moçambique,
no cume das árvores, na sede incontinente
da minha falange, do Rovuma ao Incomati,
no xigubo terrestre dos pés descalços
e em todos os tambores que surdem
das mãos coloridas nos braços em chaga.


A LÍNGUA NUA DE OSWALDO MARTINS

O poeta Oswaldo Martins Acaba de lançar pela 7Letras um novo livro: Língua Nua, numa parceria com as ilustrações de Elvira Vigna. No prefácio, Júlio Diniz fala dessa parceria:

“A noção de parceria, em particular no campo das artes, tem sofrido constantes modificações. Realizar um projeto que envolve distintas mãos não se resume a uma soma de esforços e busca de complemento. Mais do que isso, a necessária comunhão entre linguagens e estruturas distintas se afirma na suplementaridade de suas diversidades e objetivos.

Há uma tradição de diálogo já firmada entre o livro e as artes plásticas, em especial o desenho e a pintura. São inúmeros os exemplos de clássicos da literatura ocidental ilustrados por artistas consagrados. Mas poderíamos ainda afirmar que traços, figuras e formas apenas ilustram e adornam a obra, a escritura, o corpo textual?

Se tomarmos como exemplo uma das edições de Les fleurs du mal de Baudelaire, primorosamente rasurado pelo delicado traço de Matisse, veremos que há muito não se aplica a esse constructo de artistas conceitos como ilustração e adorno. Matisse relê Baudelaire e reescreve em níveis distintos e suplementares as suas/dele flores do mal.

A constatação exposta acima aplica-se com propriedade ao livro Língua nua, uma bem urdida trama de conceitos, textualidade e imagens poéticas concebida e construída por dois artistas contemporâneos. A parceria entre o poeta Oswaldo Martins e a desenhista Elvira Vigna reafirma a vocação desta obra para a dialogia, a pluralidade e o apagamento de fronteiras rígidas entre diferentes estéticas.”

E concluí: “O resultado final é produto de uma refinada artesania de palavras e imagens. Os traços dos desenhos de Elvira adentram e se confundem no corpo dos poemas de Oswaldo, provocando distintas leituras sobre o lugar do erotismo no espaço dos afetos. Uma parceria em tom maior, sem dúvida.”

A seguir três textos e uma ilustração de Língua Nua.

10

este o abismo da alma o andar medido os anos revoluteiam no corpo revoltos versos estancados em medida o ocaso de um soneto talvez e mais talvez o passo com que meço no espaço o ritmo da mão trêmula e ávido sob este papel em restauração de noites tontas ao som de um religioso bach que alertasse para a dúctil ubiquidade da alvorada preludio com a alma gasta em todas as vírgulas as dobras da vulgata


 
exilada
de meus desejos

crio em mim
homens calcinados

para lembrá-los
da paixão

que nos invejam
os deuses

////

por isso me arrasto
sobre a terra
ganem vitupérios

para ainda provar
o gozo

da desobediência
foi que clamei


A PRÁXIS POÉTICA DE MÁRIO CHAMIE

1. Lavra-Lavra lança e instaura o poema-práxis.
2. Que é o poema-práxis? É o que organiza e monta, esteticamente, uma realidade situada, segundo três condições de ação: a) o ato de compor; b) a área de levantamento da composição; c) o ato de consumir.

Assim começava o Manifesto Poema-Práxis, um posicionamento poético e estético lançado pelo poeta Mário Chamie em 1962, como posfácio de seu livro Lavra-Lavra (Prêmio Jabuti /1962) e em discordância direta com o Concretismo. Dos anos 60 pra cá as vanguardas passaram e foram passadas, Mário continuou poeta e também virou político controverso, sendo secretário de cultura de Paulo Maluf e tendo criado a Pinacoteca Municipal, o Centro Cultural São Paulo e o Museu da Cidade de São Paulo. Na manhã do dia 3 deste mês, um domingo, Mário Chamie morreu em São Paulo, aos 78 anos. “Suas experiências são interessantes como tentativa de manter a tradição do Modernismo, sem renunciar ao espírito de vanguarda”, disse sobre ele e o Movimento Práxis o crítico Antonio Candido. Chamie lançou mais de dez livros de poesia. Então, vamos aos seus versos.

