sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PATAVININHA’S

– O PLAYGROUND DO PATAVINA’S –

DO ALTO DO MEU CHAPÉU

Do Alto do Meu Chapéu é um livro simplesmente fascinante. É um livro de poemas infantis muito bem escritos pela carioca Gláucia de Souza. Gláucia tem outros livros publicados, é doutora em Letras, trabalha como professora. Ou seja: mais do ramo, impossível. E realmente seus poemas em Do Alto do Meu Chapéu são gostosos de ler. Mas Gláucia é sobretudo corajosa. Pois sabem quem ilustra seu livro? O Hans. Qual Hans? O Hans Christian Andersen. É isso mesmo, não estou brincando não. O diabo do dinamarquês, além de escrever do jeito que escrevia, ainda fazia recortes em papel. Gláucia explica na apresentação do livro: “Como forma de entreter amigos grandes e pequenos, inclusive enquanto contava histórias, o escritor recortava e criava figuras ricas em detalhes: um mundo de fadas, duendes, pierrôs, aves, bailarinas, compondo um universo fantástico e simétrico. Ao final da história, desdobrava os papéis recortados para seus ouvintes atentos.” Pois é este mundo de fadas, duendes, pierrôs, etc que ilustram os textos de Gláucia. Não preciso dizer que são trabalhos de uma delicadeza e de uma beleza emocionantes. Tudo isso junto faz de Do Alto do Meu Chapéu uma pequena obra-prima que vale a pena conhecer, ter em casa pra reler e rever de vez em quando e dar de presente pra criançada.

(Do Alto do Meu Chapéu, poemas de Gláucia de Souza, com ilustrações de Hans Christian Andersen. Projeto Editora.)


DO ALTO DO MEU CHAPÉU

Do alto do meu chapéu,
vejo um moinho de ideias:
um castelo de bailarinas,
anjos de asas meninas
e um cisne jardineiro,
brotado ao pé do canteiro.

Do alto do meu chapéu,
me espanto com quase nada:
mil degraus em pouca escada,
um punhedo de rimas
e um poema quase inteiro,
nascido ao sol de janeiro.





















BORBOLETA

Borboleta, me traz um dia
de presente?
Pula e dança
na minha frente?
Faz nuvem torta
ter cara de gente?
Ou cara triste
ser contente?

Borboleta, sem nem mais,
me ensina:
a ter cara de menina?
a gritar que nem buzina?
a catar vento em esquina?

Mas se não der...
Borboleta, me faz...
Ah! Me faz ser...
... bailarina!


IMPRESSÕES DIGITAIS

O escritor Bartolomeu Campos Queiroz e algumas instituições criaram o Movimento Brasil Literário (www.brasilliterario.org.br), que eu estou conhecendo. Me inscrevi e recebi o e-mail que publico abaixo. Seguem também um texto onde os criadores do Movimento Brasil Literário se apresentam e o manifesto do grupo. É literatura na veia, que se não for poética, pode vir a ser.

Belo Horizonte, 09 de agosto de 2011

CESAR CARDOSO,

Hoje, me vi pensando como seria viver em um país de leitores literários. Pode ser apenas um sonho, mas estaríamos em um lugar em que a tolerância seria melhor exercida. Praticar a tolerância é abrigar, com respeito, as divergências, atitude só viável quando estamos em liberdade. Desconfio que, com tolerância, conviver com as diferenças torna-se em encantamento. A escrita literária se configura quando o escritor rompe com o cotidiano da linguagem e deixa vir à tona toda sua diferença . e sem preconceitos. São antigas as questões que nos afligem: é o medo da morte, do abandono, da perda, do desencontro, da solidão, desejo de amar e ser amado. E, nas pausas estabelecidas entre essas nossas faltas, carregamos grande vocação para a felicidade. O texto literário não nasce desacompanhado destes incômodos que suportamos vida afora. Mas temos o desejo de tratá-los com a elegância que a dignidade da consciência nos confere.

