quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

THE PATAVINA’S PICTURE PRESENTS

Pode botar a pipoca no micro-ondas. Chegou THE PATAVINA’S PICTURE,
o complexo cinematográfico do PATAVINA’S. Inaugurado por Luiz Carlos Barreto,
elogiado por Paulo Francis Ford Coppola e assombrado por Fellini,
nosso megaplexmark traz pra você poesia na beira do Tejo,
o escritor Mia Couto mostrando que fala tão bem quanto escreve,
e o Poeta do Castelo, Manuel Bandeira,
num curta metragem poético e imperdível de Joaquim Pedro de Andrade.
Lembramos ao distinto público que é proibida
a entrada virtual de cachorros e leões da Metro.

Ciclovia do Tejo (Cais do Sodré - Belem). Passeio de bicicleta na margem norte do Tejo ao som de "Cais" do projecto "Os Poetas" de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes. Filmado por Nuno Trindade Lopes. Editado por Abilio Vieira. Poema "O Tejo é mais belo", de Alberto Caeiro, em "Guardador de Rebanhos".

Numa conferência sobre segurança o escritor Mia Couto lê um texto seu, onde começa dizendo que o medo foi um de seus primeiros mestres. A poesia de sua prosa de ficção também está presente nesta fala.  

O Poeta do Castelo é um pequeno e belo documentário de Joaquim Pedro de Andrade, onde vemos o cotidiano simples de Manuel Bandeira envolto em seus versos falados por ele mesmo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,

Estou na Rua 45, entre a Quinta e a Sexta Avenidas, mais precisamente num sebo chamado Book Off, que além de livros usados em muito bom estado tem dois andares só com cds, dvds, videogames e mangás, tudo em japonês. Sentado na casa de chá da loja, te escrevo para contar uma história.
Kasato Maru é um hábil manipulador de facas, apesar de possuir apenas três dedos na mão esquerda. A história de como perdeu esses dedos está tatuada em suas próprias costas. Se você souber ler essas e as outras tatuagens que tomam conta do corpo de Kasato, vai descobrir que ele nasceu em Osaka, em 1949, entrou para a Yakuza, a temível Máfia japonesa, aos 13 anos, passou 15 anos numa cadeia de Tókio, condenado pela morte de cinco deputados do parlamento japonês, lá perdeu os dois dedos da mão esquerda e se tornou um mestre na arte de manejar facas. Para matar, é claro.
Mas mesmo tomando todo o corpo de Kasato, as tatuagens não contam tudo. Não contam, por exemplo, como Kasato consegue fugir do Japão e sobreviver à perseguição da Yakuza, como vem para São Paulo para construir uma vida nova longe do crime, como acaba se envolvendo com o crime organizado daqui e liderando o tráfico de drogas na favela do Jardim Jangadeiro, no Capão Redondo e, por fim, como encontra o budismo tendai e desaparece no mundo.
Muita gente quer encontrar Kasato Maru, todas com intenções nem um pouco amistosas. Eu, que não o procuro, acabei sendo encontrado por ele. Kasato me mandou por e mail um pouco da sua história, que resumi mais um pouco para o PATAVINA’S. Atualmente ele é monge em algum lugar do planeta e se dedica a meditar, cuidar de uma horta e escrever haicais que, fugindo da tradição dessa poesia, têm como tema a violência, que ele experimentou na carne, sua e dos outros.
Essa é a história, Cesar. E agora os haicais.

Um abraço do

Jean Prévert


olhares cruzados
entre cerveja e ciúme
navalha na carne


no fogo da noite
clarão que dissolve a luz
o corpo crepita


chupeta pulando
solta pipa toma pico
a velha criança


essa casa santa
quanto poder tem jesus
na poça de sangue?