PLANTIO

Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.

O TOLO E O SÁBIO

O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

AUTO-ESTIMA

Sou Chamie,
venho de Damasco.
Franco-egípcio
é o meu passado.
Sírio sou helenizado.

De Damasco
ao meu legado,
sou católico
e islâmico,
copta apostólico
catequizado.

No pórtico
mediterrânico,
sou ático e arábico.
Vou contra o deserto
de desafetos contrários.

Sem custo nem preço
que se meça,
em nome de meu gênio
atlântico e adriático,
desprezo a cabeça
e a sentença
de meus adversários,
adversos e vicários.

Sou Chamie, Mário.
Franco-egípcio
é o meu passado.
Por onde entro,
venho de Damasco
pela porta
do apóstolo Paulo.
Sírio sou helenizado.
Venho de Damasco,
por onde saio.

POR TRÁS DA PALAVRA

Por trás
de toda palavra
há uma trama
cavada.
Só não se cava
nem se sagra
a palavra
enclausurada.

A clausura
da palavra
é a palavra
lacrada;
é a usura
da palavra
que não abre
suas veias
se se envenena
de nada.

Só se salva
a palavra
contaminada
por outra palavra
sangrada:
— pois a palavra
infectada
pelo que outra
desata
é a palavra
que em sua casca
se rasga
contra o nada
da palavra
enclausurada.

Por trás
de toda palavra
que não se perde
lacrada
há a trama envenenada
de toda palavra
tramada.

AVISO AOS NAUFRAGANTES

SAUL STEINBERG: AS AVENTURAS DA LINHA


O Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, está com uma das melhores exposições do ano, da década ou do século, no Brasil, no Ocidente, ou no planeta. Saul Steinberg: as aventuras da linha traz 111 desenhos do artista gráfico romeno, que viveu na Itália e nos EUA. A exposição apresenta obras que Steinberg produziu de 1940 a 1960. Muito conhecido por seus trabalhos na revista norte-americana The New Yorker, Saul Steinberg mostra muito mais nesta exposição. Tem-se uma visão geral da visão tão particular de Steinberg, inclusive com trabalhos que ele fez quando de sua visita ao Brasil para a exposição no MASP, em 1952.

“Steinberg costumava trabalhar um tema ou motivo até esgotá-lo, produzindo longas séries de variações gráficas”, diz a curadora Roberta Saraiva. E a mostra realmente reúne inúmeros cowboys, trens, monumentos fictícios, pássaros, gatos e bichos sem nome, mulheres em casacos de pele, desfiles, desenhos de arquitetura, bombardeios e falsos documentos (passaportes e diplomas com assinaturas ilegíveis, selos e carimbos que Steinberg colecionava). O cara é um gênio e a exposição é simplesmente imperdível. Fica no Rio até 21 de agosto e reabre na Pinacoteca, em Sampa, em 3 de setembro. Ah! E ainda tem um super catálogo com as obras expostas e o livro de memórias de Saul Steinberg, Reflexos e sombras, resultado de conversas e mais conversas do desenhista com seu amigo, o escritor italiano Aldo Buzzi, que depois transcreveu tudo e editou.

O que que você ainda tá fazendo aí? Larga esse computador e vai logo ver essa exposição, PÔ!