A leitura literária, a mim me parece, promove em nós um desejo delicado de ver democratizada a razão. Passamos a escutar e compreender que o singular de cada um - homens e mulheres - é que determina sua forma de relação. Todo sujeito guarda bem dentro de si um outro mundo possível. Pela leitura literária esse anseio ganha corpo. É com esse universo secreto que a palavra literária quer travar a sua conversa. O texto literário nos chega sempre vestido de novas vestes para inaugurar este diálogo, e, ainda que sobre truncadas escolhas, também com muitas aberturas para diversas reflexões. E tudo a literatura realiza, de maneira intransferível, e segundo a experiência pessoal de cada leitor. Isto se faz claro quando diante de um texto nos confidenciamos: "ele falou antes de mim", ou "ele adivinhou o que eu queria dizer".

O texto literário não ignora a metáfora. Reconhece sua força e possibilidade de acolher as diferenças. As metáforas tanto velam o que o autor tem a dizer como revelam os leitores diante de si mesmo. Duas faces tem, pois, a palavra literária e são elas que permitem ao leitor uma escolha. No texto literário autor e leitor se somam e uma terceira obra, que jamais será editada, se manifesta. A literatura, por dar a voz ao leitor, concorre para a sua autonomia. Outorga-lhe o direito de escolher o seu próprio destino. Por ser assim, a leitura literária cria uma relação de delicadeza entre homens e mulheres.

Uma sociedade delicada luta pela igualdade dos direitos, repudia as injustiças, despreza os privilégios, rejeita a corrupção, confirma a liberdade como um direito que nascemos com ele. Para tanto, a literatura propõe novos discernimentos, opções mais críticas, alternativas criativas e confia no nosso poder de reinvenção. Pela leitura conferimos que a criatividade é inerente a todos nós. Pela leitura literária nos descobrimos capazes também de sonhar com outras realidades. Daí, compreender, com lucidez, que a metáfora, tão recorrente nos textos literários, é também uma figura política.

Quando pensamos em um Brasil Literário é por reconhecer o poder da literatura e sua função sensibilizadora e alteradora. Mas é preciso tomar cuidados. Numa sociedade consumista e sedutora, muitos são leitores para consumo externo. Lêem para garantir o poder, fazem da leitura um objeto de sedução. É preciso pensar o Brasil Literário com aquele leitor capaz de abrir-se para que a palavra literária se torne encarnada e que passe primeiro pelo consumo interno para, só depois, tornar-se ação.

O Brasil Literário pode, em princípio, parecer uma utopia, mas por que não buscar realizá-la?

Com meu abraço, sempre, Bartolomeu

#

Este website nasceu da vontade do Instituto C&A, da Associação Casa Azul – organizadora da FLIP -, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), do Instituto Ecofuturo e do Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) de juntar esforços e experiências para incentivar a criação de um Movimento por um Brasil literário. Um movimento não passa a existir de repente, nem se baseia em uma ideia inédita. Ele é feito de pessoas e organizações, com propósitos e desejos semelhantes, experiências e anseios complementares, mas comporta a diversidade, o que o enriquece. Ele organiza e sistematiza ações e pensamentos para um determinado objetivo, a fim de causar um impacto na busca por esse propósito. É fruto de uma mobilização. Por essas características, este espaço é também dinâmico, como é um movimento. Vai crescendo conforme o movimento ganha corpo, participantes, embasamento e direção. Vai se transformando de acordo com as ações que se realizam e – principalmente -, dependerá do engajamento de seus integrantes. É neste website que as instituições proponentes esperam que cada vez mais gente possa opinar, comentar e informar sobre o tema da leitura literária. É aqui, também, que nos comprometemos com esta causa. Os conceitos que fundamentam este movimento estão no Manifesto por um Brasil literário.

