segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PREPARE O SEU ORELHÃO PRAS COISAS QUE EU VOU CANTAR

ANNE RICE É ARROZ DE TERCEIRA
VAMPIRO MESMO É JORGE MAUTNER

Valei-me , meu São Van Helsing! Enquanto em livrarias, cinemas e tvs pulam e pululam um bando de vampirinhos caretas, donos de bancos de sangue, jogando na Bolsa de plasma, Jorge Mautner já sentiu há muito tempo na boca a saliva que já secou. Eis aí a letra de VAMPIRO, de Mautner, o rastro eletrônico do maracatu atômico, gravada por Caetano Veloso.

Eu uso óculos escuros
pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem para o meu lado,
ai, as lágrimas começam a correr
E eu sinto aquela coisa no meu peito
Eu sinto aquela grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro
que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando
porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando,
com aquele seu cheiro louco de jasmim
E eu fico embriagado de você
Eu fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue não corre, não,
corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando
todo o amor que eu sinto por você
Você ficava escutando impassível
e eu cantando do teu lado a morrer
E ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
"oh! pero que letra más hermosa,
que habla de un corazónapasionado"

Por isso é que eu sou um vampiro
e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos
e das meninas que eu encontro
Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida
que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto
a saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo, ai,
aquele beijo que nunca chegou
Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia
que tem a lua e o sol do meio-dia


VOCÊ JÁ ACENDEU SUA LUA HOJE?

Deixando os vampiros mas seguindo na noite, entre no mundo da lua de Anna-Anna, uma brasileira chamada Manuela Leal, que está de volta ao Brasil depois de muitos anos estudando artes plásticas nos EUA e que canta em inglês uma música com traços de ficção científica. Ontem à noite ela acendeu a lua. E você?

LAST NIGHT I LIT THE MOON

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

I stepped over broken bones, saw the ghosts of bombs
Climbed and climbed
I fly with time
Lunar surface is a field of dust
Electric dust of space and sun
I saw the earth from above
Kept my ear to the ground
Heard the moon tremble,
Put gravity aside

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

The sun reaches out to the moon
And milks its silver mold
then sure I would see you
from high above
The moon, silvery angel
Reflects the light of the mightier sun
Your body, moon crater
Mirror of love

Last night I lit the moon
with silver thoughts to follow you

And if a thread of silver touches you
Thoughts, lit into flames
cold flames shivering, shivering silver light
if one day they’ll reach you, well they might
it’s too late for memories
I’ve burned them up for the light
of silver thoughts
to follow you

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,
Passei a manhã no Lower East Side, entre gente do mundo inteiro e a mistura de muitos passados. Depois fui ao Museu de Arte Contemporânea pra equilibrar. Os curadores continuam mandando na nova Bolsa de Valores que é a arte contemporânea. Por fim caminhei uns cinco quarteirões até o Sammy’s Roumanian, onde tomei uma sopa de miúdos e agora saboreio fígado picado acompanhado de mamaliga com queijo, enquanto bebo uma tuica, que é uma cachaça feita de ameixa e forte como o diabo! Aproveito para te mandar a mais recente criação do nosso cantador atômico, Patavina do Alcaçuz. Ele me fez duas promessas: continuar escrevendo para que eu possa por fim organizar o livro com suas poesias e te processar por usar o nome dele para batizar teu blog.

Abracadabraço do
Jean Prévert

O POETA PATAVINA DO ALCAÇUZ
CONVIDA O DESPEITÁVEL PÚBLICO
A CONHECER O ENCOBRIMENTO DO BRASIL

o meu nome é patavina
verso como quem navega
seja no mar da poesia
seja no álcool da adega
chamo a verdade de irmã
e a mentira de colega
e vou contar a história
da nau que ficou às cegas
dizem que até hoje
pelo mar ela trafega

dizem, mas ninguém prova
só se sabe que cabral
era o chefe da esquadra
onde estava essa nau
eram bem mais de mil homens
saídos de portugal
mulher? não tinha nenhuma
nada de xota, só pau
e nem sabiam onde iam
ô que viagem legal!