ÁFRICA DIVERSA: I ENCONTRO DE CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO RIO

“O projeto ‘África Diversa: I Encontro de Cultura Afro-Brasileira’ traz uma programação que inclui shows, apresentações, oficinas, mini-cursos, contações de histórias, mostra de cinema, livraria, lançamentos de livros, palestras e um seminário; no intuito de mostrar um panorama da diversidade cultural afro-brasileira e africana.
As atividades vão privilegiar em sua abordagem os seguintes temas: a formação de identidades da cultura afro-brasileira, sua diversidade cultural, a relação entre tradição e contemporaneidade, o diálogo África-Brasil e a importância da transmissão oral nestas sociedades.
O primeiro encontro será de 18 a 22 de julho de 2011 e será realizado no Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, com artistas como Naná Vasconcelos (PE), François Moïse Bamba (Burkina Faso), Raíz de Polon (Cabo Verde). No dia 17 de julho, dia anterior à abertura oficial, dois cortejos bastante simbólicos - a Guarda de Moçambique de Nossa Senhora das Mercês e a Guarda de Congo de Nossa Senhora do Rosário da cidade de Oliveira, Minas Gerais - que cantam e dançam uma tradição iniciada antes de 1888, mas que hoje ainda se encontra viva e em constante movimento, farão cortejos pela cidade do Rio de Janeiro. Em Copacabana, estes grupos vão encontrar o mar, cantando e louvando as tradições de Nossa Senhora do Rosário, surgida das águas. Já na Praça XV, local da assinatura da lei que libertou os escravos, os tambores, gungas e patangomes - instrumentos utilizados pelos Congadeiros - vão mostrar a força da cultura negra.
Dentro da programação do "África Diversa", criamos um Seminário que inclui duas mesas, três mini-cursos e oito oficinas para a formação de 120 educadores, com a participação de nomes como Alberto da Costa e Silva, Nei Lopes, Emanoel Araújo. Esta ação vai colaborar na demanda da abordagem de questões ligadas à cultura afro-brasileira em sala de aula, trazendo novas questões, olhares e reflexões sobre essa temática no Brasil e na África, rememorando a nós, brasileiros, quem somos e os diversos caminhos, experiências e realidades que encontramos do lado de lá e de cá do Atlântico.”

Daniele Ramalho / Curadoria

E pra quem quiser mais informações: www.africadiversa.com.br .

“...VEM SURGINDO DE TRÁS DAS MONTANHAS AZUIS, OLHA O TREM!”

O Trem é “o jornal de Itabira que o Brasil lê e admira”. E sua nova edição traz: uma entrevista exclusiva com Cacá Diegues. Um texto poético de Altivo, irmão de Carlos Drummond de Andrade. Olavo Pimenta e a boina que ganhou de Fidel Castro, em Havana. Povo de Mariana indignado com a empresa Vale, que quer reativar uma mina na cidade. Guido Bilharinho preocupado com a sujeira espacial. E muito mais.

A assinatura anual custa 60 reais. Para assinar: 31 3835-1329 ou otremitabirano@yahoo.com.br. E os Assinantes em todo o Brasil recebem pelo Correio. Fora do país, em PDF.

GERMINA AINDA GERMINA

Já está no ar o novo número de Germina, a revista eletrônica germinada por Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Vale a pena conferir em www.germinaliteratura.com.br. E eu reproduzo aqui o recado das editoras.

“Amigos, leitores e colaboradores: a Germina vai parar por um ano. Podemos voltar em julho de 2012. Ou não. Nesse período a revista continua no ar e o blogue será atualizado semanalmente. Talvez aconteçam edições extraordinárias. A gente entra em contato. E agradece a atenção e a preferência de vocês.

Um abraço,
Mariza Lourenço & Silvana Guimarães
Editoras”

Vão deixar saudades, minhas queridas amigas.