infância de irmãos
perdidos. Até o reencontro
do fogo cruzado


prazer te rever
no cumprimento final
a mão que esquarteja


a bênção meu filho
deus te abençõe meu pai
tiros já perdoados


não há de afogar
a mágoa, a chuva na cara
de quem nem respira


doce filho meu
sangue na faca com faca
ah minha mãezinha

CAIU NA REDE É PIXEL

AO MEU AMIGO HELIO JESUINO
Tinha resolvido caminhar todos os dias durante uma hora e já estava na Gago Coutinho quando me veio uma ideia para um texto. Apanhei o papel e a caneta no bolso e tentava anotar sem perder o passo quando alguém saiu detrás de uma árvore e se plantou bem na minha frente.
- Arrá!
Era Helio Jesuino que, com sua voz rascante, me provocou em tom de deboche:
- Um escritor atuante e contemporâneo tem sempre lápis e papel para anotar alguma ideia genial...
Eu contei que estava caminhando, ele deu sua risada, disse que me viu e se escondeu atrás da árvore pra me esperar passar e me sacanear. Helio não estava caminhando, isso realmente não fazia parte de seus planos. Estava era sentado no bar do outro lado da rua tomando umas cervejas e me convocou a ter uma atitude séria na vida, parar com esse negócio de caminhar e ajudá-lo a secar umas garrafas. Diante da gravidade da ponderação de meu amigo, tive que tomar um posicionamento sério e dividir a mesa e as cervejas com ele, além de vários tira-gostos que foram sendo pedidos ao longo da tarde, enquanto discutíamos todas as questões fundamentais para o bom andamento da humanidade. Lá pelas tantas começamos a falar sobre o que cada um andava criando e acabamos bolando um projeto juntos, onde eu entrava com fotografias, Helio com gravuras e iríamos misturando nossas linguagens em novos trabalhos.
Eu e Helio já havíamos trabalhado em parceria muitos anos e cervejas antes, lá pelo início da década de 90, no jornal carioca de cultura Verve, que era editado pelo Ricardo Oiticica e pela Claudia Roquette-Pinto. Fizemos uma tira mensal, onde eu entrava com o texto e Helio com o desenho. Depois, há cerca de dois anos, fizemos duas histórias em quadrinhos, a partir de uma releitura que escrevi da história da Chapeuzinho Vermelho. Agora criávamos mais uma ideia, que apresentamos ao Centro Cultural Justiça Federal e não foi aprovada. Mas foi um prazer desenvolver o projeto e passar aquela tarde tomando cervejas e conversando sobre tudo e nada com Helio, coisa que repetimos algumas outras tardes na casa dele e no Estação Largo do Machado, para finalizar a coisa toda. Ou só para tomar cerveja juntos mesmo. O Estação era um pouco a segunda sala de estar do Helio, ali a gente se encontrou muitas noites, às vezes ele e nosso amigo Armando, às vezes ele e a mulher, Silvia. Sentar na mesa com Helio sempre foi garantia de um bom papo, que podia ser intenso, polêmico, provocador, mas nunca dentro dos padrões estabelecidos pela caretice reinante. Helio sempre olhou o mundo de forma muito particular, sua, criativa. E assim também o representava em sua obra.  
Nos últimos dias de dezembro de 2011 voltei a prometer a mim mesmo que vou caminhar. E na quinta feira, 29, fui inaugurar minha promessa na pista Claudio Coutinho, na Praia Vermelha. Lá pelas tantas comecei a pensar nos meus projetos para 2012 e lembrei-me de falar com Helio para bolarmos juntos mais alguma ideia. Dessa vez ninguém saiu detrás de uma árvore para interromper minha caminhada. Como eu soube uma hora depois, ao chegar em casa, meu amigo Helio Jesuino havia morrido na noite anterior. Uma úlcera perfurou seu estômago, seu caminho, nossos possíveis projetos e sua risada. E eu fui tomar umas cervejas em homenagem a ele.

Cesar Cardoso

(As ilustrações são gravuras de Helio Jesuino com elementos de fotografias minhas, em montagens que ele realizou.)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

AVISO AOS NAUFRAGANTES

CESAR CARDOSO LANÇA
DOIS NOVOS LIVROS INFANTIS


O escritor e roteirista Cesar Cardoso lança dois novos livros para o público infantil. O Que É Que Não É?, ilustrado por Cris Alhadeff, é um jogo de esconde-esconde entre as imagens e o texto, onde um inocente chafariz pode virar um esguicho de baleia. Mal saiu do forno, o livro já foi selecionado para o Programa Nacional de Biblioteca da Escola – PNBE, e chegará às bibliotecas das escolas públicas de todo o país. Você Não Vai Abrir?, ilustrado por Salmo Dansa, propõe um outro jogo. Nas páginas dele, o autor e o próprio livro discutem quem é que realmente conta as histórias. E na briga dos dois quem sai ganhando é o leitor, que se delicia com poesias, contos, notícias e outros textos, sempre com muito humor.