#

O Instituto C&A, se somando às proposições da Associação Casa Azul . organizadora da Festa Literária Internacional de Paraty -, à Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, ao Instituto Ecofuturo e ao Centro de Cultura Luiz Freire, manifesta sua intenção de concorrer para fazer do País uma sociedade leitora. Reconhecendo o êxito já conferido, nacional e internacionalmente à FLIP, o projeto busca estender às comunidades, atividades mobilizadoras que promovam o exercício da leitura literária.

Reconhecemos como princípio o direito de todos de participarem da produção também literária. No mundo atual, considera-se a alfabetização como um bem e um direito. Isto se deve ao fato de que com a industrialização as profissões exigem que o trabalhador saiba ler. No passado, os ofícios e ocupações eram transmitidos de pai para filho, sem interferência da escola.

Alfabetizar-se, saber ler e escrever tornaram-se hoje condições imprescindíveis à profissionalização e ao emprego. A escola é um espaço necessário para instrumentalizar o sujeito e facilitar seu ingresso no trabalho. Mas pelo avanço das ciências humanas compreende-se como inerente aos homens e mulheres a necessidade de manifestar e dar corpo às suas capacidades inventivas.

Por outro lado, existe um uso não tão pragmático de escrita e leitura. Numa época em que a oralidade perdeu, em parte, sua força, já não nos postamos diante de narrativas que falavam através da ficção de conteúdos sapienciais, éticos, imaginativos.

É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude.

É o que a literatura oferece e abre a todo aquele que deseja entregar-se à fantasia. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar, romper o limite do provável. Sua fundação reflexiva possibilita ao leitor dobrar-se sobre si mesmo e estabelecer uma prosa entre o real e o idealizado.

A leitura literária é um direito de todos e que ainda não está escrito. O sujeito anseia por conhecimentos e possui a necessidade de estender suas intuições criadoras aos espaços em que convive. Compreendendo a literatura como capaz de abrir um diálogo subjetivo entre o leitor e a obra, entre o vivido e o sonhado, entre o conhecido e o ainda por conhecer; considerando que este diálogo das diferenças . inerente à literatura . nos confirma como redes de relações; reconhecendo que a maleabilidade do pensamento concorre para a construção de novos desafios para a sociedade; afirmando que a literatura, pela sua configuração, acolhe a todos e concorre para o exercício de um pensamento crítico, ágil e inventivo; compreendendo que a metáfora literária abriga as experiências do leitor e não ignora suas singularidades, que as instituições em pauta confirmam como essencial para o País a concretização de tal projeto.

Outorgando a si mesmo o privilégio de idealizar outro cotidiano em liberdade, e movido pela intimidade maior de sua fantasia, um conhecimento mais amplo e diverso do mundo ganha corpo, e se instala no desejo dos homens e mulheres promovendo os indivíduos a sujeitos e responsáveis pela sua própria humanidade. De consumidores passa-se a investidores na artesania do mundo. Por ser assim, persegue-se uma sociedade em que a qualidade da existência humana é buscada como um bem inalienável.

Liberdade, espontaneidade, afetividade e fantasia são elementos que fundam a infância. Tais substâncias são também pertinentes à construção literária. Daí, a literatura ser próxima da criança. Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos . que inauguram a vida . como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido é indispensável a presença da literatura em todos os espaços por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora. O apoio de todos que assim compreendem a função literária, a proposição é indispensável. Se é um projeto literário é também uma ação política por sonhar um País mais digno.

THAT’S ALL, FOLKS!

Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes. Num ou noutro trecho sinuoso, sinto que a escorregadia personagem central me escapa, mergulhando em águas profundas e tenebrosas demais para que eu tenha a coragem de persegui-la. Camuflei o que pude para não ferir ninguém. E ponderei muitos pseudônimos para mim mesmo antes de descobrir o que era particularmente apropriado. Encontro em minhas anotações “Otto Otto”, “Mesmer Mesmer” e “Lambert Lambert”, mas, por alguma razão, creio que minha escolha é a que melhor exprime a sordidez.