PRÓXIMA ESTAÇÃO: LETRAS

A Estação das Letras, no Rio, continua apostando na literatura. Vejam aí alguns de seus próximos eventos.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS – curso que propõe uma leitura integral do livro de Lewis Carroll, que continua polêmico por sua insolência, lógica e independência. O livro será comentado e estudado passo a passo pela poeta e ensaísta Suzana Vargas e pela psicanalista e educadora Maria Helena Lemgruber. De 18 a 21 de julho, das 18:20 às 20:20 hs.
LABORATÓRIO DE VIVÊNCIA LITERÁRIA - acontece no dia 16, das 10h às 16h, com o escritor Luiz Ruffato, fazendo uma reflexão sobre o ato de escrever.
MERGULHO DA ESCRITA - do dia 18 ao dia 22 de julho, das 18h às 20h, Silvia Carvão propõe exercícios para ajudar a desbloquear a espontaneidade ao redigir.
RODAS DE LEITURA - (Na Fundação Biblioteca Nacional - Auditório Machado de Assis - Rua México s/nº. Sempre a partir das 18h.)
11 de julho - James Joyce - Estética da vanguarda ficcional: introdução a Ulisses por Léo Schlafman.
8 de agosto - Reinaldo Moraes - Leitura de Pornopopéia: do gozo ao risco, do risco ao riso.
LIVROS NA MESA - encontro informal em que a troca de livros e de idéias é a tônica. Após as trocas, começa o encontro de leitura com escritores ou pesquisadores e personalidades do mundo dos livros.
Em 30 de julho, às 14h30 - Troca de livros; e das 15h às 16h30 Encontro de Leitura: Em busca do tempo de Proust, com Auterives Maciel.

Para a programação de cursos do semestre clique aqui. A programação completa está no www.estacaodasletras.com.br. Informações pelo telefone (21) 3237-3947.

RINHA DE GALINHA

     Por Don King - nosso correspondente na Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais


Mais um duelo de titãs. E dessa vez é um duelo-ménage, de três. Wallll! No corner da direita, Rodrigues Lobo (1579-1621), o Demolidor de Lisboa, que foi considerado um dos maiores discípulos de Camões e um mestre do Barroco na literatura portuguesa. No soneto Fermoso Tejo Meu ele canta o rio de sua aldeia, que o engoliria anos depois num naufrágio. No corner da esquerda, Gregório de Mattos (1636-1695), O Boca Maldita, que não liga pra morte de Rodrigues Lobo e conversa com ele em Triste Bahia, cantando a terra que também o engoliria. E no terceiro corner do rio, surge, séculos mais tarde, Caetano Veloso cantando Gregório. Cantará um dia Rodrigues Lobo? Ninguém sabe e o pau come na casa de Noca. Holly shit!

Fermoso Tejo meu, quão diferente

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

Rodrigues Lobo

Triste Bahia

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Gregório de Mattos


 
Triste Bahia, poema de Gregório de Mattos musicado por Caetano Veloso. (Fonte: You Tube).

PREPARE O SEU ORELHÃO PRAS COISAS QUE EU CANTAR

Duas divas da canção: Billie Holiday e Elza Soares.
Duas mulheres negras que sofreram na pele.
E cantam, com suas dores e alegrias nas vozes.
E como cantam!
Fazem bem demais.
(E Elza faz com o auxílio luxuoso de Chico Buarque.)






Os cidadãos no Japão fazem
Lá na China um bilhão fazem
Façamos, vamos amar
Os espanhóis, os lapões fazem
Lituanos e letões fazem
Façamos, vamos amar
Os alemães em Berlim fazem
E também lá em Bonn
Em Bombaim fazem
Os hindus acham bom
Nisseis, níqueis e sanseis fazem
Lá em São Francisco muitos gays fazem
Façamos, vamos amar
Os rouxinóis nos saraus fazem
Picantes pica-paus fazem
Façamos, vamos amar
Uirapurus no Pará fazem
Tico-ticos no fubá fazem
Façamos, vamos amar
Chinfrins, galinhas afim fazem
E jamais dizem não
Corujas sim fazem, sábias como elas são
Muitos perus todos nus fazem
Gaviões, pavões e urubus fazem
Façamos, vamos amar
Dourados no Solimões fazem
Camarões em Camarões fazem
Façamos, vamos amar
Piranhas só por fazer fazem
Namorados por prazer fazem
Façamos, vamos amar
Peixes elétricos bem fazem
Entre beijos e choques
Cações também fazem
Sem falar nos hadoques
Salmões no sal, em geral, fazem
Bacalhaus no mar em
Portugal fazem
Façamos, vamos amar
Libélulas em bambus fazem
Centopéias sem tabus fazem
Façamos, vamos amar
Os louva-deuses com fé fazem
Dizem que bichos de pé fazem
Façamos, vamos amar
As taturanas também fazem
com um ardor incomum
Grilos meu bem fazem
E sem grilo nenhum
Com seus ferrões os zangões fazem
Pulgas em calcinhas e calções fazem
Façamos, vamos amar
Tamanduás e tatus fazem
Corajosos cangurus fazem
Façamos, vamos amar
Coelhos só e tão só fazem
Macaquinhos no cipó fazem
Façamos, vamos amar
Gatinhas com seus gatões fazem
Tantos gritos de ais
Os garanhões fazem
Esses fazem demais
Leões ao léu, sob o céu, fazem
Ursos lambuzando-se no mel fazem
Façamos, vamos amar
Façamos, vamos amar


