segunda-feira, 30 de abril de 2012

MI BUENOS AIRES REFERIDO


Dentre as pragas que contaminam o planeta – como a dengue, o mal da vaca louca e a gripe suína – o turismo é a mais epidêmica de todas. Eu mesmo contribuí com sua disseminação, passando uma semana em Buenos Aires em janeiro deste ano.

Por sorte, dentro de cada cidade existem outras dez, dentro de cada uma dessas mais dez e assim sucessivamente, num labirinto pra qualquer Borges, feliz, se perder. Só nossa sempre desmesurada pretensão nos leva a pensar que conhecemos toda uma cidade. Não conhecemos por completo nenhum de nossos (des)semelhantes, nem nossos parentes, amigos, amadas e nem a nós mesmos. E por que conheceríamos a toda uma cidade?

Mas vale a pena se perder por algumas ruas e mercados e bares e pessoas espalhadas pelo planeta. Foi o que fiz em Buenos Aires, me perdendo também por suas belas (e inúmeras) livrarias. Foi assim também que me aproximei mais da literatura argentina, que para nós, brasileiros, é uma espécie de Saturno. Estamos acostumados com a litertura de nossos vizinhos, os europeus. E não com a desses países latino-americanos, todos longe como o confins da Via Láctea.

Esta seleção de textos é cheia de falhas e não pretende abarcar coisa alguma, é a visão de um flaneur. Flanei com o mesmo prazer e a mesma irresponsabilidade pelas ruas de Buenos Aires e pelas páginas da literatura argentina.

Espero que você, internauta-leitor(a), se divirta como eu me diverti.

Abracadabraço do

Cesar Cardoso


ERNESTO SÁBATO

"Eu sou um anarquista! Um anarquista no sentido melhor da palavra. O povo crê que anarquista é aquele que põe bombas, mas anarquistas foram os grandes espíritos como, por exemplo, Leon Tolstoi."

Assim se definiu o vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura de 1984 Ernesto Sábato, que, entre muitas obras de ficção e ensaios, escreveu a novela O Túnel e o romance Sobre Heróis e Tumbas, dois dos grandes livros da literatura argentina e mundial. Ele também presidiu a CONADEP (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas), cuja investigação, publicada no livro Nunca Más, abriu as portas para o julgamento dos militares da ditadura argentina. Sábato faleceu na madrugada de 30 de abril de 2011, aos 99 anos de idade..

Com um texto de seu livro O Escritor e Seus Fantasmas, abrimos essa edição.



SOBRE A NATUREZA DA LITERATURA ARGENTINA

Os europeus cometem com frequência a ingenuidade de nos pedir cor local e de acreditar que nossa pintura ou nossa literatura não tem “caráter”, esse caráter que, ao contrário, encontram na pintura mexicana ou no romance do índio equatoriano.

O representativo é fácil no Equador, mas infinitamente árduo na Argentina. Nosso homem tem contornos imprecisos, complexos, variáveis, caóticos. Algo como um acampamento no meio de um cataclismo universal. Serão necessários muitos romances e muitos escritores para dar um quadro completo e profundo desta realidade emaranhada e contraditória: a oligarquia em decadência, o gaúcho pretérito, o gringo que ascendeu na vida, o imigrante fracassado ou pobre, o filho e o neto desse imigrante, o habitante cosmopolita de Buenos Aires (indiferente e apátrida, o homem que vive aqui como se vive num hotel). E todos os sentimentos cruzados e os ressentimentos mútuos.

O problema psicológica e espiritualmente mais complexo talvez seja o do descendente de estrangeiros, criatura estranha cujo sangue vem de Gênova ou de Toledo, mas cuja vida transcorreu nos pampas argentinos ou nas ruas desta cidade babilônica. Qual é a pátria dessa criatura? Qual é a minha pátria? Crescemos bebendo a nostalgia europeia de nossos pais, ouvindo falar da terra distante, de seus mitos e contos, quase vendo suas montanhas e seus mares. Lágrimas de emoção nos caíram quando, pela primeira vez, vimos as pedras de Florença e o azul do Mediterrâneo, sentindo de imediato que centenas de anos e obscuros antepassados batiam misteriosamente no fundo de nossas almas. Mas também, em momentos de solidão naquelas cidades, sentimos que nossa terra é esta, estava aqui no pampa e no vasto rio, pois a pátria não é senão a infância, alguns rostos, algumas recordações da adolescência, uma árvore ou um bairro, uma rua insignificante, um velho tango em um pequeno órgão, o apito de uma carrocinha de amendoim numa tarde de inverno, o cheiro (a lembrança do cheiro) de nosso velho motor no moinho, uma brincadeira de pipas. E como pode esse romance ser simples, ou nítido, ou folclórico, ou pitoresco?

(Ernesto Sábato, em O Escritor e Seus Fantasmas, tradução de Pedro Maia Soares, Companhia das Letras.)


                                       Caetano canta Cambalache, de Enrique Santos Discépolo.

ALEJANDRA PIZARNIK
(1936-1972)

“Uma poetisa ávida pelo naufrágio”.

Julio Cortázar

"Oxalá, pudesse viver somente em êxtase, fazendo o corpo do poema como meu próprio corpo, resgatando cada frase com meus dias e minhas semanas, fundindo no poema o meu sopro à medida que cada letra de cada palavra tenha sido sacrificada nas cerimônias do viver".

"Não sei quando comecei a buscar esta pessoa. Não sei mesmo quem é, não a conheço. É estranho como e quando a busquei. Eu já não sou eu mesma, sou meus olhos. Procurem. Entre as folhas mortas, entre as árvores filósofas, no sim e no não, no revés e no direito, em um copo de água e em minha sede de sempre".


EXÍLIO

a Raúl Gustavo Aguirre

Esta mania de me saber anjo,
sem idade,
sem morte para a qual viver,
sem piedade por meu nome
nem por meus ossos que choram vagando

E quem não tem um amor?
E quem não goza por entre amapolas?
E quem não possui um fogo, uma morte,
um medo, algo horrível,
ainda que fira com plumas,
ainda que fira com sorrisos?

Sinistro delírio amar uma sombra.
A sombra não morre.
E meu amor
só abraça ao que flui
como lava do inferno:
una loja calada,
fantasmas em doce ereção,
sacerdotes de espuma,
e sobretudo anjos,
anjos belos como lâminas
que se elevam na noite
e devastam a esperança.

(Tradução de Antonio Miranda. Do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html )

                                                               Baratas, de León Ferrari.

A CONDESSA SANGRENTA (fragmentos)

                ... des blessures écarlates et noirs éclatent dans les chairs superbes.

                                                                                                            Rimbaud

Atapetada com facas e adornada com agudos espetos de aço, tem tamanho suficiente para um corpo humano; içam-na por meio de uma roldana. A cerimônia da jaula transcorre assim:

A servente Dorkó arrasta pelos cabelos uma jovem nua; tranca-a na jaula; ergue a jaula. Aparece a ‘dama destas ruínas’, a sonâmbula vestida de branco. Lenta e silenciosamente, se senta num escabelo situado abaixo da jaula.

Rubro tição em punho. Dorkó fustiga a prisioneira que, retrocedendo – e aí está a graça da jaula – crava-se a si própria nos espetos de aço, enquanto seu sangue mana sobre a mulher pálida que o recebe impassível, com os olhos postos em parte alguma. Refazendo-se do transe, ela se afasta lentamente. Ocorreram duas metamorfoses: seu vestido branco agora é vermelho e onde houve uma moça há um cadáver.

(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Sérgio Alcides, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)

Nota: o livro A Condessa Sangrenta, de onde este último trecho foi retirado e traduzido, acaba de ser lançado no Brasil, pela Ediotra Tordesilhas, com tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. Mais detalhes na edição de março do jornal literário Rascunho, de Curitiba (http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ ).


                                 A civilização ocidental e cristã, de León Ferrari.  

 
ALBERTO GIRRI
(1919-1991)
Nasceu e morreu em Buenos Aires. Poeta, prosador e tradutor, sua poesia é reflexiva, pensando a linguagem e a construção do texto.


CONVOCAÇÃO

O caçador
que dentro de mim
espreita
e lança emboscadas,
e cava fossos
apanhando
o que deles cai,
e conta suas presas
quando o velho sol
termina seu passeio,
e se deixa farejar
depois da caça
por hienas e chacais,
demônios
que pedem carniça
e imitam
com gemidos e grunhidos
a voz dos mortos,
não é
apenas meus impulsos
de destruição e pânico,
dele
vem a memória ancestral
da desobediência
ao espírito vivificante,
o gosto desgraçado
da perseguição.

Eu não sou
nem bom nem mau por essência
senão por participação,
como não reconheces, minha hóspede,
que não quero assimilar teus traços
além da vigília.
Eu te protejo;
eu te cuido,
deixa em paz as minhas noites.

 
(Tradução de Antonio Miranda. Do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html )


ARTE POÉTICA

Um elemento da controvérsia
que nos leve ao paradoxal
a cada linha, a cada pausa;
a ambiguidade às custas da convenção.

Uma premissa constante, a dúvida,
indagando na realidade,
buscando-a fora do contexto;
a matéria às custas da linguagem.

Uma síntese intransferível e bela
com ânimos, bestas, escrituras,
profanados sub specie æternitatis;
a imaginária às custas de tormentos.

Uma teologia criadora de objetos
Que se negarão a ser hostis a Deus.

 
(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Sérgio Alcides, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


JORGE LUIS BORGES
Nasceu em 24 de agosto de 1899. Morreu em 14 de junho de 1986. Entre uma data e outra escreveu uma das maiores obras da literatura mundial.


o outro tigre

And the craft that createth a semblance
MORRIS: Sigurd the Volsung 1876

Penso num tigre. A penumbra exalta
a vasta Biblioteca laboriosa
e parece afastar suas estantes;
forte, inocente, ensanguentado e novo,
ele irá por sua selva e sua manhã
e deixará seu rastro na lodosa
margem de um rio cujo nome ignora
(seu mundo não tem nomes nem passado,
Nem há futuro, só um instante certo).
E vencerá as bárbaras distâncias,
Farejará no enleado labirinto
dos aromas o aroma da alvorada
e o aroma deleitável do veado.
Entre as riscas do bambu decifro
suas riscas e pressinto a ossatura
sob essa pele esplêndida que vibra.
Inúteis interpõem-se os convexos
mares e os desertos do planeta;
desta morada de um remoto porto
da América do Sul, te sigo e sonho,
oh, tigre das ribeiras do rio Ganges.
Corre a tarde em minha alma e eu pondero
que o tigre vocativo de meu verso
é um tigre de símbolos e sombras,
uma série de tropos literários
e de memórias da enciclopédia,
não o tigre fatal, joia nefasta
que, sob o sol ou a diversa lua,
vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala
sua rotina de amor, de ócio e de morte.
A esse tigre dos símbolos opus
o verdadeiro, o que tem sangue quente,
o que dizima a tribo dos búfalos
e hoje, 3 de agosto de 59,
estende sobre o prado uma pausada
sombra, mas só o fato de nomeá-lo
e de conjecturar sua circunstância
torna-o ficção da arte e não criatura
animada das que andam pela terra.

Procuraremos um terceiro tigre.
Como os outros, também será uma forma
de meu sonho, um sistema de palavras
humanas, não o tigre vertebrado
que, para além dessas mitologias,
pisa a terra. Bem o sei, mas algo
me impõe essa aventura indefinida,
insensata e antiga, e persevero
em procurar pelo tempo da tarde
o outro tigre, o que não está no verso.


o tango

Onde estarão? Pergunta a elegia
dos que já não estão, como se houvesse
uma região em que o Ontem pudesse
ser o Hoje, o Para Sempre, o Todavia.

Onde estará (repito) o personagem
que fundou, na poeira das vielas
de terra ou em perdidos vilarejos
a seita da navalha e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
deixando na epopeia um episódio,
uma lenda no tempo, e que sem ódio
lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Busco-os na lenda e na derradeira
brasa que, tal como uma incerta rosa,
retém algo da plebe valorosa
que é dos Corrales e de Balvanera.

Em que becos escuros, em que ermo
de um outro mundo viverá a dura
sombra daquele que era sombra escura,
Muraña, essa navalha de Palermo?

E esse Iberra fatal (a quem os santos
perdoem), que em algum desvão da via
matou seu irmão Ñato, que devia
mais mortes que ele, e ficou tanto quanto?

Uma mitologia de punhais
lentamente se esvai no esquecimento;
uma canção de gesta perde o alento
em sórdidas notícias policiais.

Há uma outra brasa, outra candente rosa
da cinza que os preserva ainda inteiros;
ali estão os altivos navalheiros
e o peso de sua adaga silenciosa.

Mesmo que a adaga hostil ou a outra adaga
que é o tempo, perdessem-nos no lodo,
hoje, além do tempo e da aziaga
morte, esses mortos ainda estão no tango.

Na música estão eles, na cordagem
da obstinada guitarra trabalhosa,
que tece na milonga venturosa
a festa e a inocência da coragem.

Gira no vácuo a amarela roda
de cavalos e leões, e escuto o eco
desses tangos de Arolas e de Greco
que vi serem dançados na calçada,

num instante que hoje está isolado,
sem antes nem depois, contra o olvido,
e que tem o sabor do que é perdido,
do que é perdido e é recuperado.

Nesses acordes há antigas coisas:
O outro pátio e a entrevista parra.
(Por trás das paredes receosas
o Sul guarda um punhal e uma guitarra.)

Essa rajada, o tango, essa diabrura,
os anos ocupados desafia;
feito de pó e de tempo, o homem dura
menos do que a leviana melodia,

que é apenas tempo. O tango cria um turvo
passado irreal que de algum modo houve,
a lembrança impossível de, lutando,
morrer em uma esquina de subúrbio.
                                                   Mano a Mano, de Celedonio Flores, Carlos Gardel e José Razzano.  
borges e eu

Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa lista tríplice de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas essas páginas não podem me salvar, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem e da tradição. Além disso, estou destinado a perder-me, definitivamente, e só um ou outro instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco lhe vou cedendo tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros, ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro.

Não sei qual dos dois escreve esta página.

(Esses três textos estão no livro Antologia Pessoal, de Jorge Luis Borges, com tradução de Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista, Companhia das Letras.)


JUAN GELMAN

“Talvez o mais admirável de sua poesia seja a ternura quase impensável, sua invocação de tantas sombras, a partir de uma voz que tranquiliza e sussurra, uma permanente carícia de palavras”.