Quando, há cinquenta e seis dias, comecei a escrever Lolita, inicialmente sob observação na enfermaria psiquiátrica, e depois nessa cela bem aquecida, conquanto sepulcral, pensei usar essas anotações in totum durante o julgamento, evidentemente não tanto para salvar minha pele, mas sim minha alma. A meio caminho, contudo, dei-me conta de que não podia exibir Lolita enquanto ela estivesse viva. Talvez ainda use partes dessas memórias em sessões a portas fechadas, mas sua publicação tem de ser adiada.

Por motivos que podem parecer mais óbvios do que realmente o são, sou contrário à pena de morte; espero que tal atitude seja compartilhada pelo juiz que proferirá minha sentença. Estivesse eu no seu lugar, condenaria Humbert a pelo menos trinta e cinco anos de prisão por estupro, ignorando todas as demais acusações. Mas, mesmo que isso ocorra, Dolly Schiller provavelmente sobreviverá a mim por muitos anos. A declaração que faço a seguir equivale formalmente a um testamento assinado: é minha vontade que essas memórias só sejam publicadas quando Lolita já não estiver viva.

Portanto, nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue ainda pulsa nesta mão com que escrevo, você faz parte, como eu, da bendita matéria universal, e daqui posso te alcançar nas lonjuras do Alasca. Seja fiel a teu Dick. Não deixe que nenhum outro homem te toque. Não fale com estranhos. Espero que você ame teu bebê. Espero que seja um menino. Esse teu marido, assim espero, sempre te tratará bem, porque, se não, meu fantasma o atacará como uma nuvem de negra fumaça, como um gigante insano, e o destroçará nervo por nervo. E não tenha pena do C.Q. Era preciso escolher entre ele e o H.H., e era desejável que H.H. existisse pelo menos alguns meses a mais a fim de que você pudesse viver para sempre nas mentes das futuras gerações. Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.

Páginas finais de Lolita, de Vladimir Nabokov. Tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras.




                                                      Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.



sexta-feira, 15 de julho de 2011

CAIU NA REDE É PIXEL

MEUS OITO ANOS

o tempo entranhado no susto das unhas
jantamos com o bicho papão

na biblioteca da dor
o sino ressoa sem bater

pelas frestas das camas
embaixo do assoalho

atrás do olho esquerdo
caspa na lágrima que escapa

entre dedos e lembranças entre-tantos
renasce a cica triz na pele insone

grito frio de montanha russa
pesadelo e acordeon

cesar cardoso

IMPRESSÕES DIGITAIS

"LONGO TRECHO EM DECLIVE" DE A CHAVE DE CASA,
DE TATIANA SALEM LEVY

O livro de tatiana salem levy (boto em minúscula como ela botou na capa do livro) pega a(s) memória(s) de uma neta de judeus turcos, nascida em Lisboa, da mesma forma que a autora, e transforma numa história que agarra o leitor o leva em meio a uma montanha russa de emoções até... Até onde? Até onde nos leva a literatura? Vale a pena ler e descobrir. Ah, a chave de casa ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2008 como melhor livro de autor estreante. E é um lançamento da Editora Record.