foi no brasil que chegaram
cabral e sua cambada
debaixo de bruta chuva
viram as índias peladas
mas em vez de tirar a roupa
e cair na batucada
encher a cara de uca
bacalhau com feijoada
vestiram os índios todinhos
com hóstia, missa e porrada

mas uma das 13 naus
não chegou a aportar
foi a de vasco ataíde
que se perdeu pelo mar
e achou outro brasil
muito melhor que o de cá
pois num dia cheio de sol
aqueles índios de lá
despiram os portugueses
e foram comemorar

com todo mundo pelado
começou logo a festança
tinha comida e bebida
mais maconha e fudelança
passaram-se oito meses
sem sequer parar a dança
o vasco ataíde doidão
enchendo a pica e a pança
e quem vai lembrar d’el rei
vivendo nessa bonança?

mas o escriba da nau
que era primo de caminha
fez parar aquela zona
começou a ladainha
lembrando da obrigação
com el rey e a rainha
e temos a fé em cristo
pra salvar essa gentinha
serão nossos escravos
andando sempre na linha

vasco ataíde então disse
você é um soldado leal
bote tudo numa carta
e leve pra portugal
como só tem um navio
vais a nado, animal!
e se não quiser cumprir
esta missão bestial
podes ficar por aqui
sentadinho no meu pau

os índios e os portugueses
voltaram pra putaria
tacaram fogo na nau
assim ninguém mais fugia
decretaram só uma lei
aqui não tem mais chefia
a farra começa de noite
mas não acaba de dia
porque farra nessa vida
é o que tem serventia

batizaram aquela terra
brasa-braseiro-brasil
descoberto por acaso
bem no primeiro de abril
cagaram para el rey
e aposentaram o fuzil
juro que é tudo verdade
ainda não estou senil
e quem duvidar do que eu conto
vá pra puta que o pariu

AVISO AOS NAUFRAGANTES


“O QUE É QUE NÃO É?” NO PNBE
Meu livro infantil O Que É Que Não É?, ilustrado por Cris Alhadef e lançado pela Editora Biruta, acaba de ser selecionado para o PNBE – Programa Nacional de Biblioteca da Escola. O PNBE existe desde 1997 e seleciona obras literárias que serão distribuídas a “todas as escolas públicas de educação básica cadastradas no Censo Escolar”.

DEBATENDO A AUTORIA
Na próxima sexta feira, dia 23 de setembro, eu e a doutora em Linguística Bethania Mariani estaremos numa mesa-redonda falando sobre o tema Limites e Possibilidades da autoria nas práticas sociais de escrita. O encontro faz parte de um ciclo de debates sobre o tema, que tem como objetivo problematizar a presença da autoria nas práticas sociais de escrita e pretende enfocar a autoria como um direito, uma necessidade, uma escolha, um traço decisivo para a constituição dos sujeitos em nossa sociedade.O ciclo é promovido pelo Fórum de Ensino da Escrita - projeto de extensão da Faculdade de Educação da UFRJ – e acontece no Auditório do Prédio Anexo do CFCH (Av. Pasteur, 250 ou Av. Venceslau Brás, 71, Campus da Praia Vermelha), das 14 às 17 hs.

VOCÊ NÃO VAI ABRIR?
Modestamente informo que meu novo livro infantil – Você Não Vai Abrir? – já pode ser encontrado nas livrarias de toda a Via Láctea. Ilustrado por Salmo Dansa, Você Não Vai Abrir? mostra um escritor contando como se faz um livro. Só que o livro não concorda com ele, começa a discutir, acha o tal escritor muito do metido e sem-graça e lá vão os dois brigando pela história afora. Você Não Vai Abrir é um lançamento da Editora Biruta.