Julio Cortázar

                                                         Juan Gelman lendo poemas seus.

limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Só a esperança tem os joelhos nítidos.
Sangram.


gotán

Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.

Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.

Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a trsiteza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ele moverá minha boca pela última vez.


o jogo que jogamos
 

Se me dessem para escolher, eu escolheria
Esta saúde de saber que estamos muito enfermos,
Esta dita de andar tão infelizes.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
Esta inocência de não ser um inocente,
Esta pureza em que ando por ser impuro.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
este amor com o qual odeio,
esta esperança que come pães desesperados.

Acontece, senhores, que aqui
aposto a minha morte.


ancorado em paris
 

Tenho saudades é do velho leão do zoológico,
sempre tomávamos café no Bois de Boulogne,
me contava suas aventuras na Rodésia do Sul
mas mentia, era evidente que nunca tinha saído do Saara.

Seja como for, me encantava sua elegância,
sua maneira de erguer os ombros diante das mesquinharias da vida,
olhava os franceses pela vidraça do café
e dizia “os idiotas fazem filhos”.

Os dois ou três caçadores ingleses que tinha comido
lhe provocavam más lembranças e até melancolia,
“as coisas que a gente faz para viver”, filosofava,
olhando suas melenas no espelho do café.

Sim, tenho muitas saudades dele,
nunca pagava a conta,
mas indicava a gorjeta a ser deixada
e os garçons o cumprimentavam com especial deferência.

Nos despedíamos às margens do crepúsculo,
ele regressava a son bureau, como dizia,
não sem antes me advertir com uma pata em meu ombro
“tome cuidado, meu filho, com a Paris noturna”.

(Esses poemas foram retirados do livro Amor que serena, termina?, organizado a partir de uma seleção de poemas de vários livros de Gelman, feita por Eric Nepomuceno e aprovada pelo autor. Eric também é o tradutor deste que, por enquanto, é o único livro de Gelman traduzido no Brasil. É uma edição bilíngue, lançada pela Editora Record.)


Em março deste ano o Estado uruguaio fez uma declaração oficial se responsabilizando pelos crimes políticos cometidos contra o filho e a nora de Gelman. Ambos foram assassinados pela ditadura uruguaia, sendo que o corpo, ou mesmo o que sobrou dele, da nora nunca foi encontrado. Gelman ouviu a declaração - lida pelo presidente do Uruguai - junto com sua neta, Macarena, que nasceu enquanto a mãe estava presa e foi entregue pela ditadura para um policial e criada como se fosse sua filha.



JULIO CORTÁZAR
“Um escritor jazzístico, que tinha em Charlie Parker seu modelo maior de artista.”

Luiz Zanin

Queria colocar aqui trechos do divertidíssimo Histórias de Cronópios e de Famas, mas o livro encontra-se incompreensivelmente esgotado. Alô editores!

                             Casa Tomada, animação baseada no conto de Cortázar, com narração do autor.

CASA TOMADA

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, uma sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa; também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:
— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.
Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.
— Tem certeza?
Assenti.
— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.
Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Frequentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.
— Não está aqui.
E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:
— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?
Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e frequentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as consequências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.
— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.
— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.
— Não, nada.
Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.

(Casa Tomada é o primeiro conto do livro Bestiário, o primeiro que Cortázar lançou. Tradução de Remy Gorga, filho. Editora Nova Fronteira.)

Casa Tomada foi um pesadelo. Eu sonhei aquilo. A única diferença entre o sonho e o conto é que, no pesadelo, eu estava sozinho. Estava numa casa, que é exatamente a casa descrita no conto, e via tudo com muitos detalhes, e num dado momento ouvi ruídos vindos da cozinha, fechei a porta e voltei. Ou seja, adotei a mesma atitude que os irmãos adotam no conto. Isso, até um momento totalmente insuportável em que – como acontece em alguns pesadelos, os piores são os que não têm explicação, e são simplesmente o horror em estado puro – o espanto total consistia nesse som. Eu me defendia como podia, ou seja, fechando as portas e olhando para trás. Até que acordei, espantado. Posso dar um detalhe engraçado: lembro-me muito bem porque me ficou uma espécie de gestalt completa do assunto. Era pleno verão, e eu acordei encharcado, por causa do pesadelo. Já era de manhã, me levantei – a máquina de escrever ficava no meu quarto – e nessa mesma manhã escrevi o conto inteiro, de um estirão. Começo falando na casa, você sabe que eu descrevo muito, porque a tinha diante dos olhos. A primeira frase é esta: “Gostávamos da casa porque além de espaçosa e antiga (hoje em dia as casas antigas sucumbem frente à liquidação de seu material, mais vantajosa) guardava recordações de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e a infância inteira.” Mas, de repente, o escritor entrou em ação. Percebi que aquilo não podia ser contado com um personagem só, tinha que vestir um pouco o conto com uma situação ambígua, uma situação incestuosa, o casal de irmãos de quem se diz viver como “um simples e silencioso casamento de irmãos”, esse tipo de coisa. Essa carga eu fui acrescentando, não estava no pesadelo. Aí você tem um caso em que o fantástico não é algo que eu comprove fora de mim, mas que vem de meu sonho. Acho que, dos meus contos, uns vinte por cento surgiram de pesadelos.”

(Trecho de entrevista que Julio Cortázar deu ao escritor uruguaio Omar Prego, publicada no livro O Fascínio Das Palavras. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora José Olympio.)


EDGAR BAYLEY
(1919-1990)

Nasceu em Buenos Aires. Destacou-se a partir de sua participação na Associación Arte Concreto-invención e na revista “Poesía Buenos Aires”.


QUESTÃO DE TEMPO

questão de tempo talvez
de andar em trens
de encontrar a luz do sol
a guerra e a paz
o caminho que leva ao irmão
ao inimigo
questão de tempo
a música virá
um tribunal julgará teu medo tua pobreza
e outra manhã de modo diferente
o vagabundo que se perde balbuciando
no idioma que os homens falarão
questão de tempo
colonizadores da tristeza e claridade
em tudo falará o difícil amor
a transparência
mas sempre a vertigem
estenderá sombras sobre as sendas
desvendará céus sobre as vozes e o silêncio
e homens solitários
e mulheres sozinhas
falarão sem amparo
sem encontrar a palavra apropriada
o nome da noite

(Tradução de Antonio Miranda. Do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html )


NADA ALÉM DE ESPÉCIE

me levantei, e tudo pareceu ajudar-me na minha conhecida função de apaziguador de fechaduras. senhor! que campanhas! esse era, ao fim e ao cabo, o único monossílabo que interessava. depois me pus a escorrer as torceduras. era necessário. no entanto, as cúpulas mantinham suas milícias. a única solução? o que já disse numa ocasião semelhante: edgar em espécie.

(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Renato Rezende, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


FRANCISCO MADARIAGA

Sua poesia traz a cor do norte da província de Corrientes, com suas lagoas, seus sóis, a vida dos gaúchos. Essa é a geografia de sua obra e de sua vida.

PAÍS GARÇA REAL

Uma ponte de água rosada cantando,
e o infinito será também meu
          País Garça Real.
Levarei comigo uma comarca de esteros,
          lagoas, palmares,
e uns lábios, uns olhos, meus
          cavalos.

A SELVA LEVE

1

O som de um trem que se afoga na
           catarata das folhas.
Ao fundo da selva leve e dos coqueiros
           se abafa o nível do pranto,
o peso inteiro dos sonhos.
O peso inteiro da bolsa do perfume da graça,
estou entre a espada da paisagem e o
           tijolo quente do esquecimento,
viajando com um fervor de joia e sangue,
Escutando o uivo da minha candura: minha nova
           festa.

3

A imaginação arde embrulhada nas rodas
           de um trem desorientado.
Bananas e mais bananas caem ao ar.
Uma mulher despe uma escopeta num templo,
rói lentamente o anel do seu coração.
Fruteira da desgraça, fruteira do destino.

(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Renato Rezende, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


CÉSAR AIRA

“Sempre quis escrever livros que parecessem normais, ainda que não fossem.”

Com mais de 30 livros publicados, Aira escreve ficção e ensaios e muitas vezes mistura as fronteiras dessas linguagens. No Brasil, pelo menos duas obras suas foram lançadas pela Editora Nova Fronteira: As Noites de Flores e Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante. Nesta última, Aira relata uma viagem do alemão Rugendas, um dos grandes pintores-viajantes europeus do século XIX, pelo Chile e pela Argentina e, mais particularmente, um episódio que teria modificado a vida e a visão artística deste mestre da pintura.


UM ACONTECIMENTO NA VIDA DO PINTOR-VIAJANTE

[...]

Porque o que aconteceu a seguir foi absorvido diretamente pelo sistema nervoso. O que equivale dizer que durou muito pouco e foi tudo ação encadeada e selvagem. A tormenta se manifestou de súbito com um grandioso relâmpago que preencheu todo o céu, traçando uma ferradura ziguezagueante. Caiu tão baixo que o rosto levantado de Rugendas, congelado num gesto de estupor idiota, iluminou-se todo de branco. Pareceu-lhe sentir seu calor sinistro na pele e as pupilas se contraíram até quase desaparecer. A precipitação impossível do trovão o envolveu em milhões de ondas. O cavalo começou a girar debaixo de suas pernas. Ainda não tinha perminado de fazê-lo quando lhe caiu um raio na cabeça. Como uma estátua de níquel, homem e animal ficaram acesos de eletricidade. Rugendas se viu brilhar, espectador de si mesmo por um instante de horror, e que lamentavelmente haveria de repetir-se. A crina do cavalo estava toda eriçada, como uma barbatana de peixe-espada. A partir desse momento, apareceu uma visão estranha para ele, como sucede nas catástrofes personalizadas, quando alguém se pergunta: Por que é que isso teve de acontecer comigo? O que sentiu quando o sangue se eletrizou foi horrível, porém muito fugaz. De todo modo, a eletricidade se descarregava tão rápido quanto carregava. Mesmo assim, aquilo não podia ser bom para a saúde.

O cavalo tinha caído de joelhos. O cavaleiro o esporeava como um louco, levantando as pernas até pô-las quase na vertical e fechando-as com o movimento e o ruído de uma tesoura. O animal também descarregava o fluido. À sua volta havia se acendido uma espécie de bandeja de ouro fosfórico com bordas ondulantes. Mal terminou o processo, que durou alguns segundos, ele já havia se erguido e se pôs a andar. A bateria completa de trovões estrondava por cima deles. Dentro de um negror de meia-noite, relâmpagos grossos e delgados se entreteciam. Por entre as montanhas, rodavam faíscas brancas do tamanho de casas e os raios eram como os tacos de um bilhar meteórico. O cavalo girava. Perturbado ao extremo, Rugendas puxava as rédeas ao acaso, até que lhe escaparam das mãos. A planura tinha se tornado imensa e sem saída porque tudo era saída, e tudo estava tão carregado de atividade elétrica que ficava difícil se orientar. O solo tremia com o estrondo dos raios. O cavalo começou a andar com uma prudência sobrenatural, levantando muito os cascos e corcoveando lentamente.

O segundo raio o fulminou menos de quinze segundos depois do primeiro. Foi muito mais forte e teve efeitos muito mais devastadores. Eles voaram uns vinte metros, acesos e crepitando como uma fogueira fria. Seguramente por efeito da decomposição atômica que os corpos e elementos estavam sofrendo naquela ocasião, a queda não foi fatal. Ela foi como que acolchoada e aconteceu aos rebotes. Não apenas isto, mas também a magnetização do pêlo do cavalo havia funcionado como um ímã e Rugendas permaneceu montado durante todo o volteio. Porém, uma vez no solo, a tração se afrouxou e o homem se viu deitado na terra seca, olhando para o céu. O emaranhado de relâmpagos nas nuvens fazia e desfazia figuras de pesadelo. Nelas, por uma fração de segundos, acreditou ter visto uma cara horrenda. O Monigote! [...]

(Trecho de Um Acontecimento na Vida do Pintor-Viajante, de César Aira, tradução de Paulo Andrade Lemos. Editora Nova Fronteira.)


NÉSTOR PERLONGHER

Poeta e ensaísta, nasceu em Buenos Aires em 1949. Estudou e lecionou em Campinas - SP. Considerado um neobarroco, sua poesia trabalha com mitos e sua descontrução. Faleceu em São Paulo, em 1992.

CANTO DA ILUSÃO

Escamas, redemoinhos, fervores me rodeiam...
"Mariri", mãe da ilusão, em remoinhos te aproxima...
Estou na "mareação" com prazer, já fui embora, não desanimo, vou
com gosto, vou te fazer ver, vou te fazer vir, vem sem medo,
na mesma ilusão de prazer, que te faz ver coisas lindas.
A força que me faz ver almas como pó cai do meu lado...
Sente-se como um pássaro que perde suas penas...
Na casa da sucuri, na casa da sucuri, na casa da sucuri, o tigre pequenino
atirado do monte vem cair, atirado do monte vem cair, entra, o tigre,
o tigre na casa da sucuri, cai, entra, cai, entra, parece cabeças
verdes, cabeças verdes, cabeças verdes...


O MAL DE SI
 

Pare, morte:
          seu jorro infernal
faz estiar estantes,
a purulenta seiva, os baldios
de cremoso torpor tinge e derrete,
ausentando os corpos nos campos:
os corpos carcomidos nos campos varridos pela lepra.

Já não se pode dissertar.

Olhe, morte, a si mesma.
Meta-se em sua concha sem detonar a cápsula.
Escondida, que ninguém vá descobri-la.
Pois uma vez presente a tudo torna ausência.
Ausência cinza, ausência plana, ausência dolorosa do que falta.
Não é o que falta, é o que sobra, o que não dói.
Aquilo que supera a ardilosa austeridade das coisas
ou que transborda desdobrando a mesquinhez da alma prisioneira.
Enquanto estamos dentro de nós a alma dói,
dói esse estar sem palavras suspenso na figueira
como um noctívago perdido.

(Os dois textos estão na antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Josely Vianna Baptista, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


OLGA OROZCO
(1920-1999)

Vem morar em Buenos Aires em 1936 e se liga aos poetas conhecidos como a Geração de 40, ligados ao surrealismo e à revista Canto. Ficou muito conhecida por seus recitais. Em sua obra gosta de falar do mar, da morte, da luta entre o sagrado e o profano.