Você não pode partir. [Por quê?] Porque não quero, não deixo, porque não é justo. Poderia argumentar que sou muito nova para perdê-la, que você é muito nova para partir. Que não sei caminhar sem um pouco do seu cheiro a me acompanhar, sem suas palavras doces e ternas a me acalentar. Que ainda não estou preparada para caminhar sozinha, que preciso de um pouco mais de tempo. Que preciso de muito tempo. De todo o tempo. Poderia argumentar que há ainda muitas coisas que não fizemos juntas. Que quando estiver triste não terei colo quente para me receber. Que quando tiver medo não poderei me esconder atrás da sua saia. Que não terei a quem dizer que te amo infinitas vezes, sem medo algum, sem receio. Porque só o nosso amor não tem medo. Poderia argumentar que há coisas que nunca lhe disse, coisas que quero dizer. Que você também deve ter histórias para me contar. Que quero você a meu lado para ouvir as aventuras que ainda viverei. Que quero você a meu lado quando eu publicar o meu primeiro livro. Que quero você a meu lado quando eu conhecer o meu príncipe encantado e com ele decidir que o amor é eterno. Que quero você a meu lado quando nascer o meu primeiro filho, e também o segundo e o terceiro. Poderia argumentar isso e mais, porque é infinito o meu desejo de que você fique. Da mesma maneira, sei que há argumentos para a sua partida, que a vida é assim, ela acaba, a morte sempre vem, cedo ou tarde. Mas recuso os argumentos que não venham de mim mesma. E é por isso que grito, esperneio: não parta! Não é justo! E é por isso que berro enquanto espanco o seu caixão de madeira polida: tirem a minha mãe daí! Lanço as mãos ao ar como os que não têm razão, como os únicos que têm razão, e repito: abram o caixão! Mas estão todos sem jeito e envergonhados: coitadinha dela, era tão próxima da mãe. Eles sentem pena mas não me ouvem. É um dia quente de sol, como não devem ser os dias em que partem pessoas queridas. Eles descem o caixão e com largas pás cavam a terra. Não há flores, elas não são permitidas. Há pedras. Eles cobrem o caixão com a terra, deixam você lá dentro, sozinha, e eu aqui fora, sozinha. Paro de gritar, mas me recobro da certeza de estar assistindo a uma grande injustiça, talvez a pior de todas. E penso que se você estivesse aqui tudo seria diferente, que se estivesse aqui certamente me ouviria, abriria o caixão e se tiraria de lá, você se levantaria e viria na minha direção, pegaria nos meus braços e me diria que não há porque sofrer. Se você estivesse aqui certamente secaria minhas lágrimas que caem agora, enquanto lhe dirijo a palavra e você não me escuta, você já não pode me escutar.


POR QUE ESCREVO?

Eu havia caído numa estrada sem volta. Até o dia da minha morte, podia ou não encontrar o sucesso de público, a fama, o dinheiro. Podia ou não ser adorado por multidões de leitores. Podia ou não ser entendido por meia dúzia de especialistas. Qualquer escolha profissional traz esses riscos, e você só fica seguro de que escolheu a carreira certa quando chega à conclusão de que mesmo que dê tudo errado terá valido a pena. De que o fracasso na tentativa ainda é motivo de orgulho, enquanto que ter passado a vida sem tentar seria uma humilhação insuportável, como se você fosse ridicularizado pelo seu próprio destino.

Personagem Pedro, em O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda (CosacNaify).


NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

“Ei, maninho, mais três vômitos quentinhos saindo do forno onde me torro. Publica aí.”

Ela pediu, o público aplaudiu e aí vão: novos haicontos de minha irmã, Alice Barreira.

JOVEM GUARDA

Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você.
Te tranco num quarto escuro. Arranco teus pelos à pinça. E as tuas unhas, uma a uma. Volto até a fumar, só pra tatuar meu nome na tua virilha, com a brasa do cigarro. Só de pensar, já fico aceso.
Quero ver você fazer manha então.

VOVÓ E OS RATOS

No dia de sua morte, minha avó acordou, tomou seu banho e o café da manhã, como sempre fazia. Mas, ao se levantar da mesa, foi direto para o quarto e de lá começou a esbravejar com os ratos que andavam pelo teto, entravam em seu armário, roíam suas roupas, os retratos da família e alcançavam até a fiação.
Durante todo o dia ela gritou até ficar rouca, mas os ratos riam e riam, pois sabiam que ela já estava morta e que eles nem existiam.