POESIA NO METRO

No mês de outubro aqui no Rio a poesia vai invadir várias estações do Metrô. É a série “Intervenções Poéticas no Metrô”, uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura e do Metrô-Rio, que tem curadoria do poeta Claufe Rodrigues. Vejam aí a programação. Ah, as apresentações são sempre às sextas feiras, das 18 às 19 horas e este poeta que vos fala estará na Estação Pavuna, no dia 21. E vamos nos trilhos da poesia!


07/10 - Estação Del Castilho – Organismo, Mauro Santa Cecilia & parceiros e Mano Melo
14/10 -– Estação Carioca – Os 7 novos, Pedro Rocha e Madame Caos
21/10 - Estação Pavuna – Mônica Montone, Cesar Cardoso e Tavinho Paes
28/10 - Estação Central – Poesia Simplesmente, Cairo & Denizis Trindade e Salgado Maranhão

POR QUE ESCREVO?

“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”
Alice Barreira

Três momentos em que o poeta João Cabral de Melo Neto pensa a sua poesia e seu ofício de escritor. O primeiro deles é o poema Psicologia da Composição, que está no livro que lhe empresta o nome e é de 1947. O segundo é de 1966 e está no livro A Educação pela Pedra. Trata-se do poema A Educação pela Pedra, que também tem o mesmo nome do livro em que se inclui. Nessas coincidências, que não o são, vemos que os livros de João Cabral não são meras coletâneas de poesia, são projetos. Como ele mesmo conta no terceiro momento, quando conversa de forma pungente com o escritor e fotógrafo Eder Chiodetto, em sua casa, já no final da vida. (Eder fotografou Cabral e incluiu a conversa e as fotos em seu belo livro O Lugar do Escritor, publicado pela Cosak & Naify.)

Psicologia da composição

I
Saio de meu poema
como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa
vazia, que despi.

II
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.

Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.

Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;

como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III
Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza

(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera).

Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.

(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera).

IV
O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro; romper
seu branco fio, seu cimento
mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça).

V
Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.

Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio de mel
(do dia que abriu
também como flor)

que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

VI
Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

VIII
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.

(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras).

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.


A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.


Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática)
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

A CONSTRUÇÃO “Não sou mais um escritor. Estou cego. Para escrever, preciso ver. Não leio, não consigo escrever também. Sou um ex-escritor. Não adianta ditar versos para alguém porque preciso ver a minha letra construindo-os. Escrevo como quem constrói uma casa. Meus livros têm estrutura, não são reuniões de poesias. Minha influência foi Le Corbusier, que li em Recife quando ainda era moço, e também os poetas cubistas franceses. Paul Valéry, que não era cubista, também. Para mim é uma tortura não poder ler, sabe? Desde pequeno não fiz outra coisa senão ler. Não ler é pior do que não escrever. Publiquei meu primeiro livro com 22 anos. E o último com 73. A literatura perdeu completamente o sentido para mim. Não me lembro mais de nenhum poema meu.”

O FIM DE TUDO “Eu era diplomata. Escrevi quando havia tempo. Quando voltei de Portugal para o Brasil estava contente, porque teria mais tempo para me dedicar à escrita. Aí fui fazer uma operação no intestino e fiquei cego. Foram setenta dias de UTI. Quando acordei, não enxergava mais. Meu psiquiatra foi me visitar no hospital e viu que havia uma luz fortíssima sobre meus olhos. Eu, inconsciente, não podia meter o braço naquela luz. Queimaram minha retina. Hoje tenho apenas uma visão periférica. Enxergo mal, vejo apenas seu vulto. Me sinto fraco, meio doente, sem vontade de nada. Morrer é o fim de tudo. O descanso.”

O BARBEIRO “Você quer me fotografar no meu escritório? Aqui não tem escritório. Não escrevo mais. Além do que, estou barbado. O barbeiro só vai chegar às sete horas. Você é insistente, hein garoto? Tá bom, eu sento aqui nesta cadeira e você faz a foto.”


THAT’S ALL, FOLKS!