OLGA OROZCO

Eu, Olga Orozco, aqui no teu coração, digo a todos que
          estou morrendo.
Amei a solidão, a heróica perduração de toda fé,
o ócio de onde crescem animais estranhos e plantas
          fabulosas,
a sombra de um grande tempo que passou entre mistérios
          e alucinações,
e também o pequeno tremor das velas acesas ao
          anoitecer.
Minha história está em minhas mãos e nas mãos com que
          outros as tatuaram.
Da minha estadia restam as magias e os ritos,
certas datas gastas pelo sopro de um amor impiedoso,
a distante coluna de fumaça da casa onde nunca estivemos,
e alguns gestos dispersos entre os gestos de outras pessoas
          que não me conheceram.
O mais ainda se cumpre no esquecimento,
ainda lavra a desdita no rosto da outra que se
procurava em mim feito num espelho de sorridentes
          pradarias,
e que tu verás estranhamente alheia:
minha própria aparição condenada à minha forma deste
          mundo.
Ela teria querido me guardar no desdém ou no orgulho,
num último instante fulminador como um raio,
não no túmulo incerto onde alço ainda a voz rouca
          e chorada
entre os redemoinhos do teu coração.
Não. Esta morte não tem descanso nem grandeza.
Não posso estar olhando para ela pela primeira vez por
          tanto tempo.
Mas devo continuar morrendo até tua morte
Porque sou tua testemunha perante uma lei mais profunda
          e mais obscura do que os cambiantes sonhos,
lá, onde escrevemos a sentença:
‘Eles já morreram.
Tinham sido escolhidos por castigo e por perdão, por céu e
          por inferno.
São agora uma mancha de umidade nas paredes do
          primeiro aposento.’

LES JEUX SONT FAITS
 

(fragmento)

[…]

Nada me traz o dia.
Não há nada à minha espera além do final da alameda.
O tempo se fez muro e não posso retornar.
Mesmo se soubesse agora onde perdi as chaves e confundi
          as portas
ou se simplesmente me distraiu o voo de algum pássaro,
por um instante, apenas, e talvez sequer isso,
não posso reclamar entre os mortos.
Tudo o que a minha boca recorda foi apagado da memória
          de outra boca;
a cinza se alojou no nosso abraço, a distância se precipitou
          entre nós,
e sou como se fosse um sobrevivente de Pompeia,
por séculos separada do seu amante sepultado na pedra.
E de repente este dia que fulgura
como cortina preta aberta por um rasgão, desde ontem,
          desde nunca.
Tanto esplendor e tanto desamparo!
Sei que a luz delata os territórios da sombra e vigia em
          suspenso
e que a escuridão exalta o fogo e se ajoelha nos rincões.
Mas qual das duas tece o legítimo direito da trama?
Ah, não se trata de triunfo, aceitação nem submissão.
E me pergunto, então:
mais cedo ou mais tarde, visto de cima,
qual é afinal de contas o verdadeiro, intocável destino?
O que eu quis e não se deu? o que eu não quis e foi?

Mãe, mãe,
torna a levantar a casa e bordemos a história.
Torna a contar a minha vida.

(Os dois textos estão na antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Sérgio Alcides, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


ADOLFO BIOY CASARES

A obra de Bioy Casares inclui romances, ensaios, contos, peças, novelas e mais uns seis livros escritos a quatro mãos com Borges, com os pseudônimos de Bustos Domecq e Suárez Linch. Seus livros mais conhecidos são A Invenção de Morel e Diário da Guerra do Porco. Este se passa numa Buenos Aires envelhecida, como envelhecidos são os personagens que comandam a narrativa, os “porcos” do título e que nada mais são do que os velhos desta cidade, assim apelidados por uma juventude cheia de um orgulho que beira o fascismo.

Para quem quiser conhecer mais sobre Bioy Casares e sua obra, há um belo ensaio do crítico e escritor José Castello – À meia-luz – em seu livro Inventário das Sombras, editado pela Record.


DIÁRIO DA GUERRA DO PORCO

[...]

Para que sua imagem reviva na memória, assinalo outro aspecto daquela noite: o frio. Fazia tanto frio que a todos os frequentadores do café ocorria a mesma ideia de bafejar a palma das mãos. Como Vidal não se convencia de que não houvesse ali alguma porta ou janela aberta, olhava de vez em quando em redor. Dante, que quando perdia se irritava (sua devoção pelo time de futebol dos Excursionistas,* inexplicavelmente, não lhe havia servido para encarar com sabedoria as derrotas), repreendeu-o por se distrair do jogo. Apontando Vidal com o indicador, Jimi exclamou:
- O velhinho trabalha para nós.
Vidal contemplou o úmido focinho pontudo, o bigode que – talvez em razão da temperatura invernal – lhe parecia nevado, e não pôde deixar de admirar a desenvoltura de seu amigo.
- Eu me sinto bem no frio – declarou Néstor. – De modo que, senhores, preparem-se para a tempestade.
Depositou triunfalmente uma carta na mesa. Arévalo recitou:

          Y si la plata se acaba
          Por eso no me caduco
          Si esta noche pierdo ao truco
          Mañana gano a la taba.**

- Eu quero – respondeu Néstor.
- A quem quer a gente dá – disse Arévalo, e deixou cair uma carta superior.
O jornaleiro don Manuel entrou, bebeu no balcão seu copo de vinho tinto, foi embora e, como sempre, deixou a porta entreaberta. Ágil para evitar correntes de ar, Vidal se levantou e a fechou. Ao voltar, no meio do salão, por pouco não trombou com uma mulher velha, magra, extravagante, uma prova viva do que Jimi costuma dizer: “Que imaginação tem a velhice para inventar feiuras!”. Vidal virou o rosto e murmurou:
- Velha maldita.
Numa primeira consideração dos fatos, para justificar o ex abrupto, Vidal atribuiu à senhora a lufada que quase lhe afeta os brônquios e pensou que as mulheres não se dispõem a fechar as portas porque se julgam, todas elas, rainhas. Depois ponderou que fora injusto nessa acusação, porque a responsabilidade da porta aberta recaía sobre o pobre jornaleiro. À velha só podia censurar sua velhice. Contudo, restava outra alternativa: disparar-lhe, com um furor mal dissimulado, a pergunta: o que ela procurava, àquela hora, no café? A resposta teria vindo rápido demais, porque a mulher se enfiou pela porta rotulada Senhoras, de onde ninguém a viu sair.
Permaneceram ainda outros vinte minutos. Para conquistar as graças da sorte, Vidal esgotou os recursos mais dignos de confiança: esperou fielmente, aguentou com resignação. Também não era o caso de se mostrar teimoso. O jogador inteligente assegura que a sorte prefere que a sigam, não apoia os que lhe opõem resistência. Se não havia cartas boas, como ganhar com semelhantes companheiros? Depois da quinta derrota, Vidal anunciou:
- Senhores, chegou a hora de levantar acampamento.
Somaram e dividiram, Dante pagou dívidas e a consumação, os companheiros lhe reembolsaram sua parte, sob protestos. Nem bem Dante separou a gorjeta, todos os outros se lançaram à algaravia de sempre.
- Vou dizer que não conheço esse sujeito – informou Arévalo.
- Você não pode deixar só isso – protestou Jimi.
Censuravam-lhe, em tom de brincadeira, a avareza.
Ao partirem animadamente, defrontaram-se com a intempérie. O frio por um instante os emudeceu. Uma névoa vaporosa se difundia em chuvisco e envolvia os faróis num halo branco. Alguém arriscou:
- Essa umidade vai apodrecer os ossos.
Rey, com gravidade, observou:
- Já está provocando pigarros.
De fato, vários haviam tossido. Caminharam pela Calle Cabello, rumo a Paunero e Bulnes. Néstor comentou:
- Que noite!
Em seu apagado tom irônico, Arévalo mencionou:
- Talvez chova.
Dante os fez rir:
- Que me dizem se depois refrescar?
Jimi, o Bastonero, resumiu:
- Brrr.
A vida social é a melhor bengala para avançar pela idade e pelos achaques. Usarei uma frase que eles mesmos empregaram. Apesar das rigorosas condições atmosféricas, o grupo se mostrava afinado. Entre piadas e verdades, mantinham um festivo diálogo de surdos. Os ganhadores falavam do truco e os outros rapidamente respondiam com observações relativas ao tempo. Arévalo, que tinha o dom de ver de fora qualquer situação, inclusive aquelas de que participava, atestou como se falasse sozinho:
- Um divertimento de rapazes. Nunca deixamos de ser assim. Por que os jovens de hoje não entendem isso?
Iam tão absortos nesse divertimento que de início não perceberam o clamor que vinha da passagem El Lazo. A gritaria de repente os alarmou e então notaram que um grupo de pessoas olhava, expectante, para a passagem.
- Estão matando um cachorro – afirmou Dante.
- Cuidado – preveniu Vidal. – Será que não está com raiva?
- Decerto são ratos – opinou Rey.
Cães, ratos e uma enormidade de gatos vagavam pelo lugar, porque ali os feirantes do mercadinho da esquina entornam suas sobras. Como a curiosidade é mais forte que o medo, os amigos avançaram alguns metros. Ouviram, primeiro em conjunto e depois distintamente, xingamentos, golpes, ais, ruídos de ferro e chapas, o arquejo de uma respiração. Da penumbra surgiam à claridade esbranquiçada inquietos e ululantes rapagões armados de paus e ferros, que descarregavam um castigo frenético sobre um vulto estirado em meio às latas e montes de lixo. Vidal entreviu caras furiosas, notavelmente jovens, como que enlouquecidas pelo álcool da arrogância. Arévalo disse disfarçadamente:
- Esse vulto é o jornaleiro don Manuel.
Vidal viu que o pobre velho estava de joelhos, o tronco inclinado para frente, a cabeça destroçada, protegida com as mãos ensanguentadas, cabeça que ele ainda procurava introduzir numa lata de lixo.
- É preciso fazer alguma coisa – exclamou Vidal num grito sem voz – antes que o matem.
- Cale a boca – ordenou Jimi. - Não chame a atenção.
Inflamado porque seus amigos o seguravam, Vidal insistiu:
- Vamos intervir. Vão matá-lo.
Arévalo observou, fleumaticamente:
- Está morto.
- Por quê? – perguntou Vidal, um pouco fora de si.
Em seu ouvido, Jimi murmurou fraternalmente:
- Quietinho.
Jimi deve ter se afastado do lugar. Enquanto o procurava, Vidal descobriu um casal que olhava com desaprovação aquela matança. O rapaz, de óculos, levava livros debaixo do braço; ela parecia uma garota decente. Em busca do apoio moral que tantas vezes encontrou nos desconhecidos da rua, Vidal comentou:
- Que lição!
Ela abriu a bolsa, tirou uns óculos redondos e, sem pressa, os colocou. Ambos voltaram a cara com óculos para Vidal e o olharam, impávidos. Com uma dicção bastante clara, a moça afirmou:
- Sou contrária à qualquer violência.
Sem se deter em considerar a frieza de tais palavras, Vidal tentou conquistar a solidariedade deles:
- Nós não podemos fazer nada, mas a polícia, para que serve?
- Vovô, não é hora de andar discutindo – o rapaz o advertiu num tom quase cordial. – Por que não vai embora antes que lhe aconteça alguma coisa?
Esse apelido injustificado – Isidorito não tinha filhos e ele estava seguro de parecer, apesar da incipiente calvície, mais jovem que seus contemporâneos – talvez o tenha cegado, porque interpretou a frase como um rechaço. Tentou se reunir com o grupo, mas não o encontrou. Afastou-se por fim. Estava um pouco desorientado, sem os rapazes para conversar, para compartilhar seu desgosto.
Chegou à sua casa, em frente à oficina de estofamento de automóveis, na Calle Paunero. O quarto lhe pareceu inóspito. Ultimamente sentia uma invencível propensão à tristeza, que modificava o aspecto das coisas mais habituais. À noite, via os objetos de seu quarto como testemunhas impassíveis e hostis. Tentou não fazer barulho: no cômodo contíguo dormia seu filho, que deitava tarde porque trabalhava na escola noturna. Nem bem se cobriu com a manta, perguntou-se assustado se não passaria a noite em claro. Nenhuma posição lhe convinha. Porque pensava, se remexia; depois dizem que o pensamento não afeta a matéria. Os acontecimentos que seus olhos presenciaram se apresentavam agora com uma nitidez intolerável, e ele se remexia na esperança de que a visão e a lembrança daquilo cessassem. Pouco depois lhe ocorreu, talvez para mudar de assunto, ir ao banheiro; só para garantir e dormir tranquilo. A travessia dos dois pátios, em noites de geada, fazia com que hesitasse; mas não permitiria que uma dúvida sobre a utilidade daquela viagem o deixasse sem dormir.
No meio da noite, quando se encontrava na inóspita dependência dos fundos, - fria, escura, malcheirosa -, costumava se deprimir. Motivos para isso nunca faltam, mas por que incidiam precisamente naquela hora e naquele lugar? Para se esquecer do jornaleiro e de seus assassinos, recordou uma época, hoje inacreditável, em que a própria aventura não estava descartada... O auge chegou na tarde em que, sem saber como, se encontrou nos braços de uma garota chamada Nélida, filha de uma cozinheira, a senhora Carmen, que trabalhava em casas de família do bairro norte. Nélida vivia com sua mãe na segunda sala da frente, onde agora funcionava o ateliê de costura. Por uma simples casualidade, a lembrança do fim deste namorico coincidia com outra, para Vidal dilacerante (não sabia muito bem porquê) e repulsiva, de um velho excitado e bêbado perseguindo com uma grande faca desembainhada a senhora Carmen. De Nélida ele guardava, num baú onde mantinha coisas velhas e relíquias de seus pais, uma fotografia tirada em Rosedal e uma fita de seda desbotada. Os tempos tinham mudado. Se antes se deparava lá nos fundos do cortiço com uma mulher, ambos riam; agora pedia desculpas e se afastava rapidamente, para que não pensassem que era um degenerado ou algo pior. Talvez essa deteriorização de sua posição na sociedade o tornasse nostálgico. O fato era que, de uns meses para cá, talvez anos, havia se entregado ao vício das lembranças; como outros vícios, primeiro divertia e a longo prazo machucava e prejudicava. Refletiu que no dia seguinte estaria muito cansado e apressou a volta ao quarto. Já na cama formulou com relativa lucidez (péssimo sintoma para o insone) a observação: “Cheguei a um momento da vida em que o cansaço não serve para dormir e o sono não serve para descansar”. Revolvendo-se no colchão, recordou novamente o crime que presenciara e, talvez para vencer o desagrado que lhe infundia o cadáver que primeiro tinha visto e que agora imaginava, perguntou-se se o morto seria de fato o jornaleiro. Acometeu-o uma vivíssima esperança, como se o destino do pobre jornaleiro fosse essencial para ele; viu-se tentado a imaginá-lo pelas ruas, correndo e apregoando, mas resistia a essas fantasias por temor à desilusão. Recordou a frase da moça de óculos: “Sou contrária à qualquer violência”. Quantas vezes tinha ouvido aquela frase como se não significasse nada! Agora, no mesmo instante em que dizia “Que menina pretenciosa”, pela primeira vez a entendeu. Vislumbrou então uma teoria sobre a violência, bastante atinada, que lamentavelmente esqueceu em seguida. Ponderou que em noites como aquela, em que daria qualquer coisa para dormir, involuntariamente pensava com o brilho de um artigo de jornal. Quando os pássaros cantaram e nas pequenas frestas, apareceu a luz da manhã, aborreceu-se de verdade porque tinha perdido a noite. Naquele momento dormiu.