Os dois livros, publicados pela Editora Biruta, serão lançados na Livraria Museu da República, na quarta feira, dia 14 de dezembro, das 19 às 22 horas. A livraria fica na Rua do Catete 153, no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito

Quem não se lembra de Emília e de Amélia? Quem? Quem já não cantou uma delas? Ou até as duas numa noite mais animada, numa madrugada de samba e cerveja, lugares tão comuns?

POSSO MAIS

Não tinha mesmo. Ah, mas quanto custava a Amélia aquele exercício diário. Emília, não. Era vaidosa. Mas entre o fogão e o tanque não há vaidade que não se afogue, verdade que não se queime.
As duas costumavam andar no mercado, fazendo as compras e além das compras. Amélia. Emília. Amélia, Emília. Muito prazer. E passaram a se encontrar entre o sabão, o café, o óleo. Com o tempo, trocavam umas tantas receitas, umas poucas queixas, um ou outro desejo.
Mas houve o dia de apenas um desejo. Que Amélia nem sabia, pensava ser só aflição, sem perceber que das aflições nascem tantos desejos. O caso é que faria dez anos de casada. Ocasião especial? Quem sabe. Mas uma ocasião, isso era, com certeza. Emília animava a outra, tinha que se enfeitar. Mas Amélia tinha tantas verdades guardadas que não sobrara espaço aos enfeites. Por sorte, Emília sabia lavar, cozinhar e se enfeitar também. Levou a amiga até sua casa e emprestou-lhe um vestido vermelho com um decote que deixou Amélia vermelha só de ver. E colar, salto alto, perfume.
Que noite! De manhã Amélia ainda estava acordada, sentada na mesa da sala. Sozinha. O marido não lembrara da data e passara a noite fora. Quando ouviu bater as oito, tirou a festa do corpo e foi devolver a Emília. Que não se conformou. Começou consolando a amiga mas a raiva foi subindo e um pouco depois estava esculhambando o marido da amiga, o seu e os homens. Amélia tentava acalmá-la. Tinha medo da raiva. Talvez pressentisse que da raiva também nascem desejos. Sem saber o que fazer, desandou a chorar. Emília parou, olhou a amiga que era só fome ao seu lado. O que se há de fazer? Abraçou Amélia. Deu-lhe o ombro. Quando o choro secou, levou Amélia até seu quarto, deitou-a e deitou-se a seu lado e encontrou a menor vaidade da amiga, que apenas lhe disse: Emília, Emília, Emília, não posso mais.

Cesar Cardoso

(Músicas Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo, e Ai, que Saudades da Amélia, de Ataulfo Alves e Mario Lago.)

AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO

     A Oficina de Literatura do Cesar Cardoso

Aproveitando o encontro cultural Brasil-Itália que os dois países vêm promovendo, as Autopeças Literárias Cardosão promovem o esbarrão literário do ano: Italo Calvino e Ferreira Gullar. Ambos sonhando cidades imaginárias. A feminina Eufêmia, de Calvino. E a geografia mítica de Ailum, criada por Gullar. Serão mesmo imaginárias? Ou os sonhos deles serão mais reais do que as cidades onde vivemos, que se imaginam urbes mas são somente amontoados? Bem, discussões à parte, aproveitem os sonhos desses dois, que sonham com palavras.

AS CIDADES E AS TROCAS

A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atinge-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações convergem em todos os solstícios e equinócios. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas-passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mesmas mercadorias que se encontram em todos os bazares dentro e fora do império do Grande Khan, espalhadas pelo chão nas mesmas esteiras amarelas, à sombra dos mesmos mosquiteiros, oferecidas com os mesmos descontos enganosos. Não é apenas para comprar e vender que se vem a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou em barris ou deitados em montes de tapetes, para cada palavra que se diz – como “lobo”, “irmã”, “tesouro escondido”, “batalha”, “sarna”, “amantes”, - os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarna, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade em que se troca de memória em todos os solstícios e equinócios.