VIDA DE ARTISTA

- Próximo - chamou o descobridor de talentos.
Ele se aproximou: - eu sei tocar a Marselhesa peidando.
O descobridor de talentos acenou com a cabeça e ele peidou toda a Marselhesa. Muitos na fila manifestaram uma surda admiração.
- O que mais você faz? – perguntou o descobridor.
- Eu sei cinco idiomas. Inglês, francês, espanhol, russo e japonês.
- Peidando?
- Não, não. Eu falo esses cinco idiomas.
- E a quem pode interessar isso? Próximo.

Alice Barreira

quinta-feira, 14 de julho de 2011

“NÚNCARAS” – po+es+ia

TÂNIA TOMÉ - A POESIA DE MOÇAMBIQUE NO BRASIL

“Tânia Tomé permite que o mundo escorra por suas pernas como uma semente líquida fundando a sede de um novo tempo”
Floriano Martins

“Moçambique, um dos países africanos de língua portuguesa menos conhecidos entre nós, é terra de excelentes poetas, como José Craveirinha, Reinaldo Ferreira, Glória de Sant'Ana, Noêmia de Sousa, Rui Knopfli, Sebastião Alba, Heliodoro Baptista, Luís Carlos Patraquim e Mia Couto – o único, entre tantos, a ter presença e obra amplamente divulgadas no Brasil.
Agora, o Poesia no SESI, evento promovido pela Firjan através do SESI-RJ, traz ao Brasil a grande revelação de Moçambique em música e literatura neste século XXI: a poetisa, cantora, pianista, declamadora e compositora Tânia Tomé, de 29 anos.”

Assim o evento Poesia no SESI nos apresenta a poeta moçambicana Tânia Tomé. Tânia está no Brasil e se apresentou em dois eventos no Rio de Janeiro, nos jardins da Biblioteca Nacional, junto com vários poetas cariocas num evento que fará parte de um documentário dirigido pelo poeta, jornalista e produtor cultural Claufe Rodrigues, e no Poesia no SESI, no Teatro Sesi, num recital de composições e poemas de sua autoria.
No Brasil, Tânia tem um livro publicado: Agarra-me o Sol por trás, outros escritos e melodias, lançado pela editora Escrituras em 2010, com prefácio de Floriano Martins. Veio agora à América Latina, para participar do Festival de Medellin, na Colômbia e desses dois encontros no Rio.
Em sua terra, Tânia produziu e realizou o primeiro DVD de poesia de Moçambique e criou o movimento Showesia que é um espetáculo de poesia, música e teatro e também uma associação cultural.
Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho, aí vão alguns endereços: www.taniatome.com;
www.myspace.com/taniatome; www.showesia.com; www.showesiafestival.com.

E agora, a poesia de Tânia Tomé.

SERMENTE

E se Paul Celan
me entrasse
aqui, no futuro verso
eu seria a flor
tu serias a morte
e não te escreveria
neste desejo
incerto
de morrer-te
como murcha a flor
para ser semente

SE O MEU PESCADOR PESCASSE

Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar...

Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?

E sei que hei de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda forca dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há de nascer
E há de pescar-me no alto
o pescador
Espero

ENCANTAMENTE

Uma confusão de dedos
procurando as mãos
da menina
— Onde estão, mãe,
as minhas asinhas da loucura?

A PALAVRA

A palavra quer deitar-se
sozinha, reflexa
contemplar devagar
o sol morre ao silêncio
Não há pressa, não há medo
A palavra quer morrer
quantas vezes for preciso

POESIA TU ÉS O MEU CANTO

Tu és o meu cisne
no urgir das asas.
És o meu ângulo saliente
lírio no tanto que falta
por a vida não ser o bastante.
Poesia,
de pétala em pétala
de silêncio,
canto-te.