* Clube do norte de Buenos Aires, fundado em 1910. A última vez que disputou o campeonato da primeira divisão foi em 1924. (N.T.)

** Em tradução literal: “E se o dinheiro se acaba / Nem por isso me arruíno / Se esta noite perco no truco / Amanhã ganho na taba”. Taba é um jogo em que se atira ao alto um osso de carneiro, ou um objeto similar, e se ganha ou se perde de acordo com a posição em que venha a cair. (N.T.)

(Trecho do primeiro capítulo de Diário da Guerra do Porco, de Adolfo Bioy Casares, tradução de José Geraldo Couto, editora Cosac Naify.)


ROBERTO JUARROZ

Nascido em 1925, este poeta e ensaísta dirigiu a revista Poesía=Poesía, de 1958 a 1965, onde mostrou seu trabalho como poeta e tradutor de poesia. Todos os seus livros têm o mesmo título: Poesia vertical. Diferem apenas em sua numeração: Primeira Poesia vertical, segunda, terceira e assim por diante. Morreu em 1995.

 
2

Morreremos todos,
todos quantos nos olhamos, de frente ou de soslaio,
tocado ou conversado ou esquecido.
Morreremos um a um, francamente,
deste grande impossível que é a morte.
Também morrerá a cor negra de meu cão,
a cor branca de sua voz,
a cor oca deste dia.
Enquanto isso
faremos uma coisa ou outra,
já não tão francamente,
—e que importa o que faremos?
Daria no mesmo
se meu cão fosse de cor branca,
que tua voz fosse negra
ou que este dia nos tingisse de deus.
Ou talvez não seja o mesmo
e aí é quando começa a questão.


11

Não. Hoje não quero falar da morte.

Quero simplesmente dizer algo
de um caminho debaixo d’água,
de um cego cuja cegueira cresce
e de uma mão calosa
em minha mão estranhamente nua.

Quero mirar os olhos dos peixes
e o lugar de teu sonho
quando a morte colecionar encontros.

Ela brinca de esconder com o homem
e hoje eu quero brincar de abrir a porta.

(Tradução de Antonio Miranda. Do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html )

ARTURO CARRERA
(1948)
Partindo do circunstancial, do real mais familiar, Carrera atinge o inesperado: a poesia.


VESPERTÍLIO DE JULHO

Ouço os gatos
... caem nesta aparência macia e sonora
que não deveria reconhecer como ‘noite’.

Neste ponto imóvel está a dança:
no quadrado de gesso do teto rebaixado,
do meu quarto acústico, frio, aqui em Pringles, às
2.44 AM. Não há precisão que chegue!

Só um golpe delicado,
as patas dianteiras sobre o piche seco
do teto da casa,
único sinal do começo.

E ali iniciam o itinerário que ignoro,
que nunca vou conhecer.
(... no silêncio avarento, mesmo assim,
com outros ruídos mesquinhos,
menos decididos e quase ‘traidores’
do meu ouvido que não pode
decifrar).

Os gatos neste ponto já fugidio...

E depois de alguns instantes,
reconhecida a rotina maravilhosa

onde andarão?

a quem mais entregarão
seu indiferente presságio?

enchem de sentido
minha falsa noção de ‘casa’?

(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Sérgio Alcides, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)
 

RICARDO GÜIRALDES
– DON SEGUNDO SOMBRA
O nome da obra aqui vai junto ao nome de seu autor pois seu título ficou muito mais famoso. Ela e o poema Martín Fierro são considerados dois pilares da literatura argentina. Don Segundo Sombra vai mostrar o habitante do pampa, o gaúcho, como um personagem lendário, que vai formar as bases da nacionalidade argentina.


DON SEGUNDO SOMBRA

[...]

E essa tarde eu ia sofrer o pior golpe.
Olhei o relógio. Eram cinco. Montei a cavalo e fui para o lado da estrada, onde acharia meu padrinho. Tornava-se já impossível retê-lo, depois de tanta insistência inútil. Ele era feito para se ir sempre, e três anos de permanência num lugar tinham-no saturado de imobilidade. Demasiado sentia eu em mim a absorvente sugestão de todo caminho, para deixar de compreender que em Dom Segundo trilha e vida eram uma só coisa. E ter-me de ficar!
Saudamo-nos como sempre.
Juntos, ao tranco, fizemos uma légua pela estrada. Entramos num potreiro para cortar campo, e chegamos até a lomba chamada del Toro Pampa, onde tínhamos combinado nos despedir. Não falamos. Para quê?
Sob o tato de sua mão rude, recebi um mandado de silêncio. Tristeza era covardia. Tornamos a nos desejar, com um sorriso, a melhor das sortes. O cavalo de Dom Segundo deu a anca ao meu e figurei naquela divergência de direções tudo o que ia separar nossos destinos.
Vi-o distanciar-se ao tranco. Meus olhos dormiam no familiar de suas atitudes. Um tempo ignorei se o via ou evocava. Sabia como levantaria o rebenque, abrindo um pouco a mão, e como atiraria o corpo, incitando o arranque do galope. Assim foi. O trote da transição sacudiu-lhe o corpo como uma alegria. E foi o compasso conhecido dos cascos trilhando a distância: galopar é reduzir lonjura. Chegar não é, para um tropeiro, mais que um pretexto de partir.
Pelo caminho, que fingia um arroio de terra, cavalo e ginete galgaram a lomba, derramados no cardal. Por um momento, a silhueta dupla perfilou-se nítida sobre o céu sulcado por um verdoso raio de entardecer. Aquilo que se distanciava era mais uma ideia que um homem. E bruscamente desapareceu, ficando minha meditação separada de seu motivo.
Disse-me: “Agora vai baixar pelo lado da canhada. Só quando cruze o rio vê-lo-ei assomar no segundo repecho”. O anoitecer vinha lento, seguro, como quem não está preocupado com um resultado duvidoso. Umas nuvens tênues faziam longas estrias de luz.
A silhueta reduzida de meu padrinho apareceu na lombada. Pensei que era muito ligeiro. Não obstante, era ele, sentia-o porque, apesar da distância, não estava longe. Minha vista fixava-se energicamente naquele pequeno movimento no pampa sonolento. Já ia chegar ao alto do caminho e desaparecer. Foi-se reduzindo como se o cortassem por baixo em repetidos talhos. Sobre o ponto negro do chapéu, meus olhos aferraram-se, como para fazer perdurar aquele momento. Inútil, algo nublava os meus olhos, talvez o esforço, e uma luz cheia de pequenas vibrações estendeu-se sobre a planura. Não sei que estranha sugestão me propunha a presença ilimitada de uma alma.
“Sombra”, me repeti. Depois pensei quase violentamente em meu pai adotivo. Rezar? Deixar simplesmente fluir minha tristeza? Não sei quantas coisas se amontoaram em minha solidão. Mas são coisas que um homem jamais confessa.
Concentrando minha vontade na execução de pequenos feitos, dei de rédeas a meu cavalo e, lentamente, fui para casa.
Me fui como quem se dessangra.

               FIM

La Porteña, março de 1926.

(Trecho final de Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes, tradução de Augusto Meyer, Editora L&PM.)

                                         Astor Piazzolla toca Adiós, Nonino, no Teatro Colón.


JOSÉ HERNANDEZ
- MARTIN FIERRO

Segundo pilar da literatura argentina, Martín Fierro realiza em verso o que Don Segundo Sombra faz em prosa: são 395 estrofes em sextilhas retratando a vida do gaúcho, desde seus aspectos sociais até sua linguagem, presente nos próprios versos do poema. O livro foi publicado em duas partes. A primeira em 1872, com o título El gaucho Martín Fierro, e a segunda em 1879, que se chamou La vuelta de Martín Fierro.

" [...] manipulando elementos simples, ao gosto do povo, Hernández construiu efetivamente para a eternidade".
          Guilhermino Cesar


MARTIN FIERRO

CANTO I

1.
Aqui me ponho a cantar
ao compasso da viola,
que o ser a quem desconsola
uma dor extraordinária,
como a ave solitária,
cantando é que se consola.

2.
Imploro aos santos do céu
que amparem meu pensamento;
peço que, neste momento
em que canto minha história,
me refresquem a memória
e aclarem o entendimento.

5.
Onde outro paisano passa,
Martim Fierro há de passar:
nada o fará recuar,
nem os fantasmas o espantam.
E, uma vez que todos cantam,
também eu quero cantar.

6.
Cantando quero morrer,
cantando me hão de enterrar,
e cantando hei de chegar
à porta"do Padre Eterno;
pois desde o ventre materno
vim ao mundo pra cantar.

9.
Cantor letrado não sou,
mas se me ponho a cantar
meu canto não tem final
e fico velho cantando:
os versos me vão brotando
qual água em manancial.

14.
Sou gaúcho, e entendam bem
como a minha lingua explica:
pra mim o chão não se estica,
podia ser bem maior;
nem a víbora me pica,
nem me queima o rosto o sol.

16.
Minha glória é viver livre
como o pássaro no ar;
no chão não vou me aninhar,
onde há tanto que sofrer,
e ninguém me há de seguir
quando eu voltar a voar.

17.
No meu coração não cabe
quem me venha com querelas
como tantas aves belas
que saltam de rama em rama:
no treval estendo a cama
e me cobrem as estrelas.

18.
E saibam, quantos escutem
do meu sofrer o relato,
que não guerreio nem mato
senão por necessidade;
rolei na adversidade,
tangido pelo mau trato.

19.
E atentem na relação
de um gaúcho perseguido
que foi bom pai e marido
empenhado e diligente;
entretanto, muita gente
o considera um bandido.

HERNÁNDEZ, José. Martin Fierro. Tradução de Leopoldo Jobim. Caxias do Sul: Universidade de Caxias do Sul; Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980. 103 p.

(Retirado do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html )


ALAN PAULS
Nascido em Buenos Aires em 1959, Alan Pauls escreve novelas, ensaios, contos e roteiros para cinema. Sua novela O Passado foi adaptada para as telas por Hector Babenco.

                                              Alan Pauls fala sobre A História do Cabelo.
 

A HISTÓRIA DO CABELO
[...]

Não poderia responder. Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como outros pensam na morte. Não assim de repente, ah, o cabelo! Não, ele não descobre algo cuja existência ignorava. Sempre soube que o cabelo está ali, entocado em algum lugar, mas pôde viver perfeitamente sem levá-lo em conta, sem torná-lo presente. Não descobre uma experiência, mas uma dimensão; não algo que sua vida não tivesse incluído até então: algo que já estava nele, trabalhando-o em silêncio, com uma paciência de ruminante, à espera do momento oportuno para acordar e emitir os primeiros sinais de uma vida visível. A morte é um exemplo clássico. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É algo que se sabe: uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida e acaba passando despercebida. Assim por anos a fio. Até que de repente aparece e reivindica o que é seu. Um conhecido sofre um ataque enquanto dirige e a cadeira que duas semanas depois estava reservada para seu jantar de aniversário fica vazia para sempre. Alguém próximo se queixa de uma dor insignificante ao engolir e dias depois o médico que anota numa ficha o relato que lhe faz do episódio para de escrever e levanta a cabeça e olha para ele franzindo o cenho. De repente algo se precipita e se consolida: o que era invisível e sigiloso se torna material, de pedra, ineludível, um obstáculo escuro que não chega a bloquear totalmente o caminho mas contra o qual não há jeito de não tropeçar, e que, intruso vigilante, começa a aparecer em todas e em cada uma das fotografias que tiramos quando brincamos de imaginar nosso futuro.

Dos dois ramos em que se divide sua família, paterno e materno, ramo calvo e ramo cabeludo, respectivamente, ele sem dúvida pertence ao segundo. Sabe disso antes dos vinte anos. Seu pai não completara vinte e quatro e duas ferozes entradas já invadiam os lados de sua cabeça como línguas de mar num continente. Seu irmão mais velho emigra do segundo para o terceiro colegial sem ficar de exame em nenhuma matéria, e quando pensa que a única mudança que a vida radiante que tem pela frente sofrerá é a que experimenta no momento a biblioteca de seu quarto, que da noite para o dia vê desaparecer os libretos de ópera e florescer em seu lugar uma coleção de caderninhos de turfe, uns e outros, embora pareça mentira, idênticos no formato, número de páginas e nos esforços mnemotécnicos que lhe exigem, num caso para cantar uma ária em uníssono com o barítono, no outro para ir até o guichê e apostar sem a menor hesitação, com a genealogia de seu potrilho fresca na cabeça, descobre-se agachado sob o chuveiro, tendo de destampar o ralo de algo que ele primeiro pensa que é uma folha de plátano que entrou pela janela e depois descobre que é cabelo, cabelo que antes de entrar debaixo da ducha fazia parte de sua cabeça e que agora o único remédio será jogá-lo fora, não importa a repulsa que lhe causam os dejetos orgânicos quando ficam lado a lado com os industriais, no cesto de lixo do banheiro, o mesmo onde já agonizam pedaços de papel higiênico, uma lâmina de barbear usada, band-aids, um par de algodões manchados com a loção adstringente que usa para secar as espinhas do rosto. Assim são as coisas. Outro irmão, menor que ele, acorda ao meio-dia depois de uma noite animada por uma agradável série de escaramuças solitárias e, depois de verificar os rastros que seus hormônios de adolescente tardio deixaram nos lençóis, comprova os dois minúsculos restos de cabelo que ficaram grudados nos cantos do traveseiro como aspas em sua cabeça enquanto ele a perdia entre a confusão de pernas e braços da alegre orgia de uma noite em branco da qual não consegue se lembrar de nada.