Talvez encontre dentro de mim o que o mundo me negou. Talvez só me reste isso: dormir e voar para dentro.
Surge uma cortina de chumbo (sempre as cortinas), contra a qual alguns raios ardem. Uma tempestade sacode a cena. As coxias estalam, o palco balança, os cenários se deslocam. Os camarotes estão vazios.
Perfurando o pano, uma voz, aquela voz, a mesma que até hoje me agita, faz o comunicado medonho: “As implicações dessa operação podem ser traduzidas pelo verbo “penar”. Para que tu pênis.”
Abro os olhos. Lá está a frase, anotada aos garranchos, dessa vez em um cardápio de quarto. A letra é minha, de quem mais?
Assim ouvi, assim anotei: “As implicações dessa operação podem ser traduzidas pelo verbo “penar”. Para que tu pênis.”
Espanta-me o trocadilho. Não “penes”, mas “pênis”. As palavras são dados. Sonhos são jogos. Mas quem os joga?
“As implicações dessa operação.” Mas que operação? E haverá outra senão minha busca?
Essa carta – que você nunca lerá – não é o rascunho do livro que escreverei. Ao contrário: com ela, eu me livro do livro.
A insistência dos sentidos duplos me enlouquece. A língua vacila. Jamais poderei confiar nas palavras.
Você nunca leu a Carta que lhe dei. Em algum sebo, um desconhecido a folheou. E, por espanto, ou por maldade, sublinhou (em seu lugar) a frase maldita.
Também Hermann Kafka não chegou a ler a carta que Franz lhe escreveu. Falsa destinatária, a mãe, Julie, tratou de queimá-la.
São essas as cartas que se perpetuam: as que não chegam a seu destino. As que ficam esquecidas nas prateleiras da posta restante. Aquelas que ninguém lê.
Não chegarei a escrever o livro que escreverei. Ele não passa da carta que o preparou. Preparou e matou. Esta carta.
Trago comigo, pai, os Poemas, de Baudelaire. Um deles tem o título roubado de Terêncio. Significa: “O carrasco de si”. Ou então: “O que se pune a si”.
Meu sonho é um registro desta punição. Mas por que me castigar com o sexo? Sei que os filhos – como os vampiros – sugam as forças do pai.
Diz-se que eles “se identificam”; mas o que se passa é bem mais violento: eles o “devoram”.
Volto a Terêncio, vendido como escravo a um senador latino. O público romano o desprezava. Ainda hoje, é considerado um escritor menor. Talvez por isso eu o leia.
Eu, Franz. Dois homens que rastejam. Eis o Ponto da Gralha: um capacho. Nele me encolho e durmo.
Antes da chegada do táxi, releio o poema de Baudelaire. Sem pensar em Terêncio, sem pensar no carrasco de si, sem saber o que faço – eu faço. Assim fazemos as coisas mais graves: sem perceber.
No poema, surge a resposta à frase de meu sonho: “Eu sou a faca e o talho atroz”. Está tudo dito.
De um lado, a moeda brilha, do outro sangra. A arma é também a ferida. O carrasco e sua vítima se confundem. A voz me adverte: melhor fugir do gozo, porque ele é também a dor.
Por que insistir na reconstrução do passado? De duas, uma: Ou o carrego em mim, ou a procura é inútil. O passado é só a lembrança que temos do passado.
Volta-me a voz abafada do doutor Martins: “Diga-me quem você é, pois já não sei quem sou.” Só temos falsas esperanças. Tudo que temos é o outro.
Já não me interesso pelo Dicionário poético de meu bisavô, Manuel Thomaz. Chave inútil, não abre porta alguma. Em vez de abrir, ela multiplica as trancas.
Só agora me dou conta: esqueci minha Carta ao pai – o mesmo livro que, um dia, lhe dei – em uma gaveta do hotel. Eu o deixei em Parnaíba, pai. Quem será o próximo a ler?
Será possível que, pela segunda vez, o livro me volte? Mesmo que volte, será outro livro. Serei outro homem. Isso é a esperança.
Mas não se pode perder uma frase. A frase que você sublinhou permanece gravada em mim. Dela não me livrarei. Fica não como uma acusação, mas como uma pergunta.
Tornei-me alguém que nunca termina de responder as perguntas que você me fez, meu pai.
É hora de fechar as malas, pagar as contas e voltar para casa. Enrolar as frases, dobrar as esperanças, deixar para trás as ilusões. Não se procura aquilo que se carrega.
Antes de pegar a estrada, preciso passar no correio. Tenho uma carta a despachar. Esta carta, a você, Ribamar, meu pai. A atendente me olha perplexa: “Falta o endereço.” Eu respondo: “Ponha aí um destino qualquer.”