ÁFRICA INEXPLORADA

Eu sou a parte de toda África
Ainda inexplorada
Onde batuque
Se auto musica
No orvalho terrestre
Nas águas ainda mudas
Que correm a mutação
Das savanas e das pestes
Eu sou África ainda pura
Que nos seus campos virgens
Ainda adora o sol
E o canta pentatónica
Com a felicidade de existir
Sou África em cada pedaço de mim
E cada pedaço de mim a existir
Mupipi sobrevoando o grão
Urdindo o cântico litúrgico
Da utopia nas sementes
Marrabentando o futuro
Com mesmo sol dendêm
Das acácias e das palancas
Das palmeiras alcançando o céu
Eco ritmando o mistério e o feitiço
Da mãe ventrando a terra una
E da mão carne e alma de mulher
Eu sou a África profunda
Nos montes e ilhas
Que clamam os quatro ventos
Do sonho e dos horizontes
Que nos escorrem pelos dedos
No desacredito dos desertos
E das rochas esquecidas
Sou eu África fecunda
Que te escrevo
No sabor do lirismo que nos une
Na poesia dos povos
Neste exotismo de ânsias
Que nos sonha
Parte da África ainda inexplorada.

UM PIANO, MINHA LOUCURA E EU

Um piano
cogita no silêncio das noites,
arrepia em notas soltas
a desenfreada falésia do desejo.
Ah, estares-me ausente!
Reverbera o saxofone, o teu,
e eu galgando o tempo na lua,
ah amor, cruzo savanas, trópicos e desertos.
E tu comigo, cá dentro, lá fora
amando-me na medida do ritmo
de um jazz cálido e frenético.
Abraço do Índico, o piano
atravessa as fronteiras que nos distam,
recria o sopro do teu sax
no meu corpo.
A boca, as mãos, os teus dentes
no meu lóbulo, o piano
é todo o futuro por vir,
uma pintura quieta como um pomo,
o pêssego que adoça
o som que há no silêncio:

MEU MOÇAMBIQUE

Minha África suburbana.
Eu sei-me Moçambique,
cisterna no pecúlio dos deuses.
Um Zambeze inteiro escala a língua
escorre-me pelas pernas
ramifica nos canhoneiros,
laça os peixes inquietos nas sementes
engolfa-se nos mpipis bêbados nas timbilas.
Eu sei-me Moçambique,
no cume das árvores, na sede incontinente
da minha falange, do Rovuma ao Incomati,
no xigubo terrestre dos pés descalços
e em todos os tambores que surdem
das mãos coloridas nos braços em chaga.


A LÍNGUA NUA DE OSWALDO MARTINS

O poeta Oswaldo Martins Acaba de lançar pela 7Letras um novo livro: Língua Nua, numa parceria com as ilustrações de Elvira Vigna. No prefácio, Júlio Diniz fala dessa parceria:

“A noção de parceria, em particular no campo das artes, tem sofrido constantes modificações. Realizar um projeto que envolve distintas mãos não se resume a uma soma de esforços e busca de complemento. Mais do que isso, a necessária comunhão entre linguagens e estruturas distintas se afirma na suplementaridade de suas diversidades e objetivos.

Há uma tradição de diálogo já firmada entre o livro e as artes plásticas, em especial o desenho e a pintura. São inúmeros os exemplos de clássicos da literatura ocidental ilustrados por artistas consagrados. Mas poderíamos ainda afirmar que traços, figuras e formas apenas ilustram e adornam a obra, a escritura, o corpo textual?

Se tomarmos como exemplo uma das edições de Les fleurs du mal de Baudelaire, primorosamente rasurado pelo delicado traço de Matisse, veremos que há muito não se aplica a esse constructo de artistas conceitos como ilustração e adorno. Matisse relê Baudelaire e reescreve em níveis distintos e suplementares as suas/dele flores do mal.

A constatação exposta acima aplica-se com propriedade ao livro Língua nua, uma bem urdida trama de conceitos, textualidade e imagens poéticas concebida e construída por dois artistas contemporâneos. A parceria entre o poeta Oswaldo Martins e a desenhista Elvira Vigna reafirma a vocação desta obra para a dialogia, a pluralidade e o apagamento de fronteiras rígidas entre diferentes estéticas.”