(Em As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, pg. 38. Tradução Diogo Mainardi, Companhia das Letras.)

AILUM

Uma gravura do século XVII – não se sabe se cópia do natural ou trabalho de imaginação – é o único ponto de referência material de que dispõe o historiador acerca da cidade de Ailum.
A gravura mostra Ailum como uma construção arquitetônica irregular, assentada sobre uma ilha montanhosa, que ficaria a meia distância da África e da América do Sul. A parte baixa da ilha é tomada por uma amurada de pedra, que constituía certamente o cais do porto, a oeste da ilha. Partindo dessa direção, temos a escadaria que leva a uma espécie de fortaleza, de muros negros e altos, dominados por uma torre com ameias e seteiras. À esquerda da fortaleza, derrama-se o casario miúdo, erguido na encosta escarpada, entre manchas de vegetação. Mais atrás, à direita, sobre os telhados que se sucedem em níveis diversos, alteiam-se os dois campanários da catedral, outrora um convento.
Era no quintal dessa igreja que havia um poço, de águas profundas e claras. Tão claras que dava para ver, lá embaixo, a cabeça colorida de uma serpente, tomando toda a circunferência do poço. “A serpente dorme”, escreveu Huns Dott,* “e seu corpo se estende sinuosamente imóvel por debaixo da terra, em toda a extensão da ilha. O povo acredita que, se um dia a serpente acordar e se mover, Ailum, esfacelada, desaparecerá no oceano.”
 
* Viajante eleutense, que teria visitado a ilha no século XV. Cf. Manuscritos de Zambarbina, José Fuentes Cargol, Macondo, 1701. Apud. Pueblos y Ciudades, Muriel Farcía Xarques.

(Em “Cidades Inventadas”, de Ferreira Gullar, pg. 53, José Olympio Editora.)

RINHA DE GALINHA

por Don King - nosso correspondente na
Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais
Waall, mais um estupefaciente duelo de Titãs! Neste córner, com 60 quilos de pura epifania literária, Clarice Lispector, a Demolidora da Ucrânia, com sua técnica de paixão segundo G.H. No outro corner, Franz Kafka, o Pesadelo de Praga, com seus jabs que mostram o trágico, o grotesco e o cruel da condição humana. Quando eles se enfrentam até as baratas tremem. E o pau come na casa de Noca. Holly shit!

I

Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação ao resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
- O que aconteceu comigo? – pensou.
Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotado, um mostruário de tecidos, - Samsa era caixeiro-viajante -, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapéu de pele e boá de pele que, sentada em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado regalo também de pele, no qual desaparecia todo o seu antebraço.
O olhar de Gregor dirigiu-se então para a janela e o tempo turvo – ouviam-se gotas de chuva batendo no zinco do parapeito – deixou-o inteiramente melancólico.
- Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? – pensou, mas isso era completamente irrealizável, pois estava habituado a dormir do lado direito e no seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Qualquer que fosse a força com que se jogava para o lado direito, balançava sempre de volta à postura de costas. Tentou isso umas cem vezes, fechando os olhos para não ter que enxergar as pernas desordenadamente agitadas, e só desistiu quando começou a sentir do lado uma dor ainda nunca experimentada, leve e surda.
- Ah, meu Deus! – pensou. – Que profissão cansativa eu escolhi. [...]

(Em “A Metamorfose”, de Franz Kafka, pg. 7, tradução de Modesto Carone, Companhia das Letras.)