Let’s Do It (Let’s Fall In Love), de Cole Porter e a versão brasileira que não é Herbert Richers e sim Carlos Rennó: Façamos: Vamos Amar.

Vídeos importados from I Tube, You Tube, He, She, It Tubes.

THAT’S ALL, FOLKS!

Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes. Num ou noutro trecho sinuoso, sinto que a escorregadia personagem central me escapa, mergulhando em águas profundas e tenebrosas demais para que eu tenha a coragem de persegui-la. Camuflei o que pude para não ferir ninguém. E ponderei muitos pseudônimos para mim mesmo antes de descobrir o que era particularmente apropriado. Encontro em minhas anotações “Otto Otto”, “Mesmer Mesmer” e “Lambert Lambert”, mas, por alguma razão, creio que minha escolha é a que melhor exprime a sordidez.


Quando, há cinquenta e seis dias, comecei a escrever Lolita, inicialmente sob observação na enfermaria psiquiátrica, e depois nessa cela bem aquecida, conquanto sepulcral, pensei usar essas anotações in totum durante o julgamento, evidentemente não tanto para salvar minha pele, mas sim minha alma. A meio caminho, contudo, dei-me conta de que não podia exibir Lolita enquanto ela estivesse viva. Talvez ainda use partes dessas memórias em sessões a portas fechadas, mas sua publicação tem de ser adiada.


Por motivos que podem parecer mais óbvios do que realmente o são, sou contrário à pena de morte; espero que tal atitude seja compartilhada pelo juiz que proferirá minha sentença. Estivesse eu no seu lugar, condenaria Humbert a pelo menos trinta e cinco anos de prisão por estupro, ignorando todas as demais acusações. Mas, mesmo que isso ocorra, Dolly Schiller provavelmente sobreviverá a mim por muitos anos. A declaração que faço a seguir equivale formalmente a um testamento assinado: é minha vontade que essas memórias só sejam publicadas quando Lolita já não estiver viva.


Portanto, nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue ainda pulsa nesta mão com que escrevo, você faz parte, como eu, da bendita matéria universal, e daqui posso te alcançar nas lonjuras do Alasca. Seja fiel a teu Dick. Não deixe que nenhum outro homem te toque. Não fale com estranhos. Espero que você ame teu bebê. Espero que seja um menino. Esse teu marido, assim espero, sempre te tratará bem, porque, se não, meu fantasma o atacará como uma nuvem de negra fumaça, como um gigante insano, e o destroçará nervo por nervo. E não tenha pena do C.Q. Era preciso escolher entre ele e o H.H., e era desejável que H.H. existisse pelo menos alguns meses a mais a fim de que você pudesse viver para sempre nas mentes das futuras gerações. Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.


Páginas finais de Lolita, de Vladimir Nabokov. Tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras.