E concluí: “O resultado final é produto de uma refinada artesania de palavras e imagens. Os traços dos desenhos de Elvira adentram e se confundem no corpo dos poemas de Oswaldo, provocando distintas leituras sobre o lugar do erotismo no espaço dos afetos. Uma parceria em tom maior, sem dúvida.”

A seguir três textos e uma ilustração de Língua Nua.

10

este o abismo da alma o andar medido os anos revoluteiam no corpo revoltos versos estancados em medida o ocaso de um soneto talvez e mais talvez o passo com que meço no espaço o ritmo da mão trêmula e ávido sob este papel em restauração de noites tontas ao som de um religioso bach que alertasse para a dúctil ubiquidade da alvorada preludio com a alma gasta em todas as vírgulas as dobras da vulgata


 
exilada
de meus desejos

crio em mim
homens calcinados

para lembrá-los
da paixão

que nos invejam
os deuses

////

por isso me arrasto
sobre a terra
ganem vitupérios

para ainda provar
o gozo

da desobediência
foi que clamei


A PRÁXIS POÉTICA DE MÁRIO CHAMIE

1. Lavra-Lavra lança e instaura o poema-práxis.
2. Que é o poema-práxis? É o que organiza e monta, esteticamente, uma realidade situada, segundo três condições de ação: a) o ato de compor; b) a área de levantamento da composição; c) o ato de consumir.

Assim começava o Manifesto Poema-Práxis, um posicionamento poético e estético lançado pelo poeta Mário Chamie em 1962, como posfácio de seu livro Lavra-Lavra (Prêmio Jabuti /1962) e em discordância direta com o Concretismo. Dos anos 60 pra cá as vanguardas passaram e foram passadas, Mário continuou poeta e também virou político controverso, sendo secretário de cultura de Paulo Maluf e tendo criado a Pinacoteca Municipal, o Centro Cultural São Paulo e o Museu da Cidade de São Paulo. Na manhã do dia 3 deste mês, um domingo, Mário Chamie morreu em São Paulo, aos 78 anos. “Suas experiências são interessantes como tentativa de manter a tradição do Modernismo, sem renunciar ao espírito de vanguarda”, disse sobre ele e o Movimento Práxis o crítico Antonio Candido. Chamie lançou mais de dez livros de poesia. Então, vamos aos seus versos.

PLANTIO

Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.

Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.

Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.

Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.

Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.

Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.

O TOLO E O SÁBIO

O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

AUTO-ESTIMA

Sou Chamie,
venho de Damasco.
Franco-egípcio
é o meu passado.
Sírio sou helenizado.

De Damasco
ao meu legado,
sou católico
e islâmico,
copta apostólico
catequizado.

No pórtico
mediterrânico,
sou ático e arábico.
Vou contra o deserto
de desafetos contrários.

Sem custo nem preço
que se meça,
em nome de meu gênio
atlântico e adriático,
desprezo a cabeça
e a sentença
de meus adversários,
adversos e vicários.

Sou Chamie, Mário.
Franco-egípcio
é o meu passado.
Por onde entro,
venho de Damasco
pela porta
do apóstolo Paulo.
Sírio sou helenizado.
Venho de Damasco,
por onde saio.

POR TRÁS DA PALAVRA

Por trás
de toda palavra
há uma trama
cavada.
Só não se cava
nem se sagra
a palavra
enclausurada.

A clausura
da palavra
é a palavra
lacrada;
é a usura
da palavra
que não abre
suas veias
se se envenena
de nada.

Só se salva
a palavra
contaminada
por outra palavra
sangrada:
— pois a palavra
infectada
pelo que outra
desata
é a palavra
que em sua casca
se rasga
contra o nada
da palavra
enclausurada.

Por trás
de toda palavra
que não se perde
lacrada
há a trama envenenada
de toda palavra
tramada.