Então, antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem.
De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado. O grito ficara me batendo dentro do peito.
Nada, não era nada – procurei imediatamente me apaziguar diante de meu susto. É que eu não esperara que, numa casa minuciosamente desinfetada contra o meu nojo por baratas, eu não esperava que o quarto tivesse escapado. Não, não era nada. Era uma barata que lentamente se movia em direção à fresta.
Pela lentidão e grossura, era uma barata muito velha. No meu arcaico horror por baratas, eu aprendera a adivinhar, mesmo à distância, suas idades e perigos; mesmo sem nunca ter realmente encarado uma barata eu conhecia os seus processos de existência.
Só que ter descoberto súbita vida na nudez do quarto me assustara como se eu descobrisse que o quarto morto era na verdade potente. Tudo ali havia secado – mas restara uma barata. Uma barata tão velha que era imemorial. O que sempre me repugnara em baratas é que elas eram obsoletas e no entanto atuais. Saber que elas já estavam na Terra, e iguais a hoje, antes mesmo que tivessem aparecido os primeiros dinossauros, saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e se arrastando vivas, saber que elas haviam testemunhado a formação das grandes jazidas de petróleo e carvão do mundo, e lá estavam durante o grande avanço e depois durante o grande recuo das geleiras – a resistência pacífica. Eu sabia que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na marcha... Há trezentos e cinquenta milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas.
Como ali, no quarto nu e esturricado, a gota virulenta: numa limpa proveta de ensaio uma gota de matéria.

(Em “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, pg. 47. Editora Rocco.)

“NÚNCARAS” – po+es+ia

Affonso Ávila sempre nos premiou. Com o artesanato fino da sua poesia. De vez em quando alguém lembra de retribuir e dar a ele um prêmio. Foi o que fez a Secretaria de Cultura de Minas Gerais, atribuindo a Affonso o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pelo conjunto de sua obra.
Mineiro dos melhores, aqueles que nascem em Minas e depois vão deixando Minas nascer dentro deles, Affonso começou a publicar em 1953, se ligou ao grupo da Poesia Concreta, colaborando em sua revista Invenção, e recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia – 1991 com o livro O Visto e o Imaginado. Em 1963, organiza com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, na Universidade Federal de Minas Gerais. Grande estudioso do barroco brasileiro, de 69 a 96 dirige a revista Barroco, publicada pelo Centro de Estudos Mineiros da UFMG. E na década de 80 cria o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.
Sua poesia é marcada pela invenção, pela experimentação. Affonso nasceu em 1928 e não vai morrer nunca, enquanto houver na Terra quem leia e pense e imagine.

Os negros de Itaverava

Três negros de Itaverava,
irmãos em sangue e aflição,
não dormiam, como os outros,
a noite que é sujeição,
dormiam, sim, as auroras
— as luzes em combustão
dos sonhos que, mesmo estéreis,
sucedem no coração.

Enquanto as almas penadas
nos caminhos pranteavam
o corpo que se perdera
e os cães com elas choravam,
na senzala não se ouviam
os passos que se cuidavam,
as vozes que, a medo e susto,
no paiol confabulavam.

Para quem é jaula o dia,
que seja conspiração
de perfídia e sortilégio,
de roubo e contravenção
a noite cujas estradas
não se sabe aonde dão,
a noite que enlaça o negro
com seus silêncios de irmão.

(Em Código de Minas & Poesia anterior, Editora Civilização Brasileira, 1969.)

insólito

contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
 
(Em poeta poente, Editora Perspectiva, 2010.)

IMPROVISO

A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário,
pelo amor de sempre.

A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo amor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

(Em Carta do Solo, Editora Tendência, 1961).

ARTE DE FURTAR

O poeta declarou que toda criação é tributária de outras
     criações no permanente processo de linguagem da poesia

O poeta afirmou que todo criador é tributário de outros no
     processo de linguagem da poesia

O poeta se confessou um criador tributário de outros na
     linguagem de sua poesia

O poeta não esconde que sua poesia é tributária da linguagem
     de outros criadores

O poeta não esconde que sua poesia é influenciada pela
     linguagem de outros criadores

O poeta não faz segredo de que se utiliza da linguagem de
     outros poetas

O poeta fala abertamente que se apropria da linguagem de
     outros poetas

O poeta é um deslavado apropriador de linguagens

O POETA É UM PLAGIÁRIO

(Em O discurso da difamação do poeta, Summus Editorial, 1978)

URBANA

turvo rio margem assoreada
de terras podres ímpetos detritos
decompostos da plenitude e da beleza
saqueados a shoppings edifícios
o poder açodado e o poder acuado
vias de pecúnia pedante e rodante
quilômetros de fita métrica
medindo a aflição do relógio
e carros zero enfilando humilhados
o que não mais se vê que veículos e veículos
de vaidade afã de quem expecta
o sobe e desce da bolsa
o encontro da fêmea de programa
o conferir inferido da féria
e sobrenadando a água poluída
do último temporal
o conduto dos sem dos que não têm
lupenato dos mal natos
ordem de vez da astúcia do comando
súbito letal o regalo tomando
assalto relâmpago
 
(Em poeta poente, editora Perspectiva, 2010.)