CAPÍTULO FINAL DE RIBAMAR, ROMANCE DE JOSÉ CASTELLO, LANÇADO PELA EDITORA BERTRAND BRASIL.





Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

©Cesar Cardoso, 2010. Todos os direitos e esquerdos reservados. Que os piolhos infectados de 18 mil camelos infestem as partes pudendas de quem publicar algum texto daqui sem avisar nem dar meu crédito.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

CAIU NA REDE É PIXEL


Vemos o que não existe e nos ilumina.

E caminhamos para a morte

tentando decifrar a babel das luzes.

Luz morta das estrelas,

piscar de lanterna em código,

silêncio de explosão atômica,

fervor de vela,

paixão de abajur lilás,

ferrugem de transformador,

ansiedade de sinal de trânsito,

lantejoula de tevê,

simples fósforo na caverna.

Luz que mostra, luz que mente.

As tesouras e as facas ficam cegas com o tempo.

Os homens não se enxergam.

Os cegos também fecham os olhos.

Depois do sol quem ilumina o seu lar é a Galeria Silvestre, a galeria da luz.

No Rio de Janeiro, dezoito horas, trinta e quatro minutos e dezesseis segundos.

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Eu e o meu irmão Cesar – que aliás é o editor deste blog, o latifundiário dono deste pedaço de terra virtual – decidimos escrever um livro a quatro mãos. Há algum tempo que publicamos aqui o que chamamos de haicontos. Como uma brincadeira literária, vamos nos desafiando a escrever microcontos, a partir de temas e ideias. E agora resolvemos reunir o que temos e seguir escrevendo novos textos, até acharmos que a coisa virou um livro. Óbvio que não sabemos quando nem mesmo SE isso vai acontecer. Mas até aprontarmos o livro ou encerrarmos a brincadeira, vamos em frente e publicando aqui. É o que o pessoal chama hoje de work in progress, que foi traduzido pelo espírito de Hélio Oiticica devidamente incorporado por Madame Marta por “vamu tocando essa merda aí pra ver no que dá”.

Beijos a todos, sendo os mais calientes para o meu maninho,
Alice Barreira

O OUTRO PAÍS
A paciente foi trazida para observação por sua irmã que, extremamente nervosa e preocupada, solicitou os cuidados de nosso setor de psiquiatria. Apesar de sua pouca idade, a paciente encontrava-se sem nenhuma dúvida sob o efeito de psicotrópicos, apresentando quadro alucinatório, com visões seguidas de delírios persecutórios. Dentro de nosso procedimento padrão, que segue as normas da Organização Mundial para a Saúde, nossos especialistas do setor tentaram convencer a menor a acompanhá-los ao SAP – Setor de Avaliação Padronizada – ao que a menor se recusou prontamente e com veemência. Fez-se necessário então o recurso do MCS – Modo de Convencimento Sistemático – com auxílio do PPF – Planejamento Psico-Físico, aplicado por nossos RPD – Responsáveis Personais por Deslocamentos. Mesmo assim a paciente manteve-se irredutível, apresentando quadro compatível com aceleramento cardíaco e dilatamento pupilar, o que mais uma vez caracteriza a drogadição. Procedemos então à ISA – Invitação à Sedação Absoluta, mas a paciente não correspondeu à eficácia do tratamento, balbuciando insistentemente as mesmas e únicas palavras sem sentido nem conexão com a realidade que repetiu desde que deu entrada em nosso estabelecimento de saúde: “o coelho branco, o coelho branco, o coelho branco”, enquanto entrava em convulsão seguida de óbito.