                                                       Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br


©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CAIU NA REDE É PIXEL

?QUANTA DOR ME LEVA A DEUS
?QUANTO DEUS ME LEVA À DOR

quinta-feira, 9 de junho de 2011

RINHA DE GALINHA

Por Don King - nosso correspondente na Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais

Waall, peguem logo as fichas, o uísque e façam suas apostas: o duelo dos desvairados vai começar. Neste corner, Haia Phinkasovna, a Louca da Ucrânia, dona do uppercut mais introspectivo da língua portuguesa e também conhecida como Clarice Lispector. No outro, o Máscara, o Falsário de Lisboa, o homem das mil personas, Fernando Pessoa. Não vale golpe baixo na alma. E o pau come na House de Noca. Holly shit!


Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?
E porque não tenho uma palavra a dizer.
Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as informações são terrivelmente incompletas.
Sinto que uma primeira liberdade está pouco a pouco me tomando... Pois nunca até hoje temi tão pouco a falta de bom-gosto: escrevi “vagalhões de mudez”, o que antes eu não diria porque sempre respeitei a beleza e a sua moderação intrínseca. Disse “vagalhões de mudez”, meu coração se inclina humilde, e eu aceito. Terei enfim perdido todo um sistema de bom-gosto? Mas será este o meu ganho único? Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me agora mais livre somente por não recear mais a falta de estética... Ainda não pressinto o que mais terei ganho. Aos poucos , quem sabe, irei percebendo. Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é de uma tal bondade. É uma doçura.
Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei. Por enquanto não sei: só ao me reviver é que vou viver.
Mas como me reviver? Se não tenho uma palavra natural a dizer. Terei que fazer a palavra como se fosse criar o que me aconteceu?
Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo – traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse acordada não seria linguagem.

(Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH.)


AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


DIZEM QUE FINJO OU MINTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!

(Fernando Pessoa)

LHUFAS - coisa com coisa nenhuma

MC BANDEIRA E O RAP DA PARADA DE LUCAS

MC Bandeira nasceu no Recife, com o nome de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Veio pro Rio aos nove anos, indo morar na comunidade de Nova Brasília. Lá conheceu os rappers MV João CabraL, Oswald Science e Chico Drummond, com quem funda o grupo Semana de 22. O nome lembra o massacre de 22 de setembro de 2003, na Favela de Itabira, quando 22 pessoas foram assassinadas por mascarados suspeitos de serem policiais, fato que não ficou comprovado pois até hoje o julgamento dos envolvidos continua sendo adiado.

O primeiro sucesso do grupo foi “Mano, Vamu Nessa pra Pasargada”, em 2006. Mas MC Bandeira foi acusado de apologia às drogas e condenado a seis anos de prisão. Agora, em liberdade condicional, ele volta a se juntar com MV João Cabral, Oswald Science e Chico Drummond e juntos lançam o cd “Educação Pela Pedrada no Meio do Caminho”, que mal chegou às ruas e já ganhou uma ordem judicial proibindo sua execução por “conter apologias a contravenções penais variadas”. Em primeira mão, a letra do rap Parada de Lucas, já que por enquanto a proibição não inclui as letras.

O RAP DA PARADA DE LUCAS

parada de lucas

o trem não parou o trem não parou o trem não parou

ah se o trem parasse

ah se o trem parasse

ah

dois seios intactos dois seios no mangue

dois seios escuros dois seios defuntos

ah se o trem parasse ah se o trem parasse ah

parada de lucas

e o trem não parou

parada de lucas

que parada é essa irmão?

que parada é essa irmão?

que parada é essa?

ah

é o crime na noite

é o crime no mangue

é o crime no nada

parada de lucas

e o trem espantoso

que o crime engoliu

que o crime engoliu

que o crime engoliu

ah

PREPARE O SEU ORELHÃO PRAS COISAS QUE EU CANTAR

LIRINHA

Neto de Patativa do Assaré, filho de Bob Dylan, irmão caçula de Chico Science, Lirinha, ou José Paes de Lira, é músico , compositor e escritor e um dos criadores do projeto Cordel do Fogo Encantado, que durou de 1997 até 2010. Nesses vídeos, algumas criações deste cantador cibernético, tangendo sua guitarra debaixo do maracatu atômico.