O QUE QUE HÁ, VELHINHO?


E eis que um dia, na terra do leite e do mel, os eleitos não eram mais aqueles de sempre. E todo mundo queria ser o dono da verdade. E a humanidade já não sabia em quem acreditar. E não adiantava a galera do céu mandar anjos com espadas de fogo nem dilúvios. E foi então que, em meio ao desespero e a descrença,

                                      DEUS CRIOU A MÍDIA!

E os jornais logo ensinaram ao povo incrédulo o certo e o errado. E as tevês logo mostraram às gentes despreparadas o que vestir, o que comer e principalmente o que engolir. E as agências de publicidade logo trouxeram os novos mandamentos, mas em tábua não que tábua tá fora de moda, é antiecológico. E os novos mandamentos vieram em tela de cristal líquido. E vós podeis votar nos dez melhores, é só entrardes no site www.mandandobemnomandamento.com.
E tudo deveria ter voltado ao normal, mas vós sabeis que a humanidade não é fácil, ô gentinha do contra, principalmente as humanidades do terceiro mundo. E as tvs e os jornais, pacientes como Jó, subiram aos céus, que ficavam um andar acima de seus escritórios, e pediram a ajuda de Deus. Mas eis que Deus estava ocupado tentando criar vida em Marte pra ver se dessa vez dava certo. E então a turma da mídia fez um workshop e alguém falou: vamos copiar aquela idéia de Deus. E tirando uma costela do Arnaldo Jabor a mídia criou... (com pausa dramática) os Especialistas, à imagem e semelhança de Deus, mas um pouco melhorados que hoje em dia tem tecnologia que até Deus duvida.
E eis que dos céus desceram os Especialistas, montados em laptops de duas cabeças e carregando celulares de fogo. E Eles garantiram que, desse dia de glória em diante, não haveria mais dúvida sobre a verdade porque Eles, os Especialistas, diriam a todos o que é a verdade e como deve ser usada. E a humanidade respirou aliviada (segundo os Especialistas, é claro).

Cesar Cardoso é escritor, foi criado por Deus, mas passava o fim de semana com o Diabo.

MERCADO FINANCEIRO

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CAMPOS DE CARVALHO
É UMA VACA DE NARIZ SUTIL!

Entre a fina ironia e a rematada ou desrematada loucura viaja a obra de Campos de Carvalho. O insólito e o humor constroem sua literatura, pouco conhecida pra qualidade que tem. Publicou os romances A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (61), A Chuva Imóvel (63) e O Púcaro Búlgaro. Campos de Carvalho também foi colaborador do Pasquim e os romances O Púcaro Búlgaro e A Lua Vem da Ásia já foram adaptados para o teatro (o segundo está em cartaz até o fim de setembro no Rio de Janeiro, adaptado pelo ator Chico Diaz, que também está no palco representandoe é uma ótima pedida).
Essas quatro obras estão juntas no livro Obra Reunida, publicado pela José Olympio. É o melhor investimento do mercado.Ouro, arma, ações, drogas? Besteira! Invista em Campos de Carvalho. Tá esperando o quê? Vai logo, anda!
E pra você tomar o gostinho, aí vai o primeiro capítulo de A Lua Vem da Ásia.