Alice Barreira

SURPRESA!
Acordei com uma sensação de enjoo. Me levantei e pude reparar que a provável causa do enjoo era que a casa balançava. Ou talvez fosse só o meu quarto. Olhei em volta. Aquele não era o meu quarto. Assustado, abri a porta e saí, mesmo estando só de calção. Havia uma enorme corredor, com muitas outras portas. A minha casa desaparecera, eu constatei, enquanto andava pelo corredor e examinava aquelas portas, que não tinham nenhuma razão para estar ali. O corredor acabava numa escada que eu subi, às pressas, pulando os degraus de dois em dois. Dei num amplo salão de refeições, com um lustre enorme no teto e centenas de mesas, todas postas para um almoço ou um jantar, com louças finas, talheres de prata, ou que eu imaginei que fossem de prata, guardanapos de linho branco e copos para água, vinho e licores. O salão tinha uma porta larga por onde eu me desabalei, estacando em seguida, paralizado. Eu via o mar. Isso, estava no enorme deck de um transatlântico e via o oceano que tomava conta de tudo em volta, muito maior do que aquele imenso navio. Mas eu tinha certeza de que fora dormir em minha cama, no meu quarto, dentro do meu apartamento, no prédio onde morava desde criança, na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma cidade de onde nunca saí. Ou nunca saíra. Enquanto martelava a minha própria cabeça com essa realidade desaparecida, saí andando pra cima e pra baixo daquele transatlântico. Tinha muitos andares, muitas salas, muitas divisões, setores, partes, tudo, tudo, tudo deserto. Não havia ninguém a bordo. Mas isso não era possível, claro. Alguém devia estar em algum lugar daquela maldita embarcação, pelo menos para fazê-la navegar. Continuei procurando, esquadrinhando o navio todo, de ponta a ponta sem parar. Até deitar em qualquer lugar em que a exaustão me derrubasse.
Passei uma semana inteira andando sem parar pra cima e pra baixo e não encontrei ninguém. Havia comida e bebida à vontade nas diversas cozinhas espalhadas pelos andares. Mas nenhum ser humano. Aliás não vi nenhum ser vivo em todo o navio. Nenhuma mísera barata andava por ali. Nenhuma gaivota passava pelos céus sempre azuis, azuis, azuis. Eu não aguentava mais tanto azul, tanto mar. Já não conseguia mais pensar e, em desespero, me atirei na água.
Estou no mar há três dias e três noites. Talvez o impulso que me fez pular tenha sido o do suicídio, mas o baque na água fria talvez tenha despertado o instinto de vida em mim. O casco do navio possui umas reentrâncias onde posso quase me sentar e assim sigo o navio bem de perto e descanso quando preciso. Nunca me senti tão ocupado em toda a minha vida. Estou exausto. Vou me recostar mais uma vez no navio e espero finalmente conseguir dormir. E depois, quem sabe, acordar novamente em meu quarto.

Cesar Cardoso

UM ESTUDO PARA OS PRÓXIMOS PASSOS
A mulher de cabeça branca que vem ajeitando o vestido, o homem de terno amassado carregando a pasta abarrotada, a doméstica atrasada, a mulher de tailleur que solta a calcinha da bunda, o cara com a camisa do Coríntians que lê a manchete, o vendedor de vassouras a altos brados, o homem por trás do vidro escuro do 4 por 4, o pm que olha a gari, a gari que varre o meio-fio, o mendigo que conversa com seus cachorros, a criança que aprende a andar de bicicleta, a vizinha que faz cooper, o jornaleiro que sorri pra quem passa, a outra vizinha que agora está de cadeira de rodas, o senhor que era dono do botequim da esquina, o alcoólatra que espera o botequim abrir, o entregador da farmácia que ajeita o pneu da bicicleta, o vizinho cuja casa pegou fogo semana retrasada, o rapaz distraído que é dono da delicatessen da esquina, o namorado mandão que comanda a delicatessen com mão de ferro, o português dono da papelaria, o louco que fuma sem parar e torce peloBotafogo, o chaveiro da esquina, o rapaz que passeia com seis cachorros...
Qual deles será o nosso assassino?
 