Carecas, todos. Irremediavelmente carecas antes mesmo de cruzarem o umbral que os tornará homens. A ele, em compensação, coube ter cabelo. Ou melhor: tem cabelo demais. É verdade que durante um tempo ele fica aflito com o medo de ser imberbe, e que sua profusão de cabelo loiro e liso de pouco lhe adianta quando o que está em questão – nessa olimpíada de proezas corporais que é a adolescência – não são as cabeças, mas os corpos, em particular peito, axilas, pernas, zona púbica. Principalmente a zona púbica. Volta e meia se pergunta que vantagem lhe traz aquilo que seu avô sempre chama pejorativamente de juba na hora de entrar no vestiário do clube, esse teatro azulejado de tormentos, sem outra coisa para exibir a não ser uma pele lisa, polida, tão livre de pelos quanto a de um golfinho. Talvez o muito que tem em cima tenha relação com o pouco que tem embaixo, pensa em algum momento. Pensa nisso menos para se tranquilizar – porque a hipótese é abstrata demais para aliviar o peso que sente toda vez que participa dessas rodas de reconhecimento que acontecem nas duchas – do que para conferir à sua singularidade um lugar em alguma parte, numa frase que seja, algo que possa repetir em silêncio, para si, quando necessário, como um mantra, e se acalmar. Além do mais, é questão de tempo, e tudo o que é questão de tempo, como ele logo descobre, resolve-se fazendo hora.

Tem tanto cabelo, saindo pelo ladrão, como se diz, que em determinado momento se dá ao luxo por excelência: renúncia à lisura. Não sabe, mas é sua maneira de se proletarizar. Começam os anos 70 e milhares e milhares de filhos da classe média e média alta, da burguesia e até da alta burguesia, abdicam do dia para a noite dos tronos que lhes cabem de nascença, rejeitam por vontade própria os privilégios que gozaram, abandonam os lares confortáveis, os bairros caros, as empregadas, o rúgbi, os táxis, as viagens, as roupas de grife, o estudo de línguas estrangeiras, todas as frivolidades que até então formam o meio no qual viveram e respiraram, de manhã parte indissociável do que são, selo de identidade e fonte de satisfação e prazer, de noite emblema de violência, indignidade, exploração desumana, e se mudam para morar em favelas, bairros carentes, pombais de subúrbios sórdidos, sem iluminação nem água potável, de ruas de terra, onde se mimetizam e aprendem, segundo uma técnica que décadas mais tarde outros chamarão de imersão, as regras de vida das classes exploradas cujos destinos se propõem a mudar. Ele, aos onze, doze, do que iria abdicar senão do trono de seu cabelo? De sua coleção de revistas em quadrinhos? De seu exemplar detonado de Tintim no país do ouro negro? Das duas Rotring 0.2, uma mortalmente desidratada, com as quais desenha umas piadas gráficas que nunca fizeram ninguém rir? Nada do que usufrui lhe pertence. Nem mesmo o direito de usufruir. Já o cabelo... Em seu caso, não se trata apenas de uma condição excedentária. Ele também intui, sem dúvida instigado pela época, o quanto um cabelo loiro e liso como o dele, que ele deu por certo até então de um modo natural, sem fazer muitas perguntas, como outros dão por certo a cor dos olhos com que nascem ou o tamanho dos sapatos que calçam, no mercado geral do povo, no entanto, deixa de ser só mais um cabelo, um entre outros, um como outros, e se transforma num cabelo melhor, superior, desejável, como uma daquelas moedas que, acostumadas a passar despercebidas, caem de repente num sistema onde são escassas e veem sua cotação disparar até as nuvens. O cabelo é sua riqueza, seu ouro, seu lingote. O resto talvez seja pura sensibilidade de época, ou simples oportunismo. O país se agita. Se resta nele algum lugar para os cabelos lisos, não resta nada sem dúvida ao louro, cor burguesa, cor de sipaio por excelência. Restará, no máximo, ao moreno, negro azeviche, o modelo crioulo ou dos subúrbios, que às vezes vem acompanhado de um bigode à escovinha, e, apesar disso, anda de mãos dadas com a turma, o grêmio, a assembleia sindical, a militância radicalizada.

(Trecho de A História do Cabelo, de Alan Pauls, tradução de Josely Vianna Baptista, Editora Cosac Naify.)


MARIA DEL CARMEM COLOMBO
(1950)

O que seria descrição se abre no estranho humor – quase sarcasmo - da poesia em versos e em prosa da autora.

*
São chinesas as três meninas, pintadas pelo fino pincel de um copista oriental. Olhos como gretas fitam a cena da mãe lavando o quimono no tanque do pátio. Os olhares finitos raiam as olheiras da mãe, imitação da sombra de uma árvore exótica. Desenham-lhe persianas fechadas para protegê-la de um sol de sesta, insuportável.

A alma chinesa da família se enche como uma bacia portenha ao compasso dos ditados maternais da água. E as três meninas se lembram, em uníssono, dos buracos deixados pelas balas. Os buracos da recordação, multiplicados por três, mancham com o sangue do pai o quimono que a mãe lava, infinitamente, dentro do tanque de suas próprias olheiras.

(Da antologia bilíngue Puentes/Pontes – poesia argentina e brasileira contemporânea. Tradução de Sérgio Alcides, seleção e ensaio introdutório de Heloisa Buarque de Hollanda. Editora Fondo de Cultura Económica.)


ALDO PELLEGRINI
(1903-1973)

“A voz do poeta, ao expressar-se a si mesmo, é também expressão autêntica de seu tempo, no que tem de mais profundo, no essencial. O verdadeiro poeta é sempre atual, pertence à sua época. Pertence à sua época não na revelação do anedótico, do documentário, mas sim como representante das aspirações de um homem colocado em determinado instante do acontecimento.”

Aldo Pellegrini (trecho de La universalidad de lo Poético, conferência pronunciada no Instituto Francês de Línguas Superiores. Buenos Aires, 18/5/52.)
 

Noite imperfeita

O canto
nasce do sangue do coração noturno
os pássaros passeiam
por entre gatos fosforescentes
nesta noite imperfeita as ruas formigam
de multidão de camelôs que vendem
brilhantes porvires
os ratos
roem perversamente a pálida mãe dos pássaros
há incêndios circulares e um corpo imóvel
que aprisiona inumeráveis explosões de fuga
todos se afastam quando a existência palpitante
avança pelo centro da rua
o espantoso pulular dos ratos
apaga a estranha fosforescência da noite
pássaros
cristal noturno
corpo imóvel
reclina-se o incêndio apagado.

(Retirado do livro O Começo da Busca – o Surrealismo na Poesia da America Latina, organização e tradução de Floriano Martins. Editora Escrituras.)

ENRIQUE MOLINA
(1910-1996)

“Em minha infância vivi no campo e creio que a vocação poética nasce de uma espécie de sabedoria inconsciente para receber a mensagem fascinante das coisas; a música misteriosa do mundo. A infância é o momento inicial da poesia. Seu campo de cultivo.
[...]
O poeta, diz Hölderlin, é o que corre até a catástrofe. Até qual catástrofe? À trágica consciência de nossa condição, instalados em uma realidade que não é a real e em um mundo infinitamente devorador.”

Enrique Molina (trechos de conferência pronunciada no Festival Internacional de Arte. Cali, Colômbia, abril de 1993.)

A maleta de pele de pássaro

Algumas coisas atraídas pelo horizonte
Retornam a antigos lugares para decifrar as ideias
          melancólicas
Ou nos arrastam como o trem em ruínas envolto
          em veludo de flancos ardentes dilacerados pela
                    ferocidade da lembrança
Com criaturas de vulcão impassível ou estepe em
          que se ocultam múmias
Passando de mão em mão a negra brasa da distância
O trem afogado lento com orelhas de chuva
O trem de grossas veias de cinza
Arrastando entre sonhos sua voz que soletra
          velhas cartas de amor com a mesma loucura
Enquanto corre até o túnel de ramos do inverno
Céu de lama e ferro do esquecimento

Uma mulher de olhar empoeirado mostra-se
          ao cristal
Despeja o azeite noturno em um farol de
          luz verde como a esmeralda da juventude que
                    se perde ao longe
Sua cabeleira ventania na névoa
É o torvelinho de neve de borboletas sobre uma
          jovem em trenó dentro dessas esferas
                    inesquecíveis que agitam as crianças
Viajante de perfume viajante de suspiro viajante
          de lamento
Viajante de soluço de lua nas pedras
Deslizando entre duas imensas carrancas solitárias
          em meio ao páramo separadas entre si pelo raio
Figuras de proa de abismo:
Uma do lado das coisas impossíveis infinitamente
          terna
A outra do lado da paixão jamais vivida
E sempre esse apito de trem com rodas
          de roseira calcinada
O trem de vagos lábios que sorriem
Sempre esse sal de chuvas nas lágrimas
O trem que se desfaz o trem de plumas
Rodando tristemente pela fumaça da alma

Tal é a velha máquina de fogo
Que alimenta a velocidade do tempo através
          de todo latejo
E os vagões atapetados de musgo com um
          assento abandonado
Onde viaja um vazio vestido de mulher de
          lã verde quadriculado
Descolorido nos lugares onde a nostalgia apoiou
          sua cabeça
O trem de colares errantes
O trem de primavera nômade que se desfaz
          em uma chuva negra invisível na terra
Jorrando aos borbotões o sangue das canções
          esquecidas:
“Não preciso de silêncio, já não tenho em
          quem pensar”
Ao longo das ribanceiras selvagens idênticas a beijos
Junto aos índios de mel gelado apostados à
          borda de suas tumbas
No país construído como uma enorme palhoça de
          cristal e treva purificado pelos ácidos
                    da tormenta
O trem de pesados penhascos que fecham
          uma porta
O trem de adeus de luz inenarrável

(Um gemido um encontro podem levar muito mais
Longe. A realidade destes delírios que invocas)


(Retirado do livro O Começo da Busca – o Surrealismo na Poesia da America Latina, organização e tradução de Floriano Martins. Editora Escrituras.)


RODOLFO WALSH
(1927-1977)

Jornalista, militante político e escritor, Walsh surge com o livro Operação Massacre (lançado no Brasil pela Companhia das Letras), uma obra de jornalismo político e investigativo que revela a farsa de um fuzilamento de homens acusados de uma tentativa de golpe militar - pretexto para o endurecimnento do regime em 1956. Mais tarde ele se filia ao grupo Montoneros e termina por ser assassinado pelos militares ao resistir à prisão. Seu livro Essa Mulher e Outros Contos – reunião de 12 narrativas - é sua principal obra literária e também traz um forte viés político, como é o caso do primeiro conto que dá nome ao livro: “Essa Mulher”, onde o paradeiro do cadáver de Evita Perón é discutido numa conversa entre um jornalista e um corornel da repressão. A Editora 34, que lançou Essa Mulher e Outros Contos, também publicou Variações em Vermelho, cinco contos policiais de Walsh.


ESSA MULHER

[...]

O coronel elogia minha pontualidade:
— Pontual como os alemães — diz.
— Ou como os ingleses.
O coronel tem sobrenome alemão. É um homem corpulento, de cabelos brancos, rosto largo, queimado de sol.
— Tenho lido suas coisas — declara. — Meus parabéns.
Enquanto serve dois grandes copos de uísque, vai informando, como ao acaso, que está há vinte anos no serviço de informações, que estudou filosofia e letras, que é um curioso da arte. Não frisa nada, simplesmente vai demarcando o terreno onde podemos operar, uma zona vagamente comum.
Pelo janelão do décimo andar se avista a cidade ao entardecer, as luzes pálidas do rio. Daqui é fácil amar Buenos Aires, ao menos por um instante. Mas não é nenhuma forma concebível de amor o que nos reuniu.
O coronel está à procura de certos nomes, de certos papéis que eu poderia ter. Eu estou à procura de uma morta, de um ponto no mapa. Ainda não é uma busca, é apenas uma fantasia: o tipo de fantasia perversa que muitos suspeitam que eu possa ter.
Um dia (penso em momentos de ira) irei procurá-la. Ela não significa nada para mim, e no entanto irei atrás do mistério de sua morte, atrás de seus restos que apodrecem lentamente em algum remoto cemitério. Se a encontrar, novas grandes ondas de cólera, medo e frustrado amor se erguerão, poderosas vingativas ondas, e por um momento já não me sentirei sozinho, já não me sentirei como uma arrastada, amarga, esquecida sombra.
O coronel sabe onde ela está.
Move-se com desenvoltura no apartamento de móveis aparatosos, enfeitado de marfins e bronzes, pratos de Meissen e de Cantão. Sorrio diante do Jongkind falso, do Figari duvidoso. Penso na cara que ele faria se eu lhe dissesse quem fabrica os Jongkind, mas em vez disso elogio seu uísque.
Ele bebe com vigor, com saúde, com entusiasmo, com alegria, com superioridade, com desprezo. Seu rosto muda sem parar, enquanto suas mãos gordas giram o copo lentamente.
— Esses papéis — diz.
Olho para ele.
— Essa mulher, coronel.
Sorri.
— Tudo se encadeia — filosofa.
Um vasinho de porcelana de Viena tem um lascado na base. Uma luminária de cristal está trincada. O coronel, com os olhos brumosos e sorrindo, fala da bomba.
— Eles a explodiram aí no corredor. Acham que a culpa é minha. Nem imaginam tudo o que fiz por eles, esses porcos.
— Muito estrago? — pergunto. Estou pouco me fodendo.
— Bastante. Minha filha. Tive que colocá-la nas mãos de um psiquiatra. Tem doze anos — diz.
O coronel bebe, com ira, com tristeza, com medo, com remorso.
Entra a mulher dele, trazendo duas xicrinhas de café.
— Conta você, Negra.
Ela se retira sem responder; uma mulher alta, orgulhosa, com um ricto de neurose. Seu desdém fica pairando como uma nuvem de poeira.
— Coitada, ficou muito abalada — explica o coronel. — Mas para o senhor isso não tem a menor importância.
— Imagine se não tem importância!... Ouvi dizer que, depois daquilo, o capitão N e o major X também sofreram desgraças.
O coronel solta uma risada.
— É a fantasia popular — diz. — Veja como funciona. No fundo não inventam nada. Só o que fazem é repetir.
Acende um Marlboro, deixa o maço ao meu alcance, sobre a mesa.
— Me conte uma piada qualquer — diz.
Penso. Não me lembro de nenhuma.
— Uma piada política, qualquer uma, a que o senhor quiser, e eu provo que já foi inventada há vinte anos, cinquenta anos, um século. Que foi usada depois da derrota de Sedan, ou a propósito de Hindenburg, de Dollfuss, de Badoglio.
— E neste caso?
— A maldição de Tutancâmon — diz o coronel. — Lord Carnarvon. Lixo.
O coronel enxuga o suor com a mão gorda e peluda.
— Mas o major X teve mesmo um acidente, matou a própria mulher.
— Que mais? — diz, fazendo o gelo tilintar no copo.
— Deu um tiro nela de madrugada.
— Porque a confundiu com um ladrão — sorri o coronel.
— Acontece.
— Mas o capitão N...
— Bateu o carro, qualquer um pode bater, ainda mais ele, que quando está de fogo não enxerga um poste a um palmo do nariz.
— E quanto ao senhor, coronel?
— Meu caso é diferente — diz. — Estou jurado.
Levanta-se, dá uma volta em torno da mesa.
— Acham que a culpa é minha. Esses porcos não sabem tudo o que fiz por eles. Mas um dia a história há de ser escrita. Quem sabe o senhor a escreve.
— Gostaria muito.
— Aí vou ficar limpo, vou ficar bem. Não que eu me importe em ficar bem com esses porcos, mas perante a história, entende?
— Quem dera dependesse de mim.
— Andavam rondando. Até que uma noite um deles criou coragem. Deixou a bomba aí na frente e saiu correndo.
Mexe numa cristaleira, pega uma pequena imagem de porcelana policromada, uma pastora com um cesto de flores.
— Olhe.
A pastora tem um bracinho quebrado.
— Derby — diz. — Duzentos anos.
A pastora se perde entre seus dedos repentinamente carinhosos. O coronel exibe uma careta de ferro no rosto noturno, dolorido.
— Por que eles acham que a culpa é sua?
— Porque fui eu que a tirei de onde ela estava, o que é verdade, e a levei para onde está agora, o que também é verdade. Mas o que eles não sabem é o que queriam fazer com ela, esses porcos não sabem de nada, e não sabem que fui eu quem impediu.
O coronel bebe, com ardor, com orgulho, com bravura, com eloquência, com método.
— Porque eu estudei história. Posso ver as coisas em perspectiva histórica. Eu li Hegel.
— O que queriam fazer com ela?
— Lançar no fundo do rio, atirar de um avião, queimar e jogar as cinzas na privada, dissolver em ácido. Quanto lixo temos que ouvir! Este país está coberto de lixo, ninguém sabe de onde sai tanto lixo, mas estamos com ele até o pescoço, todos nós.
— Todos mesmo, coronel. Porque no fundo concordamos, não é? Chegou a hora de destruir. É preciso quebrar tudo.
— E urinar em cima.
— Mas sem nenhum remorso, coronel. Brandindo com alegria a bomba e a picana. Saúde! — digo, erguendo o copo.
Não responde. Estamos sentados perto da janela. As luzes do porto brilham: azul-mercúrio. De quando em quando se ouvem buzinas de automóveis, arrastando-se ao longe como vozes de um sonho. O coronel é apenas a mancha cinza de seu rosto sobre a mancha branca de sua camisa.
— Essa mulher — o escuto murmurar. — Estava nua no caixão e parecia uma virgem. Sua pele tinha ficado transparente. Dava para ver a metástase do câncer, como um desenho num vidro embaçado.
O coronel bebe. É forte.