Capítulo Primeiro

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.
A primeira mulher que possuí foi sobre a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, e dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia. Paguei-lhe à vista, e subi eufórico em direção a uma rua de onde vinham sons de uma mandolinata inenarrável, e que se esvanecia à medida que eu me aproximava, e que acabou por desaparecer de todo. Sentei-me no chão, aturdido, acendi um cigarro e deixei que ele fumasse por si mesmo, e depois morri tranquilamente dentro da noite calma.
Quando despertei, já um gari me estendia o último jornal da tarde, e pude ler então que uma grande hecatombe havia acontecido sobre a cidade de Melbourne, na Austrália, justamente enquanto eu dormia. Lavei meu rosto com o pranto, entreguei o jornal a um menino cego e saí correndo pela primeira rua que encontrei pela frente, até deparar com a estátua do marechal Joffre montado a cavalo.
No dia seguinte, como a guerra houvesse rebentado, apresentei-me a um general de divisão que encontrei espairecendo pelo Bois de Bologne, e ele foi muito gentil para comigo, dando-me uma corneta e cinco mil francos para comprar um uniforme. Com a corneta toquei o Danúbio Azul, mas em surdina, e com os cinco mil francos fui a uma sessão de cinema (um filme de Clara Bow, se não me engano) e dei o resto a um mendigo que me pareceu mais honesto do que os outros – ou do que eu, pelo menos. À margem do Sena pus-me a pensar sobre as incertezas da vida e o absurdo da guerra recém-deflagrada entre o Japão e a China, até que o sono me jogasse de novo de encontro às pedras, as mãos espalmadas como as de um cadáver.
Tudo isso do meu passado eu conto para que se possa ter uma ideia exata da minha situação presente, depois que me deram por excêntrico e me jogaram neste hotel de luxo onde os garçons, o gerente e o subgerente andam todos de branco, e têm também os dentes brancos e não vermelhos ou amarelos como toda gente. Conto, também, porque o dia aqui para mim tem 72 horas, e às vezes mais até, e eu necessito ocupar-me com qualquer coisa que não sejam os mosquitos da sala ou a minha coleção de palitos de fósforo, de há muito superada e já vendida a um nababo hindu que mora no quarto ao lado. Descobri que, escrevendo a história da minha vida, antes que a escrevam os outros ou que não a escreva ninguém, estarei prestando um serviço enorme não só à cultura, por isso que – – –
(Fui obrigado a interromper estas lucubrações para tomar um prato de sopa que me trouxe a gentil senhora do gerente ou do subgerente do hotel – de qualquer forma uma senhora respeitável e vesga, que às vezes me toma a temperatura pelo simples prazer de me ser agradável. Mas a sopa estava bastante amarga, ou assim me pareceu pelo menos.)
Mas eu dizia, se não estou equivocado, que, finda a guerra sino-finlandesa, fui preso como espião moscovita por causa de minhas barbas patriarcais e malcheirosas, e fui submetido a um conselho de guerra composto de 15 mil generais, todos eles fardados, que me absolveram unanimemente e me repatriaram ao meu país de origem. Qual esse país fosse, nem eles nem eu sabíamos, de forma que voltei tranquilamente a dormir sob as pontes de diversos rios da Europa, os quais eu já conhecia de vista através das aulas de geografia que me dava o meu professor de ginásio, ao tempo em que eu ainda teimava em aprender as coisas. Dniester, Reno, Vístula, Guadalquivir, Elba, Nitra, Ródano etc. etc. são nomes que se tornaram familiares aos meus ouvidos de tanto eu ouvi-los murmurar eles mesmos, e não pobres mestres-escolas diante de ensebados mapas grudados à parede; a sua cantilena por muito tempo substituiu o doce acalanto de minha mãe na pátria desconhecida, que de resto nunca cheguei a conhecer, pois nunca fui criança.
Foi por essa época que aprendi a tocar berimbau com um professor do Conservatório de Varsóvia, herr Hepsteimm, e quando também resolvi fazer a minha primeira comunhão, por absoluto estado de fome. Desse aprendizado resultou-me a oportunidade de vir a ser mais tarde nomeado conselheiro musical na corte de Luís II da Baviera, o mesmo que tinha vários castelos assombrados e era dado a práticas de ocultismo, as quais aliás eu não era de todo alheio.
(Mas confesso que o lápis já me pesa na mão como se fora o mastro de um circo ou o próprio eixo da terra, o que me leva a parar de súbito essas reminiscências tão históricas e para mim tão caras, que um dia mostrarei a meus companheiros de hotel para que eles vejam até onde chega a fabulosa aventura humana, desde que – – –

(Primeiro capítulo de A Lua Vem da Ásia, em Obra Reunida, Editora José Olympio.)