Alice Barreira

BAMBA
Ele nascera no circo, filho de um casal de acrobatas. E assim, desde pequeno os pais o incentivavam a seguir seus passos. Mas o menino não gostava daqueles passos e chorava cada vez que o pai ou a mãe, brincando com ele, tentava aproximá-lo da linha acima do chão.
Os pais achavam que era apenas uma questão de tempo para o filho parar com aquela cisma, mas só mesmo sob ameaças de castigo e pancada o garoto cedeu e se iniciou na corda bamba.
E então chegou o dia de sua estreia. Seu nome no cartaz, a roupa brilhante, as sapatilhas, tudo era novo. Menos o mesmo sentimento que continuava carregando.
Subiu a longa escada, parou em frente ao arame, respirou fundo e foi caminhando, passo a passo, até a metade dele. Ali parou novamente, respirou fundo três vezes, enquanto a plateia inteira prendia a respiração, e então deu a pirueta. Um oh de admiração percorreu toda a lona. Mas em vez de pousar de volta na corda, o menino deu outra pirueta no ar, causando mais admiração ainda na plateia. E em seguida mais uma e mais uma e mais uma. A plateia, seus pais e todos no circo olhavam sem entender, enquanto ele seguia dando piruetas no ar, única forma que encontrara para não enfrentar seu medo de cair.

Cesar Cardoso

“NÚNCARAS” – po+es+ia

BRÁULIO TAVARES - O CANTADOR CIBERNÉTICO

Nascido em Campina Grande, em 1950, Braulio Tavares escreve poesia, prosa, letras de música, contos, ensaios... É um criador e um pensador da criação literária. Aqui dois poemas desse cantador cibernético: A Coisa e O Caso dos Dez Negrinhos. Se você gostou (e duvido que não goste), tem mais Braulio Tavares no blog dele: Mundo Fantasmo. (http://mundofantasmo.blogspot.com).

A coisa

Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa
que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo
com pernas que ela terá de crescer de si própria;
e que seja ela uma máquina viva, uma máquina
capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.
Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.
Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas
e metonímias e quarks e transistores e estames
e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...
Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa
que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam
e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,
e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos
e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,
e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia
tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando
com meus olhos de homem, me sorrindo
com tantas bocas de mulher, me envolvendo
com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,
fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,
como um setor a mais invadido um círculo já completo.
Eu quero que essa coisa existisse, assim como
eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.
Coisa criada, cobra criante, serpente criança,
criatura sentiente, existinte, sente, pensante,
cercada pela linha brusca do seu até-aqui
Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá
como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,
e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.
Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.
Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,
e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ônibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento... que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.


O CASO DOS DEZ NEGRINHOS
(Romance Policial Brasileiro)

Dez negrinhos numa cela
e um deles já não se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.

Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou: cruzou com uma bala...
Correram oito.

Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete;
roupa caqui vem chegando,
fugiram sete.

Sete negrinhos passando
pela rua de vocês;
alguém chamou a polícia,
correram seis.

Seis negrinhos dão o balanço:
bolsa, anel, relógio, brinco...
Houve um erro na partilha,
sobraram cinco.

Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira...
Correram quatro.

Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez.
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.

Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.

Dois negrinhos se embebedam
de Brahma, cachaça e rum.
Discussão, briga, navalha...
e fica um.

E um negrinho vem surgindo
no meio da multidão.
Por trás desse derradeiro...
vem um milhão.