(Trecho de Essa Mulher e Outros Contos, de Rodolfo Walsh, Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni, Editora 34.)


ALFONSINA STORNI
(1892-1938)

Filha de pais argentinos, a poeta Alfonsina Storni nasce na Suíça e volta a seu país aos 4 anos. Trabalhou como costureira, atriz e professora. Em 1935, descobre que está com câncer de mama e em 1938 suicida-se entrando no mar. Seu último soneto chama-se “Voy a Dormir”. A cantora Mercedes Sosa gravou a canção Alfonsina y El Mar, que fala deste episódio.

“Alfonsina Storni faz parte deste bloco de escritoras que enfraqueceram o discurso patriarcal. Através de seus versos começaram a enraizar na sociedade idéias para combater a opressão, ajudando a desenvolver uma consciência coletiva na qual a mulher deveria libertar tudo o que em sua alma estava aprisionado durante séculos e mostrar para a sociedade o que era e o que realmente queria uma mulher.”

Karina da Rocha Oliveira

BEM PODE SER

Bem pode ser que tudo o que em meu verso hei sentido
Não seja mais que aquilo que nunca pôde ser,
Não seja mais do que algo vedado e reprimido
De família em família, de mulher em mulher.

Dizem que nos solares dos meus, sempre medido
Estava tudo aquilo que se tinha a fazer...
Silenciosas dizem que as mulheres hão sido
Em meu materno lar. Ah, sim, bem pode ser...

Às vezes minha mãe terá sentido o anseio
De liberar-se, e logo viu subir-lhe do seio
Uma funda amargura, e na sombra chorou.

E tudo de mordaz, vencido, mutilado,
Tudo o que se encontrava em sua alma guardado,
Creio que sem querer fui eu quem libertou.

(Tradução de José Jeronymo Rivera. Do site “Portal de Poesia Ibero-Americana”, organização de Antonio Miranda: http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/poesia_de_iberoamerica.html)

VOU DORMIR

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

(Tradução de Héctor Zanetti. Do blog A Voz da Poesia - http://www.avozdapoesia.com.br/alfonsinastorni/obra.php )

                           Mercedez Sosa canta Alfonsina y el Mar, de Ariel Ramirez  e Felix Luna. 

ROBERTO ARLT
(1900-1942)

“Um dia, Juan C. Martini Real mostrou-me uma série de fotos do velório de Roberto Arlt. A mais impressionante era uma cena do féretro pendurado de umas cordas e suspenso sobre a cidade. O ataúde tinha sido montado dentro do seu quarto, mas foi preciso tirá-lo pela janela com cabos e roldanas porque Arlt era grande demais para passar pelo corredor.
Esse féretro suspenso sobre Buenos Aires é uma boa imagem do lugar de Arlt na literatura argentina. Morreu aos quarenta e dois anos e sempre será jovem, e sempre estaremos tirando seu cadáver pela janela. O maior risco que sua obra corre hoje em dia é o da canonização. Até agora, seu estilo o salvou de ir parar no museu: é difícil neutralizar essa escritura, frontalmente oposta à hipercorreção que define o estilo médio da nossa literatura.
[...]
Arlt é o mais contemporâneo de nossos escritores. Seu cadáver continua sobre a cidade. As roldanas e as cordas que o sustentam fazem parte das máquinas e das estranhas invenções que empurram sua ficção para o futuro.”

Ricardo Piglia, na apresentação do livro de contos As Feras, de Roberto Arlt, tradução de Sérgio Molina, Editora Iluminuras.


AS FERAS

Não vou te dizer como fui afundando, dia após dia, entre os homens perdidos, ladrões e assassinos e mulheres que têm a pele do rosto mais áspera que cal estorricada. Às vezes, quando reconsidero as latitudes a que cheguei, sinto que em meu cérebro se movem grandes telas de sombra, caminho como um sonâmbulo e o processo de minha decomposição parece engastado na arquitetura de um sonho que nunca aconteceu.
No entanto, há muito tempo que estou perdido. Faltam-me as forças para escapar desta engrenagem preguiçosa, que na sucessão das noites me submerge mais e mais nas profundezas de um apartamento prostibular, onde outros pavorosos entediados como eu seguram entre dois dedos um leque de cartas e movem com desânimo fichas pretas ou verdes, enquanto o tempo cai com gotejo de água na poça imunda de nossas almas.
Nunca falei de ti a nenhum dos meus companheiros. Para quê?
A única que sabe de tua existência é Tacuara. Apertando no bolso um bolo de dinheiro, entra no quarto depois das quatro da madrugada. O cabelo de Tacuara é liso e retinto; os olhos oblíquos e planos; a cara redonda e como que empoada de carvão, e o nariz chato. Tacuara tem um defeito: a leitura da “Vida Social”; e uma virtude: a de agradar os carregadores de laranja e homens da ribeira de San Fernando.
Ela prepara o mate enquanto eu, escarrapachado na cama, penso em ti, a quem perdi para sempre.
O difícil é te explicar como fui afundando dia após dia.

[...]

Tardes de chuva desbaratadas em longas rodas de mate, a vitrola num canto, a bandeja de biscoitos largada entre potes de brilhantina. Se a mulher faz a rua, a infalível despedida às quatro, o “até logo, querido”, o “cuidado com os tiras, guria” e a mulher que no instante da despedida sempre tem um gesto estranho, quase doloroso no começo do ofício e que mediante um esforço da vontade recobre seu rosto com uma máscara de impassibilidade transformando-se imediatamente em outra, misturando-se aos transeuntes com o tardo passo da perdida. Imediatamente passa pela nossa cabeça esta preocupação: “Aposto que hoje ela vai em cana”, ou “Será que hoje não é a última vez que a vejo?”
Por isso, quando no silêncio que guardamos junto à mesa do café, treme a campainha do telefone, um sobressalto move as cabeças, e se não é para nós, sob as luzes brancas, vermelhas ou azuis, Unha de Ouro boceja e Guillermito o Ladrão rosna uma injúria, e entra em nossos olhos um negror que nem as ruas mais têm em suas profundezas de barro, enquanto atrás da espessura da vidraça que dá para a rua passam mulheres honestas de braço dado com homens honestos.

(Trechos inicial e final do conto As Feras, de Roberto Arlt, do livro As Feras, tradução de Sérgio Molina, Editora Iluminuras.)


POESIA ARGENTINA CONTEMPORÂNEA

                                          
                                      
(Vários poetas. Fonte: You Tube.)

 
PRÊMIO HANS CHRISTIAN ANDERSEN 2012
VAI PARA ESCRITORA ARGENTINA

María Teresa Andruetto ganhou o prêmio que é considerado o “Nobel” da literatura infantil. Anteriormente na América Latina somente dois brasileiros alcançaram essa premiação: Ligia Bogunga Nunes, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000.

“Você escreve com o que tem. Histórias são experiências que precisam ser compartilhadas depois de terem sido lavadas pelas águas do tempo.”

Fundadora do Centro de Difusão e Investigação de Literatura Infantil e Juvenil, em Córdoba, onde vive, María Teresa participa de programas que ajudam crianças em situação de risco no aprendizado da leitura e da escrita.

“Cresci numa casa cheia de livros, mas o mais importante para meu desenvolvimento como escritora foram as histórias familiares repetidas muitas vezes durante o jantar.”

Nascida em 1954, Maria Teresa não é ligada nas novas tecnologias e não tem nem celular. Ela também escreve romances, poesia e peças de teatro.

"Não vejo muitas diferenças em escrever para criança e para adultos. Nem encontro qualquer obstáculo em mudar de gênero. São exemplos da mesma experiência desdobrando-se em histórias que são únicas. É a história que começo a escrever que decide sua própria audiência e eu a sigo, humilde.”

Em abril, durante o 14º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio, a editora Global lançou - com a presença da autora - o primeiro livro de María Teresa no Brasil: A Menina, o Coração e a Casa, com tradução de Marina Colasanti.

“A nossa literatura provém, talvez mais que a de outros países, de um amplo leque de diversas procedências que se torna visível a partir dos anos cinquenta, quando começam a circular escritores pertencentes aos estratos médios, muitos deles das províncias, que não se dedicam em tempo integral a seus escritos porque têm que trabalhar em outras atividades para viver, o que constitui o coração de nossa diversidade literária e de sua consequente riqueza.”


MUITO MAIS QUE UMA EDITORA:

ELOISA CARTONERA

 Se você for a Buenos Aires visite o número 666 da Calle Aristóbulo del Valle, na “república” da Boca, pertinho da Bombonera. Ali funciona a Eliosa Cartonera, uma simpaticísima editora de livros. Mas a Eloisa Cartonera não é uma editora comum. Em primeiro lugar, é uma cooperativa. Além disso todos os seus livros – sim, todos – são feitos com capas de papelão. E todo o palelão usado nas capas – sim, todo – é comprado dos Cartoneros, que são os catadores de papelão das ruas de Buenos Aires e que acabaram batizando a editora com sua profissão. As capas de cada edição são pintadas uma a uma e os livros impressos numa Multilit 1250 ali mesmo na sala da editora. Na vidraça da loja onde funciona a Eloisa está escrito “mucho más que libros!” E todo o processo de feitura das obras e gestão da editora está traduzido nesta frase-slogan. No grande grupo à frente deste projeto estão, entre outros, Washington Cucurto, Javier Barilaro, Fernanda Laguna, Julián González, Ricardo Piña e Cristian de Nápoli.

Eloisa Cartonera começou no ano de 2003, em plena crise argentina. O primeiro livro saiu em junho desse ano, chamava-se Pendejo, trazia poemas de Gabriela Bejerman e atualmente a editora já publicou mais de 200 títulos. Todos os textos têm sua publicação autorizada pelos autores e são vendidos a preços populares na sede da editora, pelas ruas de Buenos Aires, em algumas (das inúmeras) livrarias argentinas e em eventos literários, como feiras e bienais. O catálogo tem basicamente obras de escritores latino-americanos e reúne nomes consagrados como Ricardo Piglia, Cesar Aira, Néstor Perlongher, Alan Pauls e os brasileiros Manoel de Barros, Haroldo de Campos, Glauco Mattoso, Jorge Mautner, Antonio Miranda, uma edição bilíngue de poesia dos anos 70, além de literatura infantil e muita gente nova que estreia na literatura pelas mãos de Eloisa. A ideia que move esse projeto rendeu muitos frutos e outras editoras com a mesma filosofia foram surgindo pela América, formando uma rede de “Cartoneras”, que inclui a Yerba Mala Cartonera, da Bolívia, a Sarita Cartonera, do Peru, a Lupita Cartonera, do México, a Animita Cartonera, do Chile, a Dulcinéia Catadora, de São Paulo e a mais recente de todas, a Rubra Cartoneira Editorial, do Paraná. Sua editora-geral – Beatriz Bajo – promete nos primeiros lançamentos livros de Chico César, Karen Debértolis, Beatriz Bajo, Marcelo Ariel e Reynaldo Bessa.

A editora sonha em comprar uma sede própria e seguir publicando a literatura das Américas sempre realizando um trabalho comunitário e de auto-gestão, sempre sendo “mucho más que libros!”

No site da Eloisa Cartonera pode-se encontrar mais informações sobre todas as “editoras-cartoneras”, o catálogo completo da editora, o caminho das pedras para fazer pedidos de livros e tudo sobre sua história e seu funcionamento.

Contatos:
Eloísa Cartonera


Rubra Cartoneira Editorial
Site: http://rubra-c-editorial.blogspot.com/


“De los diversos instrumentos inventados por el hombre, el más asombroso es el libro; todos los demás son extensiones de su cuerpo… Sólo el libro es una extensión de la imaginación y la memoria”.
 
Jorge Luis Borges

“O tango é a única dança popular ‘introvertida’, ao contrário de todas as danças populares, que são extrovertidas. O tango é triste, é dramático, exprime muito bem o traço essencial do homem rio-platense: sua frustração, sua nostalgia, seu espírito introspectivo, seu desencontro, seu rancor e seu descontentamento.”

Ernesto Sábato
 

“O escorpião crava em si o próprio ferrão, cansado de ser escorpião, mas necessitado de sua escorpianidade para deixar de ser um escorpião.”

Julio Cortázar

 
                                                   Meu e mail: cesarcar@uninet.com.br

 
                                    


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

TERRAS QUE INVENTEI

ESSA TERRA ME ESCREVE: ANTÔNIO TORRES

Antonio Torres é autor de grandes livros. Um Cão Uivando Pra Lua, Meu Querido Canibal, Balada da Infância Perdida... Mas possivelmente seu livro mais marcante, com muitas traduções e talvez o que mais venda, é o romance Essa Terra.
Há alguns textos que nos marcam. Nunca me esqueço da primeira vez que li A Metamorfose, de Lobato na infância, da Carta às Icamiabas, em Macunaíma, e tantos outros. Dentre essas experiências, trago a leitura do primeiro capítulo de Essa Terra. No livro, são quatro páginas e meia. E eu nunca me esqueci da beleza árida daquele texto e da porrada que a gente, leitor, leva, no final.
No começo de janeiro, assisti a duas palestras sobre escrever romances na Estação das Letras, no Rio de Janeiro. Um dos palestrantes era Antônio Torres, que falou sobre sua obra e seu ofício de escritor e romancista, a importância do ritmo em seu escrever e várias outras coisas. E ouvindo Torres falar, com uma força semelhante à de seu texto, eu me lembrei de trazer aqui para o PATAVINA’S essas páginas iniciais de Essa Terra.

1

     - Se estiver vivo um dia ele aparece, foi o que eu sempre disse.
     - O que foi que o senhor disse?
     Naquela hora eu podia fazer uma linha reta da minha cabeça até o sol e, como um macaco numa corda, subir por ela até Deus – eu, que nunca tinha precisado saber as horas.
     Era meio-dia e eu sabia que era meio-dia simplesmente porque ia pisando numa sombra do tamanho do meu chapéu, o único sinal de vida na velha praça de sempre, onde ninguém metia a cabeça para não queimar o juízo. Loucos ali só eu e o matuto com seu cavalo suado, que surgiu como uma aparição dentro de uma nuvem de poeira, para deter a minha aventura debaixo da caldeira de Nosso Senhor.
     - Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio?
      - O senhor estava com a razão.
     - Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue.
     - Não se esqueceu, não, tio – respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta do meu irmão parecia ter muito mais significado do que quando o dr. Dantas Junior veio anunciar que havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado federal bem votado. Foi um dia muito bonito, tão bonito quanto os dias de eleição, embora sem as arruaças, as cervejas e as comidas dos dias de eleição, porque tudo aconteceu de repente, sem aviso prévio. O deputado subiu no palanque feito às pressas em frente do mercado, ergueu seu paletó empoeirado sobre todos nós e disse que o Junco agora era uma cidade, leal e hospitaleira. Agora podíamos mandar no nosso próprio destino, sem ter que dar satisfações ao município de Inhambupe – e foi justamente essa parte do discurso que o povo mais gostou. E no entanto esse dia já está se apagando da nossa lembrança, apesar de nada mais ter acontecido daí por diante.
     Quem não mudou em nada mesmo foi um lugarejo de sopapo, caibro, telha e cal, mas a questão agora é saber se meu irmão ainda se lembra de cada parente que deixou nessas brenhas, um a um, ele que, não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e caiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com seus dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus ray-bans, seu rádio de pilha – faladorzinho como um corno – e um relógio que brilha mais do que a luz do dia. Um monumento em carne e osso. O exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens - e eu, que nem havia nascido quando ele foi embora, ia ver se acordava o grande homem de duas décadas de sono, porque o grande homem parecia ter voltado apenas para dormir. Levanta, cachorro velho, antes que os morcegos te comam. Acorda, ante que a alma penada do teu tão saudoso avô queira um relatório completo da tua viagem. Anda depressa, que ele está saindo da cova para vir dar um tapa nas tuas costas: - Caboco setenta. Tu vale por setenta deste lugar. – Por que, Padrinho? – Porque tu já conhece quatro estados do mundo, não é, meu fio?
     Eu estava louco para tomar um banho no tanque velho (lá mesmo, onde todos nós vamos morrer afogados) e queria que o meu irmão fosse comigo e estava pensando em arranjar uma jega, a mais fogosa que houvesse, para o famoso Nelo matar a saudade de um velho amor.
     - Diga a ele que ele nasceu ali – meu tio apontou para o lado do curral da matança. – Diga também que eu carreguei ele no meu ombro.
     - Nelo se lembra de tudo e de todos, tio. Nunca vi memória tão boa – insisti -, para não deixar a menor dúvida em seu espírito. E só então ele haveria de permitir que eu continuasse a minha caminhada.
     - Fico muito satisfeito – meu tio sorriu, no seu jeito encabulado de homem sério, e o cavalo me cobriu com outra nuvem.
     A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo.
     - Nelo – gritei da calçada. – Vem me ensinar como se flutua em cima de um tronco de mulungu. Me disseram que você já foi bom nisso.
     Não ouvi o que ele respondeu, quer dizer, não houve resposta. Não houve e houve. Na roça me falavam de um pássaro mal-assombrado, que vinha perturbar uma moça, toda vez que ela saía ao terreiro, a qualquer hora da noite. Podia ter sido o meu irmão quem acabava de piar no meu ouvido, pelo bico daquele pássaro noturno e invisível, no qual eu nunca acreditei. Atordoado, me apressei e bati na porta e bastou uma única batida para que ela se abrisse – e para que eu fosse o primeiro a ver o pescoço do meu irmão pendurado na corda, no armador da rede.
     - Deixa disso, Nelo – bati com a mão aberta no lado esquerdo do seu rosto e devo ter batido com alguma força, porque sua cabeça virou e caiu para a direita. – Deixa disso, pelo amor de Deus – tornei a dizer, batendo na outra face, e ele se virou de novo e caiu para o outro lado.
     Pronto.
     Eu nunca mais iria querer subir por uma corda até Deus.


(Primeiro capítulo do romance Essa Terra, de Antônio Torres. Editora Record.)

RINHA DE GALINHA

Por Don King
nosso correspondente na Academia Brasileira de Letras e Artes Marciais

Waaal! A poesia é o Ultimate Fight da literatura. E pra mais um duelo do século ( e de quantos séculos precisamos, óh, Cronos!), encaram-se no ringue do PATAVINA’S a Rocha de Itabira, Carlos Drummond de Andrade, o homem que é uma pedra no meio do caminho de seus adversários, e a Navalha Desoriental de Curitiba, Alice Ruiz, a Bela e a Fera numa só mulher... E o pau come na casa de Noca, holly shit!

JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética, Editora Record.


DRUMUNDANA

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora Maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

Alice Ruiz, em Dois em Um (Prêmio Jabuti de Poesia), Editora Iluminuras.


FLAFLUS DA LITERATURA

VIVA BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS
E SUA LITERATURA!

 
A obra de Bartolomeu Campos de Queirós já é um clássico na literatura brasileira. Bartolomeu tem o poder de encantar gente de tudo que é idade com sua prosa poética. Escritor e educador, ele nasceu em Papagaio, Minas Gerais, em 1944, publicou mais de 50 livros e é um dos criadores do Movimento Por Um Brasil Literário (http://www.brasilliterario.org.br/), que luta para transformar o acesso ao livro num direito de todos os brasileiros. Bartolomeu foi um autor premiadíssimo, mas na verdade ele é que sempre nos premiou. Querem ver?

Eu vi, um dia, o mar, no lugar onde ele está. Pisei manso sobre as águas para não quebrar o espelho. Provei seu gosto de sal – definitivo batismo. Reparei suas areias lavadas, e a paixão me falou: há mais azul depois do mar. E o meu mar de mentira sempre foi maior que o mar de firmes verdades.

Sempre vou ser um desejo, se vivo ausente do mar. Não chega a ser marinheiro quem nasce longe de lá. As águas são muito abertas para quem, por sobre veredas, aprendeu a caminhar.

Nascendo sobre um mar de montanhas, não se chega a navegar.

(Trecho final do livro AH!Mar, RHJ Editora.)

A casa ficou maior e cheia de silêncio. Tudo parecia se esforçar para não acordar quem deveria dormir por toda a vida. O vazio ocupou, tanto, o quarto de minha mãe que meu pai dormia na beiradinha da cama, como se empurrado pelo novo morador. E o vazio não nos deixava tocar em nada. Tudo – santo na parede, latas de talco, vidros de perfume, caixinhas de desmazelos, imagem na beira da cabeceira – tudo ficava no mesmo lugar por exigência do vazio. No nada cabe tudo. Até a poeira marcava a retirada de qualquer pertence.

Eu atravessava a casa passando pelo corredor e me assentava debaixo da mangueira. A sombra das folhas bordava no chão um véu sobre a terra. Só as formigas continuavam, em procissão, carregando nas costas a comida, em caso de algum imprevisto. O arrependimento de ter comido coração fez arrepiar meu corpo inteiro.

(Trecho final do livro LER, ESCREVER E FAZER CONTA DE CABEÇA, Prêmio Hors-Concours FNLIJ – 1996 e Prêmio Monteiro Lobato Brazilian Book Magazine/FBN – 1997. Global Editora.)

Meu avô não deixou herança a não ser sua história. Sobraram os ternos de linho engomados no guarda-roupa, a mala com as pílulas, a cadeira de balanço embalando todo o silêncio do mundo. Mas para mim, depois de passar de mão em mão, restou seu olho de vidro, agora sobre minha mesa, dormindo num pires. E sempre que passo diante dele repito: olho de vidro não chora. Olho de vidro brilha por não ver. Nunca vou saber o que o olho de vidro do meu avô não viu.

(Trecho final de O OLHO DE VIDRO DO MEU AVÔ, Prêmio Altamente Recomendável FNLIJ – 2004, Prêmio O Melhor Para O Jovem, “Hors Concours”, FNLIJ 2004, Prêmio Nestlê de Literatura 2005, Prêmio Jabuti 2005. Editora Moderna.)

Dois. Desconheço o depois de minha despedida. Não se caminha sobre a sombra ao entardecer. Ignoro se o remorso nos preservava em suas memórias, ou se a paixão lhes presenteou com o esquecimento. A culpa é relativa ao tamanho da memória. Esquecer é desexistir, é não ter havido. Ao me interrogar se tomate ainda há, não me fecho em silêncio. Confirmo que minha primeira leitura se deu a partir de um recado rabiscado pela faca no ar cortando em fatias o vermelho.

(Trecho final de VERMELHO AMARGO, Editora Cosac Naify.)  



AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO

a oficina de literatura do cesar cardoso

EM ALGUM LUGAR
DO PACÍFICO SUL


Roberto Robalinho é diretor, montador e roteirista. E agora experimenta a literatura pura e simples, sem ser um texto preparado para virar cinema. Seu conto EM ALGUM LUGAR DO PACÍFICO SUL está na coletânea A POLÊMICA VIDA DO AMOR, publicada pela Editora Oito e Meio, onde também está o editor-imperador-e-cacique deste blog, Cesar Cardoso. No Rio, o livro pode ser encontrado na loja da editora, que fica na Travessa dos Tamoios 32, loja, C, e na Livraria da Travessa. Em São Paulo, na Livraria Cultura. E na realidade virtual, nos sites da editora (www.oitoemeio.com.br) e das livrarias Travessa e Cultura. Além de Roberto e Cesar, A Polêmica Vida do Amor traz mais 18 contistas escrevendo sobre o tema-título.

“Adorei o livro. Do primeiro ao último autor. Maravilha! Que beleza de surpresa quando um livro nos pega pela rabeira, nos joga na parede, no teto.”
Marcelino Freire.

A navalha entre os dedos ardia dentro do peito.

     Todo ano na ilha de Pentecostes, em algum lugar do Pacífico Sul, jovens se lançam ao abismo para se tornarem homens

     O fio da navalha era o fio do corpo a se movimentar trôpego pelas ruas.

     se lançam ao abismo na esperança de se tornarem homens. Vivem na pele a dor de se jogar em busca de um amor, como suicidas apaixonados. Em cada salto, a lembrança da matéria de que são feitos. A carne e o osso pesando sobre os ombros, puxando para o chão. E a história de tempos imemoriais de um homem traído que perseguiu sua mulher até o cume de uma montanha

     A navalha pulsa como veias, como se seu coração de metal também gritasse.

     até o cume de uma montanha um homem perseguiu seu amor e seu ódio e lá se atirou do penhasco atrás da mulher que viu se atirar. Os dois corpos em queda livre como os cacos da implosão de um edifício. O balé sobrevoando os ventos, será possível voar para longe de suas existências e abandonar o corpo, cárcere deste mundo a puxar para baixo com todas as forças?

     O chacoalhar da lâmina no bolso, o tilintar dos ossos em cada passo sobre os degraus do hotel imundo. Pé ante pé erguendo o peso de estar vivo, um saco de pedras no peito.

    por um minuto é possível imaginar as almas a largarem os corpos que insistem na queda, insistem em encontrar o chão duro e inevitável. E enquanto durar o voo poderão bailar como se amassem apesar de tudo, como se fosse possível seguir pela vida flutuando sem tocar os pés no chão, sem precisarem de corpo, invólucros a mediar os amores, a doce ardência que nos amarra no mundo. E nessa existência de pássaro, despossuídos de si, nus de tudo, são entrelaçados num gozo profundo de quem ama incondicionalmente para enfrentar a eternidade

    A lâmina embaçada pelo ar denso do corredor impede a visão do rosto refletido, mesmo que não caiba um rosto inteiro na magreza da lâmina. E se, por ventura, surgir um pedaço de rosto, que seja um olho ou uma orelha, não se consegue distinguir as feições irreconhecíveis de quem já se perdeu de si e se esmigalhou em pedaços – quantas lâminas e quantos pedaços seriam necessários para poder mais uma vez juntar num só rosto?

    a breve eternidade de quem acredita poder se despir de si em queda livre. O gozo profundo que torna breve o infinito dos amantes que se jogam no abismo. E lá se foram, montanha abaixo, os corpos dos dois amantes, em medo e em fúria, ambos amando a sua maneira suicida. No entanto, havia algo que o homem não sabia, havia sempre algo que o homem não sabia. Em algum lugar do Pacífico Sul

    o homem não sabia

    Não sabia quantos minutos, horas, dias ficou na frente daquela porta. A navalha afiada atravessa o tempo com punhaladas a conta-gotas, mas não sabe contar, apenas rasga a duração com sua ferocidade de bicho. O bicho a espreita dentro do bolso a esquecer o tempo escutando as batidas do coração – tu tum, tu tum, tu tum, tu tum. Quantas batidas é preciso até que se possa atravessar a porta do desterro?

    o homem nem desconfiava, mas a mulher, antes de se jogar, tinha amarrado os pés a um cipó bastante longo para simular o voo ao chão, curto e elástico o bastante para puxá-la de volta às nuvens no milésimo de segundo antes de seu nariz se esborrachar no solo. Os dois se atiraram do cume da montanha, um e, depois, o outro. O homem na perseguição de seu amor e da sua incompreensão inexorável do feminino. O ventre que o pare e outro que o fere. E enquanto o homem se espatifava contra as pedras, o ser desmembrado tal qual um coração dilacerado, a mulher voava em rodopios para baixo e para cima. Ele quebrado em mil pedaços e ela fazendo piruetas no céu. O defunto e a bailarina

      A porta abria como uma fenda em seu coração, de onde escorria qualquer restolho de homem que ainda o habitava. O átimo de segundo que o separava do corpo nu da mulher amada e ultrajada, que separava a lâmina da navalha e a pele alva, dilatava em toda uma vida a dois, de léu em léu, doendo.

    em algum lugar do Pacífico Sul, jovens se jogam ao léu e relembram um homem que se atirou do precipício atrás da mulher amada. Só abandonam a adolescência se enfrentarem o amor e seus abismos. Só é homem aquele que sente a dor em queda livre por um amor, aquele que aceita por um breve instante o suicídio apaixonado, que acredita algum dia poder voar feito um pássaro

    O amor estendido nu na cama e a eternidade que os separa contada no fio da navalha. O tempo repousa sobre a lâmina afiada feito um faquir. Podia sentir o calor do beijo na roda gigante e a cidade curvada sobre o desejo. Ali suspensos, como se flutuassem sobre todos, fizeram as mais lindas juras de amor. O balanço da gaiola enferrujada embalava os jovens amantes. Poderiam viver para sempre naquele ninho de metal sobrevoando o antigo bairro, os sobrados decrépitos, as velhas enfadonhas, o interminável jogo de sueca, o suor dos operários na volta para casa, as mães arengando com os filhos, a nuvem negra dos ônibus, tudo se desprendia dos pés entrelaçados como uma poeira fina. O amor era um patuá com o qual se enfrentava o mundo e se alçava voos delirantes.

    todos os anos após a época das chuvas torrenciais os jovens se embrenham no mato, como se adentrassem um enorme ventre vegetal. Buscam nos recantos mais secretos da mata e de seus seres o cipó perfeito para alçar o voo ritual e masculino, o voo suicida do qual se espera que saiam renascidos

    O giro da roda na gira desse viver e suas entranhas. O peito estalando dentro da gente. O amor corrói por dentro até que um dia só sobram os ossos. Até que um dia o cadáver deixa de ser vivo e se deita no chão livre de suas angústias. Seria possível viver sem amor? Quem levaria esse corpo sem vida pelo mundo afora? A mulher deitada nua atiçando o velho defunto que o habitava, com curtas navalhadas. A alça do vestido vermelho que insistia em escorregar pelos ombros em cima da roda gigante. Se pudesse viveria apenas com aquele ombro, a pele amarela reluzindo no pôr do sol. E deitou a cabeça no ombro dela como se toda a humanidade deitasse junto, e toda cidade fosse um leito para os amantes adormecidos.

    e dentro do ventre da floresta, já de cipó na mão, os jovens erguem por cima do monturo ancestral imensas plataformas para que do alto possam se jogar. Já não há mais montanhas que suportem amantes desesperados, ruíram sobre os corpos flutuantes. E existem agora apenas nas canções românticas e nas raízes das árvores milenares. Os jovens, às centenas, rasgam um buraco na barriga da mata, como se rasga o bucho de um boi, e erguem o edifício temporário de suas existências. Ali, um salto separa os meninos dos homens. É preciso acreditar no amor e suas profundezas, deixar de existir para vestir outra existência. Vão-se os meninos, pobres bezerrinhos, ficam-se os homens, dos que não se esborracham no chão

    A mão segurando a navalha dormente no bolso. A mulher adormecida e de uma nudez que ardia por dentro. Estar naquele quarto de lâmina afiada era estar em múltiplos lugares. Podia sentir já o fio da navalha penetrando a pele rígida e quente, e ao mesmo tempo sentir as carícias de juras eternas plainando sobre o quarto. Podia também imaginar as outras mãos e outro corpo acariciando a mulher amada, como se a própria navalha o furasse. Esse estar em camadas era como um transe amargo, era um sofrer-estar. Quantas segundas peles, camadas de lugares, é possível um homem vestir sem se implodir em mil pedaços?

    e logo o edifício desengonçado no meio da mata, torso exógeno, está pronto despontando sobre a copa das árvores. E os meninos sobem aos montes para se arremessarem lá de cima. Amarram com cuidado o cipó aos pés como um condenado à forca ao pescoço, deixando um respiro na esperança de se livrarem daquilo. E vão de passos miúdos, apassarinhados, eternizando a caminhada até a beira, até o precipício. E lá do alto, respirando o respirar antigo da floresta, as cabeças cheia de nuvens, os jovens se atiram na profundeza de seus âmagos para se tornarem homens. Se atiram como se atirou um homem atrás de seu amor, mas amarram aos pés cipós como fez a mulher ultrajada. E se lançam não na queda amarga do homem, mas no voo singelo e feminino, bailam como bailarinas no céu. Para serem homens não devem apenas se atirar na paixão, mas ser um pouco mulheres. Os jovens se jogam não como se jogou um homem, mas como se jogou uma mulher em sua paixão de voo livre. Só se é homem quem vive por inteiro uma mulher e assim não se quebra no chão

    E ali, no estilhaço de seu ser, contemplava o amor se equilibrando na ponta da navalha, de um lado a mão dormente e de outro o corpo nu inquietante. Pode o flutuar da pena servir de contrapeso a pedra dolorosa?

    em algum lugar do Pacífico Sul jovens se jogam ao abismo aos montes para se tornarem homens.

    Em algum lugar no pacífico que o separava da mulher que ama, era preciso tornar-se homem.

“NÚNCARAS” – po+es+ia

DOS ANDES AO PATAVINA’S:
A POESIA E A PINTURA DE LEO LOBOS

Leo Lobos nasceu em Santiago do Chile em 1966. É poeta, ensaísta, tradutor e artista visual, com inúmeras publicações de poesia e exposições. Conheci sua poesia nas andanças, não por cordilheiras, mas pelas páginas virtuais dos sites e blogs da internet.

Rapid eye movement (REM) é uma seleção de cinco poemas – acompanhados com pinturas eletrônicas, também de Leo Lobos – escritos nas cidades de Ovalle e San Pedro de Atacama e editados na cidade de La Serena, no Chile, no mês de abril de 2008. A tradução para o português é de Geruza Zelnys de Almeida.

REM (rapid eye movement)


Paisagem - Miragem


Ao escritor britânico Artur C. Clarke in memoriam


As ovelhas que pastam distante são chacais
um trem
estremece a cidade
e os anjos do cemitério choram pó
As palavras são portas que abrem e fecham suas asas
as palavras são múltiplas e contraditórias
e possuem o ritmo do trote de um cavalo na campina
Um dia vem depois de outro dia
e para mim
um dia nunca é um dia qualquer
são estas as responsabilidades do ser
em uma paisagem deserta de humanidade


Sonho tenaz


Ao escritor chileno Roberto Bolaño in memoriam


Um diário descontínuo
que abre e fecha
com uma orquestra que acompanha
poesia
vertiginosa e sincopada
comovedor
romântico
Rimbaud em fuga perpétua
E já sabes como és
Cesaréa disse uma vez
para além do ano 2600
queimando as mãos e os pés
por cada poema
exalado
O que há por detrás?


Paralisia do sonho


“Pequeñas motas de luz etéreas burbujas
diminutas pecas en la lente externa del ojo”

Ray Bradbury


Nunca sinto que sou eu quem faz arte
Não sei de onde vêm minhas idéias
Eu só apareço para o trabalho
E sigo minhas ordens


Rapid eye movement


“No importa cómo se ponga la pintura, mientras que algo sea dicho”

Jackson Pollock


Viveram lendo
Escrevendo
Rezando
Muito além do monólogo interior
Muito além da morte


Temor


“La mejor parte es sentirse vivo pintando y la peor es necesitar hacer pinturas para sentirse vivo”


Geoffrey Lawrence


Reverência emocionada
quando tudo
deixa
de
importar
quando tudo está escuro
quando tudo está perdido
Que a musa te toque com seus
dedos as costas
e te empurre ao caminho
Que a frieza das cidades
que a rosa do nada
que a lama imóvel
que a areia movediça do deserto
não apaguem a tristeza da tinta
que há de alcançar a água
E seja ar movido por lábios
uma
vez
mais

PATAVINinha’s


EM 2011 lancei dois novos livros infantis pela Editora Biruta. O primeiro deles - O QUE É QUE NÃO É? – é um jogo de esconde–esconde entre as imagens e o texto, onde um inocente chafariz pode virar o esguicho de uma baleia. Ilustrado por Cris Alhadeff, o livro trabalha com uma faixa de leitores dos 3 aos 8 anos e foi selecionado para o PNBE – Programa Nacional de Biblioteca da Escola. 


O segundo livro – VOCÊ NÃO VAI ABRIR? – foi ilustrado por Salmo Dansa e propõe um outro jogo. Nas suas páginas, o autor e o próprio livro discutem quem é que realmente conta as histórias. E na briga dos dois quem sai ganhando é o leitor, que se delicia com poesias, contos, notícias e outros textos, sempre com muito humor. VOCÊ NÃO VAI ABRIR? é mais apropriado para leitores dos 7 aos 11 anos.


Os dois livros podem ser encontrados nas livrarias Malasartes, do Museu da República e Travessa (no Rio) e na Cultura, em São Paulo. Ou pelo site da editora Biruta: www.editorabiruta.com.br . E agora um gostinho de um deles: o poema Por que Você Não Dorme, Pixote?, do livro Você Não Vai Abrir?


THE PATAVINA’S PICTURE PRESENTS

Pode botar a pipoca no micro-ondas. Chegou THE PATAVINA’S PICTURE,
o complexo cinematográfico do PATAVINA’S. Inaugurado por Luiz Carlos Barreto,
elogiado por Paulo Francis Ford Coppola e assombrado por Fellini,
nosso megaplexmark traz pra você poesia na beira do Tejo,
o escritor Mia Couto mostrando que fala tão bem quanto escreve,
e o Poeta do Castelo, Manuel Bandeira,
num curta metragem poético e imperdível de Joaquim Pedro de Andrade.
Lembramos ao distinto público que é proibida
a entrada virtual de cachorros e leões da Metro.

Ciclovia do Tejo (Cais do Sodré - Belem). Passeio de bicicleta na margem norte do Tejo ao som de "Cais" do projecto "Os Poetas" de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes. Filmado por Nuno Trindade Lopes. Editado por Abilio Vieira. Poema "O Tejo é mais belo", de Alberto Caeiro, em "Guardador de Rebanhos".

Numa conferência sobre segurança o escritor Mia Couto lê um texto seu, onde começa dizendo que o medo foi um de seus primeiros mestres. A poesia de sua prosa de ficção também está presente nesta fala.  

O Poeta do Castelo é um pequeno e belo documentário de Joaquim Pedro de Andrade, onde vemos o cotidiano simples de Manuel Bandeira envolto em seus versos falados por ele mesmo.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,

Estou na Rua 45, entre a Quinta e a Sexta Avenidas, mais precisamente num sebo chamado Book Off, que além de livros usados em muito bom estado tem dois andares só com cds, dvds, videogames e mangás, tudo em japonês. Sentado na casa de chá da loja, te escrevo para contar uma história.
Kasato Maru é um hábil manipulador de facas, apesar de possuir apenas três dedos na mão esquerda. A história de como perdeu esses dedos está tatuada em suas próprias costas. Se você souber ler essas e as outras tatuagens que tomam conta do corpo de Kasato, vai descobrir que ele nasceu em Osaka, em 1949, entrou para a Yakuza, a temível Máfia japonesa, aos 13 anos, passou 15 anos numa cadeia de Tókio, condenado pela morte de cinco deputados do parlamento japonês, lá perdeu os dois dedos da mão esquerda e se tornou um mestre na arte de manejar facas. Para matar, é claro.
Mas mesmo tomando todo o corpo de Kasato, as tatuagens não contam tudo. Não contam, por exemplo, como Kasato consegue fugir do Japão e sobreviver à perseguição da Yakuza, como vem para São Paulo para construir uma vida nova longe do crime, como acaba se envolvendo com o crime organizado daqui e liderando o tráfico de drogas na favela do Jardim Jangadeiro, no Capão Redondo e, por fim, como encontra o budismo tendai e desaparece no mundo.
Muita gente quer encontrar Kasato Maru, todas com intenções nem um pouco amistosas. Eu, que não o procuro, acabei sendo encontrado por ele. Kasato me mandou por e mail um pouco da sua história, que resumi mais um pouco para o PATAVINA’S. Atualmente ele é monge em algum lugar do planeta e se dedica a meditar, cuidar de uma horta e escrever haicais que, fugindo da tradição dessa poesia, têm como tema a violência, que ele experimentou na carne, sua e dos outros.
Essa é a história, Cesar. E agora os haicais.

Um abraço do

Jean Prévert


olhares cruzados
entre cerveja e ciúme
navalha na carne


no fogo da noite
clarão que dissolve a luz
o corpo crepita


chupeta pulando
solta pipa toma pico
a velha criança


essa casa santa
quanto poder tem jesus
na poça de sangue?


infância de irmãos
perdidos. Até o reencontro
do fogo cruzado


prazer te rever
no cumprimento final
a mão que esquarteja


a bênção meu filho
deus te abençõe meu pai
tiros já perdoados


não há de afogar
a mágoa, a chuva na cara
de quem nem respira


doce filho meu
sangue na faca com faca
ah minha mãezinha